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IV – A ABIN NA IMPRENSA 

1   O DISCURSO DA ABIN 

1.1  Monofonia Enunciativa 

O  discurso  da  Abin  na  imprensa  apresentou,  em  uma  primeira  leitura  feita,  a  seguinte  peculiaridade:  trata­se  de  um  discurso  proferido  por  uma  voz  única,  com  clara  pretensão  a  uma  monovalência  de  sentidos.  Esse  discurso,  entretanto,  não  é  proferido  pelo  representante legal da agência de inteligência, ou seja, seu Diretor Geral, mas pelo Ministro­  Chefe  do  Gabinete  de  Segurança  Institucional  da  Presidência  da  República  (GSI),  órgão  ao  qual a Abin é subordinada. De fato, desde a criação legal da agência (1999) até o ano de 2002,  é o  General  Alberto Mendes  Cardoso  – ministro­chefe do GSI durante esse período  – quem  responde  a  entrevistas  (textos  94/1999,  27/2000,  37/2000,  142/2000,  206/2000),  dá  declarações diversas, e assina artigos de opinião (textos 243/2000, 59/2001, 79/2001). 

A ordem  do  discurso  instaura  aqui  os  seus  “processos  de  interdição”  no  sentido  que Foucault empresta ao termo: 

Sabe­se bem que não temos o direito de dizer tudo, que não se pode falar de  tudo  em  qualquer circunstância, que  qualquer um,  enfim,  não pode  falar  de  qualquer  coisa.  Tabu  do  objeto,  ritual  da  circunstância,  direito  privilegiado  ou exclusivo do sujeito que fala: temos aí o jogo de três tipos de interdições  que  se  cruzam,  que  se  reforçam  ou  se  compensam,  formando  uma  grade  complexa que não cessa de se modificar. (FOUCAULT, 1999, p. 9). 

No  caso  da  Abin,  há  uma  espécie  de  hierarquização  enunciativa  que  resulta  no  silenciamento  do  próprio  representante  legal  da  instituição,  cabendo  ao  seu  superior  hierárquico  o  encargo  de  dizer  a  Abin  no  espaço  da  imprensa.  Poucas  são  as  referências

encontradas 58  a  enunciados  dos  diretores  gerais  Ariel  De  Cunto  (1999  a  2000)  e  Marisa  Del'Isola e Diniz (2000 a 2004), referências estas que, quando encontradas, se apresentam sob  as diversas formas do discurso reportado 59 .  Tanto Ariel De Cunto como Marisa Del'Isola são constantemente referenciados na  mídia como pessoas “discretas”, o que explicaria, na ótica de seus superiores hierárquicos, a  pouca freqüência com que as suas vozes aparecem na imprensa escrita: 

(36) 

ð

 

Antes das denúncias da revista  Veja [que  o  agente Carlos  Alberto  Del Menezzi teria sido torturador durante a ditadura], De Cunto poderia ser  confundido com qualquer funcionário do Palácio do Planalto. Cerca de 60  anos,  baixo,  calvo  e  de  óculos,  era  educado  com  os  subalternos  e  passava  despercebido  pelos  superiores  de  outras  áreas  [...].  Apesar  da  posição  discreta  e  pouco  perceptível,  De  Cunto  virou  alvo  de  críticas  diante  de  denúncias  de  que  a  Abin  investigou  a  vida  privada  de  diversas  pessoas,  incluindo  o  governador  de  Minas  Gerais,  Itamar  Franco,  o  filho  do  presidente, Paulo Henrique Cardoso, o promotor Luiz Francisco de Souza,  servidores  públicos  e  um  jornalista.  (Jornalistas  Sônia  Carneiro  e  Renata  Giraldi, em notícia publicada noJornal do Brasil– Texto 188/2000). 

(37) 

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O ministro­chefe do Gabinete de Segurança Institucional, general  Alberto  Cardoso,  assim  definiu  a  subordinada:  “ A  doutora  Marisa  é  uma  mulher  muitíssimo  competente,  séria  e  discreta.  Vocês  jamais  verão  uma  entrevista  dela.  É  bom  que  o  (a)  chefe  do  Serviço  de  Inteligência  fale  pouco” .  Cardoso  alertou  que  a  orientação  será  para  que  a  nova  responsável  pela  Abin  evite  falar,  mantendo  discrição.  [...]  “ Ele  [o  ex­  diretor Ariel De Cunto] sempre falou com a minha autorização. Mas o ideal  é  que  o  diretor  ou  a  diretora  da  agência  fale  pouco”.  (General  Alberto  Mendes  Cardoso,  ministro­chefe  do  GSI,  segundo  notícia  de  autoria  não  especificada, publicada noJornal do Brasil– Texto 198/2000). 

