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O Livro e o Jornalista

No documento PORTCOM (páginas 183-186)

“Deixou como herança ao movimento operário os muitos militantes que ajudou a formar e os ensinamentos da palavra e do testemunho”, lê-se num texto de 1987, intitulado “História da ACO”. “Alguém um dia certamente os reunirá em livro, para que continuem a gerar frutos.” Esse alguém não poderia ser outro que o jornalista, professor e doutor Manuel Carlos Chaparro, a quem o Movimento de Trabalhadores Cristãos (MTC), “a ACO de ontem”, agradece em uma das primeiras páginas de Padre Romano: profeta da libertação dos ope- rários:

Mas há alguém que quando a criança [o livro] era apenas um embrião assumiu com garra de pai, de parteiro, de autor, enfim, a responsabilida- de de fazê-la vir à luz, o jornalista Manuel Carlos Chaparro, português de origem, com passagem marcante pelo Recife, nos anos 60, quando conheceu pessoalmente o Pe. Romano e com ele colaborou, por sinal, na produção de escritos que marcaram época no cenário da vida e da luta operária nesta cidade.

Padre Romano: profeta da libertação operária é diferente das outras obras que compõem a bibliografia assinada por Manuel Carlos Chaparro. Trata-se de um livro-reportagem. Feito no capricho. Nele se aliam a paixão pelo jornalismo, o relato humano e a responsabilidade ética e cidadã. O texto bem escrito, o trabalho sério com as fontes, os depoimentos recolhidos no Brasil e na Suíça,

as cartas. Histórias tão simples e saborosas, absolutamente humanas, como a do “pé-de-boi”. É o próprio Padre Romano quem narra, no espaço aberto pela mediação jornalística:

Um outro acontecimento importante foi a minha separação do jipe azul. Ele foi um companheiro de grande valor, fiel, através dos buracos de nos- sas estradas e da lama de nossas ruas. Mas tornou-se extremamente caro devido ao alto consumo de gasolina, cujo preço aumenta sem parar. O jipe azul começava, também, a exigir revisões e consertos, sem resultados satisfatórios. Minhas reservas financeiras foram absorvidas pela compra e reparação da casa da ACO. Por isso decidi-me a encarar o aspecto eco- nômico. Embora sentimentalmente tenha sentido alguma coisa, troquei o jipe por um “pé de boi”. É o nome dado aqui ao VW popular. Ele é de extrema simplicidade. Consultei dirigentes e militantes, para saber qual seria a reação dos trabalhadores. Disseram-me que, a esta altura, eles já me conheciam o suficiente para compreender a compra do automóvel. Decidi-me, pois, pelo “pé de boi”.

O “pé de boi” já encontrou o seu lugar de confiança no meio da equipe. Com ele, será possível andar num bom passo e perseverar, tão longe vá o nosso caminho. Teremos alguns problemas no inverno, na água e na lama. Mas quando o “pé de boi” se recusar, nós nos lembraremos dos “nossos”. Eles são mais teimosos...

O texto traz também, em suas linhas e entrelinhas, a fé do jornalista. A fé cristã moldada na militância em Portugal e nas cidades brasileiras de Natal e Recife, no Movimento de Educação de Base (MEB), nas aproximações distintas com o método Paulo Freire, nos movimentos sociais, na pastoral operária. E também a fé no jornalismo e em seus significados sociais e políticos.

O homem quatro vezes agraciado com o Prêmio Esso de Jornalismo, por exemplo, quando colhe o depoimento do jornalista Roberto Arraes, tão amigo e próximo de Padre Romano nos dias em que tentavam expulsá-lo do Brasil, levanta com leveza e naturalidade a questão que mexe com ele, lá no fundo de sua alma:

– Quer dizer que os jornalistas se tornaram aliados...

– E como – responde o interlocutor. – Em grande parte graças aos jorna- listas, o processo de expulsão de Romano manteve-se na mídia nacional, como assunto relevante, durante o tempo necessário. Diria, até, que a solidariedade dos jornalistas foi surpreendente. Eles se tornaram amigos

e admiradores do padre Romano. Ficaram cativados pelo jeito de ser daquele missionário suíço tão fortemente identificado com a causa ope- rária nordestina e brasileira. Na crise, sob ameaça, Romano cresceu como apóstolo e como ser humano. Os jornalistas descobriram, na plenitude, o Romano humilde e forte, lúcido nas convicções humanistas, fiel à missão que o trouxera ao Brasil.

“Manuel Carlos Chaparro é um Jornalista com J grande, um Pesquisador com P grande, um Docente com D grande, um Brasileiro com B grande, um Português com P grande e, afinal, um Homem com H grande”, escreve Jorge Pedro Sousa, professor associado e pesquisador da Universidade Fernando Pes- soa, Porto, Portugal.3

Chaparro, doutor em Ciências da Comunicação, professor de Jornalismo da Escola de Comunicações e Artes da USP desde 1984 e aposentado em 2001 como Professor Associado (Livre Docente) da mesma USP, lembra com sauda- des e reconhecimento de sua entrada brasileira pelo Nordeste, nos tempos de Pe. Romano, do jornal A Ordem de Natal, do Jornal do Commercio e do Diário de Pernambuco de Recife, da militância, dos quatro Prêmios Esso que recebeu, de tanta coisa:

Guardo dessa época como lembrança mais acalentada a certeza de que é possível fazer jornalismo comprometido com valores, quaisquer que sejam as condições materiais. Guardo, também, um amor e uma fideli- dade radical ao Nordeste, ao seu povo e à sua cultura. Foi um enorme privilégio ter entrado no Brasil pelo Nordeste e ter conhecido a realidade brasileira pela perspectiva nordestina.4

Foi um privilégio para ele, como foi e continua sendo um privilégio para o Jornalismo e para o Brasil. Quem duvidar, vá atrás de conhecer tudo quanto disse, ensinou e fez Chaparro. Aqui, o espaço é pouco para tanta coisa.

3. Em “Contributos de Manuel Carlos Chaparro ao jornalismo português... e não só”. Re-

vista Pj:Br Jornalismo Brasileiro. Edição 04 – 2º semestre 2004. Disponível em: <http://

www.eca.usp.br/pjbr/arquivos/dossie4_e.htm>. Acesso em 3/10/2013.

4. Depoimento a Antonio Fausto Neto, em “Percursos de reconhecimentos”. Revista

PJ:BR Jornalismo Brasileiro. Edição 04 – 2º semestre 2004. Disponível em: <http://

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