3 JUSTIÇA RESTAURATIVA: UM NOVO OLHAR SOBRE O
4.4 A JUSTIÇA RESTAURATIVA NOS DELITOS DE CRIMES DE ABUSO
4.4.2 O abuso sexual intrafamiliar e a necessidade do atendimento em rede
A revitimização é apontada constantemente na literatura como um dos maiores desafios relacionados ao tratamento dispensado pelos órgãos institucionais às crianças e adolescentes, vítimas de abuso sexual. Além do sofrimento causado pelo delito, a vítima é novamente constrangida ao acessar esses órgãos, pois o exercício de suas funções se dá “de forma desarticulada, percorrendo diferentes caminhos para concretizar a defesa dos direitos, proceder à responsabilização e realizar o atendimento” 243.
Sem adentrar nas atribuições dos órgãos externos ao Judiciário, nessa esfera de poder a garantia dos direitos da vítima está apartada do sistema de punição do ofensor
244, fato comprovado pela existência de Varas da Infância e Juventude e de Varas dos
241 YAZBEK, Vania Cury. MEIRELLES, Cristina. Dimensões extrajudiciais da justiça
restaurativa (dimensão “clínica”) e metodologias utilizadas no mundo. SECRETARIA DE DIREITOS HUMANOS (SDH); INSTITUTO NOSS. Justiça Restaurativa em caso de abuso sexual intrafamiliar em criança e Adolescente. Rio de Janeiro: Instituto Noos, 2012, p. 101.
242 MOURA, Ana Cristina Amaral Marcondes de. Dinâmicas institucionais revitimizadoras:
necessidade de reorganização e articulação do fluxo interinstitucional de atendimento e aprimoramento da justiça. SECRETARIA DE DIREITOS HUMANOS (SDH); INSTITUTO NOSS. Justiça Restaurativa em caso de abuso sexual intrafamiliar em criança e Adolescente. Rio de Janeiro: Instituto Noos, 2012, p. 111.
243 PASSOS, Célia. Reflexões sobre os modelos integrados de atuação para o Sistema de
Garantia dos Direitos. SECRETARIA DE DIREITOS HUMANOS – SDH. INSTITUTO NOSS. Justiça Restaurativa em caso de abuso sexual intrafamiliar em criança e Adolescente. Rio de Janeiro: Instituto Noos, 2012, p. 199.
Feitos Relativos aos Crimes Praticados contra a Criança e o Adolescente, na cidade de Salvador. A responsabilização do agressor é efetivada por essa última, enquanto outros aspectos, relacionados aos direitos civis da vítima (como ações de destituição do poder familiar) são tratados pelas Varas de Infância e Juventude. Não se pretende, com isso, defender a unificação dessas instâncias, mas atentar para os transtornos que a falta de comunicação entre elas produz, como a colheita reiterada de depoimentos ou o comparecimento do jovem e a da criança em diferentes situações 245.
O “sistema de garantia de direitos” da criança e do adolescente, através de seus órgãos e instituições, influencia diretamente na restauração do equilíbrio da família ou na continuação do abuso. Por isso é crucial analisar as estratégias de enfrentamento, a fim de se evitar novos danos. A supressão do direito ao convívio familiar, oitivas repetidas e descrença na palavra da vítima são exemplos de uma interferência inadequada 246.
O art. 86 do ECA prevê que:
Art. 86. A política de atendimento dos direitos da criança e do adolescente far-se-á através de um conjunto articulado de ações governamentais e não- governamentais, da União, dos estados, do Distrito Federal e dos municípios.
O estatuto chama os órgãos governamentais e outras instituições para promover ações integradas de atendimento à criança e adolescente, o que é de extrema importância nos casos de violência sexual 247. Ana Cristina Moura faz interessante análise sobre as possibilidades de comunicação entre essas entidades, oportuna para uma melhor visualização do tema.
