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2 O ESTADO DO CONHECIMENTO E AS ESCOLHAS METODOLÓGICAS DA

3.3 Nomenclatura dos projetos e suas definições

As Orquestras de Metais Lyra Tatuí e Lyra Bragança apresentam uma estrutura com instrumentos de metal (trompetes, trompas, trombones, eufônios e tubas) e percussão (tambores, surdos, pratos, dentre outros). Para as pessoas, em geral, nem sempre é fácil determinar por qual nome esse tipo de grupo deve ser chamado. Para o senso comum do grande público, grupo, fanfarra, banda, conjunto e terminologias similares são sinônimos e possibilidades de identificação. A definição e nomenclatura de grupos musicais se dá pela composição instrumental e características apresentadas pelos grupos. Nesse cenário, alguns esclarecimentos se tornam importantes para a definição dos grupos pesquisados, considerando algumas divergências quanto a essas definições.

Segundo o Regulamento 2019 da Confederação Nacional de Bandas e Fanfarras – CNBF, os grupos que possuem a instrumentação acima apresentada, com instrumentos de metal e percussão são definidas como Banda Marcial (CNBF, 2019, p. 5). Frungillo (2003) também apresenta a banda marcial como“[...] conjunto de instrumentos de ‘sopro de metal’ e “percussão” que se apresenta em desfiles comemorativos marchando nas ruas das cidades ou em locais específicos como ‘coretos’ construídos em praças e guarnições militares”. No entanto, o Dicionário Grove9 define banda marcial como sendo “destinada para desfile (marching band), que se originou nos Estados Unidos, compõe-se de instrumentos de sopros de madeira e metais, uma grande seção de percussão, balizas, porta-bandeiras e etc” (SADIE, 1994, p. 71). Dessa forma, o Dicionário Grove apresenta a inclusão do naipe das madeiras na formação da banda marcial, o que não é comum no Brasil. Esclarecendo melhor essa situação, Silva (2012) apresenta que:

[...] em relação ao instrumental no ambiente da banda marcial americana, atualmente existe a presença dos instrumentos de madeira em sua organização, diferentemente da banda marcial brasileira, que ainda mantém a tradição de compor suas bandas apenas com percussão e instrumentos de metais, apesar de ter havido desenvolvimento nos metais, com a substituição das cornetas pelos trompetes. (SILVA, 2012, p. 50)

Nesse sentido, percebemos que mesmo com toda a tradição das bandas, ainda existem algumas divergências em relação ao trabalho desenvolvido nos Estados Unidos e no Brasil. A

marching band americana, como visto, se diferencia da banda marcial brasileira pela inclusão

do naipe das madeiras em sua instrumentação. A CNBF (2019) define como banda musical de marcha, o grupo com instrumentos de madeira, metais e percussão. Nos Estados Unidos, grupos formados exclusivamente por instrumentos de metais e percussão são denominados por

Drum Corps. No Brasil, essa denominação Drum Corp ou Banda Show já está inserida nos

campeonatos de bandas e fanfarras, sendo também formadas por instrumentos de metal e percussão, diferindo-se da banda marcial pela exigência de interagir durante sua performance com um grupo coreográfico (CNBF, 2019, p. 6).

Ao longo do tempo percebemos nas bandas marciais algumas alterações na instrumentação, vestimenta, dentre outros aspectos, devido a um processo de “americanização” das práticas e formações instrumentais utilizadas, o que acarreta em certa dificuldade para uma padronização e definição desses grupos. Outra questão importante a se considerar, é que algumas definições não dão conta de apresentar a diversidade de atividades desenvolvidas em um país do tamanho do Brasil. Por exemplo, o que a CNBF (2019) em São Paulo, considera como banda musical de marcha, no Ceará são chamadas de banda de música, no Rio Grande do Norte de bandas filarmônicas, dentre outras nomenclaturas regionais.

Alves da Silva (2018) afirma que:

Em relação a banda marcial, a maior característica é a apresentação em deslocamento. Essa característica não impede que ela realize apresentações com os integrantes em pé, sem se deslocar [...] e normalmente dão grande importância a aparência visual com valorização dos uniformes (fardamentos) e da postura de seus integrantes (ALVES DA SILVA, 2018, p. 11).

Na intenção de situar o público, Adalto Soares idealizador da Lyra Tatuí, afirma tendo como referência a tradicional valorização das orquestras que:

Por desconhecimento, muitos se referiam ao grupo como “Banda Lyra Tatuí”; outros, como “Orquestra Lyra Tatuí”. Com o intuito de diminuir a redundância, mas optando por elevar a autoestima de seus músicos, os dirigentes definiram seu nome como ORQUESTRA DE METAIS LYRA TATUÍ (SOARES, 2018, p. 44).

A partir da definição de Soares (2018) e considerando que a Lyra Tatuí é mais antiga que a Lyra Bragança, Marcus Bonna (2019) afirma em entrevista que seguiu a mesma nomenclatura como forma de homenagear o grupo mais antigo.

Quem não se empolgava quando via a Lyra Tatuí com Adalto? A gente gostou muito do trabalho dele e quando veio para Bragança a gente viu muita molecada na rua, não faziam nada, e aí sentimos vontade de fazer isso. Por isso, o nome Lyra Bragança. É uma homenagem a Lyra Tatuí (MARCUS, 2019)10.

A partir das afirmações acima, o objetivo desta pesquisa não é analisar o mérito das divergências apresentadas pelas definições, e sim expor ao leitor esses esclarecimentos. De forma geral, perceberemos no próximo capítulo que as características encontradas nas Orquestras de Metais Lyra Tatuí e Lyra Bragança vão de encontro a instrumentação da banda marcial brasileira, ou seja, sem os instrumentos do naipe das madeiras.

10 Entrevista cedida por Bonna, MARCUS. Entrevista II. [fev. de 2019] Entrevistador: Bruno Caminha Farias. Bragança Paulista – SP. Entrevista II – Marcus Bonna.mp3 (69 min.).

4 AS ORQUESTRAS DE METAIS LYRA TATUÍ E LYRA BRAGANÇA

Neste Capítulo apresento os principais dados coletados referentes aos projetos analisados por esta pesquisa. Serão apresentadas informações obtidas nas entrevistas semiestruturadas realizadas com Adalto Soares da Orquestra de Metais Lyra Tatuí e com Marcus Bonna, Kathia Bonna, Luis Custódio e Tiago Lattanzi da Orquestra de Metais Lyra Bragança, juntamente de materiais bibliográficos já publicados sobre os grupos. Os dados serão apresentados de forma conjunta, divididos em assuntos que se destacaram na revisão de bibliografia e nas entrevistas.