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o “e stAdo n ovo ”

No documento Pau de arara (páginas 31-37)

NOTAS

3. o “e stAdo n ovo ”

entre 1937 e 1940, triunfava o nazifascismo. No Brasil, o terror poli-cial, a repressão violenta e, finalmente, as deportações, eliminavam qualquer tentativa de reação. desse modo, o estado Novo, essencialmente fascista, se sentia seguro. o nazifascismo era o futuro do mundo. hitler afirmava que seu regime duraria mil anos.

em setembro de 1939, as tropas alemãs invadiram a Polônia sem prévia declaração de guerra. dinamarca, Bélgica e holanda caíram diante do avanço das “panzer divizionen”. Vargas explorava habilmente a luta. homem frio e sem amigos, de 1,60m de estatura, sorriso enigmático e simpatia estudada (que fez escola no Brasil), decidiu que o momento era favorável para obter do imperialismo norte-americano – preocupado com a penetração alemã na América latina – algumas generosas concessões. em outubro de 1939, já com inclinações pelo fascismo, Getúlio Vargas tratava de assustar os ianques de-clarando que o Brasil se manteria neutro frente à guerra. “equidistantes de ambos os grupos pelo pensamento político, não temos motivo para intervir na luta. Tampouco contamos com a justificativa de interesses econômicos”, dizia ele um mês depois da invasão da Polônia pelos nazistas.

Vargas sabia que isso não era verdade. A economia brasileira, que sempre foi um apêndice dos interesses ingleses, desde os tempos do império, começou a ce-der no início do século ante a crescente penetração dos estados unidos. em 1939, o efêmero crescimento do comércio com a Alemanha não passava, em grande parte, de uma forma de chantagem para obter maiores vantagens dos norte-ame-ricanos, com os quais Vargas nunca simpatizou. A guerra continuava com vitórias para o nazifascismo. em junho de 1940, a França foi obrigada à rendição. Paris foi ocupada. Getúlio e seus generais estavam eufóricos. “Sentimos que os velhos sistemas e fórmulas antiquadas entram em declínio. [...] uma nova era está come-çando. é necessário remover o entulho das ideias mortas e dos ideais estéreis”6. o resultado, no Brasil, era o arrocho da ditadura pretoriana. um relato das torturas daquela época só pôde ser realizado anos mais tarde, com a que-da do estado Novo.

em 1946, o deputado Carlos Marighella, eleito pelo Partido Comunista Brasileiro, que então gozava de um breve período de legalidade, denunciou à Câmara a vergonha daqueles trágicos tempos.

e aqui posso acrescentar: fui testemunha dos processos empregados com ma-çaricos, com que se arrancavam as solas dos pés dos presos. Isto se fez na Polí-cia Central, ainda em 1940, quando se deu no Rio de janeiro a prisão de cento e tantas pessoas, que tiveram de sofrer as mesmas torturas.

já em 1946, conheci um marinheiro de nome Faustino, que não tinha uma par-te das nádegas; esta havia sido arrancada através de processos especiais empre-gados pela Polícia. [...] Arrancar os cabelos do corpo com alicates além de outros processos que nos deixam de cabelos arrepiados, como os que usavam com as senhoras. Isso a Polícia fez no caso da companheira de um militante que havia sido preso, Sebastião Francisco: essa senhora acabou por suicidar-se, depois de ter sido submetida a semelhante processo de tortura.

[...] em outubro de 1940, quando cheguei de São Paulo, e fui alojado na Seção dos Militares do Presídio do distrito Federal, pude entrar em contato com todos os presos que haviam passado pela Polícia Central. o espetáculo era dos mais terríveis: uns chegavam queimados, outros com equimoses produzi-das pelos espancamentos com canos de borracha [...] havia o processo dos adelfis, que era enfiar um estilete de taquara ou um alfinete por baixo das unhas. havia também a americana, que consistia em fazer permanecer de pé o preso, com uma máscara afivelada ao rosto e sem poder respirar. havia, ainda, o processo das esponjas com mostarda aplicadas às senhoras. espancavam-se até crianças, como foi o caso da filha de Antônio Xavier, presa com a mãe, em 1940, e submetida a terríveis torturas7.

enquanto dentro das prisões a polícia de Filinto Müller reprimia os des-contentes, do lado de fora a espionagem em favor do “eixo” se tornava pública.

