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o direito que liberta e um crime político

Paulo Rosa Torres

Certos serão

aqueles que não disseram “me entrego”. E assim prosseguirem,

Impassíveis,

ainda que perseguidos e torturados, Sem temor ou medo da Morte.

(“Itinerário” - Eugênio Lyra, 26/11/1976)

o ConteXto soCioPolÍtiCo e a invasÃo do oeste Pelos Grileiros

A opção por um estado urbano/industrial que se inicia na década de 1930, quando a população brasileira era majoritariamente rural produ- ziu consequências no campo e na cidade. Consequências essas que vão se agravar a partir das décadas de 1960 e 1970, com a invasão do campo pela pecuária extensiva, pelos projetos de irrigação, barragens e reflo- restamentos. Expulsando posseiros e pequenos proprietários de suas terras onde viviam e trabalhavam. Provocando êxodo sem precedentes,

que, por sua vez, fizeram surgir nas cidades, as favelas, os cortiços e as habitações precárias que até hoje são predominantes nos médios e grandes centro urbanos.

Para essa situação será decisiva as ações impostas pelo golpe e pos- terior regime militar instalado no Brasil de favorecimento ao grande capital nacional e internacional, à grande propriedade, a expansão e ocupação da fronteira agrícola.

Políticas da Ditadura Militar para o campo

A questão da terra no Brasil, objeto de séculos de disputas e confli- tos, assumiu proporções de mobilização nacional a partir do início da década de 1960, com a campanha por reforma agrária. Além de lutas por reformas na saúde, na educação, nas relações trabalhistas e previ- denciárias, em um contexto mais amplo de “reformas de base”.

Conforme Plínio Guimarães Moraes (1987, p. 24), ao escrever sobre aquela época

A década de 60 começa com perspectivas sombrias para os interesses das classes dominantes no Brasil. Na es- teira de uma profunda crise econômica cujos reflexos externos atingem a economia nacional de modo parti- cularmente violento, surge na área política um Governo Federal populista e sensível à reformas sociais de base. Estas reformas, lideradas por aquela que acaba por ser sua maior bandeira – a Reforma Agrária – cria um cal- do de cultura que propicia novo realinhamento das for- ças representativas das classes dominantes. A burguesia industrial, o capital estrangeiro, as forças armadas, os grandes proprietários rurais, a Igreja e, por fim, as clas- ses médias, passam a preocupar-se profundamente com o seu futuro e as condições do País naquele momento. Estes fatores, agravados por outros de origem externa e

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interna além da falta de sustentação política do citado governo, propiciam um golpe de Estado que reorientará substancialmente a vida do país.

Não por acaso, os cabeças do golpe que se instala em 1º de abril de 1964, cuidam imediatamente de inter- vir na questão agrária, promovendo uma Emenda Constitucional sobre o Direito Agrário e promulgando, no dia 30 de novembro do mesmo ano, o Estatuto da Terra – Lei nº 4.504/1964 – que trata da Política Agrária e Reforma Agrária, Política Agrícola, Cooperativismo, Colonização, Contratos Agrários, etc. Também não por acaso, que na Mensagem que encaminha o texto legal ao Congresso Nacional, o Marechal Castelo Branco, entre as razões que justificam a prioridade estão: ‘proposital inquietação’ encontrada, o uso da questão agrária para ‘fins políticos subalternos’, a desorganização pelo gover- no anterior do ‘sistema de produção agrícola existente’, ‘exasperação das tensões no agravamento das contradi- ções do sistema rural brasileiro, levando inquietação a toda parte...’ (VALENTE, 1983, p. 8)

Em seguida a Mensagem faz contraposição entre uma reforma agrária socialista e uma reforma agrária demo- crática, para dizer que a primeira opção transfere toda a terra para o Estado, elimina a liberdade de iniciativa e transforma os trabalhadores em simples usuários da ter- ra. Enquanto a opção democrática, estimula a proprie- dade privada, garante ao proprietário os frutos do seu trabalho, ‘reintegra à propriedade à sua natural função social’... (VALENTE, 1983, p. 9)

Em outras palavras regime militar precisava retirar a reforma agrá- ria como bandeira de luta das esquerdas e dos movimentos sociais, em- bora nunca tenha feito nenhuma reforma agrária, nem mesmo aquela que denominou de “democrática”.

