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Notas conclusivas

No documento [download integral] (páginas 109-113)

A resolução do confl ito que opõe o português às línguas nativas de Moçambique passa necessariamente por uma defi nição de uma política linguística que eleve as línguas nativas ao mesmo estatuto do português e se permita a sua utiliza- ção nos negócios formais onde for possível.

Apesar dos grandes desafi os que o processo da globalização coloca à nossa língua comum, a sobrevivência do português não está ameaçada, pelo menos não nos próximos anos, mas há muito que fazer para a manutenção do esta- tuto e importância do português nos países da lusofonia. Contudo, mais que proteger o português, a dignifi cação da lusofonia no momento da globalização signifi ca reconhecer a riqueza cultural que existe nos países que formam a lusofonia. Reconhecer e promover os símbolos mais importantes que formam a essência dos povos que comungam o mesmo passado, signifi ca construir uma unidade (lusofonia) sólida baseada na diversidade (culturas diversas dos países membros da lusofonia). A multiculturalidade da lusofonia é uma rica moeda de troca no mundo cada vez mais globalizado.

Como disse Knopfl i (2000), somos uma língua em expansão. Quer na África, quer no continente americano e mesmo na Europa notamos um redobrado inte- resse pela sua aprendizagem como segunda língua. Quem tem José Saramago e Jorge Amado, quem tem Mia Couto e Pepetela, quem tem Milton Nascimento e Gilberto Gil, quem tem Cesária Évora e Madredeus, quem tem Walter Salles e Manoel de Oliveira já conquistou certamente um sólido espaço específi co no mercado cultural globalizado.

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Não podemos fugir ao fenómeno da globalização, a melhor defesa face à inva- são da língua da globalização é nos anteciparmos aos seus efeitos – levar a cultura lusófona para o Reino Unido, Estados Unidos da América, Nigéria, Burundi, Singapura e outros cantos do mundo. A aposta na difusão inter- nacional da cultura lusófona, através da massifi cação da produção cultural no nosso espaço de referência, ensino e formação de português deve ser uma estratégia prioritária da lusofonia. Um bom exemplo é o projecto de difusão e sensibilização para a comunicação em português por meio da música brasi- leira, da Prof.ª Regina Helena Pires de Brito, da Universidade Presbiteriana de Mackenzie, que levou a Timor-Leste não só a língua portuguesa mas a cultura brasileira para a promoção e enriquecimento da lusofonia.

Bibliografi a

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Constituição da República (2004), República de Moçambique.

Firmino, G. (2002) A “Questão Linguística” na África Pós-Colonial: O caso do Português e das Línguas Autóctones em Moçambique, Maputo: Promedia.

Gonçalves, P. (1999) Português de Moçambique – Uma Variedade em Formação, Maputo: UEM

Knofl i, F. (2000) ‘Temos que criar condições para ensinar português aos estrangeiros que nos procuram’ in Folha de São Paulo: Folha Opinião.

Instituto Nacional de Estatística (1999) II Recenseamento Geral da População e Habitação – Resultados Defi nitivos, INE, Direcção Nacional de Estatísticas Demográfi cas, Vitais e Sociais, Maputo, Moçambique.

Lull, J. (2000) Media, Communication, Culture – A global approach, New York: Columbia University Press.

Ngunga, A. (2002) Língua Portuguesa e Línguas Moçambicanas: Que relação?, V Congresso Internacional de Ciências da Comunicação dos Países de Língua Ofi cial Portuguesa, Maputo.

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Lusofonia: políticas língüísticas e questões identitárias

Neusa Maria Oliveira Barbosa Bastos

Regina Helena Pires de Brito

Resumo

A partir do Brasil com suas multiplicidades, podemos sentir, neste início de século XXI, a continuidade da presença de uma efervescência cultural em que americanos, europeus, africanos e asiáticos se misturam ao sentimento de nacionalidade do brasileiro na adoção de uma língua prtuguesa, que segue parâmetros impostos por uma política lingüística arrastada desde o quinhen- tismo e determinante de uma unidade lingüística entre Brasil e Portugal, o que provocou o fortalecimento da língua portuguesa em território brasileiro. Nosso objetivo, neste trabalho, é apresentar resultados de pesquisas realizadas no sentido de comparar o sentimento lusófono no Brasil e em Portugal no que tange às representações escritas em que se observarão aspectos lingüístico- culturais. Em foco, estarão compositores portugueses e brasileiros, represen- tativos da segunda metade do século XX, produtores de letras de músicas que dialogam entre si no que concerne às questões formadoras dos sujeitos lusófonos. Nossa análise fundamenta-se nos princípios e procedimentos da Análise do Discurso.