Segundo a autora, há três possíveis acessos para o atendimento de casos de abuso sexual: “o Programa de Atenção Especializada em Famílias e Indivíduos – PAEFI (serviço de média complexidade ligado aos Centros de Referência Especializados de
245 PASSOS, Célia. Reflexões sobre os modelos integrados de atuação para o Sistema de
Garantia dos Direitos. SECRETARIA DE DIREITOS HUMANOS – SDH. INSTITUTO NOSS. Justiça Restaurativa em caso de abuso sexual intrafamiliar em criança e Adolescente. Rio de Janeiro: Instituto Noos, 2012, p. 200.
246 OLIVEIRA, Antonio Carlos de. Abuso sexual intrafamiliar de crianças e a família como
totalidade. In: O Social em Questão: ano XV, nº. 28, 2012, p. 242.
Assistência Social – CREAS); as delegacias de polícia; e os serviços de saúde” 248. As delegacias de polícia devem ter atuação conjunta com o Instituto Médico Legal (IML), a fim de que o serviço seja efetivado por profissionais especializados, e de forma única. Se o caso for encaminhado por outra instituição, o responsável da criança ou do adolescente deve cuidar dos procedimentos relativos à delegacia 249.
O atendimento de saúde deve funcionar associadamente a qualquer instância que receba as situações de abuso, haja vista ser imprescindível uma “atenção psicoterapêutica” para a vítima, para a família e também para o ofensor (realizada em local diferente da criança/adolescente, caso necessário) 250.
Conforme lição de Antonio Oliveira, é imprescindível a tomada de “ações de proteção e responsabilização pautadas na interdisciplinaridade e na intersetorialidade nos casos de abuso sexual intrafamiliar de crianças” 251. Ou seja, não basta que essas ações
visem apenas reunir informações para o processo decisional dos órgãos institucionais: o suporte precisa abranger um apoio psíquico e emocional também como uma forma de enfrentamento.
No enfrentamento das situações de abuso sexual intrafamiliar, não se pode intentar resolver o problema de forma rápida ou reducionista. As interferências nesse cenário devem ser cuidadosamente analisadas para que não impulsionem uma desagregação da família, revitimizando a criança ou adolescente, ou que não promovam uma proteção capaz de cessar a violência sofrida (com cautela para não acusar inocentes). Não basta, portanto, apenas punir o autor, preservar a vítima e estigmatizar os demais membros 252.
248 MOURA, Ana Cristina Amaral Marcondes de. Dinâmicas institucionais revitimizadoras:
necessidade de reorganização e articulação do fluxo interinstitucional de atendimento e aprimoramento da justiça. SECRETARIA DE DIREITOS HUMANOS (SDH); INSTITUTO NOSS. Justiça Restaurativa em caso de abuso sexual intrafamiliar em criança e Adolescente. Rio de Janeiro: Instituto Noos, 2012, p. 113.
249 Id.
250 Ibid., p. 114.
251 OLIVEIRA, Antonio Carlos de. Abuso sexual intrafamiliar de crianças e a família como
totalidade. In: O Social em Questão: ano XV, nº. 28, 2012, p. 253.
Moura ressalta, ainda, que, na hipótese da violência sexual ser identificada, deve ser elaborado um documento, partilhado posteriormente com os outros órgãos a fim de que a vítima não precise narrar os fatos mais de uma vez 253.
O CREAS, por sua vez, deve ter ação mais completa, elaborando um relatório que apresente os indícios de autoria e materialidade, com os exames realizados (que será encaminhado ao Ministério Público), além de um “plano de atendimento familiar”, que abarque as necessidades da vítima e da família 254.
