• Nenhum resultado encontrado

Capítulo IV A Festa dos Heróis

4.2 O Dia de Camões em Portugal

O Dia de Camões assinala-se a 10 de junho e comemora o grande poeta português Luís Vaz de Camões. Este é também Dia de Portugal e das Comunidades Portuguesas.

Porque é que o dia 10 de junho é tão especial? Primeiro, porque Luís de Camões é considerado um dos maiores poetas da língua portuguesa: o feriado nacional assinala o dia da sua morte, em 1580. De acordo com Maria Isabel João, a data foi estabelecida no século XIX,

58

“em resultado das investigações do visconde de Juromenha sobre a vida do poeta. Não se sabe se é exata, mas para a história que pretendemos contar esse é um facto secundário.”82 Ou seja, a data da sua morte é incerta, assim como vários factos da sua vida, cujos detalhes já não podem ser verificados, visto que quase não há fontes.

Camões terá nascido no ano de 1524 ou 1525, em Lisboa ou Coimbra, no seio de uma família da pequena nobreza, frequentou a corte de D. João III (1502-1557) e ali começou a sua carreira como poeta. Por conta de um amor frustrado, autoexilou-se em África, alistado como militar, onde acabaria por perder um olho. Voltando a Portugal, ele sofreu muito e foi preso. Depois, decidiu ir para o Oriente, onde ficou vários anos, enfrentou novas prisões e uma série de adversidades, combateu ao lado das forças portuguesas e escreveu a sua obra mais conhecida, considerada a "epopeia portuguesa por excelência", Os Lusíadas. O conteúdo central desta obra é o caminho marítimo para a Índia comandado por Vasco da Gama, personagem à volta da qual surgem outros episódios da história de Portugal, em elegia ao povo português.

Quando Camões voltou a Portugal, publicou Os Lusíadas e recebeu uma pequena pensão do rei D. Sebastião (1554-1578), acabando por morrer na miséria no dia 10 de junho de 1580. Segundo a lenda, quando “Luíz de Camões estava a morrer num hospital, um dos seus amigos lhe veio anunciar a derrota na batalha de Alcácer Quibir, a morte do rei D. Sebastião e da elite portuguesa na funesta campanha, cuja consequência seria o fim da independência da pátria; soerguendo-se do leito, Camões exclamara que ao menos morria com ela.”83

Em 1880, face a um país em declínio, alguns intelectuais propuseram-se reunir esforços para trazer novas energias à nação.

“A evocação de Camões, da Renascença, dos descobrimentos e do papel pioneiro dos portugueses nas grandes navegações oceânicas era o estímulo necessário para dar novo alento ao país, fazendo ressurgir o dinamismo que tinha caracterizado a acção dos antepassados que abriram novos mundos ao mundo. A evocação do passado serviria, deste modo, para a renovação de um presente que era visto como de «apagada e vil tristeza», nas palavras amiúde repetidas do poeta.”84

82 João, M. I. (2011). “Dia de Camões e de Portugal: breve história de uma celebração nacional (1880-1977)”. Em Revista de

Historia Jerónimo Zurita, p. 19.

83 Idem, ibidem, p. 19. 84 Idem, ibidem, p. 24.

59

As pessoas aproveitaram o tricentenário da morte de Camões para tentar dar um novo impulso à nação. Portanto, organizou-se a cerimónia em Portugal, uma das primeiras manifestações republicanas em plena monarquia. Uma comissão da imprensa portuguesa organizou as celebrações com cortejos e manifestações festivas.

Após a implantação da República (a 5 de outubro de 1910), o dia 10 de junho seria reconhecido como feriado. Primeiro foi publicado um decreto que definia os feriados nacionais, cancelando alguns “especialmente os religiosos, para diminuir a influência da Igreja Católica e a fim de consolidar a laicização da sociedade. Além disso, os municípios e os concelhos podiam escolher um dia do ano que representasse as suas festas tradicionais e municipais”.85 Em 1911, a Câmara de Lisboa escolheu o 10 de junho como feriado municipal, mas posteriormente passou-o para 13 de junho, dia de Santo António.

A 10 de junho de 1924, realizou-se em Lisboa uma grande cerimónia em memória do quarto centenário do nascimento de Camões. Muitas pessoas da hierarquia superior do Estado assistiram à cerimónia: o presidente do município, o vice-presidente da Academia de Ciências de Lisboa, José Maria Rodrigues, o historiador e diretor da Biblioteca Nacional, Jaime Cortesão, o presidente da Federação Académica, Alberto Zagalo Fernandes, entre outros. “O dia escolhido para os principais festejos foi o 10 de Junho, pelo facto de se desconhecer o dia do nascimento e daquele dia se ter vindo a impor como uma data associada às celebrações camonianas”.86 Os festejos prolongaram-se por seis dias.