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Minha pátria é minha língua E eu não tenho pátria: tenho mátria Eu quero frátria.

(Caetano Veloso)

Não tenho sentimento nenhum politico ou social. Tenho, porém, num sentido, um alto sentimento patriotico. Minha patria é a lin-

gua portuguesa. Nada me pesaria que invadissem ou tomassem

Portugal, desde que não me incommodassem pessoalmente, Mas odeio, com odio verdadeiro, com o unico ódio que sinto, não quem escreve mal portuguez, não quem não sabe syntaxe, não quem es- creve em orthographia simplifi cada, mas a página mal escripta, como pessoa própria, a syntaxe errada, como gente em que se bata, a orthographia sem ípsilon, como escarro directo que me enoja in- dependentemente de quem o cuspisse.

(Fernando Pessoa)13

Inicialização

Enfocando o Brasil, terra das multiplicidades, podemos sentir, neste início de século XXI, a continuidade da presença de uma efervescência cultural em que americanos, europeus, africanos e asiáticos se misturam ao sentimento de nacionalidade do brasileiro na adoção de uma Língua Portuguesa, que segue parâmetros impostos por uma política lingüística arrastada desde o quinhen- tismo e determinante de uma unidade lingüística entre Brasil e Portugal, o que provocou o fortalecimento da Língua Portuguesa em território brasileiro. Ademais, devemos mencionar a enorme variabilidade existente nos contextos em que se fala a Língua Portuguesa, considerando como Gomes de Matos (2001: 93) que a variação é primordialmente estilística e caracteristicamente identifi cada por meio das designações de variedades coletivas supranacio- nais (a Língua Portuguesa), nacionais (Português do Brasil, de Portugal, de Moçambique, de Timor-Leste, etc.), regionais (Português sulista, minhoto, etc.), locais (Português paulistano, lisboeta, etc.) e todas as outras variantes diatópicas, diastráticas e diafásicas, o que, abarcando todas as manifestações interacionais entre os lusofalantes, aponta para a imensa riqueza plural e para a surpreendente unidade lingüística dessa língua falada por cerca de duzentos milhões de pessoas no mundo.

Assim, a partir das considerações iniciais, podemos afi rmar que, neste tra- balho, nosso objetivo é apresentar resultados de pesquisas realizadas no sentido de comparar o sentimento lusófono no Brasil e em Portugal no que tange às representações escritas em que se observarão questões lingüístico-

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-culturais. Em foco, estarão autores portugueses e brasileiros, representa- tivos da segunda metade do século XX, produtores de letras de músicas que dialogam entre si no que concerne às questões formadoras dos sujeitos lusófonos. Nossa análise fundamenta-se nos princípios e procedimentos da Análise do Discurso.

Selecionamos para as análises as seguintes letras de músicas: Postal dos

Correios de João Monge e João Gil (Anexo 1) e A Carta de Renato Russo

e Erasmo Carlos (Anexo 2). As duas letras pertencem ao gênero do dis- curso estandartizado de uma troca cultural, sócio-política, materializado pela carta, caracterizando relacionamentos pessoais próximos: a primeira expõe um laço de parentesco e a segunda, um laço amoroso. Ambas as car- tas, pertencendo, como dissemos a um gênero do discurso estandartizado de uma troca cultural, sócio-política, materializadas por peças artístico- musicais, caracterizam portugueses e brasileiros em seus habitats, revelando suas maneiras de tratamento em relação ao outro. Quanto aos compositores, tanto os continentais quanto os d’além-mar dedicam-se à música popular: os portugueses voltam-se à música tradicional portuguesa, com canções que pretendem retratar trajetórias coalhadas de simplicidade de moradores de Lisboa e os brasileiros voltam-se a momentos de emoção vividos na segunda metade do século XX, década de 70 e 80, respectivamente, apontando para comportamentos luso-brasileiros cotidianos referentes a sentimentos amoro- sos de família e de namorados.

Considerando o corpus selecionado sufi ciente pela sua signifi cação para a análise em questão, passamos a estabelecer algumas refl exões necessárias para o proposto.

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