CAPÍTULO I – Encruzilhadas teóricas
1.1 O acontecimento
O 3 de março de 2016 era um dia típico de verão no centro do Rio de Janeiro quando encontrei com Ivone de Mattos Bernardo, 53 anos, e Ana Beatriz, Nunes, 51 anos, lideranças no Quilombo Maria Conga, situado em Magé, região Metropolitana do Rio de Janeiro. A intensidade das falas fez o termômetro subir na pequena sala do Conselho Estadual dos Direitos do Negro (CEDINE), cuja sede fica em um prédio na Central do Brasil, no centro da cidade do Rio de Janeiro. Ivone de Mattos Bernardo é a atual presidente da Associação das Comunidades Remanescentes de Quilombos do estado do Rio de Janeiro (ACQUILERJ) e Ana Beatriz Nunes é vice-presidente do Conselho Estadual dos Direitos do Negro (CEDINE).
56 Para mais informações sobre epistemologias feministas, conferir: RAGO, Margareth. Op.cit., 1998,
p. 24-25.
57 Para pensar os eixos de subordinação, ver: CRENSHAW, Kimberle W. “Demarginalizing the
intersection of race and sex; a black feminist critique of discrimination doctrine, feminist theory and antiracist politics". Legal Forum, University of Chicago, 1989 [1981], p. 139-167. Sobre os usos da interseccionalidade para evidenciar processos de singularização, ver: COLLINS, Patricia Hill. “Aprendendo com a outsider within: a significação sociológica do pensamento feminista negro”. Revista
Narrando sua trajetória de tornar-se uma liderança quilombola, Ivone disse que tudo começou em 2005, durante a Conferência de Igualdade Racial do Rio de Janeiro, quando descobriu a história de Maria Conga, escrava que, no século XIX, liderou um quilombo em Magé. No evento de 2005, Ivone encontrou seu primo Ronaldo dos Santos, liderança do Quilombo de Campinho da Independência (Paraty), que lhe falou sobre os direitos dos quilombolas, informando-a que ela pertencia à família Martins, que vivera durante a escravidão nas terras de antigo quilombo de Magé, liderado por Maria Conga.
Depois da Conferência, Ivone e sua prima, Ana Beatriz Nunes, foram atrás da história da escrava e do quilombo, descobrindo que parte daquelas terras constituía o bairro onde elas nasceram, cresceram e passaram parte de suas vidas. Sobre o momento, Ivone narrou a história de Maria Conga como um epifania amorosa, e sua fala me chamou atenção pela tonalidade afetiva e o conteúdo expressivo, grifados, como segue:
Eu me apaixonei pela história de Maria Conga porque era uma mulher
negra, escrava, que lutava pelo direito dos negros. Pelo direito dos quilombolas. Nós temos vários líderes homens que foram capturados como Manoel Congo, que foi assassinado como Zumbi dos Palmares, dentre outros, mas ela era uma líder mulher negra. Naquela época, ela já fazia tudo que a gente faz hoje: lutar pelo direito da mulher, lutar pelo direito da cidadania, lutar pelo direito do negro, lutar pelo direito dos quilombolas, dos escravos. Trabalhava dentro da comunidade, era parteira, pegava as ervas para fazer remédio. Fiquei muito orgulhosa disso, sou orgulhosa por estar nessa luta;
tenho assim uma paixão muito grande de estar nessa luta por ser mulher, por
ser negra, por ser filha de descendente de escravo. [...] O trabalho que comecei na comunidade logo que voltei da Conferência da Igualdade Racial. Naquele ano eu voltei com um trabalho de educação: o Brasil Alfabetizado, que tinha mais mulheres do que homens. Depois a gente fez um trabalho de culinária do Cozinha Brasil, que foi um programa Governo Federal para aprender a cozinhar, aproveitando alimentos que as pessoas jogam fora, casca de laranja, casca de batata. Foram 29 mulheres que fizeram o curso e começaram a trabalhar dentro da comunidade, o que levou a autoestima para as mulheres. A autoestima de não ter vergonha de ser negro, não ter vergonha de ser quilombola. Ser mulher e não deixar apanhar do marido, porque a gente levou a Lei Maria da Penha. Trazia para o Rio mulheres e elas falavam para outras mulheres “a gente tem que ser assim, você tem que saber da lei, é crime.58
Por meio de uma tessitura celebrativa, Ivone vai aproximando a trajetória de Maria Conga à sua experiência pessoal, valendo-se da semântica contemporânea dos direitos e das
lutas antirracista e antissexista. A convergência entre as experiências é realizada pela reivindicação de uma tradição política feminina baseada no cuidado dos outros. No caso de Maria Conga, as práticas incluíam o trabalho como parteira e o conhecimento das ervas, já as ações evocadas por Ivone envolvem a educação, as práticas antirracistas por meio de ações que melhorem a autoestima das quilombolas e o combate antissexista, com a introdução da lei Maria da Penha na comunidade de Magé.