58 

Foram  localizados  40  textos  que  trazem  o  nome  de  De  Cunto,  oito  deles  reproduzindo  excertos  de  notas  oficiais  da  Abin,  enquanto  dez    utilizam  o  seu  nome  como  mera  referência  funcional  ao  cargo  por  ele  ocupado.  O  texto  11/2000  além  de  citar  o  ministro­chefe  do  Gabinete  de  Segurança  Institucional,  general  Alberto  Cardoso,  se  refere  ao  “seu  segundo  na  Abin”,  no  caso  o  coronel  Ariel  de  Cunto.  Já  no  que  diz  respeito a Marisa Del'Isola, foram localizados 22 textos, um deles correspondendo a uma nota oficial da Abin  reproduzida na íntegra (texto 58/2003) e nove fazendo apenas referências funcionais ao seu nome enquanto  diretora geral da Abin. 

59 

A aparente monofonia observada é raramente quebrada quando escândalos envolvendo a instituição eclodem  na  imprensa  e  provocam  o  surgimento  de  depoimentos  prestados  por  servidores  neles  diretamente  envolvidos,  do  que  podem  ser  exemplos  os  casos  do  escândalo  dos  grampos  no  BNDES  (textos  98/1999,  104/1999  e  36/2001)  ou  da  suposta  existência  de  um  torturador  no  quadro  de  servidores  da  Abin  (texto  187/2000).

Os enunciados acima se referem ambos à discrição como atributo próprio ao cargo  de  diretor  geral  da  Abin.  Mas  se  o  primeiro  exemplo  (36)  apenas  faz  referência  a  essa  discrição,  encarnada,  no  caso,  na  pessoa  de  De  Cunto, o  segundo  excerto  (37) tem  um  teor  claramente injuntivo, ainda que fuja do clássico uso da forma verbal imperativa. O enunciado  não apenas exorta o dirigente da Abin a se manter discreto (é bom que o chefe do Serviço de  Inteligência  fale  pouco),  como  é  dotado  de  um  caráter  instrucional,  quando  prescreve  a  orientação a ser dada e mantida. 

Essa valorização da discrição em detrimento ao livre uso da palavra (vocês jamais  verão uma entrevista dela) parece ser em parte responsável pela pouca freqüência com que as  vozes  de  De  Cunto  e  de  Marisa  Del'Isola  aparecem  no  espaço  da  imprensa  ou  pelo  caráter  lacônico de algumas das poucas declarações feitas: 

(38) 

ó

 

Cunto não soube explicar se a atuação dos militares era oficial ou  paralela nessas operações conjuntas, nem dizer se era a cúpula do SNI que  autorizava  as  mobilizações. “ Isso  eu  não  sei.  O SNI foi  extinto  em  1990,  e  muitas  coisas  aconteceram.  Cheguei  na  Abin  em  1996,  não  sei  de  nada”,  afir mou o cor onel. (Coronel Ariel de Cunto, diretor­geral da Abin, segundo  a jornalista Sônia Carneiro, em notícia publicada no Jornal do Brasil ­ Texto  31/2000). 

(39) 

ó

 

O governo paraguaio foi avisado pelo governo brasileiro, com pelo  menos quatro dias de antecedência, dos preparativos do golpe deflagrado na  noite­madrugada  do  último  dia  18.  A  informação  foi  colhida  pela  Embaixada  do  Brasil  em  Assunção  e  repassada  à  Abin  (Agência  Brasileira  de  Inteligência).  [...]  Questionado  sobre  a  ação  do  serviço  brasileiro  de  inteligência, o diretor da Abin, o coronel Ariel de Cunto, disse apenas: Não  vamos comentar o assunto. (Coronel  Ariel  de Cunto,  diretor­geral  da Abin,  segundo os jornalistas Rui Nogueira e William França, em notícia publicada  na Folha de São Paulo­ Texto 60/2000). 

Ocorre uma quebra desse paradigma com a ascensão do delegado da Polícia Civil  Mauro  Marcelo  de  Lima  e  Silva  ao  posto  de  diretor  geral  da  Abin,  durante  o  segundo  trimestre de 2004.  A discrição – tida até então como atributo ideal para o cargo – cede lugar a  uma proliferação de textos que trazem o novo diretor para o centro da cena enunciativa, não  apenas  no que concerne ao número de entrevistas concedidas – cinco, no período de apenas

três  meses  (textos  168,  172,  178,  290  e  291/2004)  –  mas  também  quanto  à  quantidade  de  comentários e de citações (mais de uma centena) encontradas nas matérias jornalísticas então  produzidas. 