Entretanto, a estratégia deu certo, pois a violência empregada que silenciou durante muito tempo a luta por mudança na estrutura agrá- ria, assim como a resistência ao próprio regime, serviu para unificar as classes dominantes e setores da classe média, que viram naquele mo- mento a possibilidade de concentrar ainda mais a terra e poder econô- mico, ou seja,

Por isso a burguesia nacional conciliou com o golpe mi- litar de 1964. Sendo que os setores maiores, já caracteris- ticamente monopolistas, passaram a adotar o modelo le- vado a efeito pelos golpistas, quando então entraram na condição de associados dos capitais imperialistas e este conjunto, somado ao latifúndio e ao capital financeiro passou a ser os patrocinadores da ditadura pós-1964. (GRUPO DE ESTUDOS AGRÁRIOS, 1980, p. 30)

Mais especificamente em termos de política agrícola, o regime mi- litar preparava uma verdadeira invasão às fronteiras agrícolas do estado da Bahia, sobretudo a região oeste, com facilitação ao acesso à terra, ao crédito e às políticas agrícolas. Assim, em 1972, o Ministério do Interior preparou um informativo incentivando a ida de empresários para aque- la região, inclusive patrocinando viagens e informando as vantagens de nela investir.

O informativo dizia:

Região do Rio Corrente, Santa Maria da Vitória, Rio Formoso – esta área localiza-se um pouco ao Sul da Região de Barreiras e compreende as terras banhadas pelo Rio Corrente e seus afluentes, em especial o Rio Formoso, todos tributários do Rio São Francisco. A região referida – continua o relatório – apresenta exce- lentes condições de desenvolvimento, especialmente no campo da pecuária.

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Ela é representativa de uma região maior, com grandes áreas de terras ainda não exploradas.

Além da Pecuária, a terra oferece boas condições para desenvolvimento de lavouras, normalmente milho, al- godão e soja.

O preço da terra virgem na área está em torno de Cz$30,00 e Cz$60,00 o hectare. O clima da região é tropi- cal semi-úmido e a temperatura varia entre 23º e 25ºC”. A cobertura vegetal é representada, na maior parte, por matas e vegetação em transição para a caatinga. (ASSO- CIAÇÃO DE ADVOGADOS DOS TRABALHADORES RURAIS, 1987, p. 12)

Para maior convencimento, o Ministério coloca a Suvale (depois Codevasf ), à disposição através dos programas Proterra e Provale, como suporte técnico e os bancos do Brasil e do Nordeste, como agen- tes financeiros. (GRUPO DE ESTUDOS AGRÁRIOS, 1980, p. 12-13)

O porta-voz da ditadura só não falou da existência de milhares de pequenos proprietários e posseiros e centenas de comunidades tradi- cionais ‒ fundos e fechos de pasto, geraizeiros, pescadores artesanais, extrativistas, quilombolas entre outras, que viviam na região, em sua quase totalidade, ocupando, na maioria dos casos, terras devolutas do estado da Bahia.

Toda essa população situada nos municípios de Bom Jesus da Lapa, Coribe, Santa Maria da Vitória, Correntina e outros se encontrava ameaçada por projetos oficiais e particulares, pela grilagem, pela vio- lência institucional. Tal situação levou o saudoso Padre Cláudio Perani (1981, p. 5) a expressar sua indignação, afirmando

Os camponeses do Rio São Francisco, lembrando a ima- gem apocalíptica, denominaram a Codevasf de ‘besta fera’. Em todo e qualquer canto da ‘boa terra’ o capi- tal ‒ particular ou estatal, nacional ou multinacional

– verdadeiro dragão, entra com desejo de lucro, sugan- do os trabalhadores rurais até a última gota de sangue. A terra é roubada, os lavradores são expulsos, explora- dos na diária, da manhã à noite, sem receberem as obri- gações legais, demitidos sumariamente quando não há mais necessidade deles. Toda uma vida gasta trabalhan- do a terra, sem poder chegar a possuir uma casinha pró- pria digna desse nome. Eugênio Lyra testemunha toda essa realidade e protesta.

Nesse contexto, Eugênio se empenha na organização e resistência dos trabalhadores, defende-os contra as violências, inclusive, contra as injustas reintegrações de posse concedidas pelo poder judiciário sem o mínimo de legalidade, o que despertaria a reação de grileiros e latifun- diários.

