• Nenhum resultado encontrado

3.1 O CUIDADOR LEIGO

No documento No litoral da Casa e do Serviço (páginas 109-116)

CAPÍTULO III O TRABALHO DO CUIDADOR

3.1 O CUIDADOR LEIGO

Santos (2006, p.166) faz uma indicação precisa do trabalho do cuidador:

“A especificidade desse dispositivo residencial de modo algum implica a

necessidade de uma especialidade da equipe de cuidadores; ao contrário, ele

radicaliza a proposição de que, quanto menor for o grau de especialidade na

lida com os moradores, maior a possibilidade de surpresa, espanto e

consequentemente, abertura a um espaço de invenção”.

Ao colocar a possibilidade de surpresa e invenção, sublinha o significado

de “leigo” em oposição ao "especialismo" o que indica que mais do que um

saber formalizado, trata-se de uma posição na tarefa de cuidar. Também

aponta para a invenção como o aspecto privilegiado na relação entre

moradores e cuidadores, indicando que há um saber em jogo, mas não um

saber marcado pela especialização ou erudição. A justificativa para a não

especialização dos cuidadores é sustentada na tentativa de garantir a quebra

da medicalização, patologização e psicologização dos comportamentos dos

usuários do serviço a partir de um olhar ‘não técnico’. Certamente esse pleito,

que pressupõe em sua gênese que o ‘técnico’ é aquele que sabe sobre o

110

O uso do termo “leigo” foi estratégico para Freud em 1926 quando

escreveu o texto “A questão da analise leiga” como forma de colocar em

debate sobre quem seriam os profissionais habilitados para exercer a

psicanálise. A acusação de curandeirismo contra Theodor Reik em Viena, fato

que reacendeu esse debate e o motivou a escrever o citado texto, demonstrou

a importância da psicanálise no campo social e de tratamento da época

convocando os psicanalistas e, principalmente Freud, a se posicionarem diante

de uma das questões cruciais da psicanálise: quem pode exercê-la e o que

regula seu exercício. A partir de um diálogo construído com uma “Pessoa

Imparcial” que tem como função indagar a psicanálise como teoria e prática,

Freud desenvolve argumentos sobre a prática da psicanálise alicerçada em

seus fundamentos, não recuando das perguntas feitas pelo “leigo”. O “leigo”

seria aquele que não possui um saber estruturado sobre os fundamentos da

psicanálise, mas que segue interessado em saber de seus efeitos. “O

interlocutor, leigo, ao fazer sua pergunta, tem de reconhecer que nela já se

formula algo da resposta. Desconhece os fundamentos da psicanálise, mas

sua pergunta, suas vacilações e incertezas o colocam na via de reconhecer

que se articula aí algo do inconsciente”. (Vidal, 2003, p.28).

Freud utilizou o recurso do diálogo fazendo perguntas a partir do Outro e

recebendo a mensagem de forma invertida. Sem a pretensão de ensinar

psicanálise academicamente nesse texto, Freud indica ao leigo do que é

fundamentada a psicanálise, ao que a “Pessoa Imparcial” apropria-se dos

efeitos de suas próprias perguntas para reconhecer a existência do

111

Elia (2004, p.3) afirma que o saber marcado pelo inconsciente não é

erudito e sim leigo. “O saber marcado pelo inconsciente não é erudito, não é de

especialista, não é sequer culto: é um saber leigo”. Afirma ainda que por não

ser erudito também não é do senso-comum, já que não está acessível a todos

sem trabalho ou esforço por parte de quem pretende saber disso. E esse

trabalho se dá pela análise, pelo endereçamento da fala a um analista. Deste

modo temos: o saber marcado pelo inconsciente não é erudito, não é do senso

comum, mas sim “leigo”.

Como já apontamos no capítulo anterior, o saber do inconsciente não é

acadêmico, não é erudito, mas é formalizável. Isso significa que podemos falar

sobre o inconsciente e sua estrutura, podemos falar de suas manifestações e

mecanismos, porém não podemos falar de um saber inconsciente que seja

desalojado de um sujeito falante. Não se trata de um saber todo, marca de um

saber especializado sobre qualquer coisa, mas antes um saber que todos

possuem, mas não o sabem. “A novidade revelada pela psicanálise é um saber

não sabido por ele mesmo” (Lacan, 2011 [1971], p 23).

