• Nenhum resultado encontrado

5. Análise, interpretação e apresentação dos resultados da investigação

5.2 Questões de âmbito profissional

5.2.4 Trajetória profissional do Diretor do Museu de Faro

Assim como relatado pelas Diretoras acima, o Diretor do Museu de Faro também disse que havia concluído a sua Licenciatura em História, com ênfase em Património Cultural, e já conseguiu um emprego na área (conforme exposto no início dessa secção, a respeito da crescente criação de Museus Municipais pós 1974 e procura por esses profissionais). Contudo, diferente das Diretoras, não construiu a sua carreira na área museológica no Município onde hoje é Chefe de Divisão. Em 1999, quando finalizou seus estudos, soube que a Câmara Municipal de Tavira estava a recrutar para a área da cultura, enviou seu currículo e foi selecionado. Em 2006, realizou o seu Mestrado em Museologia, cujo tema foi o Museu Municipal de Tavira. Esteve vinculado aos assuntos relacionados com história, cultura e património local deste Município até 2011, quando abriu a vaga para a direção do Museu de Faro e, desde então, exerce a sua chefia.

Sobre o concurso para o atual cargo, relata que havia cerca de dez candidatos a competir para a vaga e atribui a sua seleção à sua formação na área, à sua vasta experiência profissional e também académica, já que é autor de vários artigos e possui publicações em seu nome, e também às ideias que mostrou ter para o Museu de Faro. Disse que a seu favor, já tinha participado em concursos públicos enquanto júri no Município de Tavira,

então sabia como essas coisas funcionam, o que normalmente se pede nas entrevistas. Salienta que conhecia minimamente as pessoas, já que a área da museologia no Algarve é muito restrita, mas praticamente ninguém era da sua rede de contatos e que não tem relação com nenhum partido político.

Relata que o que determinou a saída do seu antigo cargo, foi a falta de motivação para lá estar, pois sentia que estava subaproveitado, ou seja, que tinha muitas capacidades para desenvolver diversos trabalhos, mas que não encontrava espaço para isso. Achava que tinha competência para ir mais longe, mas que estava a exercer um conjunto de tarefas que não o fazia bem. Além disso, já estava há um tempo a acompanhar o trabalho desenvolvido pelo Museu de Faro e considerava que o espaço também não estava a ser utilizado como deveria, dado o seu potencial e a sua importância e representatividade para o Algarve. Salienta que o que procurava era uma oportunidade para crescer, desenvolver seu trabalho, um ambiente onde pudesse criar novas amizades e redes profissionais de contato que pudessem ser-lhe útil no futuro e não necessariamente fazia questão de estar em um cargo de chefia.

Em relação a quem ocupava a vaga no Museu de Faro antes, disse ter sido um homem e que este deixou o ambiente minimamente organizado do ponto de vista administrativo. Entretanto, o Diretor do Museu de Faro adverte que o cargo de Diretor de Museu não é apenas administrativo e técnico, mas também estratégico e visionário daquilo que tem que ser a programação, a ofertas e a agenda cultural do Município, tarefas que tinham ficado de lado pela antiga direção.

Sobre a presença de algum mentor durante a sua trajetória, ele destaca um professor seu, que o introduziu na área dos museus, inspirou e orientou a sua carreira para a museologia. Em relação ao seu networking, pensa que ficou muito tempo na Câmara Municipal de Tavira nas mesmas funções, o que prejudicou a construção de uma rede de contatos profissional. Entretanto, diz nunca ter deixado a academia de lado, e por isso acabou por conhecer muitas pessoas em conferências, palestras e oficinas em que participou.

Quando questionado se sentiu alguma dificuldade/barreira na ascensão ao cargo que hoje ocupa, ele conta que em Tavira deparou com barreiras para sua progressão, principalmente nos últimos anos, porque tinha um Chefe que não delegava funções e castigava quando não podiam trabalhar aos fins de semana, atribuindo-lhe tarefas que não

eram do seu agrado. Já em Faro, sentiu uma certa dificuldade no que diz respeito à integração no seu meio profissional, principalmente por ser uma pessoa “nova” no Museu em questão, nos seus dois ou três primeiros anos de chefia. Havia, na altura, um pequeno grupo de quatro a cinco pessoas que não aceitaram a sua nomeação para o cargo, principalmente liderado pelo último Diretor, que concorreu no mesmo concurso para permanecer no cargo. Relata que hoje, esse grupo é composto por uma pessoa, pois diz ter ganho a confiança do resto, cativado toda a equipa à medida que os resultados do seu trabalho apareceram e o Museu cresceu.

A Divisão de Museus, Arqueologia e Património Cultural de Faro é a única de entre as que estão sendo aqui investigadas, que possui dois Museus sob sua tutela: o Museu Municipal de Faro e o Museu Regional do Algarve. Além disso, tem uma unidade de restauro e conservação sob a sua dependência, uma galeria de arte e uma ermida sob sua responsabilidade, mas o Chefe dessa Divisão diz que tudo isso contempla as funções básicas de um museu. Conta que trabalha diariamente no gabinete do Museu Municipal de Faro, e possui pequenos núcleos de gestão em cada uma dessas instâncias, ou seja, pequenas coordenações locais, todos ocupados por mulheres. Diz delegar funções ao mesmo tempo em que confia no trabalho delas, então é uma chefia que permite a autonomia dos trabalhos descentralizados, mas sob a sua supervisão.

É uma Divisão que está na dependência direta do Presidente da Câmara Municipal de Faro, ocupada atualmente por um homem, a quem o Diretor do Museu de Faro responde. Diz ter “carta branca” para fazer praticamente tudo que deseja fazer, que a Vereação confia em si. Ele procura alinhar seu discurso com o da Câmara Municipal, mas não tem filiação partidária, pois define-se como um técnico historiador museólogo e não como político. Relata, no entanto, que é preciso pressionar constantemente para conseguir o que quer, mas joga, por exemplo, com a boa imagem que o Executivo pode ter se as suas ideias para a área cultural de Faro forem aprovadas.

Sobre a sua relação com os funcionários do Museu, disse que, apesar dos primeiros anos como Diretor terem sido mais difíceis, hoje tem total apoio de toda a sua equipa, composta maioritariamente por mulheres. Procura ser um chefe amigo e familiar, que incentiva a equipa a estudar, publicar artigos e crescer junto com ele. Disse que “não contrata pessoas por serem bonitas, trazerem lábios pintados, mas sim pelo profissionalismo, pelo mérito, pela capacidade, pela disponibilidade, se acrescentam ou

não, e não por mais nada, como usar mini saia, essas coisas para si não contam, tem que se preocupar com isso em casa onde tem uma mulher e duas filhas.”

A respeito das suas principais características enquanto líder do Museu, diz que exerce sua liderança de maneira informal, democrática e plural, com todas as decisões discutidas em grupo, onde se procura o consenso. Ele afirma apostar nas pessoas, incentivando-as a reinventarem-se e irem mais além. Por isso, avalia sua performance como positiva.

Segue o padrão das respostas em relação a não ter sentido nenhum tipo de inferiorização/discriminação por parte dos seus colegas ao longo de toda sua carreira profissional. E, sobre promover a igualdade de género no Museu, diz não haver necessidade, pois são praticamente todas mulheres e considera que compreende as dificuldades da maternidade e sempre que as mães trabalhadoras do Museu precisam de algum tipo de apoio, ele facilita.