As  declarações  de  Lima  e  Silva  junto  à  mídia  –  dando  maior  visibilidade  á  instituição – pretendem ser pautadas, como ele próprio o afirma, por uma maior transparência  quanto às ações e à missão institucional da Abin: 

(40) 

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Ao assumir a direção geral da instituição, destaco, mais uma vez, o  caráter  democrático  que  rege  minhas  convicções.  E  a  certeza  de  que  essa  será  uma  gestão  a  primar  pela  transparência.  Infelizmente,  boa  parte  da  crônica  da  inteligência  é  episódica  de  tocaias  contra  a  cidadania,  de  vilanias  contra  o  senso  comum.  Esses  tempos,  em  que  a  atividade  de  inteligência  era  um  dos  kits  de  sobrevivência  do  Estado  paralelo,  foram  definitivamente encerrados.  (Mauro Marcelo de Lima e Silva, diretor­geral  da  Abin,  em  artigo  de  opinião  publicado  na  Folha  de  São  Paulo – Texto  124/2004). 

(41) 

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Sem  criticá­la  [a  ex­diretora  da  Abin],  a  posição  minha  é  completamente  diferente.  Eu  quero  é  levantar  esse  manto  do  secretismo.  [...]  O  que  detectei  é  que  existe  um  preconceito  muito  grande  com  a  atividade de inteligência, não só no Brasil, mas em vários países, por causa  de desmandos no passado. A idéia é desmitificar. O senso comum do povão  é pautado por filme hollywoodiano, literatura ficcional. Todo mundo pensa  que  somos  agente  secreto,  James  Bond,  carros  bonitos,  mulheres  bonitas.  Não  é  assim.  A  Abin  é  pobre.  Temos  problemas  de  recursos.  (Mauro  Marcelo de Lima e Silva, diretor­geral da Abin, em entrevista publicada em  O Povo – Texto 168/2004). 

Essa quebra de paradigma,  expressada  na  busca de uma  maior transparência, em  nada  diminui,  entretanto,  o  caráter  aparentemente  monofônico  do  discurso  da  Abin  na  imprensa. O sistema de restrições permanece marcado pela questão da autoridade e da posição  hierárquica, como ressalta o próprio Lima e Silva: 

(42) 

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Vou ter liberdade de contato [com o presidente da República], mas  o meu chefe é o  ministro general J orge F élix. (Mauro Marcelo  de Lima  e  Silva, diretor­geral da Abin, segundo a jornalista Tânia Monteiro, em notícia  publicada emO Estado de São Paulo –Texto 126/2004). 

(43) 

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Não se modifica a cultura do povo, de uma instituição, do dia pra  noite. É evidente que alguns vícios ainda existem. Em algumas reuniões, só  faltava  o  pessoal  bater  continência.  Quebrei  o  gelo  lá  com  todo  mundo.

Hoje  estamos  comandando,  eu  e  a  nova  diretoria – modifiquei  80%  dos  cargos  de  direção – estamos  trabalhando  muito  mais  como  se  fosse  um  colegiado.  Nada  é  feito  na  Abin  sem  passar  na  mesa  do  diretor.  [...]  Em  tese, a Abin só pratica qualquer tipo de ato, qualquer operação, com ciência  do  diretor.  (Mauro  Marcelo  de  Lima  e  Silva,  diretor­geral  da  Abin,  em  entrevista publicada emO Povo – Texto 168/2004). 

(44) 

ï

 

O  que  é  bom,  de  certa  maneira,  é  que  os  funcionários  aqui  são  enquadrados. Eles têm alguma coisa que não é exatamente doutrina militar,  mas  tiveram  comandantes  militares  durante  muitos  anos  e  adquiriram  um  respeito muito grande à hierarquia. Hoje, quem manda na agência sou eu.  O pior cenário é o do funcionário autorizado com conduta não autorizada.  (Mauro  Marcelo  de  Lima  e  Silva,  diretor­geral  da  Abin,  em  entrevista  publicada na Folha de São Paulo –Texto 291/2004). 

Se  em  (42)  Lima  e  Silva  coloca­se  como  subordinado,  nos  excertos  seguintes  ((43) e  (44)) ele  assume  uma  posição  de  comando,  evidenciando,  assim,  a  rígida  escala  hierárquica existente na instituição. 

