• Nenhum resultado encontrado

Como disse acima, restaram dois tipos de relatório como únicos registros das ações dos agentes do Povoamento. Os relatórios anuais do

Introdução

Ministério, primeiro o de Viação e Obras Públicas até 1909, e daí até 1930 o de Agricultura, Indústria e Comércio; e os relatórios anuais do Serviço

do Povoamento do Solo, dos quais os únicos exemplares disponíveis

vão de 1908 a 1912. Nestes relatórios encontrei três gêneros de textos: aqueles apresentados como produzidos pelo Ministro da Agricultura, que se encontram na introdução do relatório anual do ministério; os assinalados como autoria do diretor do Serviço do Povoamento, que se encontram tanto nas seções intituladas “povoamento” ou “imigração

e colonização” dos relatórios anuais do ministério quanto no corpo

dos relatórios anuais da agência.

Em que pesem a pequena quantidade e as diferenças entre os relatórios anuais tomados em sua singularidade, os três tipos de textos possuem continuidades e semelhanças, que são fruto da sua própria ordem de elaboração. Ao término de cada ano administrativo, os inspetores enviavam relatórios razoavelmente extensos ao próprio diretor do Povoamento. Este, em seguida, agregava aos relatórios recebidos uma introdução sintética e os enviava ao ministro ao qual o Povoamento estava submetido. O ministro, por sua vez, enviava o relatório geral do Ministério ao Presidente da República, em princípios do ano administrativo seguinte, trazendo uma introdução na qual co- mentava as várias agências a ele subordinadas. Seguia-se uma série de seções, sobre cada agência, ou área de atuação, nas quais eram aproximadamente transcritas as introduções sintéticas dos relatórios dos diretores de agências, como o Povoamento.

Essa continuidade não apagava a principal diferença entre os três relatórios: sua destinação final. O do Ministro era endereçado dire- tamente ao Presidente da República e, indiretamente, ao Congresso, e era construído sobre as pressões sempre conflitantes que opunham os objetivos mais gerais de economia da verba do ministério e os projetos de ação estatal relativos às diversas áreas de atuação das agências que o compunham. Os textos traziam, sobretudo, reflexões genéricas sobre a administração e sobre a adequação das ações do ministério a cada uma das duas vertentes. Contudo, as falas de cada ministro vari- avam segundo sua adesão maior a uma das duas pressões, o que podia levar até mesmo a uma posição crítica sobre a existência mesma de determinadas agências e funções, e, às vezes até do próprio Ministério.

Introdução

É importante ressaltar o caráter genérico das exposições mi- nisteriais, se comparadas com as exposições dos diretores do Povo-

amento, dirigidos seja à defesa seja à crítica do ministério e de suas

agências. Expressões como “defesa dos interesses do país” ou “órgão artificialmente dilatado” presentes nos relatórios ministeriais teste- munham a existência de um discurso genérico sobre as ações levadas a cabo por agências como o Povoamento. Em contraste, o discurso dos diretores gerais estava sempre referido àquilo que aparecia como sendo os resultados concretos das ações da agência, tais como o nú- mero de imigrantes localizados, as ações realizadas, a produção dos

núcleos coloniais etc. Em parte, isso se explica pela própria dinâmica

de ocupação dos cargos de ministro, marcados pela rotatividade e pela acomodação política dos interesses em disputa.

O segundo tipo de relatório, o do Diretor do Povoamento, é endereçado ao Ministro. Estes relatórios nunca trazem uma crítica da própria agência, nem dos antecessores no cargo. Ao contrário, eram freqüentemente dedicados a demonstrar a importância da existência desta, por meio da enumeração de suas realizações. Eram repletos de números cujo objetivo era testemunhar a eficácia das ações de atração de imigrantes e dos empreendimentos de colonização.

Da análise dessa documentação é possível extrair algumas ob- servações importantes acerca da direção do Serviço do Povoamento. A primeira é que, ao longo da existência do órgão, sua direção foi ocu- pada por apenas quatro nomes: Joaquim Francisco Gonçalves Jr., de 1907 a 1911; Silvino de Faria, de 1912 a 1913, Manuel Francisco Ferreira Correia, de 1913 a 1914; e Dulphe Pinheiro Machado, de 1915 até 1938. Em primeiro lugar, por trás da rotatividade de ministros (foram 11 entre 1910 e 1930) se revela uma aparente continuidade administra- tiva no Serviço.32 Em segundo lugar, as leituras do material adminis-

trativo indicam que o primeiro e o quarto diretores tiveram um peso maior na direção do Serviço, o que também está relacionado com o tempo em que ocuparam o cargo. O primeiro diretor esteve envolvido na montagem do Povoamento, tendo tomado parte na definição das diretrizes de funcionamento do órgão. Já o quarto, parece ter parti- cipado de determinadas mudanças de rumo no Serviço, sobretudo no sentido do alargamento da sua ação com o intuito de tomar como objeto também os trabalhadores nacionais e os menores desvalidos.

Introdução

O terceiro tipo de relatório, o dos inspetores de povoamento, é di- rigido ao diretor do Povoamento e é dedicado, em especial, à descrição das ações de colonização. Neles se encontra uma exposição algo mais detalhada das condições nas quais se desenvolvia, ao longo do ano, as ações de colonização e recepção de imigrantes e as relações com autoridades estaduais, particulares e colonos. Neles não aparecem, contudo, senão de forma velada, as tensões presentes nessas relações.

Um aspecto importante de todos esses relatórios é o