O tom de contentamento que atravessa a fala de Ivone sobre a história de Maria Conga sugere o que Gilles Deleuze disse sobre o estado de estar alegre: “alegria é tudo o que consiste em preencher uma potência. Sente alegria quando preenche, quando efetua uma de suas potências”.59 A potência na fala de Ivone foi, de certa forma, traduzida de duas formas que se
entrecruzam: pelo reconhecimento da história de Maria Conga e pela promoção da autoestima seja por meio do aprendizado da leitura, de novas receitas, seja por meio do conhecimento da lei Maria da Penha.
Na mesma linha discursiva, ao longo de 2016, a Coordenação Nacional das Comunidades Quilombolas (CONAQ), para comemorar os seus 20 anos de existência, promoveu oficinas destinadas à formação de lideranças femininas, com o objetivo central de fornecer ferramentas para que elas pudessem combater as formas de violência que incidem sobre seus territórios e seus corpos. No texto de divulgação da primeira oficina, que ocorreu em março na Casa Kalunga, em Cavalcante (GO), visualizamos a ênfase em estabelecer as relações entre as experiências das mulheres quilombolas do passado escravista e a luta das lideranças contemporâneas, traduzidas pela semântica dos direitos e as práticas do bem-viver, como se pode ver a seguir:
Em 2016, a CONAQ completa 20 anos de luta e identidade quilombola e esta luta onde as mulheres têm papel fundamental na organicidade e resistência inspiradas em Dandara dos Palmares, Tereza de Benguela, Aqualtune e tantas outras que servem de exemplo para lideranças quilombolas na luta hoje, pelo território e afirmação da identidade quilombola, e nós, mulheres quilombolas, remanescentes diretas dos povos africanos, estamos distribuídas em uma população de cerca de 130 mil famílias.
[...] Mantemos uma das culturas identitárias da nação em sua matriz, com os conhecimentos conforme recebemos de nossas ancestrais, e, apesar disso, somos invisibilizadas por uma história conveniente às elites, por interesses de economia nacional, por um Estado que pouco se preocupa em reparar o que não nos foi garantido em séculos de história.
59 DELEUZE, Gilles; PARNET, Claire. Abecedário de Gilles Deleuze. Transcrição do vídeo para fins
exclusivamente didáticos, p. 54. Disponível em:
<http://stoa.usp.br/prodsubjeduc/files/262/1015/Abecedario+G.+Deleuze.pdf>. Acesso em 15 jun. 2017.
[...] O direito de existir e de acesso às políticas que as mulheres quilombolas temos está atrelado ao acesso à terra, base à sobrevivência, à manutenção de nossa identidade étnica. Queremos a garantia da propriedade de nosso território e sua proteção como patrimônio. Só assim teremos o direito de acessar todas as demais políticas desenvolvidas. Para alcançar o bem-viver, reivindicamos o direito de sermos diversas em nossos modos de ser, de crer, de pensar e de ir e vir. De sermos reconhecidas pelo Estado e de participar dos resultados econômicos do que ajudamos a produzir.
