IV – A ABIN NA IMPRENSA
1 O DISCURSO DA ABIN
1.1 Monofonia Enunciativa
O discurso da Abin na imprensa apresentou, em uma primeira leitura feita, a seguinte peculiaridade: tratase de um discurso proferido por uma voz única, com clara pretensão a uma monovalência de sentidos. Esse discurso, entretanto, não é proferido pelo representante legal da agência de inteligência, ou seja, seu Diretor Geral, mas pelo Ministro Chefe do Gabinete de Segurança Institucional da Presidência da República (GSI), órgão ao qual a Abin é subordinada. De fato, desde a criação legal da agência (1999) até o ano de 2002, é o General Alberto Mendes Cardoso – ministrochefe do GSI durante esse período – quem responde a entrevistas (textos 94/1999, 27/2000, 37/2000, 142/2000, 206/2000), dá declarações diversas, e assina artigos de opinião (textos 243/2000, 59/2001, 79/2001).
A ordem do discurso instaura aqui os seus “processos de interdição” no sentido que Foucault empresta ao termo:
Sabese bem que não temos o direito de dizer tudo, que não se pode falar de tudo em qualquer circunstância, que qualquer um, enfim, não pode falar de qualquer coisa. Tabu do objeto, ritual da circunstância, direito privilegiado ou exclusivo do sujeito que fala: temos aí o jogo de três tipos de interdições que se cruzam, que se reforçam ou se compensam, formando uma grade complexa que não cessa de se modificar. (FOUCAULT, 1999, p. 9).
No caso da Abin, há uma espécie de hierarquização enunciativa que resulta no silenciamento do próprio representante legal da instituição, cabendo ao seu superior hierárquico o encargo de dizer a Abin no espaço da imprensa. Poucas são as referências
encontradas 58 a enunciados dos diretores gerais Ariel De Cunto (1999 a 2000) e Marisa Del'Isola e Diniz (2000 a 2004), referências estas que, quando encontradas, se apresentam sob as diversas formas do discurso reportado 59 . Tanto Ariel De Cunto como Marisa Del'Isola são constantemente referenciados na mídia como pessoas “discretas”, o que explicaria, na ótica de seus superiores hierárquicos, a pouca freqüência com que as suas vozes aparecem na imprensa escrita:
(36)
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Antes das denúncias da revista Veja [que o agente Carlos Alberto Del Menezzi teria sido torturador durante a ditadura], De Cunto poderia ser confundido com qualquer funcionário do Palácio do Planalto. Cerca de 60 anos, baixo, calvo e de óculos, era educado com os subalternos e passava despercebido pelos superiores de outras áreas [...]. Apesar da posição discreta e pouco perceptível, De Cunto virou alvo de críticas diante de denúncias de que a Abin investigou a vida privada de diversas pessoas, incluindo o governador de Minas Gerais, Itamar Franco, o filho do presidente, Paulo Henrique Cardoso, o promotor Luiz Francisco de Souza, servidores públicos e um jornalista. (Jornalistas Sônia Carneiro e Renata Giraldi, em notícia publicada noJornal do Brasil– Texto 188/2000).
(37)
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O ministrochefe do Gabinete de Segurança Institucional, general Alberto Cardoso, assim definiu a subordinada: “ A doutora Marisa é uma mulher muitíssimo competente, séria e discreta. Vocês jamais verão uma entrevista dela. É bom que o (a) chefe do Serviço de Inteligência fale pouco” . Cardoso alertou que a orientação será para que a nova responsável pela Abin evite falar, mantendo discrição. [...] “ Ele [o ex diretor Ariel De Cunto] sempre falou com a minha autorização. Mas o ideal é que o diretor ou a diretora da agência fale pouco”. (General Alberto Mendes Cardoso, ministrochefe do GSI, segundo notícia de autoria não especificada, publicada noJornal do Brasil– Texto 198/2000).
58
Foram localizados 40 textos que trazem o nome de De Cunto, oito deles reproduzindo excertos de notas oficiais da Abin, enquanto dez utilizam o seu nome como mera referência funcional ao cargo por ele ocupado. O texto 11/2000 além de citar o ministrochefe do Gabinete de Segurança Institucional, general Alberto Cardoso, se refere ao “seu segundo na Abin”, no caso o coronel Ariel de Cunto. Já no que diz respeito a Marisa Del'Isola, foram localizados 22 textos, um deles correspondendo a uma nota oficial da Abin reproduzida na íntegra (texto 58/2003) e nove fazendo apenas referências funcionais ao seu nome enquanto diretora geral da Abin.
