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3. Panorama do turismo cultural algarvio com foco nos museus

3.4 A atividade museológica

3.4.2 O atual contexto da museologia portuguesa

Conforme colocado anteriormente, o início deste século é marcado por uma maior profissionalização da atividade museológica no país. A criação da Rede Portuguesa de Museus (RPM) e a aprovação da Lei-Quadro dos Museus Portugueses assinalam uma nova fase caracterizada pela ascensão do setor cultural português em que os museus exercem importante papel.

A RPM, segundo o seu primeiro Boletim, foi criada no ano de 2000 pelo então Instituto Português de Museus (atualmente extinto), partindo da reflexão de que era preciso aproximar as experiências museológicas espalhadas pelo país, cada qual com a sua realidade particular, a fim de criar um espaço para trocas de conhecimentos e articulação à nível nacional. Para tanto, foi proposta uma estrutura metodológica aberta e participativa que pudesse envolver todos os participantes em um objetivo comum: a qualificação dos museus portugueses e a melhoria da sua prestação cultural e social. Por isso, a adesão à RPM é aberta, voluntária e independe do tipo de tutela, da abrangência do seu campo temático, suas coleções e seu âmbito territorial. Além disso, a RPM adota a definição de museu do ICOM e procura guiar-se pelas funções museológicas e papel social por este determinado (RPM, 2001).

De forma mais recente, sob a dependência do DGPC, a RPM conta com 156 museus que integram a sua estrutura, dos mais variados formatos de gestão, tutela, coleções, instalações, atividades educativas e culturais, e de modelos de relação com a comunidade local. Segundo o sítio oficial da Rede12, a organização procura garantir uma oferta de serviços museológicos qualificados no país e contribuir para que os museus atuam enquanto “agentes facilitadores da mudança social e catalisadores do desenvolvimento cultural, económico e social do país”. Destaca ainda outros importantes objetivos: o fomento da articulação entre museus e a valorização formativa dos seus profissionais; a difusão da informação relativa aos museus; a promoção do rigor e do profissionalismo das práticas museológicas e das técnicas museográficas; e o planeamento e a racionalização dos investimentos públicos, decorrentes da aplicação de fundos comunitários.

12Disponível em http://www.patrimoniocultural.gov.pt/pt/museus-e-monumentos/rede-portuguesa/, conforme consta

A atuação institucional da RPM é guiada pela Lei Quadro dos Museus Portugueses nº 47/2004, outro importante marco que define e profissionaliza a política museológica no país. Dentre os seus objetivos, é esta Lei que estabelece os critérios de credenciação dos museus para que estes possam se candidatar à RPM, bem como institui mecanismos de regulação e supervisão da programação, criação e transformação de museus, e ainda estabelece os direitos e deveres das pessoas coletivas públicas e privadas de que dependem museus.

A Lei é extensa e para os fins deste trabalho cabe apenas ressaltar alguns pontos importantes. Por exemplo, segundo o Artigo 2º que rege os princípios da política museológica, sublinha-se: o princípio do primado da pessoa, através da afirmação dos museus como instituições indispensáveis para o seu desenvolvimento integral e a concretização dos seus direitos fundamentais; e o princípio de descentralização, através da valorização dos museus municipais e do respectivo papel no acesso à cultura, aumentando e diversificando a frequência e a participação dos públicos e promovendo a correção de assimetrias neste domínio. Estes são fundamentos que vão ao encontro do que foi discutido anteriormente sobre a importante relação dos museus, enquanto eixo central da oferta de turismo cultural, para o desenvolvimento local orientado para as pessoas, e, portanto, mostra um alinhamento da Lei com instituições de referência na área como a UNESCO, ONU e a OMT.

Também é possível perceber um posicionamento da Lei em semelhança aos princípios do ICOM, de acordo com o Artigo 7º que define as funções do museu nos seguintes eixos estruturantes: estudo e investigação; incorporação; inventário e documentação; conservação; segurança; interpretação e exposição; e educação.

Particularmente relevante para o presente estudo, destaca-se o Artigo 44º sobre a Direção em que consta que todo museu deve ter um diretor, que o representa tecnicamente, sem prejuízo dos poderes da entidade pública ou privada de que o museu dependa. Além disso, compete especialmente ao diretor do museu dirigir os serviços, assegurar o cumprimento das funções museológicas, propor e coordenar a execução do plano anual de atividades – em conformidade com o Decreto-Lei n.º 78/2019 exposto acima.

