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PELOS SUJEITOS QUE PRATICAM O PROCESSO DE EDUCAÇÃO DO E NO CAMPO.

8.3 O canto, o conto, o encanto e o recanto do campo.

“Se você não concordar Não posso me desculpar Não canto pra enganar Vou pegar minha viola Vou deixar você de lado Vou cantar noutro lugar.” (Música disparada de Jair Rodrigues)

Figura 39 Coral- Crianças cantando as músicas da cultura local

Na região de lençóis- zona rural de Una-Bahia-Brasil, o canto e o conto são características marcantes da identidade dessessujeitos. As melodias são entoadas na labuta do trabalho, entre uma atividade e outra na sala de aula, nas brincadeiras das meninas, há a cantoria dos versos ensinados pela geração mais idosa.

Mesmo com um vasto reportório musical brasileiro, se vê o gosto pelas músicas da tradição cultural do lugar. Ao se permitir que a cultura popular caminhe nos espaços da escola, estará se validando o direito do cidadão do campo a tornar-se autor social deixando que “o outro o veja com prestígio e poder para ele se sentir com influencia no meio onde se move, de saber que sua voz é ouvida com respeito e consideração.” (SOUSA 2004, p.33). Assim, a professora Elisabele Dantas ao reconhecer o canto dos sujeitos do campo como uma prática educativa que simboliza o respeito à tradição desse povo, ela provoca uma ação criativa promovendo sarau com cantigas trazidas da memória coletiva dessas pessoas.

Versos de Roda da tradição de D. Amália de 61 anos

Cadê meu lenço branco lavadeira, Que eu te dei pra tu lavar, lavadeira,

Refrão:

Não tenho culpa do que se passou Deu um vento muito forte,

O rio grande carregou Ôh lavadeira.

Menina tu é de uva ôh lavadeira, Daquela que faz o vinho ôh lavadeira. Faz dos teus braços gaiolos, ôh lavadeira,

Que eu vou ser seu canarinho Ôh lavadeira.

Versos de roda da tradição de D. Maria de 60 anos

Ôh Zezé tomaram meu amor, Coração de moça é um mundo traidor.

Quem tomou o meu amor Praga eu não jogo não, É de andar feito a cobra Com a barriga pelo chão.

As músicas cantadas por D. Amália e D. Maria, carrega a tradição do seu povo de cantar para realizar as tarefas da lida, para ninar seus filhos. Percebe-se que seus netos continuam essa tradição e demonstra com satisfação sua cultura. Além das músicas folclóricas carregadas de cultura e tradição, os poemas retratando a vida no campo, marcam as produções dos alunos, retratam seus sentimentos e se transformam numa rica expressão de conhecimento.

Poema: O velho trabalhador rural

No dia em que o trabalhador rural ficou velho, E não conseguia mais trabalhar,

Foi morar na Vila Brasil, Numa casinha singela para morar.

Uma casa vermelha e verde, Com muitas árvores no quintal, Cadeira de balanço e uma rede, E na sala o retrato de sua juventude.

Ele se balançava sem parar, Era que ele sentia,

Uma vontade infinita de plantar.

Autores: Jaine, Naiane, Thais, Isabelli e Isabel.

Em sintonia com o poema, as palavras de um dos moradores da localidade, expressa os sentimentos e emoções diante da atividade.

Foi uma apresentação muito bonita, chega me emocionei. É bonito ver as crianças recitando nossa história, eu conseguia enxergar essa história dita por eles. A professora está de parabéns. (Informação verbal do Sr Lourival Pereira).