59
A aparente monofonia observada é raramente quebrada quando escândalos envolvendo a instituição eclodem na imprensa e provocam o surgimento de depoimentos prestados por servidores neles diretamente envolvidos, do que podem ser exemplos os casos do escândalo dos grampos no BNDES (textos 98/1999, 104/1999 e 36/2001) ou da suposta existência de um torturador no quadro de servidores da Abin (texto 187/2000).
Os enunciados acima se referem ambos à discrição como atributo próprio ao cargo de diretor geral da Abin. Mas se o primeiro exemplo (36) apenas faz referência a essa discrição, encarnada, no caso, na pessoa de De Cunto, o segundo excerto (37) tem um teor claramente injuntivo, ainda que fuja do clássico uso da forma verbal imperativa. O enunciado não apenas exorta o dirigente da Abin a se manter discreto (é bom que o chefe do Serviço de Inteligência fale pouco), como é dotado de um caráter instrucional, quando prescreve a orientação a ser dada e mantida.
Essa valorização da discrição em detrimento ao livre uso da palavra (vocês jamais verão uma entrevista dela) parece ser em parte responsável pela pouca freqüência com que as vozes de De Cunto e de Marisa Del'Isola aparecem no espaço da imprensa ou pelo caráter lacônico de algumas das poucas declarações feitas:
(38)
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Cunto não soube explicar se a atuação dos militares era oficial ou paralela nessas operações conjuntas, nem dizer se era a cúpula do SNI que autorizava as mobilizações. “ Isso eu não sei. O SNI foi extinto em 1990, e muitas coisas aconteceram. Cheguei na Abin em 1996, não sei de nada”, afir mou o cor onel. (Coronel Ariel de Cunto, diretorgeral da Abin, segundo a jornalista Sônia Carneiro, em notícia publicada no Jornal do Brasil Texto 31/2000).
(39)
ó
O governo paraguaio foi avisado pelo governo brasileiro, com pelo menos quatro dias de antecedência, dos preparativos do golpe deflagrado na noitemadrugada do último dia 18. A informação foi colhida pela Embaixada do Brasil em Assunção e repassada à Abin (Agência Brasileira de Inteligência). [...] Questionado sobre a ação do serviço brasileiro de inteligência, o diretor da Abin, o coronel Ariel de Cunto, disse apenas: Não vamos comentar o assunto. (Coronel Ariel de Cunto, diretorgeral da Abin, segundo os jornalistas Rui Nogueira e William França, em notícia publicada na Folha de São Paulo Texto 60/2000).
Ocorre uma quebra desse paradigma com a ascensão do delegado da Polícia Civil Mauro Marcelo de Lima e Silva ao posto de diretor geral da Abin, durante o segundo trimestre de 2004. A discrição – tida até então como atributo ideal para o cargo – cede lugar a uma proliferação de textos que trazem o novo diretor para o centro da cena enunciativa, não apenas no que concerne ao número de entrevistas concedidas – cinco, no período de apenas
três meses (textos 168, 172, 178, 290 e 291/2004) – mas também quanto à quantidade de comentários e de citações (mais de uma centena) encontradas nas matérias jornalísticas então produzidas.
As declarações de Lima e Silva junto à mídia – dando maior visibilidade á instituição – pretendem ser pautadas, como ele próprio o afirma, por uma maior transparência quanto às ações e à missão institucional da Abin:
(40)
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Ao assumir a direção geral da instituição, destaco, mais uma vez, o caráter democrático que rege minhas convicções. E a certeza de que essa será uma gestão a primar pela transparência. Infelizmente, boa parte da crônica da inteligência é episódica de tocaias contra a cidadania, de vilanias contra o senso comum. Esses tempos, em que a atividade de inteligência era um dos kits de sobrevivência do Estado paralelo, foram definitivamente encerrados. (Mauro Marcelo de Lima e Silva, diretorgeral da Abin, em artigo de opinião publicado na Folha de São Paulo – Texto 124/2004).
(41)
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Sem criticála [a exdiretora da Abin], a posição minha é completamente diferente. Eu quero é levantar esse manto do secretismo. [...] O que detectei é que existe um preconceito muito grande com a atividade de inteligência, não só no Brasil, mas em vários países, por causa de desmandos no passado. A idéia é desmitificar. O senso comum do povão é pautado por filme hollywoodiano, literatura ficcional. Todo mundo pensa que somos agente secreto, James Bond, carros bonitos, mulheres bonitas. Não é assim. A Abin é pobre. Temos problemas de recursos. (Mauro Marcelo de Lima e Silva, diretorgeral da Abin, em entrevista publicada em O Povo – Texto 168/2004).