Na costa brasileira, espiões alemães e brasileiros (“integralistas”) instalavam aparelhos de rádio para informar aos submarinos alemães os movimentos de navios aliados. outros, dentro do próprio governo, enviavam documentos im-portantes aos nazistas informando-lhes sobre os planos governamentais.

o Senhor Góes Monteiro, chefe do estado Maior, reuniu em seu gabinete os representantes da imprensa e declarou-lhes que se quisessem continuar a ver sair [sic] as suas folhas era preciso que mudassem de atitude e deixassem de mostrarem-se favoráveis à Inglaterra, como faziam em todas as oportu-nidades, e que passassem a defender a única causa que interessa ao Brasil, que é a da Alemanha8.

Porém, com a participação dos estados unidos na guerra, com seus capitais solidamente instalados no Brasil, Vargas e seus generais se viram obrigados a participar do esforço bélico dos norte-americanos. em 1942, os submarinos alemães afundaram, em três dias, cinco navios mercantes brasi-leiros próximo ao litoral.

Foram torpedeados, no total, 37 barcos com mais de mil mortos entre civis e militares. Ao então ministro da Guerra, general dutra, coube a

respon-sabilidade de embarcar tropas em navios mercantes para ajudar a construir as bases militares que os norte-americanos instalavam no Nordeste (Pernambu-co e Rio Grande do Norte), em troca de ajuda e dinheiro ao governo brasileiro.

o Brasil entrou na guerra e mandou tropas à Itália, comandadas pelo general Mascarenhas de Moraes. entre os jovens oficiais que lutaram na Itália, ao lado dos norte-americanos, alguns se sobressaíram anos mais tarde.

em 1944, como resultado da guerra mundial, a pressão da opinião pú-blica em favor das liberdades democráticas anuncia o fim do estado Novo, liga-do, por afinidades ideológicas, ao nazismo.

organizaram-se manifestações públicas exigindo a anistia para os pre-sos políticos, a censura já não conseguiu impedir que a imprensa opinasse sobre o que realmente estava acontecendo no país. Getúlio Vargas foi obrigado a dar baixa a um dos seus auxiliares mais fiéis, o chefe de polícia Filinto Müller, depois de sete anos de serviço eficiente. o estado Novo entrou em uma encru-zilhada histórica.

o caminho do fascismo, seu modelo original, foi bloqueado pela derro-ta nazisderro-ta na europa. A penetração do capiderro-tal norte-americano aumentou ver-tiginosamente, como um saldo do esforço bélico. de regresso dos campos de batalha, da convivência com os estados maiores militares norte-americanos, o general Mascarenhas de Moraes e os jovens oficiais de seu estado Maior acatam a realidade de um novo e definitivo vínculo imperialista. Mas a op-ção de Vargas era outra. Passa a defender o monopólio estatal do petróleo, estabelece relações diplomáticas com a união Soviética e, finalmente, cede às pressões populares anistiando e libertando os presos políticos, a maioria dos quais fora condenada em 1935 a 10, 15 e 25 anos de prisão. o gesto final que determina o encerramento do primeiro ato da carreira de Getúlio Vargas foi sua atitude com relação ao capital estrangeiro: promulga, em julho de 1945, a lei Antitruste. em agosto, a união democrática Nacional (partido nitidamen-te conservador e pró-nornitidamen-te-americano, formado, entre outros, por eduardo Gomes) definia sua posição ao especificar em seus estatutos: “Apelar para o capital estrangeiro, necessário para os empreendimentos da reconstrução na-cional e, sobretudo, para o aproveitamento das nossas reservas inexploradas, dando-lhe um tratamento equitativo e liberdade para a saída dos juros”9. o pensamento não podia ser mais claro.

dois meses depois, os mesmos generais que fizeram de Getúlio um dita-dor em 1937 baixam as cortinas do primeiro ato. o estado Novo acabou. Getúlio foi deposto pelo alto comando militar. um assessor próximo de Vargas relata:

No dia 25 de outubro vieram dizer-me de fonte segura que os generais estavam em reunião permanente no Ministério da Guerra. [...] dei ao presidente a

infor-mação e ele a confirmou: “os generais estão mesmo reunidos e conspirando sob a chefia de Góes”. Mostrei-me alarmado e não escondi que julgava a situação de extrema gravidade. ele concordou com absoluta calma. [...]