Se por um lado dentro do campo marcado pela Atenção Psicossocial o

que se espera é que o cuidador tenha um saber leigo sobre psiquiatria ou

qualquer outro saber que se configure como um ‘saber técnico’ podemos tomar

essa preconização de outro ponto de vista: o saber leigo pode estar

relacionado com o saber marcado pelo inconsciente, na sua forma de ‘saber

fazer’ que exploraremos melhor adiante. Essa indicação não reduz o saber do

cuidador a um saber que não precisa ser trabalhado, melhorado e

112

do senso comum. Com Vidal (2003, p.29) podemos ainda aproximar o saber

leigo do saber “não todo” nomeado a partir da psicanálise. Segundo o autor:

“‘Leigo’ é o termo com que a psicanálise resiste ao discurso universitário na

pretensão de tudo ensinar”. Ao afirmar que há uma resistência da psicanálise

frente à pretensão de tudo ensinar, aponta para um saber que não pode ser

ensinado, e sim transmitido. Há algo no saber que sempre escapa, pois o saber

está atravessado pelo real, por isso partimos da idéia de que é ‘não todo’ e que

possui como marca a invenção e não a reprodução conceitual ou aplicação de

técnicas.

Seguindo ainda Elia (2004), retomamos a afirmação de que “o saber

marcado pelo inconsciente não é imediatamente acessível ao leigo, e, pelo fato

de não ser erudito, não se confunde com o senso-comum”. Temos então que o

saber marcado pelo inconsciente é leigo, mas não significa que é necessário

não saber nada ou que leigo seja homólogo à ignorância.

O cuidador deve, numa invenção em ato, como objeto multiuso, estar

disponível ao inusitado tão frequente nas falas e nos atos do sujeito psicótico.

Entretanto, há níveis diferenciados de intervenção que muitas vezes não

correspondem a um percurso maior na formação e orientação pela psicanálise.

Privados de um saber técnico “formalizado”, devem se permitir, de maneira

ainda mais radical, um encontro – muitas vezes incômodo – com o que emerge

sem lugar e sem hora. Um dos fatos mais corriqueiros no trabalho com os

cuidadores é essa surpresa em lidar com o que transborda do sujeito quando

se trata de um morador. Quando disponíveis a esse encontro, solicitam ao

113

ferramentas, estratégias de manejo e mesmos explicações sobre a forma de

ser de cada morador. Sabemos que o “saber formalizado” não livra ninguém do

mal estar no encontro com o Real, mas a partir de um saber técnico é possível

localizar e elaborar algo desse encontro e, a forma com que a demanda de

saber chega e é trabalhada define uma direção de trabalho. Uma das tarefas

do técnico de referencia é sustentar o trabalho acolhendo esse mal estar e

fazer desse interesse pelo saber algo que coloque todos em trabalho.

Assim, diante do encontro dos cuidadores com a loucura, podemos

recolher duas posições mais incidentes com relação ao saber: primeiro, uma

tentativa de dar sentido ao “sem sentido” que emerge dos moradores. Depois,

uma tentativa de operar com aquilo. E então a demanda por um saber

especializado se instala. Uma não necessariamente é anterior à outra. Na

primeira operação, onde geralmente os cuidadores tentam dar sentido ao ‘sem

sentido’ produzido pelos moradores (como delírios, alucinações, manias entre

outros) podemos dizer que muitas vezes lançam mão do senso comum. O

senso comum pode ser traduzido como um amor ao saber que está articulado

ao engodo do conhecimento e a tentativa de fazer um anteparo ao horror do

furo, da falta, presentes por exemplo, naquilo que ‘não faz sentido’.