Essa quebra de paradigma, expressada na busca de uma maior transparência, em nada diminui, entretanto, o caráter aparentemente monofônico do discurso da Abin na imprensa. O sistema de restrições permanece marcado pela questão da autoridade e da posição hierárquica, como ressalta o próprio Lima e Silva:
(42)
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Vou ter liberdade de contato [com o presidente da República], mas o meu chefe é o ministro general J orge F élix. (Mauro Marcelo de Lima e Silva, diretorgeral da Abin, segundo a jornalista Tânia Monteiro, em notícia publicada emO Estado de São Paulo –Texto 126/2004).
(43)
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Não se modifica a cultura do povo, de uma instituição, do dia pra noite. É evidente que alguns vícios ainda existem. Em algumas reuniões, só faltava o pessoal bater continência. Quebrei o gelo lá com todo mundo.
Hoje estamos comandando, eu e a nova diretoria – modifiquei 80% dos cargos de direção – estamos trabalhando muito mais como se fosse um colegiado. Nada é feito na Abin sem passar na mesa do diretor. [...] Em tese, a Abin só pratica qualquer tipo de ato, qualquer operação, com ciência do diretor. (Mauro Marcelo de Lima e Silva, diretorgeral da Abin, em entrevista publicada emO Povo – Texto 168/2004).
(44)
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O que é bom, de certa maneira, é que os funcionários aqui são enquadrados. Eles têm alguma coisa que não é exatamente doutrina militar, mas tiveram comandantes militares durante muitos anos e adquiriram um respeito muito grande à hierarquia. Hoje, quem manda na agência sou eu. O pior cenário é o do funcionário autorizado com conduta não autorizada. (Mauro Marcelo de Lima e Silva, diretorgeral da Abin, em entrevista publicada na Folha de São Paulo –Texto 291/2004).
Se em (42) Lima e Silva colocase como subordinado, nos excertos seguintes ((43) e (44)) ele assume uma posição de comando, evidenciando, assim, a rígida escala hierárquica existente na instituição.
Interessante observar que no exemplo (43), o diretor vai se autoreferir como uma terceira pessoa, o que vai ao encontro da observação bakhtiniana (200a, pp. 5758) de que o indivíduo pode perceberse através de um sentimento externo convertendose, assim, em seu próprio objeto. Aqui, é o lugartenente que é posto em cena pelo seu ocupante ou, em termos lacanianos, o jemoi que é enunciado enquanto imagem especular de si próprio que circunscreve uma forma de habitar o mundo. A presença de uma imagem especular do outro também se faz presente no mesmo enunciado através da referência à cultura do povo, em uma construção discursiva sui generis ao fazer uso de um artigo definido em lugar do indefinido (não se trata da cultura de um povo, mas da cultura do povo). Os efeitos de sentido permanecem truncados em razão da estrutura sintática do enunciado. Interpretativamente falando, seria possível considerar a presença de um equívoco, querendo o locutor dizer que, do mesmo modo que não se modifica a cultura de “um” povo do dia para a noite, também é impossível mudar rapidamente a cultura de “uma” instituição. O enunciado desliza, desta forma, de uma generalização a uma restrição semântica, sem que o leitor possa se situar de forma precisa quanto às intenções do enunciador....
No último dos exemplos dados (44), a palavra de autoridade ganha uma corporalidade mais definida, corporalidade esta que, conjugada na primeira pessoa (quem manda na agência sou eu), reafirma o lugar enunciativo de onde o locutor fala para, logo em seguida, referirse aos servidores da agência como funcionários enquadrados, com respeito muito grande à hierarquia.
Mas o uso feito da hierarquia existente, como estratégia para a instauração de um dizer aparentemente monofônico, não interrompe o incessante atravessamento de outras vozes no discurso da Abin, sejam elas desejadas ou indesejadas 60 .
1.2 Dimensões Dialógicas do Discurso da Abin
Um breve retorno a dois excertos anteriormente transcritos ((40) e (41)) serve para exemplificar algumas das formas pelas quais o dialogismo atua no discurso pretensamente monovocal da Abin. No primeiro excerto, à transparência defendida pelo novo diretor é contraposto um modelo de gestão anterior, evocado por Lima e Silva como um modelo caracterizado por tocaias contra a cidadania, vilanias contra o senso comum e variadas arbitrariedades. Temse, assim, que esse discurso aparentemente homogêneo se abre ao registro histórico de um tempo passado trazido para o presente como eco e ressonância de um outro discurso. Em (40), a inserção de uma voz outra no plano enunciativo dáse através da referência feita ao senso comum do povão, que é, logo em seguida, refutado pelo enunciador.
