2. O fenómeno Glass Ceiling: conceito, contexto, causa e perspetiva de
2.4 Principais causas do Glass Ceiling
2.4.4 Networking e redes masculinas de ajuda e proteção
Uma outra possível causa para a persistência do fenómeno do Glass Ceiling é a falta de (ou uma menor) rede de contatos, o networking, que as mulheres experienciam em comparação com os homens (ver Ibarra, 2010; Reis, 2000). Segundo Manganelli (2012), citando um estudo de McDonald (2011) que utilizou uma base de dados de mais de 12 mil americanos e concluiu que as oportunidades de arranjar um emprego são maiores quanto maior for a rede de contatos que a pessoa que procura emprego possui. Este facto configura-se como mais um obstáculo para a ascensão profissional das mulheres, pois essa prática de recrutamento informal (através de contatos, indicações) prejudica mais as mulheres que os homens, já que elas possuem uma rede de contatos no âmbito profissional menor do que a deles.
De acordo com esse mesmo estudo, ao considerar a experiência ou a trajetória de trabalhos anteriores, a possibilidade de um homem conseguir emprego através do networking melhora em 12% para cada ano de experiência adquirida. Entretanto, isso não é evidenciado para as mulheres, que não veem as suas oportunidades aumentadas pelas suas experiências profissionais. Ainda, destaca-se que os homens têm por hábito cultivar mais amizades no ambiente de trabalho, desenvolvem mais relações sociais nessa dimensão que as mulheres e isso pode contribuir para que eles sejam alocados em melhores cargos, que são normalmente conquistados através de indicações/nomeações (Ibarra, 2010; Manganelli, 2012; Reis, 2000).
Esse networking masculino mais abrangente, pode estar relacionado com o facto de as mulheres ainda estarem mais fortemente ligadas ao espaço privado, no âmbito doméstico e familiar, e que essas responsabilidades (reprodutivas, de cuidados e de manutenção da casa) ocupam mais o tempo delas que o dos homens. Como tal, eles ficam mais livres para permaneceram no espaço público, fora de casa, onde cultivam mais amizades e contatos sociais (Manganelli, 2012).
Efectivamente, essa divisão assimétrica das tarefas domésticas e a falta de tempo das mulheres para a vida no espaço público é uma realidade em Portugal. De acordo com o recente estudo de Sagnier e Morell (2019), as mulheres portuguesas precisariam que o dia tivesse 29 horas para que conseguissem lidar com o emprego remunerado, os cuidados com a família e as atividades domésticas. Outras informações deste estudo ajudam a entender isso: as mulheres dedicam quase seis horas por dia à realização de trabalho não remunerado (como compras, cuidados com a casa e com filhos e dependentes); das mulheres que vivem com parceiros homens e ambos possuem trabalho remunerado, a distribuição das tarefas domésticas (como lavar a roupa, organizar a vida em família, cozinhar, fazer compras, lavar a louça...) é de 72% para elas e 24% para eles; em relação à partilha dos cuidados e educação dos filhos, as mulheres igualmente se envolvem muito mais que os homens, sendo elas as responsáveis em mais de 70% das vezes em que se tem que levar os filhos ao médico, participar de reuniões da escola, levantar no meio da noite quando os filhos acordam e ajudar na realização dos trabalhos de casa, além de mais de 60% das vezes responsáveis pela alimentação, higiene e transporte e 57% por brincar e levar os filhos a passear.
Este estudo foi realizado em maio de 2018 com 2.428 mulheres entre 18 e 64 anos de idade que residem em Portugal e utilizam a Internet de forma regular. Os autores salientam a imensa representatividade da pesquisa que seria na ordem de 2,7 milhões de mulheres, já que segundo o INE, nesse intervalo de idade, a proporção total de mulheres que utilizam Internet é de 81%. Especificamente às estatísticas destacadas acima, a representatividade também é alta, o que significa que são muitas as mulheres que se encontram na situação de sobre carregamento de trabalho (remunerado ou não). Do total das entrevistadas, 56% vivia com um homem e em 69% dos casais, ambos tinham emprego remunerado e cerca de 60% possuía filhos.