Destarte, a autora conclui que a atuação integrada e em rede dos órgãos do Judiciário e das instituições administrativas do Estado é de suma importância para a garantia dos direitos das vítimas nos casos de violência sexual 255 e evidencia que 256:
Para finalizar, me parece importante que, como resposta em curto prazo, nos empenhemos em encontrar uma alternativa para a reparação do dano causado à criança ou adolescente pelo seu agressor, pois, muitas vezes, sua punição (prisão) não é suficiente ou é, também, uma punição para ela. É extremamente difícil acusar o agressor, pois representa um grande sofrimento ser responsável pela punição, muitas vezes, do próprio pai.
Sendo assim, a insuficiência da resposta retributiva enseja a necessidade de implementação de “métodos mais humanos”, que sejam capazes de romper com o “ciclo da violência” 257 desses casos que, comumente, é intergeracional. Como a violência intrafamiliar é a modalidade que ostenta maior complexidade na criação de estratégias de enfrentamento, é preciso formar equipes interdisciplinares e qualificar profissionais e estudantes, além de criar políticas de atendimento ao ofensor 258.
É importante salientar que, apesar de necessária e autorizada pela legislação, a interferência externa destinada ao restabelecimento do equilíbrio de poder na família não
253 MOURA, Ana Cristina Amaral Marcondes de. Dinâmicas institucionais revitimizadoras:
necessidade de reorganização e articulação do fluxo interinstitucional de atendimento e aprimoramento da justiça. SECRETARIA DE DIREITOS HUMANOS (SDH). INSTITUTO NOSS. Justiça Restaurativa em caso de abuso sexual intrafamiliar em criança e Adolescente. Rio de Janeiro: Instituto Noos, 2012, p. 113.
254 Id.
255 Ibid., p. 114. 256 Id..
257 Ibid., p. 115.
258 AZAMBUJA, Maria Regina Fay de. Violência sexual intrafamiliar: é possível proteger a
é, por si só, suficiente. É preciso incentivar o diálogo interno e a capacidade de restauração das relações (sem que isso signifique abrandamento das necessárias punições) 259.
A Justiça Restaurativa não é a única saída diante dessas constatações. Contudo, os seus princípios e valores, que compreendem a restauração (material e/ou simbólica) do dano, a reintegração do infrator, o reconhecimento das necessidades dos envolvidos, entre outros, podem ser incentivadores de transformações que tangenciam os entraves analisados, visto que incentivam a integração da família e do Estado (e, a depender do caso, da comunidade) na resolução dos conflitos, e permitem uma visão sistêmica do problema.
Para superar esse foco na punição e estigmatização do ofensor, e promover a tão citada “proteção integral” à criança/adolescente, é indispensável entender que 260:
As marcas mais importantes, segundo apontam os especialistas, situam-se na esfera psíquica das pequenas vítimas cujas seqüelas podem estender-se por toda a vida, ao passo que, os danos físicos, tendem a ser superados.
A presença da família e de outros afetados pelos conflitos que envolvem crianças e adolescentes deve ser incentivado, através de uma abordagem empoderadora. A sua resolução precisa ser judicializada apenas em último caso, a fim de que sejam respeitadas as previsões normativas do ECA e a violência institucional evitada, em respeito aos direitos fundamentais dessa parcela da população 261.
259 OLIVEIRA, Antonio Carlos de. Abuso sexual intrafamiliar de crianças e a família como
totalidade. In: O Social em Questão: ano XV, nº. 28, 2012, p. 253.
260 AZAMBUJA, Maria Regina Fay de. Violência sexual intrafamiliar: é possível proteger a
criança? Revista Virtual Textos & Contextos, nº 5, ano V, nov. 2006, p. 17.
261 MOURA, Ana Cristina Amaral Marcondes de. Dinâmicas institucionais revitimizadoras:
necessidade de reorganização e articulação do fluxo interinstitucional de atendimento e aprimoramento da justiça. SECRETARIA DE DIREITOS HUMANOS (SDH); INSTITUTO NOSS. Justiça Restaurativa em caso de abuso sexual intrafamiliar em criança e Adolescente. Rio de Janeiro: Instituto Noos, 2012, p. 115