Inúmeras são as vozes presentes no discurso da Abin, ali instaurando dimensões dialógicas diversas. Introduzindo em seu próprio dizer vozes ecóicas ou vozes dissonantes, o enunciador não apenas dialoga com o seu ouvinte concreto, participante ativo da interlocução 60 Como afirma Bakhtin (2000d, p. 318) em todo enunciado, contanto que o examinemos com apuro, levando em conta as condições concretas da comunicação verbal, descobriremos as palavras do outro ocultas ou semi ocultas, e com graus diferentes de alteridade.
direta, como também dialoga com um interlocutor fisicamente ausente (como em (45) e (46)) ou com uma voz sem nome, difusa, que é inserida na enunciação (como em (47) e (48)):
(45)
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[Ariel Decunto] É de absoluta confiança, amigo de infância, irmão. Eu falei: “ Ariel, ouvi isso lá do J oão Guilherme, nós temos que achar essas fitas, temos que ter essas fitas. Final de setembro” . “ Alberto, temos as fitas, chegaram as fitas” . (General Alberto Mendes Cardoso, ministrochefe do GSI, em entrevista publicada noJornal do Brasil –Texto 94/1999).(46)
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Os serviços de inteligência funcionam até hoje nas democracias modernas para combater inimigos externos. Um estudo feito pela pesquisadora Priscila Antunes, da Fundação Ford, aponta ser o erro mais grave da Abin priorizar inimigos internos.
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Engano dela. Tem muita gente falando sobre a Abin sem conhecer. A agência tem um departamento de assuntos internacionais e outro de nacionais. (General Alberto Mendes Cardoso, ministrochefe do GSI, em entrevista publicada na revista IstoÉ –Texto 142/2000).
(47)
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Eu digo: se ilude aquele ministro que acha que tem poder. Corre o risco de, numa primeira iniciativa errada, cair fora. Aí ele vai ver que seu poder não existia, estava ao alcance da caneta do presidente da República. Então, essa história de que o Cardoso está recebendo muito poder... Não, o Cardoso está recebendo algumas atribuições que o presidente resolveu colocar aqui, nenhuma delas pedida ou insinuada por nós. (General Alberto Mendes Cardoso, ministrochefe do GSI, em entrevista publicada na Folha de São Paulo – Texto 27/2000).
(48)
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É que nos arquivos há aqueles " constam que" , " dizem que" , que ofendem as pessoas. Existia tendência na época de botar tudo no papel, todas as fofocas. [...] Era uma maneira de fazer pressão. (Mauro Marcelo de Lima e Silva, diretorgeral da Abin, em entrevista publicada na Folha de São Paulo –Texto 290/2004).
O enunciado (45) apresenta um interessante jogo de superposição de vozes colocadas em um mesmo plano enunciativo, ou seja, uma complementando a outra com vistas a criar um mesmo efeito de sentido. A formatação dada ao texto faz do uso das aspas como marcador de distinção dessas duas vozes postas em ação no desenvolvimento narrativo (do ministrochefe do GSI e do diretorgeral da Abin). Também em (46) as vozes introduzidas são claramente demarcadas, mas, diferentemente de (45) o enunciado é marcado pela alternância da palavra e da contrapalavra, ambas contracenando com um terceiro participante (a pesquisadora) que ocupa o centro do evento enunciativo. Já os enunciados (47) e (48)
mostram a presença de vozes que se opõem, sem que elas se encontrem formalmente delimitadas. Assistese em (47) à inserção da voz de outrem sob a forma de um “discurso indireto analisador do conteúdo”, enquanto que em (48) predomina o “discurso indireto analisador da expressão”. Em ambos os casos, o terceiro participante, claramente nomeado em (45) e (46) adquire em (47) e (48) a forma de um dizer outro sem qualquer indicação precisa quanto à sua origem.
Esse dizer difuso, generalizado, atribuído a uma voz coletiva posta em ação, pode assumir a forma de um dizer o mesmo com um dizer a mais, com uma outra linguagem (no exemplo a seguir, a linguagem religiosa) de um “dizer de uma outra forma”, que ecóicamente fortalece o dito:
(49)
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Necessária é, portanto, vigilância redobrada com o objetivo de permitir que continuemos no Brasil a viver, para usar os salmos, sem "nos assustarmos com o terror noturno nem com a mortandade que assola ao meiodia". (General Alberto Mendes Cardoso, ministrochefe do GSI, em artigo de opinião publicado na Folha de São Paulo – Texto 79/2001).
