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3.2 O devir-criança em Deleuze e o devir-criança de Caeiro

Tal como não se trata da rapariga se tornar uma mulher, como vimos no capítulo dois, Deleuze afirma a possibilidade da criança poder ser apreendida sem ser segundo uma evolução na direcção do adulto: “L´enfant ne devient pas adulte, pas plus que la jeune fille ne devient femme 64.” Por outro lado, como já foi referido no segundo capítulo a propósito da ideia da produção de um corpo sem órgãos, tanto a rapariga como a criança extraem as suas forças de um devir–molecular. Neste sentido, seria através da produção de uma linha de partículas moleculares que a criança poderia adquirir o poder de ser outro, como acontece durante as suas brincadeiras.

“Savoir vieillir n´est pas rester jeune, c´est extraire de son âge les particules, les vitesses et lenteurs, les flux qui constituent la jeunesse de cet âge 65”

Independentemente da idade, é sempre possível extrair as forças que são relativas à criança, i. e., produzir um ser molecular que irá conectar-se com as partículas da criança. Em consequência, o devir-criança pressupõe uma ideia de Infância como estando situada para lá do tempo cronológico, independente da idade e, igualmente fora do âmbito da Imitação.

Regressando à análise sobre a poesia de Alberto Caeiro, todas as aproximações que estabelecemos entre a visão do poeta e a experiência da criança, tornam-se agora exequíveis, de maneira a poder fazer coexistir o adulto-poeta com uma certa ideia de Infância. Tendo em conta o conceito de devir-criança em Deleuze e com o objectivo de Caeiro conseguir ver as coisas numa não-relação, ou seja, para que possa ser o viajante adulto chegado à superfície da terra e para que não tenha que desaprender todos os sentidos dados às coisas (da nascença em diante, como
 escreve
 Bernardo
 Soares)
 é
 preciso
que
ele
entre
num
devir‐criança.



“De certo modo, Fernando Pessoa nunca deixou morrer nele o poder infantil de devir-outro (...). Conservou, pois, a infância, através da “idade”.66

64 DELEUZE, G.; GUATARI, F., (1980) : p. 340. Trad. DELEUZE, G.; GUATTARI, F. (1997): p.

61.: “A criança não se torna adulto, assim como a moça não se torna mulher”

65 DELEUZE, G.; GUATARI, F., (1980):, p.340. DELEUZE, G.; GUATTARI, F. (1997). Trad.:

“Saber envelhecer não é permanecer jovem, é extrair de sua idade as partículas, as velocidades e lentidões, os fluxos que constituem a juventude desta idade.”

63

Através
desta
citação,

podemos
perceber
que
tal
como
para
Deleuze,
a
análise
 de
José
Gil
sobre
a
poesia
de
Fernando
Pessoa
pressupõe
uma
ideia
de
Infância
como
 sendo
transversal
a
todas
as
idades.
Esta
ideia
de
infância
encontrar‐se
associada
ao
 poder
 de
 devir‐outro.
 Como
 se
 verifica,
 a
 infância
 exerce
 uma
 função
 primordial
 na
 escrita
 do
 poeta.
 É
 a
 infância
 que
 funda
 a
 possibilidade
 do
 poeta
 devir‐outro
 incessantemente.
O
poeta
mergulha
na
Infância
para
adquirir
o
poder
de
devir‐outro.
 É
dessa
passagem
pela
Infância
que
resulta
um
devir‐criança.
É
assim
que
devemos
 compreender
Caeiro
e
a
sua
relação
com
a
Infância,
a
qual
difere
da
recordação:



“Não se trata, pois de recordar a infância (real), mas de devir-criança, o que supõe um devir- outro (...)67”.

Vejamos
como
é
que
Deleuze
opõe
o
conceito
de
devir‐criança
à
memória,
com
 a
 finalidade
 de
 perceber
 melhor
 esta
 citação
 de
 José
 Gil.
 Deleuze
 afirma
 “Le
devenir
 est
une
anti
‐mémoire68”,
 ou
 seja,
 o
 devir
 não
 é
 uma
 imitação
 nem
 uma
 recordação.


Neste
sentido,
o
devir‐criança
não
se
reporta
à
infância
de
um
sujeito
–
não
é
a
minha,
 a
nossa,
a
tua,
a
sua
infância.