Ainda, em relação à estrutura orgânica dos museus, segundo os Artigos 52º e 53º, todo o museu deve ter um regulamento interno, o qual deve contemplar as seguintes

matérias: vocação do museu; enquadramento orgânico; funções museológicas; horário e regime de acesso público; e gestão de recursos humanos e financeiros. Para que possam integrar a RPM, os museus devem, além de cumprir com os Artigos acima, garantir o acesso ao público, possuir pessoal qualificado, instalações adequadas para o cumprimento das funções museológicas - ou seja, devem estar de acordo com o previsto nos Artigos 8º, 43º, 44º, 51º, 54º e 62º da Lei Quadro dos Museus Portugueses. Todos os museus que são alvo da presente investigação são credenciados à RPM e, portanto, cumprem com esses requisitos.

Por fim, cabe sublinhar os efeitos desta credenciação para os museus que, de acordo com o Artigo 120º, garantem: a passagem de documento comprovativo dessa qualidade; a utilização de um logótipo da Rede; a divulgação do museu; e o acesso aos demais direitos. Ademais, segundo o Artigo 127º, os museus credenciados podem ser beneficiados por programas nacionais ou internacionais, nomeadamente por apoios financeiros e de qualificação.

Alguns anos após a aprovação da Lei Quadro dos Museus Portugueses, uma avaliação do cumprimento (ou não) da mesma pode ser encontrada na mais recente edição do Boletim da RPM. O artigo do ICOM Portugal (2019) elabora algumas críticas construtivas, dentre as quais optou-se por sublinhar, por exemplo, a questão do incumprimento do Artigo 107° da referida Lei, que diz respeito aos “Núcleos de Apoio”. O artigo destaca que a Lei prevê que o Conselho de Museus deveria pronunciar os critérios orientadores para a instalação desses núcleos de apoio, o que até o momento não foi feito. O resultado disso reflete numa situação que impede o avanço de um dos objetivos chave da Lei, qual seja, a qualificação da oferta museológica no país. Isso porque fica pendente 1) a consulta da situação das reais capacidades e necessidades dos museus, 2) a reflexão estratégica do perfil dos museus para auxiliá-los nas possíveis dificuldades e 3) a definição das formas de atuação e financiamento dos Núcleos de Apoio (ICOM Portugal, 2019).

Destaca-se também a análise das funções atribuídas à DGPC que poderiam ser compartilhadas e descentralizadas. Segundo o ICOM Portugal (2019), o formato de uma Direção Geral centraliza muitas atribuições em um só órgão e isso acaba por dificultar a participação da comunidade cultural e local na gestão dos museus municipais, por exemplo. Como sugestão para contornar essa questão, o artigo propõe que a DGPC se subdivida em pelo menos dois organismos internos: um com funções mais técnicas e

legais e outro com funções de apoio direto à gestão dos museus, palácios e monumentos nacionais. Uma outra ideia é que a gestão de todos os museus e monumentos não classificados como nacionais seja transferida para a competência das regiões ou autarquias em que se inserem. E ainda, recomenda-se a criação de um Conselho Estratégico ligado à DGPC, que cuide especificamente de observar e diagnosticar a evolução das questões ligadas aos museus e patrimónios, de forma a definir medidas e programas concretos de ação (ICOM Portugal, 2019).

Já em relação à RPM, o artigo também aponta algumas críticas. Julgou-se relevante salientar aqui apenas a ideia do credenciamento não apenas de museus, mas de redes de museus para a composição orgânica da RPM. Para tanto, seria necessária uma reformulação dos conceitos e tipologias de enquadramentos jurídico-legais que caracterizam atualmente a RPM, para que outras redes temáticas ou geográficas pudessem compor e somar esforços na articulação em rede, apoiando-se mutuamente e incorporando outras realidades museológicas através de trocas de complementarieda de profissional, o que representam a filosofia primordial do conceito de rede (ICOM Portugal, 2019). Um dos exemplos de rede geográfica elucidada no artigo é a Rede de Museus do Algarve, cuja análise será feita na sequência.