Ou pode penetrar no campo de um dialogismo que se instaura com a própria língua, nos termos de um dizer em relação ao qual o enunciador ao mesmo tempo em que dele faz uso, dele toma distância, assinalando a sua não pertença à linguagem que julga ser a sua:
(50)
ï
Para usar uma expressão de traseira de caminhão, queremos perguntar como estamos dirigindo. Se sentirmos que estamos em descompasso com o que esperam de nós, vamos mudar. (General Jorge Armando Félix, ministrochefe do GSI, segundo notícia de autoria não especificada, publicada na Folha de São Paulo –Texto 28/2003).
(51)
ó
“ Espionagem política é coisa do passado. Conheço bem o general Cardoso, não seria do feitio dele permitir isso” disse o general, acrescentando: “ Não tem componente, como se diria na gíria, de fofoca. Isso não tem mais” . (General Jorge Armando Félix, ministrochefe do GSI, segundo notícia de autoria não identificada, publicada em O Globo – Texto 84/2002).
Ao referirse a uma expressão de traseira de caminhão (50) e a fofoca (51) como expressão de gíria, o enunciador anuncia que toma de empréstimo palavras que não são suas, instaurando um dialogismo marcado pela nãocoincidência do discurso consigo mesmo. Esse tipo de modalização autonímica dita de empréstimo (AUTHIERREVUZ, 2001b) – apresenta aqui um duplo movimento: ao mesmo tempo em que o locutor tenta realizar uma aproximação com uma linguagem do cotidiano ele afasta tal possibilidade ao deixar claro não ser esta a sua forma habitual de expressão.
A assinalação de uma não pertença também está presente no enunciado abaixo:
(52)
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O termo corregedoria é um pouco pesado para a instituição, mas é para evitar algo inconcebível: uma agência de inteligência permitir vazamento de informação. (Mauro Marcelo de Lima e Silva, diretorgeral da Abin, em entrevista publicada na Folha de São Paulo– Texto 290/2004).
Mas, diferentemente dos enunciados (50) e (51), não é a existência de “dialetos sociais” diversos que é aqui marcada. O que é posto em causa é a própria inadequação da palavra usada, presentificando uma não coincidência entre a palavra e a coisa. Nesse caso, o enunciador como que se desculpa pela palavra que usa, indicando uma falha, uma falta da palavra exata para o que quer dizer, e, assim o fazendo, instaura um dialogismo com a palavra de “outrem”, ou, como diria Bakhtin (1988a, p.100) com uma palavra já “povoada ou superpovoada de intenções de outrem”. 61
O diálogo instaurado do discurso consigo mesmo pode, finalmente, dar origem à formação de um duplo do enunciador, implicando um diálogo com o seu próprio dizer no momento em que é dito: 61 Nesse sentido: “Cada palavra evoca um contexto ou contextos, nos quais ela viveu sua vida socialmente tensa; todas as palavras e formas são povoadas de intenções. [...] A palavra da língua é uma palavra semialheia. Ela só se torna ‘própria’ quando o falante a povoa com sua intenção, com seu acento, quando a domina através do discurso, tornaa familiar com a sua orientação semântica e expressiva. Nem todos os discursos se prestam de maneira igualmente fácil a essa assimilação e a esta apropriação: muitos resistem firmemente, outros permanecem alheios, soam de maneira estranha na boca do falante que se apossou deles, não podem ser assimilados por seu contexto e escapam dele; é como eles, fora da vontade do falante, se colocassem entre aspas”. (BAKHTIN, 1988a, p. 100).
(52)
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Nossos ''policiais'' não podem andar armados. Nossos “policiais” não têm poder... (risos) Ato falho aí. Os nossos agentes, nossos analistas da Abin não podem andar armados. Não podem fazer investigação. (Mauro Marcelo de Lima e Silva, diretorgeral da Abin, em entrevista publicada em O Povo – Texto 168/2004).
O movimento diálogico aqui presente opera um retorno reflexivo do enunciador sobre as suas próprias palavras, indicando a sua incorreção, a sua impropriedade, através de um comentário (ato falho aí) por meio do qual ele ressalta o seu equívoco quanto à palavra usada (nossos policiais) e efetua a sua correção no interior do que enuncia (nossos analistas). Nesse caso, o contexto extraverbal é requerido para que se possa entender como sendo ato