“Ce sera l´enfance, mais ce ne doit pas être mon enfance, écrit Virginia Wolf.69”

Esta
referência
do
filósofo
à
escritora
Virgínia Wolf ocorre pelo facto de os seus romances não se debruçarem sobre a sua infância pessoal, mas apresentarem-se como um resultado da produção de linhas de partículas ínfimas que atravessam as idades e as épocas: devires e não lembranças. Desta forma, o devir-criança distingue-se da memória de infância. O devir-criança não depende da idade nem de um sujeito, razão pela qual não decorre de uma lembrança, de uma projeção ou de uma idealização sobre a Infância. 


“On oppose de ce point de vue un bloc d´enfance, ou un devenir-enfant, au souvenir d´enfance : « un » enfant moléculaire est produit… « un » enfant coexiste avec nous, dans une zone de voisinage ou un bloc de devenir, sur une ligne de déterritorialisation qui nous emporte tous deux, - contrairement à l´enfant que nous avons été, dont nous nous souvenons ou que nous fantasmons, l´enfant molaires dont l´adulte est l´avenir70.”

67

GIL, J. (1999): p. 89.

68 DELEUZE, G.; GUATARI, F. (1980): p. 360. DELEUZE, G.; GUATTARI, F. (1997) : p. 80,

trad.: “O devir é uma anti-memória”

69 DELEUZE, G.; GUATARI, F (1980): p. 360. DELEUZE, G.; GUATTARI, F. (1997) : p. 80,

trad.:"Será a infância, mas não deve ser minha infância", escreve Virgínia Woolf.”

70 DELEUZE, G.; GUATARI, F. (1980): p. 360. DELEUZE, G.; GUATTARI, F. (1997): p. 80,

trad.: “Opõe-se desse ponto de vista um bloco de infância, ou um devir-criança, à lembrança de infância: "uma" criança molecular é produzida... "uma" criança coexiste conosco, numa zona de vizinhança ou num bloco de devir, numa linha de desterritorialização que nos arrasta a ambos — contrariamente à criança que fomos, da qual nos lembramos ou que fantasmamos, a criança molar da qual o adulto é o futuro.”

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O conceito de devir-criança pressupõe que não apenas o adulto, como também a criança, possam entrar em devir-criança. Posteriormente, iremos debruçar-nos mais profundamente sobre essa possibilidade. Através desta passagem de Deleuze, interessa- nos, de momento, dar ênfase não só ao facto do devir-criança não fazer apelo à memória, como à necessidade de existir um encontro entre um adulto e uma criança, para se poder produzir uma criança molecular. Tal como o autor refere, é numa zona de vizinhança ou proximidade, dito de uma outra forma, numa zona de indiscernibilidade, que deixa de ser possível fazer a distinção entre um e outro que um adulto e uma criança podem coexistir, devindo-criança. Nesse sentido, o devir-criança dá-se nos dois sentidos, em simultâneo. É nesses moldes que deve se entendida a oposição entre devir-criança e memória.

É através da distinção estabelecida por Deleuze entre a memória e o devir-criança que se torna possível compreender a forma através da qual a relação de Caeiro com a Infância não resulta de uma recordação:

“Como a infância não é um tempo situado numa cronologia, (...), não se deve entender o devir-criança de Fernando Pessoa como um mergulho na Memória, (...) (“Comovo –me porque é qualquer infância, não a minha”).71

Nesta passagem, Gil assinala uma outra condição essencial para que o devir- criança do poeta seja possível: a transformação do tempo cronológico. O filósofo cita na transcrição precedente um verso de Caeiro que se parece muito com a citação de Virginia Wolf. Ambos referem-se de uma forma muito semelhante ao facto de não se tratar da sua própria infância, mas à infância nos termos que temos vindo a analisar. Através de uma transformação do tempo cronológico, tornar-se-ia possível brincar a ser outro, criar personagens, sonhar, enfim, devir-outro. De facto, se situarmos a criança numa linha de tempo cronológica, então, seremos obrigados a apreendê-la como a primeira etapa da vida e, consequentemente, a defini-la segundo a sua idade e evolução em direcção ao adulto. Todavia, para afirmar um devir-criança, é necessário extraí-la desse domínio. Não se trata da infância de um sujeito, mas antes, do poder devir-outro incessantemente, de ser eternamente plástico e de conservar a Infância através da idade.