Interessante observar que no exemplo (43), o diretor vai se auto­referir como uma  terceira pessoa, o que vai ao encontro da observação bakhtiniana (200a, pp. 57­58) de que o  indivíduo pode perceber­se através de um sentimento externo convertendo­se, assim, em seu  próprio objeto. Aqui, é o lugar­tenente que é posto em cena pelo seu ocupante ou, em termos  lacanianos,  o  je­moi  que  é  enunciado  enquanto  imagem  especular  de  si  próprio  que  circunscreve uma forma de habitar o mundo. A presença de uma imagem especular do outro  também se faz presente no mesmo enunciado através da referência à cultura do povo, em uma  construção discursiva sui generis ao fazer  uso de um artigo definido em  lugar  do indefinido  (não  se  trata  da  cultura  de  um  povo,  mas  da  cultura  do  povo).  Os  efeitos  de  sentido  permanecem  truncados  em  razão  da  estrutura  sintática  do  enunciado.  Interpretativamente  falando, seria possível  considerar  a presença de um equívoco, querendo o locutor dizer que,  do mesmo modo que não se modifica a cultura de “um” povo do dia para a noite, também é  impossível  mudar  rapidamente  a  cultura  de  “uma”  instituição.  O  enunciado  desliza,  desta  forma,  de  uma  generalização  a  uma  restrição  semântica,  sem  que  o  leitor  possa  se  situar  de  forma precisa quanto às intenções do enunciador....

No  último  dos  exemplos  dados  (44),  a  palavra  de  autoridade  ganha  uma  corporalidade  mais  definida,  corporalidade  esta  que,  conjugada  na  primeira  pessoa  (quem  manda na agência sou eu), reafirma o lugar enunciativo de onde o locutor fala para, logo em  seguida,  referir­se  aos  servidores  da  agência  como  funcionários  enquadrados,  com respeito  muito grande à hierarquia. 

Mas o uso feito da hierarquia existente, como estratégia para a instauração de um  dizer aparentemente monofônico, não interrompe o incessante atravessamento de outras vozes  no discurso da Abin, sejam elas desejadas ou indesejadas 60 . 

1.2 Dimensões Dialógicas do Discurso da Abin 

Um breve retorno a dois excertos anteriormente transcritos ((40) e (41)) serve para  exemplificar  algumas  das  formas  pelas  quais  o  dialogismo  atua  no  discurso  pretensamente  monovocal  da  Abin.  No  primeiro  excerto,  à  transparência  defendida  pelo  novo  diretor  é  contraposto  um  modelo  de  gestão  anterior,  evocado  por  Lima  e  Silva  como  um  modelo  caracterizado  por  tocaias  contra  a  cidadania,  vilanias  contra  o  senso  comum  e  variadas  arbitrariedades.  Tem­se,  assim,  que  esse  discurso  aparentemente  homogêneo  se  abre  ao  registro histórico de um tempo passado trazido para o presente como eco e ressonância de um  outro  discurso.  Em  (40),  a  inserção  de  uma  voz  outra  no  plano  enunciativo  dá­se  através  da  referência feita ao senso comum do povão, que é, logo em seguida, refutado pelo enunciador. 

Inúmeras  são as  vozes presentes  no discurso da Abin, ali  instaurando dimensões  dialógicas diversas. Introduzindo em seu próprio dizer vozes ecóicas ou vozes dissonantes, o  enunciador não apenas dialoga com o seu ouvinte concreto, participante ativo da interlocução  60  Como afirma Bakhtin (2000d, p. 318) em todo enunciado, contanto que o examinemos com apuro, levando  em conta as condições concretas da comunicação verbal, descobriremos as palavras do outro ocultas ou semi­  ocultas, e com graus diferentes de alteridade.

direta, como também dialoga com um interlocutor fisicamente ausente (como em (45) e (46))  ou com uma voz sem nome, difusa, que é inserida na enunciação (como em (47) e (48)): 

(45) 

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[Ariel Decunto] É de absoluta confiança, amigo de infância, irmão.  Eu falei: “ Ariel, ouvi isso lá do J oão Guilherme, nós temos que achar essas  fitas, temos que ter essas fitas. Final de setembro” . “ Alberto, temos as fitas,  chegaram  as  fitas” .  (General  Alberto  Mendes  Cardoso,  ministro­chefe  do  GSI, em entrevista publicada noJornal do Brasil –Texto 94/1999). 