As últimas horas da tarde do dia 29, o gen. dutra apareceu no Palácio Guana-bara. [...]Assim que o vi sair dirigi-me ao gabinete. encontrei o presidente pas-seando com o semblante fechado sinal de contrariedade. Como de costume, procurei evitar o tom dramático e indaguei se já estávamos com tempestade à vista. Respondeu-me que era isso mesmo. À vista, e dutra vinha anunciá-la [...]

lá pelas 9 horas da noite apareceu o gen. oswaldo Cordeiro de Farias. desejava falar urgentemente com o presidente. [...] Cordeiro vinha como representante dos generais e apresentou ao presidente, após rápidas explicações, uma minuta de declaração de renúncia. o presidente chamou-me e mandou datilografá-la em papel de uso da Presidência [...]10

o general Góes Monteiro, o mesmo que almoçara lagostas com Vargas no golpe de 1937, havia ditado a seu camarada de armas, Cordeiro de Farias (futuro ministro do Interior de Castelo Branco, depois do golpe de 1964), os termos da minuta de renúncia que ele entregou, posteriormente, a Vargas.

A espiral da violência recomeçava e os personagens eram, praticamente, os mesmos de 1937.

deposto Vargas, as eleições deram a vitória ao general eurico Gaspar dutra, transformado em candidato legal, apoiado oficialmente pelo ditador que estava saindo, e que derrotara outro militar, o brigadeiro da Aeronáutica eduardo Gomes, candidato da união democrática Nacional.

uma farsa democrática começava.

4. A

fArsA demoCrátiCA

os pretorianos que criaram o estado Novo foram também os agentes de sua destruição. Agora, para o presidente Gaspar dutra – um dos conspi-radores do “Plano Cohen” e ministro da Guerra do estado Novo – surgiam duas tarefas principais: 1) restabelecer as condições que permitiam ao capital estrangeiro manter seus privilégios no país; 2) conter as reivindicações popu-lares que haviam ganhado impulso com a derrota do nazifascismo.

Reabriram-se as sessões do Congresso, a imprensa podia falar, o Par-tido Comunista – novamente legalizado – chegava a ter 50 mil afiliados e até um boletim diário impresso. havia grande esperança de redemocratização, mas tudo isso não passava de ilusão: a ditadura de Getúlio continuava, agora sem ele. em 1946, enquanto o Congresso discutia a nova Constituição, a po-lícia de dutra ocupava as ruas do Rio de janeiro:

depois de algumas voltas pelas artérias da cidade, em uma camionete, os po-liciais localizaram lafaiete, que caminhava por uma rua junto com joão Tor-quato. Caíram sobre eles como feras, os arrastaram até a camionete e dentro dela lhes deram pontapés e socos. Por ordem de Charles Borer, a camionete seguiu pela Avenida Brasil parando na esquina com a Ilha do Governador, uma zona deserta. Com as mãos amarradas, os dois presos foram retirados violentamente do veículo. os policiais continuavam espancando-lhes; depois os feriram com punhais, divertindo-se com o sangue que escorria. Finalmen-te os executaram atirando pelas costas com cinco tiros de revólver. Ao mesmo tempo em que Charles Borer recomendava: “Não se pode deixar rastros!”11. Como joão Torquato, depois de fuzilado, ainda fizesse algum movimento foi novamente baleado [...] Com a intenção de desorientar qualquer investigação futura, os policias assassinos voltaram ao local do crime. estranharam o de-saparecimento do corpo de Torquato, mas levaram lafaiete, talvez ainda com vida, para a Parada de lucas, Zona Norte do Rio, onde terminaram de execu-tá-lo com dois tiros12.

o chefe da polícia dessa época era, como quase sempre, um militar, o general Antônio josé de lima Câmara. enquanto isso, no Congresso, estava sendo votada a Constituição, sob censura às emissoras de rádio que, ainda hoje, são o principal veículo de informação para mais da metade da popu-lação brasileira. os jornais e revistas chegavam somente às grandes cidades;

o interior dependia, como agora, da “hora do Brasil”, programa de rádio do governo, para se inteirar dos acontecimentos.

