3.1.8.1 A Mudança na Estrutura Produtiva.
4 AS ASSOCIAÇÕES DE CONSUMIDORES E O SUBSISTEMA DO CONSUMO
4.1 O CONSUMO COMO FUNDAMENTALISMO DO TEMPO PRESENTE
Não é incomum a referência a uma sociedade de consumo, impulsionada pela produção em massa, pelos riscos em maior quantidade, mas, sobretudo, como há de se demonstrar, pela alienação e desnaturação do homem enquanto consumidor ou vice-versa.
A todo o tempo a sociedade depara-se com uma demonstração fantástica do consumo e da abundância, caracterizada pela multiplicação dos objetos, dos serviços, dos bens materiais amontoados ou em panóplia, originando como que uma categoria fundamental na ecologia da espécie.44
O consumo envolve toda a vida, ditando o ritmo de todas as atividades, instituindo uma climatização geral, seja com relação aos objetos, seja que no que se refere às condutas e às relações interpessoais, cujo simbolismo pode ser aferido nos shoppings centers, aeroportos modernos e nos resorts. Tal consumo almeja uma homogeneização integral do mundo-da-
43 SANTOS, 2001, op. cit. p. 100-101.
44BAUDRILLARD, Jean. A sociedade de consumo. Lisboa: edições 70, 1995. p.15. (Coleção arte e
vida45, onde tudo está compendiado na facilidade de obtenção dos bens que produz uma felicidade abstrata.
O trabalho, o lazer, a natureza e a cultura que outrora se encontravam dispersos e provocavam a angústia e a complexidade na vida real, foram amassados, misturados, climatizados e homogeneizados num ambiente completamente assexuado, no hermafroditismo da moda.46
As contradições econômicas e sociais que antes atormentavam a mente do ser humano, foram substituídas pela realidade controlada, consumida, defendida na indistinção das coisas e das relações sociais.
Um exemplo citado por Baudrillard, ilustra bem o paralelismo entre uma sociedade primitiva e a realidade da atual sociedade de consumo:
Os indígenas da Melanésia sentiam-se maravilhados com os aviões que passavam no céu. Mas, tais objectos nunca desciam até eles. Só os Brancos conseguiam apanhá- los. A razão estava em que estes possuíam no solo, em certos espaços, objectos semelhantes que atraíam os aviões que voavam. Os indígenas lançaram-se então, a construir um simulacro de avião com ramos e lianas, delimitaram um espaço que iluminavam de noite e puseram-se à espera que os verdadeiros aviões ali viessem aterrar. Sem rotular de primitivismo (e porque não?) os caçadores- recolectores antropóides que erram actualmente na selva das nossas cidades, seria possível descobrir neles um apólogo sobre a sociedade de consumo. Também o miraculado do consumo serve de todo um dispositivo de objectos simulacros e de sinais característicos da felicidade, esperando em seguida (no desespero diria um moralista) que a felicidade ali venha poisar-se. 47
Mutatis mutandis, na sociedade de consumo, os benefícios não se vivem como frutos
do trabalho ou dos processos de produção, mas não são vividos como um milagre, uma graça da natureza, um “maná” caído do céu.
As novas gerações seriam herdeiras dos bens e também do direito natural à abundância, não que esta seja produzida, arrancada e conquistada no termo de um esforço
45 HABERMAS, Jürgen. Teoria da Ação Comunicativa. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro, 1987. 46 BAUDRILLARD, 1995, op. cit. p. 20.
histórico e social, mas como se dispensadas de uma instância mitológica da qual tais gerações seriam legatárias: a Técnica, o Progresso, o Crescimento.
Percebe-se que o homem vive cercado por esse sistema ideológico, tecido ao redor do consumo e da informação, ambos ideologizados. Esse consumo e informação ideologizados são a força motriz das ações públicas e privadas. Esse par é fortíssimo e fragilíssimo. Por um lado, é forte em razão da sua eficácia sobre a produção e consumo, mas, por outro, é débil em razão de ser apenas parte de um sistema mais amplo.
O consumo é o grande emoluente, produtor ou encorajador de imobilismos, um veículo de narcisismos, por meio de estímulos estéticos, morais e sociais. É na verdade o grande fundamentalismo do nosso tempo por que alcança e envolve toda a gente, em suma, o mundo passa pelo consumo e pela competitividade, ambos fundados no mesmo sistema de ideologia.48
4.1.1 O Consumo e o seu Despotismo
O consumo também evolui. Falava-se de autonomia da produção para significar que uma empresa, ao assegurar uma produção, buscava também manipular a opinião pela via da publicidade, tendo como fato gerador a referida produção. Hoje, as empresas hegemônicas “produzem o consumidor antes mesmo de produzir os produtos”.49
A autonomia da produção cede lugar ao despotismo do consumo, daí o império da informação e da publicidade, numa clara assimilação da teoria behavorista.50 Como afirma Milton Santos, as coisas no comércio acabam por ter a seguinte composição: publicidade mais materialidade e publicidade mais serviços. Tais operações parecem simultâneas diante
48 SANTOS, 2001, op. cit. p 48. 49 Ibid., p. 48.
do tempo do relógio, porém do ponto de vista da lógica é a produção da informação e da publicidade rectius do consumidor que precede o produto e o consumo.
Como observa Galbraith51, no ensino convencional de Economia, praticado no
passado, o mercado aparecia especialmente identificado com a soberania do consumidor; com o seu poder de decidir o que deveria ser produzido, comprado e vendido; porém, essa realidade mudou, pois, atualmente, não se lança um produto novo sem antes estimular a demanda pelo consumo, a não ser que se prefira influenciar e manter a demanda por um produto já existente.
Esse objetivo é alcançado por intermédio do universo da publicidade e das vendas, da televisão, da manipulação, uma agressão à soberania do consumidor. Por isso, acreditar numa economia de mercado em que o consumidor é soberano configura-se como uma das formas de fraudes mais difundidas.