(46) 

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Os  serviços  de  inteligência  funcionam  até  hoje  nas  democracias  modernas  para  combater  inimigos  externos.  Um  estudo  feito  pela  pesquisadora  Priscila Antunes,  da  Fundação  Ford,  aponta  ser  o  erro  mais  grave da Abin priorizar inimigos internos. 

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Engano dela. Tem muita gente falando sobre a Abin sem conhecer. A  agência  tem  um  departamento  de  assuntos  internacionais  e  outro  de  nacionais.  (General  Alberto  Mendes  Cardoso,  ministro­chefe  do  GSI,  em  entrevista publicada na revista IstoÉ –Texto 142/2000). 

(47) 

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Eu digo: se ilude aquele ministro que acha que tem poder. Corre o  risco de, numa primeira iniciativa errada, cair fora. Aí ele vai ver que seu  poder não existia, estava ao alcance da caneta do presidente da República.  Então, essa história de que o Cardoso está recebendo muito poder... Não, o  Cardoso  está  recebendo  algumas  atribuições  que  o  presidente  resolveu  colocar aqui, nenhuma delas pedida ou insinuada por nós. (General Alberto  Mendes  Cardoso,  ministro­chefe  do  GSI,  em  entrevista  publicada  na  Folha  de São Paulo – Texto 27/2000). 

(48) 

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É que nos arquivos há aqueles " constam que" , " dizem que" , que  ofendem  as  pessoas.  Existia  tendência  na  época  de  botar  tudo  no  papel,  todas as fofocas. [...] Era uma maneira de fazer pressão. (Mauro Marcelo de  Lima e Silva, diretor­geral da Abin, em entrevista publicada na Folha de São  Paulo –Texto 290/2004). 

O  enunciado  (45)  apresenta  um  interessante  jogo  de  superposição  de  vozes  colocadas em um mesmo plano enunciativo, ou seja, uma complementando a outra com vistas  a criar  um  mesmo efeito de sentido. A formatação dada ao texto faz do uso das aspas como  marcador  de  distinção  dessas  duas  vozes  postas  em  ação  no  desenvolvimento  narrativo  (do  ministro­chefe do GSI e do diretor­geral da Abin). Também em (46) as vozes introduzidas são  claramente demarcadas, mas, diferentemente de (45) o enunciado é marcado pela alternância  da  palavra  e  da  contrapalavra,  ambas  contracenando  com  um  terceiro  participante  (a  pesquisadora)  que  ocupa  o  centro  do  evento  enunciativo.  Já  os  enunciados  (47)  e  (48)

mostram  a  presença  de  vozes  que  se  opõem,  sem  que  elas  se  encontrem  formalmente  delimitadas.  Assiste­se  em  (47)  à  inserção  da  voz  de  outrem  sob  a  forma  de  um  “discurso  indireto  analisador  do  conteúdo”,  enquanto  que  em  (48)  predomina  o  “discurso  indireto  analisador da expressão”. Em ambos os casos, o terceiro participante, claramente nomeado em  (45) e (46) adquire em (47) e (48) a forma de um dizer outro sem qualquer indicação precisa  quanto à sua origem. 

Esse dizer difuso, generalizado, atribuído a uma voz coletiva posta em ação, pode  assumir a forma de um dizer o mesmo com um dizer a mais, com uma outra linguagem (no  exemplo a seguir, a linguagem religiosa) de um “dizer de uma outra forma”, que ecóicamente  fortalece o dito: 

(49) 

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Necessária  é,  portanto,  vigilância  redobrada  com  o  objetivo  de  permitir que continuemos no Brasil a viver, para usar os salmos, sem "nos  assustarmos  com  o  terror  noturno  nem  com  a  mortandade  que  assola  ao  meio­dia".  (General  Alberto  Mendes  Cardoso,  ministro­chefe  do  GSI,  em  artigo de opinião publicado na Folha de São Paulo – Texto 79/2001). 

Ou  pode  penetrar  no  campo  de  um  dialogismo  que  se  instaura  com  a  própria  língua, nos termos de um dizer em relação ao qual o enunciador ao mesmo tempo em que dele  faz uso, dele toma distância, assinalando a sua não pertença à linguagem que julga ser a sua: 

(50) 

ï

 

Para  usar  uma  expressão  de  traseira  de  caminhão,  queremos  perguntar  como  estamos  dirigindo.  Se  sentirmos  que  estamos  em  descompasso  com  o  que  esperam  de  nós,  vamos  mudar.  (General  Jorge  Armando  Félix,  ministro­chefe  do  GSI,  segundo  notícia  de  autoria  não  especificada, publicada na Folha de São Paulo –Texto 28/2003). 