A grilagem generalizada como forma de apropriação da terra

A grilagem de terras no Brasil, cujo início pode-se fixar com a concessão de sesmarias, cuja apropriação se dava muitas vezes em terras indígenas, expulsando e exter- minado nações inteiras, é um fenômeno que atravessa os séculos e permanece vivo nos dias atuais. Ontem e hoje, pequenos proprietários e posseiros são expulsos e pequenas posses ou ‘partes de terra’, de algumas tarefas são transformadas em milhares de hectares, a exemplo de fato acontecido em 1980, em Santa Maria da Vitória, onde uma posse de terras ocupadas por dez comuni- dades tradicionais de fecho e fundos de pasto vêm so- frendo tentativa de expulsão e apropriação ilegal com a transformação das posses em 17 mil, 429 hectares, após ação de retificação do registro no CRI. Ou mais recentemente, nos municípios de Barra e Pilão Arcado, onde uma área ocupada secularmente por quarenta

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comunidades tradicionais, foi transformada por grileiros em 230 mil hectares, estando todos os ocupantes amea- çados de expulsão. (ASSOCIAÇÃO DE ADVOGADOS DOS TRABALHADORES RURAIS, 2017)

Esse fenômeno, antes feito de forma rudimentar, hoje conta com processo sofisticado de planta, memorial descritivo, georreferencia- mento e transcrição no Cartório de Registro de Imóveis. Nessa esteira há uma participação decisiva de cada segmento para dar aparência de legalidade à falsificação.

No dizer do Grupo de Estudos Agrários da Bahia (GEA),

Esses criminosos, mesmo estando numa mesma ativida- de nefanda, são maiores e menores, mandantes e execu- tores, particulares e oficiais; isso porque, nessa corrente de arbitrariedades e crimes, o primeiro elo pode ser o ja- gunço analfabeto e mercenário, produto das condições adversas em que vive grande parte do nosso povo, mas o último elo pode estar num luxuoso escritório com ar condicionado, numa capital. Há atuantes principais, secundários e eventuais, como sabem os que, em mis- são evangélica, vivem junto ao povo pobre do campo. Passando uma rápida olhada, também, nos noticiários sobre o assunto, vêm-se aparecer os nomes de jagunços, policiais, pequenos comerciantes locais, ‘agentes de se- gurança’ auto-nomeados, fazendeiros, funcionários de cartórios, procuradores e terceiros, e os famosos ‘inves- tidores’, que dão um sentido mais chão à palavra ‘inves- tir’. É claro que cada um recebe, no processo inteiro, tarefas específicas, pois nem todos os interessados acei- tam sujas as mãos, deixando o ‘trabalho-sujo’ para os mercenários, muitas vezes ignorantes, cuja paga não faz nenhum paralelo com os gordos benefícios do negócio. (GEA, 1980, p. 14)

Se de um lado a grilagem é fenômeno antigo, de outro lado, ele persiste e continua ceifando vidas e impedindo que milhares de famílias de posseiros, pequenos proprietários e povos tradicionais exerçam livre- mente suas atividades. Também é patente a omissão dos entes públicos de política fundiária pela realização de processos discriminatórios, pois revelariam, como revelaram os poucos efetuados, a veracidade dos fa- tos denunciados ontem e hoje.

As denúncias de grilagem na região

O evento acima narrado ocorrido em Santa Maria, em 1980, não é fato isolado. A ofensiva dos grileiros sobre as terras daquela região, com o incentivo do governo do Estado, atingia vários municípios, con- forme notícia a Folha de São Paulo:

Há dois meses, em Salvador, Eugênio Lyra, entregou na redação da sucursal de O Estado, uma relação contendo parte do levantamento que efetuara sobre os conflitos de terras em Santa Maria da Vitória, Coribe, Bom Jesus da Lapa e Correntina. A relação enumera disputas pela posse de terras em área de 462.885 hectares, envolvendo cerca de 15 fazendeiros e companhias agropecuárias que já expulsaram ou ameaçaram de expulsão mais de 230 fa- mílias de posseiros. (ASSOCIAÇÃO DE ADVOGADOS DOS TRABALHADORES RURAIS, 1987, p. 51)

Por sua vez, o Jornal da Bahia, dois dias após o assassinato de Eugênio, informa que

Santa Maria da Vitória, Coribe e demais municípios da região do Médio São Francisco apresentam há muito tempo um quadro de violências motivada pela pre- sença de grileiros, que na tentativa de aumentar as fronteiras da pecuária e, levando em conta que muitas

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das terras não estão ainda devidamente regularizadas, transformaram a região em verdadeira praça de guerra, com assassinatos e ameaças feitas não somente aos tra- balhadores rurais, mas também a todos que resolvam defende-los. (ASSOCIAÇÃO DE ADVOGADOS DOS TRABALHADORES RURAIS, 1987, p. 52)

