• Nenhum resultado encontrado

O CONTEXTO DA TEORIA E O CAMPO EDUCACIONAL

No documento JOSSIANE CARLA BERNAR LUVIZA (páginas 71-73)

1 O ESTÁGIO SUPERVISIONADO NA FORMAÇÃO DE PROFESSORES:

3.1 O CONTEXTO DA TEORIA E O CAMPO EDUCACIONAL

A abordagem teórica que utilizamos nesse estudo para o termo “representações” se ancora na “Teoria das Representações Sociais” preconizada por Moscovici (2009, 2012) no campo da Psicologia Social. No que tange a esta investigação, os postulados da Teoria das Representações Sociais (TRS) se constituem nos fundamentos teóricos utilizados na análise de dados desta pesquisa. Logo, é necessário abordar a TRS e o contexto social de sua emergência.

Moscovici desenvolve a TRS em sua tese defendida em 1961 denominada A representação social da psicanálise. Em forma de livro, a obra La Psicanalyse: Son image et son public foi publicada na versão em língua portuguesa primeiramente como Representação Social e Psicanálise (1978) e outra com o título A psicanálise sua imagem e seu público (2012). Em seu estudo busca compreender as representações sociais da psicanálise na sociedade francesa nos anos 50. O estudioso discute que como uma ciência, no caso a psicanálise, se transforma em conhecimento leigo, em senso comum ao difundir- se entre diferentes grupos sociais na França. Como representante da corrente psicossocial construtivista francesa, Moscovici, de acordo com Banchs43 (2002, p. 49, tradução nossa) “encontra seus fundamentos em Piaget, Lévy-Bruhl, Freud e Durkheim.” Ressaltam-se também as bases teóricas de Vygotsky, para elaborar sua própria teoria. (BANCHS, 2002).

43

Do original: “Moscovici encuentra sus fundamentos em Piaget, Lévi-Bruhul, Freud y Durkheim.” (BANCHS, 2002, p. 49).

O conceito de representações se originou com Durkheim44 (1858-1917), que as concebia como “representações coletivas” (RC), enquanto formas estáveis de entendimento coletivo. Já Moscovici (2009, 2012) preferiu utilizar o termo “representações sociais” (RS) por conceber o caráter dialético e dinâmico das relações sociais. Assim, definiu o senso comum como sendo sua fonte na compreensão das relações estabelecidas socialmente.

Nesse contexto, a teoria das RS originou-se na convergência de diferentes campos do conhecimento como a Sociologia, a Antropologia e a Psicologia, sendo que o diferencial da TRS proposta por Moscovici consiste na contribuição à concepção desenvolvida por Durkheim que as considerava como RC, “pode-se considerar Durkheim como o precursor das RS, ao destacar que as representações são produções sociais (irredutíveis à psicologia individual) que impactam as consciências individuais.” (FARR, 2003; JAHODA 1988 apud CASTORINA, 2013, p. 43).

A partir do conceito de RC, Moscovici o modifica e concebe-o como RS para delinear as características da TRS. Para Castorina (2013) a adequação do termo feito por Moscovici encontra respaldo na realidade sociocultural vivida pela sociedade moderna, na qual o autor se mostrou sensível em perceber o contexto social imediato, diferente do momento em que as RC foram concebidas por Durkheim na passagem do século XIX para o século XX, pois “expressam a homogeneidade da sociedade tradicional (ou teocrática) e suas formas específicas de legitimação.” (CASTORINA, 2013, p. 44).

Com isso, diversos fatores contribuem para a emergência das RS e nas palavras de Castorina (2013, p. 44):

A aparição da ciência moderna, a propaganda e os meios de comunicação, assim como o surgimento da imprensa e a difusão da escrita, permitiram a circulação das ideias e a participação de distintos grupos sociais na produção de novas RS. Essas características da modernidade são a fonte da diversidade, do dinamismo e da historicidade própria das RS em contraposição às RC.

Para Sousa e Villas Bôas (2011) o caráter interdisciplinar presente na concepção da TRS é uma característica desde que a mesma foi concebida nas diferentes áreas que contribuem para a sua difusão, ao ser utilizada em pesquisas nos campos da saúde, antropologia, história, educação, sociologia, trabalho, e muitos outros. No cenário educacional, a TRS é utilizada de acordo com Sousa e Villas Bôas (2011) há mais de 30 anos, com a obra de Gilly (1980) intitulada Maître-élève: rôles institutionnels et représentations. Segundo, Sousa e Villas Bôas (2011, p. 273) Gilly reconhecia a validade

44 “Émile Durkheim foi o primeiro estudioso a cunhar e utilizar o termo representações, a partir de sua obra Les formes élémentaires de la vie religieuse (1912), demonstrando a partir de seu estudo que a ideia de

das RS na “compreensão da área educacional na medida em que permite focalizar o conjunto de significações sociais presentes no processo educativo [..].”

Jodelet (2007 apud SOUSA; VILLAS BÔAS, 2011, p. 273) que também contribui ao aprofundar os estudos da TRS, salienta que a área educacional da TRS:

[...] não se limita a um espaço de coleta de dados ou um espaço puro de aplicação de um método teórico. Ele deve ser pensado como uma totalidade no seio da qual os recursos oferecidos pelo modelo das representações sociais devem ser utilizados de maneira adaptada aos problemas característicos dos diferentes níveis de sua estruturação. O segundo, [no caso, as representações sociais] referente a uma disciplina que tem objetos teóricos, conceitos e procedimentos próprios, e que se orienta por um olhar específico [..], não pode ser absorvida (sic) numa simples transferência para campos vizinhos.

Nos últimos anos, no contexto brasileiro, ocorreu um vasto crescimento de produções acadêmicas no campo da educação que utilizam o aporte teórico das TRS como os desenvolvidos por Madeira (2001), Menin e Shimizu (2005, 2009), Lima (2009), Severino (2007), Alves-Mazzotti (2008) e Miranda (2012) dentre outros. Sob essa ótica, a área educacional se firma como um campo de pesquisas contundente para o estudo das RS em que:

Por suas relações com a linguagem, a ideologia e o imaginário social e, principalmente, por seu papel na orientação de condutas e das práticas sociais, as representações sociais constituem elementos essenciais à análise dos mecanismos que interferem na eficácia do processo educativo. (ALVES- MAZZOTTI, 2008, p. 21).

Nos dias atuais, a noção de RS é considerada “polissêmica” (VILLAS BÔAS; BÔAS FILHO, 2013) nos diferentes campos que a utilizam. Na área da Educação, foco desse estudo, “a teoria tem sido extremamente útil para revelar as relações entre conhecimentos práticos e desempenho de papéis e de funções na escola, de um lado, e questões ideológicas, políticas, pedagógicas no campo da educação, do outro.” (MENIN; SHIMIZU; LIMA, 2009, p. 551). Nessa direção, o próximo tópico apresenta com mais detalhes o conceito de RS em que se descreve também qual a perspectiva de análise para as RS dos APLIs no ES.

No documento JOSSIANE CARLA BERNAR LUVIZA (páginas 71-73)