No ano seguinte, foi publicado um decreto que definia o dia 10 de junho como feriado nacional e Festa de Portugal, utilizado Camões como motor de reabilitação do regime. Na obra

Feriados em Portugal: tempos de memória e de sociabilidade, Andrade e Torgal explicam como tudo se passou:

“No rescaldo destas comemorações, da iniciativa da Câmara Municipal de Lisboa e que contou com a adesão do Governo, era aprovada pelo Congresso da República e promulgada pelo presidente Manuel Teixeira Gomes, estando à frente do governo Vitorino Guimarães, a lei nº 1.783, de 25 de Maio de 1925. No artigo 1.º, decretava-se: “É considerada nacional a Festa de Portugal, que a organização da festa caberia a uma “comissão nomeada anualmente pelo Governo”. A Comissão de 1924, onde ainda figurava um sobrevivente da Comissão do

85 Informações obtidas em http://estoriasdahistoria12.blogspot.com/2019/06/10-de-junho-dia-de-portugal-de-camoes-e.html,

consultado a 10 de junho de 2020.

60

Centenário de 1880, Sebastião Magalhães Lima, não podia deixar de se confrontar com a comparação entre os dois centenários, pois a modéstia do segundo parecia pôr em causa as esperanças anunciadas pelo primeiro e prometidas pela República. No entanto, ainda eram de esperança os dias desta República em crise e, assim continuava a pensar-se em Camões como motor de reabilitação do regime.”87

Durante o regime ditatorial do Estado Novo (1933 - 1974) a data passou a celebrar também o “Dia da Raça”, para exaltar as características nacionais, tal como proposto por Salazar em 1944. “O dia 10 de Junho tornou-se, contudo, ao longo do tempo um dos mais importantes feriados do Estado português, com um cunho fortemente nacionalista e político”.88

A divulgação dessas celebrações deveu-se em grande parte aos meios de comunicação social. Em 1952, um decreto reviu o calendário dos dias feriados uma vez mais, mas o regime salazarista manteve as celebrações oficiais do Dia de Camões. Desde 1963, o dia 10 de junho tornou-se, ainda, uma homenagem às Forças Armadas Portuguesas, numa exaltação da guerra e do poder colonial.

“Com a instauração da democracia, depois do golpe de Estado de 1974, a data não deixou de ser comemorada, apesar de alguns sectores da sociedade portuguesa a considerarem demasiado conotada com o regime deposto. O impulso decisivo para a manutenção do feriado veio do primeiro Presidente da República eleito pelo regime democrático, o general Ramalho Eanes.”89

No ano de 1978, o feriado foi novamente batizado de Dia de Camões, de Portugal e das Comunidades Portuguesas:

“O dia 10 de Junho, Dia de Camões e das Comunidades, melhor do que nenhum outro, reúne o simbolismo necessário à representação do Dia de Portugal. Nele se aglutinam em harmoniosa síntese a Nação Portuguesa, as comunidades lusitanas espalhadas pelo Mundo e a emblemática figura do épico genial.”90

Hoje, é comum o Presidente da República e altas patentes do Estado participarem nas

87 Andrade, L. O. & Torgal, L. R. (2012). Feriados em Portugal: tempos de memória e de sociabilidade (2. ª edição). Coimbra:

Imprensa da Universidade de Coimbra, p. 78.

88 João, M. I., Art. Cit., p. 22.

89 Idem, ibidem.

61

comemorações anuais do 10 de junho, que envolvem diversas cerimónias militares, exposições, concertos, cortejos e desfiles. Todos os anos, uma cidade é escolhida como sede das comemorações oficiais pelo Presidente da República Portuguesa.

“Em 2016, as comemorações oficiais decorreram pela primeira vez em duas cidades ao mesmo tempo: Lisboa e Paris. Foi também a primeira vez que as comemorações oficiais aconteceram numa cidade fora do país. Em 2017, no Brasil, nos Estados Unidos em 2018 e em Cabo Verde em 2019. Em 2020, devido à pandemia de covid-19, Marcelo Rebelo de Sousa cancelou as comemorações do 10 de Junho que estavam previstas para a Região Autónoma da Madeira e África

do Sul e optou por fazer em Lisboa uma cerimónia pequena.”91

Figura 41: Marcelo Rebelo de Sousa nas comemorações do 10 de junho.92

Luís Vaz de Camões continua a ser um símbolo do povo português. Apesar de mudanças de regime, o seu heroísmo e patriotismo são festejados de geração em geração e divulgados internacionalmente.

Documentos relacionados