Uma vez uma cuidadora e um cuidador travaram um debate na

supervisão sobre o comportamento de um morador: “ele é assim porque ficou

traumatizado com a morte do pai”. A história de que o morador havia visto o pai

sendo morto por policiais na década de 80 e que foi levado ao hospício para

sua própria proteção, envolvia o morador desde sempre e era reproduzida com

114

vez, perguntava o tempo todo “se havia morrido” o que indicava para os

cuidadores uma reta entre o delírio e o trauma. O senso comum atribui sentidos

diversos numa lógica simples de causa e efeito: se ele era psicótico e delirava

por conta do trauma, cura-se o trauma e com ele o delírio. Curado o delírio ele

deixaria de ser psicótico. Era visível o alívio sentido pela equipe de cuidadores

quando os colegas trouxeram essa “informação valiosa” sobre a razão do

delírio do morador. Agora que entendiam o que ocorrera estavam prontos para

agir.

É uma tarefa delicada não cercear as tentativas de aproximação dos

cuidadores ao fenômeno da loucura sem ratificar conclusões simplistas. O

trabalho do técnico de referencia é sustentar que há algo ali que pode ser mais

bem entendido e escutado, mas que fechar o sentido não resolve o problema.

“Ótimo, vamos aceitar que seja isso mesmo. Mas e aí? O que vamos fazer com

isso?”.

Essa é a questão, só ajuda a apaziguar a angustia de quem escuta o

tempo todo a incessante pergunta “eu morri?”. Mas diante daquilo que não tem

sentido, “uma direção ajuda mais do que uma explicação” afirmaram os

cuidadores no debate.

A demanda então passa a ser por um saber especializado para agir,

crendo que alguém, em algum lugar, vai dizer exatamente o que cada um deve

fazer. Um saber especialista, todo, universal, que sabe a partir de alguma coisa

incontestável e que, por consequência, retira a implicação dos cuidadores no

fenômeno. Nesse momento, o recurso à supervisão de equipe é fundamental e

115

de saber, do lugar de “técnico”, faz um giro e devolve a suposição de saber à

equipe, autorizando os estilos de abordagem e sustentando o estabelecimento

de um novo olhar sobre os acontecimentos cotidianos. Esse é o modus

operandi fundamental da orientação psicanalítica (Figueiredo, 2007).

A solicitação feita nesse pequeno exemplo era a de entender o

diagnóstico, a natureza do delírio e como a genética determinava esses casos.

Queriam saber o que esperar e como agir. E esse pedido foi sendo sustentado

com a equipe até o ponto em que puderam entender que a afirmação “é

genético” ou “é por causa do trauma” não responde a pergunta que realmente

interessava a eles: “como podemos ajudá-lo? O que devemos fazer?”.

Como afirma Estrella (2010, p 88) “Nesta categoria profissional não se

trata de auxiliares ou técnicos de enfermagem que realizam uma função um

pouco diferente da habitual. É impossível o acompanhamento cotidiano em

uma casa tornar-se protocolar, recheado de saberes, de procedimentos”.

É a partir desse caminho que outro saber se instala: não o saber

acadêmico e tampouco o saber do senso comum. Um ‘saber fazer’ que é

construído a partir de um ‘saber não saber’ e que, recolhido por um analista,

pode produzir efeitos.

Podemos afirmar que nos serviços aqui cotejados os cuidadores são

muito empenhados em sua formação. Participam da supervisão (mesmo sem

receber hora extra para isso), das capacitações promovidas pelos serviços

(mesmo sem terem obrigação alguma) e solicitam atividades de formação

116

podem deslizar mais facilmente para um registro de ‘saber não saber’. Assim,

são convocados a construir junto com o morador uma forma de lidar com a sua

particularidade. Nesse percurso, há muitas angústias, dúvidas, incertezas e,

logo, tentativas de todas as ordens são empenhadas.

Essas intervenções em ato, ou in sito, que têm como alvo a emergência

do sujeito devem se localizar nos pressupostos que sustentam essa ação.

Assim, o modus operandi da psicanálise em seus princípios pressupõe

preliminarmente que haja ao menos um analista para recolher os efeitos desse

trabalho e possibilitar uma transmissão dessa prática, seja ele um dos

membros da equipe e/ou um supervisor. A reunião de equipe é um dispositivo

fundamental para isso.

No documento No litoral da Casa e do Serviço (páginas 109-116)

Documentos relacionados