• Nenhum resultado encontrado

4 METODOLOGIA DA PESQUISA

5.1 O contexto de enunciação das perguntas

Esse contexto consiste, entre outros, dos seguintes componentes:

a) cenário – o ensino de uma LE se insere no contexto educacional nacional e internacional. Reflete políticas educacionais que determinam uma ideologia de ensino de LE, programa de cursos, carga horária, conteúdo, material didático etc;

b) participantes – o professor e os alunos são os elementos fundamentais na aprendizagem de uma LE (com seus papéis e competências);

c) atividades- a pergunta integra uma atividade (LEVINSON, 1992); na sala de aula de LE, ela pode fazer parte das seguintes atividades:

- leitura (perguntas de compreensão de leitura); - escuta (perguntas de compreensão auditiva);

- apresentação do novo conteúdo (perguntas de compreensão do sistema lingüístico e das funções comunicativas);

- fala (perguntas de produção oral: exatidão formal e fluência).

d) abordagem - a abordagem de ensino privilegiada pelo professor vai direcionar todo o ritual da aula, assim como toda a operação global de ensino de línguas. Isso significa dizer que todos os professores fazem perguntas didáticas, mas a sua abordagem de ensino determina a forma e as funções delas.

O cenário

A pesquisa, realizada em uma universidade do estado de Pernambuco, teve como atores principais alunos e professores (não-nativos) de um curso de graduação em Letras que forma professores de LE.

As aulas foram observadas e gravadas em uma sala especialmente equipada para o ensino de línguas, com gravador, vídeo-cassete, TV, quadro especial e ar condicionado.

Um detalhe importante: observamos, em todas as aulas, que as carteiras são arrumadas de forma tradicional, o que, ao nosso ver, dificulta a interação, pois centraliza a atenção dos alunos no professor.

Os participantes

Os sujeitos que participaram da pesquisa (professores e alunos) trazem para a sala de aula marcas culturais, crenças (abordagem de ensino e de aprender), experiências acadêmicas e profissionais com a LE, que determinam, direta e/ou indiretamente, o uso das perguntas no ritual da aula. Assim, faremos uma descrição dos sujeitos da pesquisa tentando enfatizar mais os referidos aspectos.

• Formação escolar e profissional dos alunos

As informações nos quadros 07, 08, 09 e 10 sobre as experiências escolares e profissionais dos alunos com a língua inglesa foram obtidas por meio de um questionário elaborado para os alunos (vide anexo 01).

Quadro 07 Disciplina: Inglês III

Professor: P1 Total de alunos : 6

Média de idade : (entre 18 e 22)

Línguas estudadas no Ensino Fundamental e Médio: inglês: 6

espanhol: 2

Abordagens de ensino a que foram expostos: AAL : 6

Experiências profissionais com línguas estrangeiras: 0

Nível de competência comunicativa: elementar Fonte: pesquisa direta

Quadro 08 Disciplina: Inglês V

Professor: P2 Total de alunos : 19 Média de idade : (19 a 52)

Línguas estudadas no Ensino Fundamental e Médio: inglês: 19

espanhol: 2 francês : 2

Abordagens de ensino a que foram expostos: AAL : 16

AC : 03 (em cursos de inglês)

Experiências profissionais com línguas estrangeiras: Trabalho: ensino de inglês : 02

recepcionista: 1 Viagem ao exterior a turismo: 02

Nível de competência comunicativa: elementar (grande maioria), poucos (intermediário ) Fonte: pesquisa direta

Quadro 09 Disciplina: Inglês IV

Professor: P3 Total de alunos : 11 Média de idade : (17 a 31)

Línguas estudadas no Ensino Fundamental e Médio: inglês: 11

esperanto: 1 francês : 2

Abordagens de ensino a que foram expostos: AAL : 11

AC : 03 (em cursos de inglês)

Experiências profissionais com línguas estrangeiras: Trabalho: ensino de inglês : 01

tradutor-intérprete: 02 Viagem ao exterior a turismo: 03 Residência no exterior: 03

Nível de competência comunicativa: intermediário (a grande maioria) Fonte: pesquisa direta

Quadro 10 Disciplina: Inglês VI

Professor: P4 Total de alunos : 13 Média de idade : (18 a 30)

Línguas estudadas no Ensino Fundamental e Médio: inglês: 13

francês : 1

Abordagens de ensino a que foram expostos: AAL : 10

AC : 05 (em cursos livres de inglês)

Experiências profissionais com línguas estrangeiras: Trabalho: ensino de inglês : 01

Nível de competência comunicativa: elementar (a grande maioria). Fonte: pesquisa direta

• Formação acadêmica e profissional dos professores:

P1

P1 estudou inglês e francês na Escola de Ensino Fundamental e Médio, através de abordagens mais conservadoras - "grammar - translation", AAL, mas teve também contato com a AC. Na escola tradicional, o ensino se dava, principalmente, através de "formulação de perguntas e respostas em contextos situacionais".