Para uma visitante que aprecisava a apresentação, à prática pedagógica envolvendo a linguagem artística foi:

As crianças parecem até artistas. É isso, a gente passa por poucas e boas para dá o estudo aos nossos filhos. Eu não tive oportunidade, tabalhava de emprega doméstica na casa dos outros, não tinha documentos porque naquela época era difícil tirar e fui a escola pela 1ª vez com 23 anos de idade. Eu usava o documento da minha irmã, meu pai morreu muito cedo e minha mãe era parteira, a gente vivia de sol a sol. Eu fazia de conta que não estava com fome para minha mãe comer. A gente precisa ter respeito por essa gente que tá ai no trabalho pesado. (D. Izabel- visitante).

Analisando as opiniões, aprsentadas, fica perceptível que a prática pedagógica cria uma mobilização na localidade, envolvendo tanto residentes, quanto os visitantes do lugar. A prática educativa na escola Chico Mendes não é estática, está em movimento e seduzida pelas diversas formas de expressão cultural dos sujeitos do campo. Para Fino (2011, p.50), “o que os aprendizes necessitam não é tanto de uma mera instrução institucionalizada, mas de estarem em contacto com o mundo real, ou seja, trazendo a escola para a realidade do mundo”.

Assim, a prática desenvolvida pelos atores sociais da escola Chico Mendes propõe contéudos que toca não sou o intelecto, mais também o emocional daqueles que praticam e convivem com a educação do campo. Mas, há de se lembrar que a escola do campo convive também com fatores externos e internos que comprometem a continuidade de uma ação diferenciada.

Do mesmo modo que a rotatividade dos alunos filhos dos lavradores temporários do campo, o casamento precose das meninas provoca o abandono da escola para cuidar do filho e do marido, a incompreensão dos dirigentes locais acerca do funcionamento da escola com

menos de 20 alunos por turno, a rotatividade e a falta de preparo do coordenador da escola do campo, os planejamentos orientados pela equipe técnica distante da realidade da escola compromente o trabalho. Desse modo,

[...] o ato educativo, na complexidade atrás descrita, tem necessariamente de exigir uma pessoa psicologicamente forte e amadurecida, que sabe o que quer, com uma determinada linha de orientação. Tem de ser uma pessoa realizada, com um elevadonível de auto-estima e um sentido claro de identidade. (SOUSA 2004, p.69).

Por outro lado, refletindo a citação de Sousa, o estudo na escola, mediado por Elisabele, promove inovação e permite o diálogo, nutre escola e as pessoas do campo. Além do canto presente no campo, o conto é uma narrativa forte que provoca a pesquisa em campo, a coleta de dados, o olhar investigativo, observador da origem, do sentido, da influência do objeto de estudo.

Não somente, o conto compartilhado nos relatos dos pais e moradores transforma a escola numa rede social itinerante onde o círculo de conversa acontece na sala de aula, na casa do morador, na floresta, na área livre, o circuito é diverso e produz o reconto com um repertório de encanto. As diversas formas de trabalhar o conteúdo da escola, em harmonia com os saberes locais provocam aproximações e concebe a negociação do conhecimento. Para Perrenoud, a escola precisa:

 Trabalhar a partir das representações dos alunos.

 Trabalhar a partir dos erros e dos obstáculos à aprendizagem.

 Conhecer e administrar situações-problema ajustadas aos níveis e às possibilidades dos alunos.

 Observar e avaliar os alunos em situações de aprndizage, de acordo com uma abordagem formativa.

 Fornecer apoio integrado, trabalhar com os alunos portadores de dificuldade.

 Suscitar o desejo de aprender, explicitar a relação com o saber, o sentido do trabalho escolar, e desenvolver na criança a capacidade de auto-avaliação.

 Favorecer a definição de um projeto pessoal. (PERRENOUD 2000, p.07).

Diante da citação do autor, o campo com seus problemas arquitetônico, de distribuição de merenda e de recursos, com estradas escassas, mobiliário e transporte inadequado, em virtude da diversidade e heterogeneidade da sala, consegue oportunizar ações mais meta- reflexivas.

9. O PROJETO POLÍTICO PEDAGÓGICO DA ESCOLA CHICO MENDES: A