Posto isso, fica mais fácil entender porque é que as mulheres acabam por se dedicar menos à construção de uma rede de contatos que poderia ajudá-las a
posicionarem-se em cargos de alta chefia. Para completar, não é só a falta de um networking que prejudica a ascensão profissional das mulheres, como pode ser observado na análise que se segue.
O estudo de Reis (2000) colabora com essa exploração ao trazer à tona a questão das redes formais e, sobretudo, informais que se criam no contexto das organizações e que restringem a mobilidade das mulheres que pretendem ascender aos cargos de chefia de topo. Essas redes podem se dar no âmbito pessoal e/ou profissional e funcionam estabelecendo ligações de convívio, amizade, lealdade, apoio, contatos, troca de favores, poder ou influência entre as pessoas inseridas num mesmo ambiente organizacional.
A autora salienta as pesquisas elaboradas por um leque de autores que trabalharam a influência das redes formais e informais das organizações. Entretanto, para os objetivos do presente estudo, cabe destacar as redes informais, pois é através dessas que muitas situações do quotidiano organizacional se resolvem, já que conseguem estimular iniciativas muitas vezes mais rápidas do que aquelas articuladas pelas redes formais (Reis, 2000). E é justamente essa articulação informal que resolve problemas e aponta novos planos de ação que, com frequência, também conduzem as pessoas aos cargos mais elevados - e por isso será aqui examinada como uma causa para o fenómeno Glass Ceiling.
Ao aliar a revisão de literatura acerca do tema em entrevistas realizadas com mulheres (e alguns homens) inseridas em agências de viagens no Algarve, Reis (2000) comprova o quanto essas redes trazem desvantagens para as mulheres, por dois principais motivos: 1) elas raramente participam destas redes informais, já que dispendem mais tempo com os afazeres domésticos e de cuidados do que os homens e lhes sobra menos disponibilidade para a vida pública, conforme citado anteriormente; 2) elas criam redes diferentes daquelas que os seus colegas homens estabelecem, as quais se centram mais no apoio pessoal do que no profissional, visto que elas tendem a acreditar mais na organização formal, no seu trabalho e nas suas competências, confiando no seu próprio mérito para ascender profissionalmente.
Logo, as mulheres têm um acesso limitado, ou mesmo negado, às redes masculinas onde comumente circulam maiores recursos e instrumentos (de visibilidade, de passagem de informações e decisões, por exemplo) que colocam os seus integrantes em posições mais vantajosas, de acordo com Reis (2000). A autora ainda afirma que essas
redes recebem a denominação de homofilia (ver Ibarra, 1992; 1993; 2010) e remetem às redes masculinas de entreajuda e protetorado que, além de um vínculo de amizade, têm o potencial de elaborar estratégias, movimentar (seletivamente) pessoas, criar sistemas de tomadas de decisões e atrair a atenção da direção geral da sua organização, entre outras capacidades.
Eagly et al. (2007) enfatizam que, mesmo aquelas mulheres que têm tempo suficiente para se dedicarem à construção do seu networking, podem achar difícil envolver-se e beneficiar da rede informal, se continuarem a ser uma pequena minoria dentro desses ambientes masculinos e/ou masculinizados. Isso porque os homens centram suas redes em atividades nas quais as mulheres não são bem-vindas ou convidadas, como a prática de jogos esportivos, idas à strip clubs, estádios de futebol, entre outros.
Então, as mulheres acabam por se distanciar de vários conhecimentos (formais e informais) cruciais acerca da organização em que estão inseridas, dificultando a realização de alianças que lhes são fundamentais se o que pretendem é a ascensão profissional – o que configura o estabelecimento do “Teto de Vidro” somente para elas.