Em Mille Plateaux, Deleuze distingue Cronos de Aîon:

“Aîon, qui est le temps indéfini de l ´évènement, la ligne flottante qui ne connait ni vitesses, et ne cesse à la fois de diviser ce qui arrive en un déjà-là et un pas-encore-là, un trop –tard et un trop-tôt simultanés, un quelque chose à la fois qui va se passer et vient de se passer. Et Chronos,

65 au contraire, le temps de la mesure, qui fixe les choses et les personnes, développe une forme et détermine un sujet.72

Aîon, o tempo do devir, seria diferente do tempo cronológico na medida em que é um tempo indeterminado. Trata-se de um tempo que apenas conhece as velocidades, tal como o filósofo indica. A partir daqui, podemos transferir esta ideia do tempo segundo Aîon, para analisar qual é o tempo de uma criança enquanto brinca. De acordo com um aforismo de Heraclito, o autor do conceito Aîon, é possível fazer esta aproximação: “O tempo é uma criança que brinca; o reino de uma criança73.” Enquanto brinca, a criança não está atenta às horas nem aos minutos que vão passando. Encontra-se de tal forma imersa na sua atividade, que se pode afirmar que a forma dela ressentir o tempo está mais ligada a uma intensidade do que uma determinação cronológica. Aîon pode, assim, ser considerado como condição de possibilidade para pensarmos não apenas na ideia de uma Infância como estando situada para lá do tempo cronológico, como na ideia do devir.

Em síntese, tal como começamos por descrever a partir da análise de José Gil, a Ciência do Ver e do sentir faz com que o poeta possa tornar-se outro. Caeiro, por outro lado, considera o olhar infantil como um modelo de Visão. Considerando a análise do devir-cavalo do pequeno Hans, também é possível aproximar a visão nua e despojada de Caeiro (aquela que lhe permite ver as coisas tal como são) da percepção de uma criança resultante de um devir-criança. No entanto, como vimos, não basta afirmar que o poeta vê como as crianças para se deduzir sobre a possibilidade de ele devir-outro. É necessário explicar como é que ele pode coexistir com a criança, sendo adulto. Para resolver esse problema, levou-se em consideração o conceito de devir-criança, segundo Deleuze. De acordo com este autor, o devir-criança diz-se de uma criança como de um adulto.

“La jeune fille et l´enfant ne deviennent pas, c´est le devenir lui-même qui est enfant ou jeune fille74.”

Não se trata da criança evoluir em direcção a um estado final, mas de considerar a criança como uma qualidade do devir. A partir deste aspecto a respeito do devir, foi

72 DELEUZE, Gilles, GUATTARI, Félix, (1980): p.320. DELEUZE, G.; GUATTARI, F. (1997): p.

40, trad. : “Aion, que é o tempo indefinido do acontecimento, a linha flutuante que só conhece velocidades, e ao mesmo tempo não pára de dividir o que acontece num já-aí e um ainda-não-aí, um tarde-de-mais e um cedo-demais simultâneos, um algo que ao mesmo tempo vai-se passar e acaba de se passar. E Cronos, ao contrário, o tempo da medida, que fixa as coisas e as pessoas, desenvolve uma forma e determina um sujeito.”

73 KOHAN, W. ; VIGNA, E. (2013): p. 17

74 DELEUZE, Gilles, GUATTARI, Félix, (1980): p. 340. DELEUZE, G.; GUATTARI, F. (1997) :

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possível apreender uma nova ideia de infância, como sendo independente da idade. Em consequência, deduziu-se sobre o devir-criança do poeta como a operação que lhe permite ver as coisas como elas são. E, por outro lado, sobre a maneira como devir-criança funda todos os outros devires de Caeiro.

Esta análise de José Gil acerca do poeta Caeiro, permitiu-nos compreender o conceito de devir-criança em Deleuze e extrair daí uma nova ideia de Infância, situada fora do tempo cronológico. Afirmamos que o devir-criança tanto poderia ser de um adulto, como de uma criança. No entanto, tendo em conta a análise em jogo, reportámo-nos principalmente ao devir-criança do adulto Caeiro. Assim sendo, em seguida, iremos também considerar o devir-criança da criança. Além disso, pretende-se confrontar esta nova ideia de infância com a ideia de criança que vigora na maioria das instituições escolares e nos programas pedagógicos vocacionados para as crianças. Aquilo que parece ser mais comum nas escolas, é a criança entendida como uma cópia de um modelo, o seu professor.

Segundo a nossa análise, não se trata de apreender a criança como estando a evoluir em direcção a um termo final, o adulto, numa linha de tempo horizontal, a do tempo cronológico. Deste modo, não se trata de considerar a infância como uma (primeira) etapa da vida, nem como uma etapa do desenvolvimento em direcção ao adulto, mas de considerar a criança na sua singularidade, naquilo que tem de único e de diferente, que possa viabilizar o encontro entre um adulto e uma criança, algo imprevisível, novo, que não é antecipável.