ESTABELECIMENTOS INDUSTRIAIS DE PERNAMBUCO (1907)
2.3. O Agreste Pernambucano e sua Base Econômica
A colonização da Capitania de Duarte Coelho teve início na extremidade norte do litoral pernambucano, especificamente em Igarassú, e depois se estendeu para Olinda, que foi fundada para servir de residência oficial do donatário. Durante mais de um século, portanto, a colonização se deu apenas nas zonas litorâneas e da Mata, até que houve a necessidade de descobrir mais espaços em direção ao interior da Capitania.
Em Pernambuco, a penetração no interior, segundo Hilton Sette, deve-se à adaptação aos diferentes quadros naturais e desbravamentos por melhores roteiros em direção às localidades cada vez mais distantes do litoral. Quando já estava prestes a se esgotar em extensão as terras devolutas da Zona da Mata, as fazendas de criação de gado foram-se multiplicando nas caatingas do Agreste, pois já havia sido aprendida a técnica de ocupação em áreas de solo raso e de clima semi-árido, além de ser a passagem mais curta e fácil em direção aos currais sertanejos, que já eram também utilizados para pecuária em regime extensivo 25.
É nesse contexto que começa a colonização do Agreste, que se deu mais tardiamente do que as colonizações do Litoral e Zona da Mata, principalmente quando passou a servir de celeiro de criação de gado para abastecer as necessidades daquelas regiões, que se dedicavam mais exclusivamente à monocultura da cana, não sendo, portanto, prioritária a atividade pecuária, já que era considerada uma ocupação subsidiária e até conflitava com a cultura da cana, pois necessitava de maior expansão dos campos para pastoreio e outras características que o Agreste poderia melhor oferecer.
O Agreste, destarte, por muito tempo passou a ser o criadouro de gado que abastecia as zonas mais desenvolvidas e habitadas do Estado, transferindo-lhe as boiadas para o abate (consumo de carne), bois para fazer moer os engenhos e carrear a cana e o couro para ________________________
25 SETTE, Hilton. Pesqueira: Aspectos de Sua Geografia Urbana e de Suas inter-relações Regionais. Recife: 1956, pp. 42-
as pequenas manufaturas artesanais de calçados, arreios e toda espécie de artefatos que dele se utilizavam.
Nas fazendas dessa região, por força da necessidade de suprimento dos vaqueiros e seus familiares, foi prosperando a implantação de roçados para a produção de alimentos, basicamente voltados para o cultivo de milho, feijão e mandioca.
O desenvolvimento da pecuária dá lugar ao adensamento e surgimento de outras atividades e como resultado dessa evolução há o aparecimento de vilas e povoados e até mesmo de atividades agroindustriais, nas áreas mais propícias, subsidiárias do criatório e voltadas, geralmente, para a produção de rapadura e aguardente.
A diversificação das atividades produzidas no Agreste é o que mais diferencia essa região das demais, o que vai gerar um quadro de relações de produção que vai conduzir, naturalmente, à divisão social do trabalho na região, como bem explicita Manoel Correia:
“Nos meados do século XVII, quando a população agrestina já crescera bastante e a pecuária extensiva não era capaz de absorver a mão-de-obra aí existente, os índios refugiados nos brejos de altitude foram sendo aldeados e as secas foram fazendo com que os habitantes da caatinga se abrigassem nos brejos úmidos, ambientando os mesmos à coleta dos produtos florestais e à agricultura; foi aí que os brejos de altitude passaram a ser mais densamente povoados. Aí iriam concentrar-se grupos humanos que se dedicavam à agricultura de mantimentos e à cultura de cana-de-açúcar, que era transformada por engenhocas em rapaduras e aguardente, dando origem a sítios e até pequenas vilas. Agregados dos fazendeiros da caatinga tornaram-se muitas vezes foreiros, agricultores e rendeiros, que abasteciam o Agreste de gêneros alimentícios e, quando a cultura e o comércio de algodão abriram condições, passaram a fornecê-los também à Mata e ao Sertão” 26.
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Mas, de fato, a verdadeira alteração econômica em larga escala ocorrida especialmente na região agrestina foi a introdução da cultura do algodão. Essa ocorrência não é um fato peculiar, mas a conseqüência da importância que esse produto passou a ter no cenário mundial naquela época, caracterizado como o “renascimento da agricultura” 27,
porque a ela estão associados enormes contingentes da população européia, ligados às atividades econômicas e ao comércio internacional, cujos dinamismos foram provocados pela Revolução Industrial.
Para se ter idéia do interesse do “velho mundo” pelo produto, Pernambuco exportou para a Europa, em 1811, 1812 e 1813, respectivamente, 28.245, 58.824 e 65.327 sacas de algodão, tornando-se a província que mais lucrou com a exportação do produto naquele período 28.
Com a criação da máquina a vapor e dos teares mecânicos o aproveitamento do algodão passou a ser integral, a ponto de tornar-se uma das matérias-primas de maior procura pelas indústrias 29, já que dele não era só utilizado a fibra para confecção de tecidos, como o
próprio caroço, rico em óleo vegetal, e até mesmo o seu bagaço, usado até hoje para alimentação animal.
“Na verdade, a lavoura algodoeira não só abriu, à época, perspectiva econômica para o hinterland nordestino, que somente havia conhecido a pecuária e a sua atividade subsidiária da produção de alimentos, como, através do estabelecimento de novas relações sociais, foi portadora de transformações significativas na economia da região” 30.
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27 GUIMARÃES NETO, Leonardo. Op. Cit., p. 30.
28 BARBALHO, Nelson. Cronologia Pernambucana – Subsídios para a História do Agreste e do Sertão – de 1811 a 1817.
V. 11. Recife: CEHM-FIAM, 1983, p. 203.
29 “O algodão foi cultivado no Brazil desde os tempos coloniaes, sendo o seu primeiro centro de cultura o Estado do
Maranhão. Em breve, porém, a cultura se estendia a outros pontos e a producção se tornava tão remuneradora, que as atividades portuguezas resolveram animar essa promettedora fonte de renda: e em 1750, tomaram medidas para auxiliar o estabelecimento de fabricas no interior do paiz. Foi o mesmo que chegar um phosphoro a um rastilho de pólvora. A industria começou a progredir a passos largos, a tal ponto que os próprios portuguezes, então completamente senhores do mercado brazileiro de tecidos de algodão, se alarmaram”. LLOYD, Reginald. Op. Cit., p. 382.
Mesmo quando arrefeceu a exportação do algodão em decorrência, principalmente, do aumento da produção norte-americana, com o fim da Guerra da Secessão e do incremento do algodão egípcio e asiático, não houve grande repercussão econômica no Agreste, já que tinham sido instaladas várias indústrias têxteis e de extração de óleo em Pernambuco, absorvendo, assim, a produção local, cujas áreas produtivas passaram a ser consorciadas com outros tipos de lavouras, aumentando a sua rentabilidade econômica.
TABELA VIII