(51) 

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“ Espionagem política é coisa do passado. Conheço bem o general  Cardoso,  não  seria  do  feitio  dele  permitir  isso”   disse  o  general,  acrescentando:  “ Não  tem  componente,  como  se  diria  na  gíria,  de  fofoca.  Isso não tem mais” . (General Jorge  Armando Félix,  ministro­chefe  do GSI,  segundo notícia de autoria não identificada, publicada em O Globo – Texto  84/2002).

Ao referir­se a uma expressão de traseira de caminhão (50) e a fofoca (51) como  expressão de gíria, o enunciador anuncia que toma de empréstimo palavras que não são suas,  instaurando um dialogismo marcado pela não­coincidência do discurso consigo mesmo. Esse  tipo  de  modalização  autonímica  ­  dita  de  empréstimo  (AUTHIER­REVUZ,  2001b)  –  apresenta  aqui  um  duplo  movimento:  ao  mesmo  tempo  em  que  o  locutor  tenta  realizar  uma  aproximação com uma linguagem do cotidiano ele afasta tal possibilidade ao deixar claro não  ser esta a sua forma habitual de expressão. 

A assinalação de uma não pertença também está presente no enunciado abaixo: 

(52) 

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O termo corregedoria é um pouco pesado para a instituição, mas é  para  evitar  algo  inconcebível:  uma  agência  de  inteligência  permitir  vazamento de informação. (Mauro Marcelo de Lima e Silva, diretor­geral da  Abin, em entrevista publicada na Folha de São Paulo– Texto 290/2004). 

Mas,  diferentemente  dos  enunciados  (50)  e  (51), não  é  a  existência  de  “dialetos  sociais”  diversos  que  é  aqui  marcada.  O  que  é  posto  em  causa  é  a  própria  inadequação  da  palavra usada, presentificando uma não coincidência entre a palavra e a coisa. Nesse caso, o  enunciador  como  que  se  desculpa  pela  palavra  que  usa,  indicando  uma  falha,  uma  falta  da  palavra exata para o que quer dizer, e, assim o fazendo, instaura um dialogismo com a palavra  de  “outrem”,  ou,  como  diria  Bakhtin  (1988a,  p.100)  com  uma  palavra  já  “povoada  ou  superpovoada de intenções de outrem”. 61 

O diálogo instaurado do discurso consigo mesmo pode, finalmente, dar origem à  formação  de  um  duplo  do  enunciador,  implicando  um  diálogo  com  o  seu  próprio  dizer  no  momento em que é dito:  61  Nesse sentido: “Cada palavra evoca um contexto ou contextos, nos quais ela viveu sua vida socialmente tensa;  todas as palavras e formas são povoadas de intenções. [...] A palavra da língua é uma palavra semi­alheia. Ela  só se torna ‘própria’ quando o falante a povoa com sua intenção, com seu acento, quando a domina através do  discurso, torna­a familiar com a sua orientação semântica e expressiva. Nem todos os discursos se prestam de  maneira  igualmente  fácil  a  essa  assimilação  e  a  esta  apropriação:  muitos  resistem  firmemente,  outros  permanecem  alheios,  soam  de  maneira  estranha  na  boca  do  falante  que  se  apossou  deles,  não  podem  ser  assimilados  por  seu  contexto  e  escapam  dele;  é  como  eles,  fora  da  vontade  do  falante,  se  colocassem  entre  aspas”. (BAKHTIN, 1988a, p. 100).

(52) 

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Nossos  ''policiais'' não  podem andar armados.  Nossos  “policiais”  não têm poder... (risos) Ato falho aí. Os nossos agentes, nossos analistas da  Abin  não  podem  andar  armados.  Não  podem  fazer  investigação.  (Mauro  Marcelo de Lima e Silva, diretor­geral da Abin, em entrevista publicada em  O Povo – Texto 168/2004). 

O  movimento  diálogico  aqui  presente  opera  um  retorno reflexivo  do  enunciador  sobre as suas próprias palavras,  indicando a sua  incorreção, a sua  impropriedade,  através de  um comentário (ato falho aí) por meio do qual ele ressalta o seu equívoco quanto à palavra  usada (nossos policiais) e efetua a sua correção no interior do que enuncia (nossos analistas).  Nesse  caso,  o  contexto  extraverbal  é  requerido  para  que  se  possa  entender  como  sendo  ato