• Nenhum resultado encontrado

II – MODELO METODOLÓGICO 

2     O CORPUS ELABORADO 

A  consideração  das  categorias  acima  descritas  constituiu  a  base  para  o  enxugamento do corpus inicial, resultando em um conjunto de 137 textos escolhidos, os quais  recobrem o recorte temporalmente feito (1999 a 2004) e abrangem temas diversos a partir do  seu  principal  objeto  de  discurso:  a  Agência  Brasileira  de  Inteligência. 36  Dos  textos  selecionados,  47  pertencem  ao  gênero  artigo  de  opinião;  37  ao  gênero  notícia;  19  correspondem  a  entrevistas;  18  a  editoriais;  8  equivalem  a  notas  de  colunas,  além  de  uma  nota de esclarecimento; cinco correspondem ao gênero carta do  leitor e duas  a reportagens. 

Buscando  explicitar  as  vozes  presentes  nesses  textos,  tentei  distribuí­las,  como  anteriormente  explicado,  de  forma  mais  ou  menos  igualitária 37  retirando,  dos  textos  em  referência,  excertos  específicos  que,  a  meu  ver,  mostravam  mais  claramente  a  dimensão  dialógica  dos  discursos  estudados.  Esse  procedimento  me  possibilitou  a  construção  de  um  corpus  de  trabalho  composto  por  195  excertos 38  retirados  dos  textos  selecionados,  correspondendo,  no  caso  em  tela,  ao  que  Maingueneau  (1976,  p.  15)  chama  de  corpus 

36 

Outros  40  textos  são  citados,  ilustrando  algumas  das  questões  discutidas no  desenvolvimento  da  pesquisa,  razão pela qual foram incorporados ao anexo que acompanha esta tese. 

37 

Para  facilitar  a  localização  das  vozes  que  atravessam  o  discurso  sobre  e  da  Abin  na  imprensa,  optei  por  adotar na transcrição dos fragmentos analisados, um sistema de notação, no qual em cada um dos excertos  transcritos é encontrado um símbolo gráfico que especifica  a instância da qual provém o enunciado. Desta  forma, todos os dizeres da Abin são antecedidos pelo símbolo ï, enquanto que aqueles oriundos da equipe  do  jornal  e  seus  eventuais  colaboradores  são  antecedidos  por ð.  Fragmentos  nos  quais  ambas  as  vozes  circulam expressamente de forma simultânea são acompanhados pela notaçãoó. 

38 

elaborado, ou seja, “aquele que se constitui a partir das hipóteses de trabalho construídas e da  determinação de um programa de análise capaz de delimitar o conjunto de enunciados a serem  estudados”. 

No caso de minha pesquisa,  a hipótese levantada, tomando por base o fenômeno  dialógico,  é  a  de  que  vigore  no  espaço  discursivo  dedicado  ao  tema  Abin  no  âmbito  da  imprensa  escrita,  um  dialogismo  de  cunho  polêmico  marcado  por  uma  bivocalidade  retórica  tendente ao monologismo, o que afastaria qualquer pretensão a uma autêntica polifonia, apesar  da plurivocalidade ali observada. 

A  hipótese construída provocou, naturalmente, o surgimento de questões que me  pareceram fundamentais no sentido de confirmá­la ou invalidá­la. De fato, se, em se tratando  de  discurso,  dialogismo  sempre  há,  parece  importante  verificar  em  que  bases  e  sob  quais  formas esse dialogismo opera nos textos que o corporificam. No processo da análise por mim  realizada tentei responder às indagações seguintes:

·  Existem formas lingüísticas específicas que denotem a existência de uma relação  polêmica no interior dos textos estudados?

·  Que  tipos  de  estratégias  discursivas  são  utilizadas  pelos  agentes  enunciadores  envolvidos na polêmica fundada na imprensa acerca da Abin? É possível falar de  estratégias discursivas próprias a cada uma das instâncias envolvidas? ·  Existem formas de dizer específicas quando o enunciador se dirige a um ouvinte  efetivo e a um ouvinte idealizado? ·  Em sua necessidade de afirmar o seu próprio ponto de vista face à multiplicidade  de vozes dissonantes que atravessam o seu dizer, de que forma o locutor negocia  com a heterogeneidade constitutiva do seu discurso?

·  Através  de  quais  marcas  é  possível  observar  os  modos  pelos  quais  os  enunciadores  reconhecem  ou  desconhecem,  rejeitam  ou  acolhem  a  palavra  do  outro? 

Para  responder  a  tais  questões,  foi  necessário  adotar,  de  um  ponto  de  vista  metodológico,  uma  dupla  abordagem:  (1)  quantitativa,  através  da  qual  pude  verificar,  por  exemplo, a repetibilidade de certos procedimentos de nominação que, sacralizantes, tendem a  construir  estereótipos  (sob  a  forma  de  palavras­slogans),  ou  ainda  a  freqüência  com  a  qual  alguns  modos  de  dizer  se  estabilizam  configurando  a  formação  de  verdadeiras  estratégias  enunciativas;  (2)  qualitativa,  no  sentido,  não  apenas  de  dar  nome  a  essas  estratégias  repetitivamente observadas,  mas, sobretudo, de tentar observá­las e apreendê­las  no contexto  dialógico da sua ocorrência. 

Em  síntese,  como  diz  Maingueneau  (1984),  se  “comparado  ao  universo  dos  possíveis,  o  campo  dos  discursos  recortados  e  estudados  por  uma  área  social  dada  é  apenas  uma ilhota de resíduos de uma exigüidade extrema”, tentei, na medida do possível, selecionar  um  conjunto  de  enunciados  capazes  de  pôr  em  destaque  as  várias  vozes  em  confronto  na  polêmica verificada. 

Marina  Yaguello  (1997b,  p.  15),  em  prefácio  a  Marxismo  e  Filosofia  da  Linguagem,  aponta  que  haveria  em  Bakhtin/Voloshinov  uma  crítica  implícita  à  noção  de  corpus, prática reducionista que tenderia a “reificar” a linguagem:  “o corpus transformaria as  enunciações em monólogos e, neste sentido, o procedimento dos lingüistas seria o mesmo que  o dos filólogos”. 

Mas essa crítica parece dirigir­se, sobretudo, a corpora constituídos no campo da  Linguistica  Estrutural  ou  do  “objetivismo  abstrato”  ao  qual  Bakhtin/Voloshinov  (1997b)  se  referem,  enquanto  visão  da  língua  na  qual  as  relações  dialógicas  são  abstraídas  e  domina  a  idéia da existência de um “sistema objetivo de formas normativas e intocáveis”.

A  constituição  de  um  corpus,  ainda  que  provocando  um  certo  fechamento  de  fronteiras quanto aos discursos estudados, pode tornar essas fronteiras permeáveis justamente  a partir da concepção dialógica do discurso que, mantendo o diálogo com o entorno verbal e  extraverbal do corpus constituído, permite que esse corpus se oxigene e respire, permanecendo  vivo e instigante.