A tímida imprensa de oposição, amedrontada ainda pela censura imposta pelo estado Novo, se atrevia, no entanto, a narrar alguma coisa do que realmente ocorria no país em 1946:

Mil e quinhentos operários de São Paulo são processados pela lei de Segu-rança Nacional por haver entrado em greve; foram proibidos os festejos de 1º de Maio; há inúmeros trabalhadores presos; o delegado de ordem Políti-ca e Social, coronel Augusto Imbassaí, dissolveu um comício nas esPolíti-cadarias da Câmara dos deputados, os parlamentares protestam; a polícia dissolveu a tiros de metralhadora um comício popular no largo da Carioca, há vários feridos; o deputado Café Filho [futuro presidente do Brasil, depois que Var-gas se suicidou em 1954] denuncia nas Câmaras a violência contra o povo:

o governo exonerou o cientista Aloísio Neiva Filho, do Instituto oswaldo Cruz, porque em sua condição de médico atendeu a vítimas da repressão policial; o ministro da justiça, Carlos luz, proíbe reuniões em todo terri-tório nacional13.

Seria exagerado afirmar que dutra foi eleito exclusivamente para acabar com o Partido Comunista do Brasil, porém, sem dúvida, este foi um dos seus principais objetivos. e ele soube concretizá-lo cuidadosamente. em 1945, o PCB havia se transformado em um pesadelo constante para a reação. Nas elei-ções daquele ano, os 600 mil votos obtidos pelos comunistas atemorizaram a classe dominante. o partido comunista tinha 15 deputados no Congresso (entre eles, o jovem Carlos Marighella) e um senador (luís Carlos Prestes). As eleições estaduais preocupavam ainda mais aos detentores do poder.

Cidades como Santos e Santo André (estado de São Paulo), Recife e jaboatão (Pernambuco), caracterizadas por grande concentração de operários e uma ampla força política do Partido Comunista, foram declaradas legalmen-te “estâncias balneárias” (de exclusiva afluência turística) para que, assim, os prefeitos, em conformidade com o previsto na Constituição, não fossem eleitos pelo povo, mas nomeados diretamente pelo governador. No entanto, os comu-nistas conseguiram eleger 23 deputados estaduais em São Paulo e, na cidade do Rio de janeiro, fizeram 18 dos 50 vereadores.

em finais de 1946, o Partido Comunista tinha, sem contar os simpati-zantes, cerca de 180 mil militantes. em novembro desse ano, o jornal Correio da Manhã, do Rio, lamentava-se: “Não se pode perceber, também, até agora, de que modo o governo oporá uma barreira à epidemia comunista [...]”14`.Mas dutra sabia como. desencadeou uma série de provocações ao PC, destinadas a criar pretextos para tomar uma atitude mais violenta. A primeira delas acon-teceu em maio, quando um comício organizado pelos comunistas na imensa praça do largo da Carioca foi dispersado a tiros.

em agosto, bandos de delinquentes contratados pela própria polícia destruíram a pedradas as vitrines de grandes lojas do Rio, para justificar, mais tarde, a repressão violenta planejada pelo governo. Finalmente, em começos de 1947, o PC é acusado, na Câmara de deputados, de receber dinheiro de Moscou. um dos deputados do regime pede que o partido seja dissolvido. os comunistas apelam ao Supremo Tribunal Federal, alegando que um partido com mais de 200 mil contribuintes não necessitava de di-nheiro de fora.

o vice-procurador da República, Alceu Barbedo, utiliza um argumento infantil, demonstrando que o nome do partido era “Partido Comunista do Brasil” e não “Partido Comunista Brasileiro” (o que, segundo ele, “provava que era uma filial de alguma matriz”). Por três votos contra dois, o Supremo Tribunal aprova a dissolução do PCB, que, depois disso, nunca mais sairia da ilegalidade. A Constituição de 1946 estava em plena vigência há menos de três meses e já sofria sua primeira grande violação. Mas isso era só o começo.

outras medidas desse tipo viriam a alimentar a cadeia de violência.

No documento Pau de arara (páginas 31-37)