Segundo P1, seu curso de graduação em Letras foi um tanto tradicional: "o método adotado não permitia ao aluno muita participação comunicativa, ficando o mesmo um tanto restrito a uma atitude de passividade e de aceitação plena do que era ensinado".

Profissionalmente, a experiência de P1 tem sido com o ensino de língua inglesa, tanto em escolas particulares - Escolas Fisk, Curso Britanic e Cultura Inglesa – como em instituições de nível superior. Desde que começou a ensinar, tem "sempre procurado

abordagens mais comunicativas, que obriguem o aluno a usar mecanismos de comunicação que o ajudem a expressar suas idéias e satisfazer suas necessidades".

Este professor salienta: "a necessidade de comunicar-se apenas em inglês forçou-me a desenvolver meus conhecimentos desta língua e aprimorar minhas técnicas comunicativas”.

P2

Na escola de Ensino Fundamental e Médio, P2 estudou francês, árabe e inglês. A abordagem seguida era a AAL, com ênfase nos exercícios padronizados. Dava-se atenção, também, à escrita e à leitura. No seu curso de graduação em Letras, a abordagem privilegiada foi a "mais tradicional: leitura / escrita com ênfase na gramática, interpretação". P2 acrescenta que as atividades comunicativas eram desenvolvidas através das discussões nas diferentes disciplinas. O curso foi ministrado todo em inglês, o que significa uma longa exposição à língua inglesa. Morou em país de língua inglesa por muito tempo, fato que contribuiu para o desenvolvimento de sua competência comunicativa na referida língua:

"O convívio com a língua estrangeira (língua inglesa) diariamente certamente, ajudou não somente a competência comunicativa mas também a fazer os devidos refinamentos." Essa afirmação pôde ser constatada em nossas observações: dentre os cinco professores observados, P2 demonstra ter o nível de fluência na língua inglesa mais elevado.

A experiência de ensino de língua inglesa ocorreu tanto em escolas de língua quanto em universidade.

P3

P3 estudou inglês e francês na escola de Ensino Fundamental e apenas inglês em escolas de línguas. Na escola, a habilidade comunicativa mais enfatizada era o "reading". Já nos cursos de línguas, "todas". No seu curso de graduação em Letras, a abordagem mais enfatizada foi a “estruturalista”, fato que P3 lamenta:

"Infelizmente a abordagem predominante era a estruturalista. Pouco era feito em relação às habilidades comunicativas."

P3 demonstrou, em suas aulas, um bom nível de competência comunicativa. Segundo o docente, as "viagens e residência no exterior e estas experiências me ajudaram a desenvolver a competência comunicativa devido à exposição ao “real world".

A sua experiência profissional com o ensino de inglês se deu nos colégios São Luís e Santa Maria, onde o mesmo seguia a AAL com ênfase na gramática. Na Escola Dom Bosco - Núcleo de Línguas do Estado, assim como na Cultura Inglesa, a abordagem adotada era a AC.

P4

P4 estudou inglês e francês Na Escola de Ensino Fundamental e Médio. A abordagem, segundo ele, era a tradicional, com ênfase na gramática; porém, ressalta que havia uma preocupação com a ampliação de "conhecimentos" e com as habilidades de “listening”, “reading” e “writing”. O seu curso de graduação em Letras foi "mesclado", ou seja, privilegiaram-se, tanto a AAL como AC.

A experiência de P4 com ensino de inglês poderia ser resumida da seguinte maneira: escola particular - de agosto a dezembro de 1971; curso de língua - de 1972 até o momento. P4 também trabalha como "guia turístico", o que, segundo ele, facilita o desenvolvimento de suas "speaking skills".

O quadro 11 abaixo, apresenta, de forma resumida, os principais aspectos das experiências escolares, acadêmicas e profissionais dos professores observados com a língua inglesa.

Quadro 11 – Formação acadêmica e profissional dos professores Línguas estudadas no Ensino Fundamental e Médio:

inglês: P1, P2, P3, P4 francês : P1, P2, P3, P4 árabe : P2

Abordagens de ensino a que foram expostos: no Ensino Fundamental e Médio:

AAL : P1 e P2 AC: P3

abordagem da gramática e da tradução: P4 nos curso de graduação em Letras:

AAL : P1, P3 AC : P2

abordagem eclética (AAL e AC): P4

Experiências profissionais com línguas estrangeiras:

Trabalho: P1, P2, P3 e P4 tiveram e/ou têm experiências de ensino em escolas de idiomas e em universidades. P4 trabalha como tradutora-intérprete.

Viagem e/ou residência no exterior (em país de língua inglesa):

Com exceção de P1, todos os professores tiveram, pelo menos, uma experiência de estudar e/ou morar em um país de língua inglesa: P2 morou por um longo tempo; P3 e P4 moraram por algum tempo.

Fonte: pesquisa direta

As informações fornecidas por P1, P2, P3 e P4 ajudam-nos a entender que suas experiências profissionais e acadêmicas exercem uma influência direta e/ou indireta sobre a abordagem de ensino usada em sala de aula, inclusive sobre o uso das perguntas.