Ademais, em levantamento feito por este autor para pu- blicação Especial de 10 anos da Morte de Eugênio Lyra, intitulada ‘BAHIA, Violência e Impunidade no Campo’, foram encontrados, na região Oeste, 14 assassinatos de trabalhadores rurais entre 1976 e 1987, de um total de 109 mortes que ocorreram na Bahia (ASSOCIAÇÃO DE ADVOGADOS DOS TRABALHADORES RURAIS, 1987). Esses números evidenciam o que o Jornal acima chama de ‘praça de guerra’, mas também significam que havia em todo o Estado uma violência generalizada con- tra posseiros e pequenos proprietários, uma vez que o mesmo levantamento também identificou assassinatos nos municípios de Feira de Santana, Sento-Sé, Senhor do Bonfim, Porto Seguro, Xique-Xique, Paulo Afonso, Una, Entre-Rios, Itabuna, Eunápolis, Paripiranga, Formosa do Rio Preto, Ilhéus, Barreiras, Monte Pascoal, Nazaré, Morro do Chapéu, Monte Alegre, Irecê, Simões Filho, Canavieiras, Itapebi, Pau Brasil, Iaçu, Alagoinhas, W. Guimarães, Vitória da Conquista, Sta. Luzia, Campo Formoso, Amado Bahia, Casa Nova, Sta. Terezinha, Pojuca, Camamu, Marcionílio Souza, Canápolis, Ibotirama, Nova Viçosa, Marau, Itacaré, Barra, Mirandela, Jacobina, Belmonte, Riachão das Neves e São Desidério. (ASSOCIAÇÃO DE ADVOGADOS DOS TRABALHADORES RURAIS, 1987)

Ressalte-se que Eugênio juntara farta documentação sobre a gri- lagem e violência no campo na região, com nomes dos grileiros e das vítimas para depoimento que prestaria na semana seguinte, dia 28 de setembro de 1977, na CPI da Terra, da Assembleia Legislativa da Bahia.

a atUaÇÃo de eUGÊnio: o direito QUe liBerta

O direito se resume à lei? Segundo Roberto Lyra Filho (1987, p. 36), não. Ao contrário, para ele:

O direito autêntico e global não pode ser isolado em campos de concentração legislativa, pois indica os prin- cípios e normas libertadores, considerando a lei um sim- ples acidente no processo jurídico, e que pode, ou não, transportar as melhores conquistas.

Eugênio também acreditava que não. Os advogados mi- litantes nos diversos movimentos sociais e organizações não governamentais também assim acreditam. Ou seja, não acreditam no direito encarcerado nas leis e normas produzidas pelo Estado. Acreditam no direito insurgen- te, alternativo, “no direito achado na rua”, fruto das lu- tas de homens e mulheres que se juntam em sindicatos, associações, comunidades tradicionais e forjam regras de relacionamento, constituindo um novo direito e ver- dadeiras fontes de direito. (WOLKMER, 1994)

Se Eugênio Lyra fosse daqueles advogados de escritório e ar con- dicionado, se ele limitasse a peticionar ao judiciário ou ao delegado, sem qualquer militância e trabalho educativo, certamente nada lhe te- ria acontecido. Entretanto não era esse o seu perfil. Ao contrário, ele participava de reuniões para discutir o direito à terra e o direito de de- fendê-la. Isso porque a terra era mais que a posse ou a propriedade de um pedaço de chão.

A terra era vida e usar a terra era usar fazendo-a produzir, mas tam- bém conservando seus recursos naturais, preservando o meio ambien- te, além de preservar as formas de organização, a cultura, as tradições, enfim, a relações sociais de cada comunidade.

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Em nota oficial, no dia 22 de setembro de 1977, dia do assassinato de Eugênio, a Federação dos Trabalhadores na Agricultura no Estado da Bahia (Fetag), assim se pronunciou

O Dr. Eugênio Lyra Silva era pessoa de elevados valores morais, íntegro, sincero, dedicado, combativo. Homem de profundos e nobres ideais, ao lado de sua esposa, Dra. Lucia Lyra, companheira inseparável de todos os mo- mentos, dedicou sua jovem vida à defesa dos trabalha- dores rurais, fazendo sua profissão um sacerdócio con- tra o arbítrio, a violência, e ilegalidades. Seu assassinato representa um marco na nossa história e seu sacrifício se insere entre aqueles que com determinação, lutam contra a prepotência e a injustiça, dando em holocausto a própria vida em defesa da legalidade, liberdade e da dignidade humana. (ASSOCIAÇÃO DE ADVOGADOS DOS TRABALHADORES RURAIS, 1987, p. 24)