[...] Acreditando na autonomia e no protagonismo das mulheres quilombolas, reafirmamos a importância de espaços de auto-organização das mulheres, jovens e meninas, respeitando a ancestralidade e os processos internos de socialização, garantindo os direitos das crianças e idosas, visando à melhoria da qualidade de vida de toda a comunidade.60
A escolha da CONAQ pela comunidade de Kalunga está ligada ao fato de que, em 2015, veio a público que meninas do quilombo vinham sendo usadas em uma rede prostituição local, situação favorecida pelos níveis elevados de vulnerabilidade social em que se encontra a comunidade de Kalunga. Esse fato levou o extinto Ministério das Mulheres, da Igualdade Racial, da Juventude e Direitos Humanos a construir um plano de ação publicado em março de 2016, enfocando quatro eixos: acesso à terra, infraestrutura e qualidade de vida, desenvolvimento local e inclusão produtiva, direitos e cidadania.61
Para nos aproximarmos dos conteúdos que a fala de Ivone e o texto da CONAQ exprimem, a primeira questão a ser observada é a de que o enunciado, conforme sugerem Gilles Deleuze e Claíre Parnet, faz parte de um agenciamento coletivo, que
(...) põe em jogo, em nós e fora de nós, populações, multiplicidades, territórios, devires, afetos, acontecimentos. O nome próprio não designa um sujeito, mas alguma coisa que se passa ao menos entre dois termos que não são sujeitos, mas agentes, elementos. Os nomes próprios não são nomes de pessoa, mas de povos e de tribos, de faunas e de floras, de operações militares ou de tufões, de coletivos, de sociedades anônimas e de escritórios de produção.62
Uma vez que as práticas das mulheres quilombolas não são dados naturais, interrogamos as condições históricas que permitiram que suas ações adquirissem essas configurações e, assim, pudessem narrar suas experiências contemporâneas por meio de uma tradição feminina,
60 Disponível em: <http://racismoambiental.net.br/2016/03/15/conaq-realiza-oficina-de-mulheres-
quilombolas-em-kalunga/>. Acesso em 10 out. 2016. Grifos meus.
61 BRASIL. Plano de Ações do Quilombo Kalunga. Ministério das Mulheres, da Igualdade Racial, da
Juventude, e dos Direitos Humanos. Brasília: SEPPIR/ SECOMT, 2016.
62 DELEUZE, Gilles; PARNET, Claíre. “Uma conversa, o que é, pra que serve?”. In: Diálogos. São
cujas ações articulam, simultaneamente, a semântica contemporânea dos direitos e a do vocabulário antirracista e antissexista. Essas condições se relacionam tanto ao cenário da luta quilombola como às possibilidades analíticas.
Foi nesse contexto de invenção de novas identidades quilombolas que as mulheres e as práticas femininas foram selecionadas para definição dos novos territórios quilombolas, integrando o conjunto de transformações que Margareth Rago, a partir das problematizações de Georg Simmel, chamou de feminização cultural, compreendida pela incorporação crescente de valores, ideias, formas e concepções especificamente femininas, resultado do trabalho de crítica cultural realizado pelas práticas feministas, afetando os valores, os comportamentos e os sistemas de representação.63
Esse processo favoreceu a construção de novas etnias por meio de bases femininas, selecionando mulheres como ícones de luta para as suas comunidades. Nele, o feminino torna- se um dos elementos de expressão da ancestralidade quilombola, fazendo a noção de resistência quilombola, concebida em termos de guerra, força e virilidade, atributos relacionados ao campo masculino, ganhar novos significados em torno dos cuidados, da transmissão dos saberes e das relações afetivas que se estabelecem com o território.