Ao se referir ao mesmo crime, em nota conjunta a Associação dos Sociólogos do Estado da Bahia, Instituto dos Arquitetos do Brasil – Departamento da Bahia, Associação Baiana de Biologia, Associação dos Profissionais Assistentes Sociais, Instituto Baiano de Administração, Clube de Engenharia da Bahia e a Associação Baiana de Geólogos, as- sim se manifestaram:

Eugênio Lyra foi assassinado pelo estrito e nobre exercí- cio de sua profissão. A angústia e tristeza que esta cons- tatação provocou aos profissionais liberais deve suceder uma análise que profunde a questão para além dos exe- cutores e mandantes imediatos e examine as raízes da violência na área rural da Bahia. Evidenciou-se à opinião pública baiana que este crime não pode ser examinado sob a ótica de um crime comum, mas como decorrência de um processo de apropriação e concentração de terras que se manteve pela inexistência de garantia individuais,

pela omissão da intervenção pública, pela negligência ou conivência de autoridades menores e pela práti- ca da impunidade até então gozada pelos mandantes na região. (ASSOCIAÇÃO DE ADVOGADOS DOS TRABALHADORES RURAIS, 1987, p. 29)

Assim foi a atuação de Eugênio, em plena ditadura militar, con- tribuía para a organização de sindicatos, organizava resistência à gri- lagem, defendia trabalhadores contra a polícia e no judiciário, o que nunca acontecera antes dele. Quando a grilagem, as expulsões, as vio- lências generalizadas praticadas pela polícia e por jagunços a mando dos latifundiários a apropriação ilegal das terras eram comuns.

a reaÇÃo dos latiFUndiÁrios

A mudança que vai acontecer a partir da assessoria jurídica de Eugênio causa profunda irritação aos latifundiários da região que aumentam a violência contra os trabalhadores antes de chegarem ao advogado. Foi assim que, um ano antes foi assassinado o trabalhador rural Basílio Caldeira da Silva, de Coribe, “cujo corpo foi encontrado no dia 6 de outubro passado, já em estado de putrefação, dentro da propriedade de Luiz Américo Lisboa, conhecido grileiro da região”. (ASSOCIAÇÃO DE ADVOGADOS DOS TRABALHADORES RURAIS, 1987, p. 52) Diz ainda a mesma nota que “O trabalhador morto estava em questão com o proprietário da fazenda onde se corpo foi encontrado, e pro diversas vezes, antes que fosse assassinado, bilhetes foram deixados em árvo- res informando que ele morreria.” (ASSOCIAÇÃO DE ADVOGADOS DOS TRABALHADORES RURAIS, 1987, p. 52)

Inicialmente, um dia após a chegada do casal – Lucia e Eugênio – a Srta. Maria da Vitória foram abordados pelo grileiro Geraldo Fé Souza, que após muito arrodeio, disse saber que os dois eram advogados do Sindicato dos Trabalhadores Rurais e que esses trabalhadores eram

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invasores de terras e que ele estava disposto a pagar bem para evitar a defesa eles pelos advogados. Obviamente, a tentativa de suborno foi imediatamente rechaçada.

As ações individuais vão se sucedendo. No dia 19 de março de 1977, no Mercado Municipal de Santa Maria da Vitória, Agostinho Alexandrino de Souza, após agredir publicamente o trabalhador rural Joaquim Manoel Dourado, momento em que afirmou que tinha “12 balas para o barbudo”. No dia seguinte, totalmente embriagado, diri- giu-se à casa do casal, chamando Eugênio para sair. Ao abrir a porta notou que o grileiro estava armado e passava a arma para um pistoleiro que o acompanhava. Naquele momento, Eugênio percebeu que se tra- tava de uma armadilha: o grileiro lhe provocaria e, a qualquer reação sua, o pistoleiro atiraria a pretexto de defender o patrão. Percebendo isso, manteve-se calado, segurando os cães (pastores alemães) que im- pediram a consumação do crime.

A irritação dos latifundiários vai levar a uma reação que culminará com o assassinato de Eugênio. Ou seja, após uma ação judicial cuja decisão foi favorável ao posseiro Isaias Pereira dos Santos contra Valdeli de Lima Rios, este lideraria a organização criminosa que tiraria a vida do advogado, não antes de ameaçar pessoalmente em uma vistoria onde exibiu um revólver calibre 38, cano longo, a mesma arma que seria utilizada para a prática do homicídio.

A crescente organização e resistência dos trabalhadores rurais só faz aumentar a irritação dos grileiros. Assim, no dia 16 de setembro de