NOTAS
2. o golpe dentro do golpe
Tal é o quadro em meados de 1969. Tortura-se de forma sistemática em Belo horizonte, São Paulo, Rio de janeiro, Curitiba, Recife e Brasília e, de maneira isolada, em outras regiões do país. As prisões estão repletas, princi-palmente com membros das organizações clandestinas de luta armada57.
Até meados de 1969, as diversas organizações revolucionárias haviam expropriado quantidades superiores a 900 mil dólares (ao câmbio da época) em mais de 60 ações contra bancos. Pouco antes, em fevereiro de 1969, um capitão do exército do 12º Regimento de Infantaria de Quitaúna (próximo a São Paulo) deserta do quartel com alguns sargentos, cabos e soldados, levando junto uma caminhonete cheia de armas modernas e apetrechos militares. é Carlos lamarca, que passa para a luta armada revolucionária.
em meados de 1969, toda atividade repressiva está dirigida contra os grupos armados.
em junho, Carlos Marighella lança um novo manifesto anunciando a iminência da guerrilha rural:
A guerra revolucionária que estamos fazendo é uma guerra prolongada, que exige a participação de todos. é uma luta feroz contra o imperialismo nor-te-americano e contra a ditadura militar brasileira. […] nosso próximo passo deve ser a luta no campo. este ano será o ano da guerrilha rural. […] essa alian-ça é o grande pedestal da luta no campo e da guerrilha rural, de onde surgirá o exército revolucionário de libertação do povo58.
Marighella e lamarca passam a ser os revolucionários mais procurados, em uma verdadeira caçada sem nenhum resultado. Praticamente todo o exér-cito e importantes contingentes da Marinha e da Aeronáutica estão empenha-dos na luta contra os grupos de ação armada, o chamado “inimigo interno”.
de 1969 até início de 1970, pelo menos oito militantes da luta armada foram assassinados a sangue frio em ações de emboscadas ou cerco60. No entanto, as ações revolucionárias se intensificam. em julho de 1970 é expropriado um cofre do ex-governador de São Paulo, Ademar de Barros, com 2,5 milhões de dólares, enquanto os assaltos a bancos e a alguns depósitos de armas aumen-tam e passam a ser cada dia mais frequentes.
enormes cartazes com fotos de militantes clandestinos são distribuídos por todo o país e informam: “Terroristas são procurados – assaltaram, mata-ram e roubamata-ram pais de família. À menor suspeita, avise ao primeiro policial que encontrar”.
Instituída em 1964 como uma forma de localizar os esquerdistas ou seus simpatizantes nos sindicatos, na administração pública e nas universidades, a delação é intensificada. em São Paulo e Belo horizonte (e mais tarde no Rio de janeiro), todos os porteiros de edifícios se transformam imediatamente em agentes policiais, pois são obrigados a registrar na delegacia de ordem Política e Social todos os moradores do imóvel e as possíveis alterações e mudanças. A polícia lança uma campanha renovada de delação, patrocinada pelas mais altas autoridades.
“Cada cidadão deve se transformar em um informante da polícia” – diz o governador de São Paulo, Abreu Sodré, em 30 de julho de 1969. uma nota dos jornais mostra como é a campanha.
Milhares desses folhetos, impressos pela Federação Paulista de Futebol, com a letra do hino Nacional Brasileiro de um lado e com estas e outras reco-mendações dos “mandamentos da segurança” de outro, foram distribuídos.
1. [...] Ao ver um assalto ou alguém em atitude suspeita, não fique indiferente, não finja que não viu, não seja conivente. Avise logo à polícia ou quartel mais próximo. [...]
2. Antes de formar uma opinião, verifique várias vezes se ela é realmente sua ou se não passa da influência de amigos que o envolveram [...]
3. Aprenda a ler jornais, ouvir rádio ou televisão com certa malícia [...] Você vai se divertir muito com o jogo daqueles que pensam que são mais inteligentes do que você [...]
4. Se você for convidado ou sondado; ou conversando sobre assuntos que lhe pareçam estranhos ou suspeitos, finja que concorda e cultive relações com a pessoa que assim o sondou e avise à polícia ou quartel mais próximo. As auto-ridades lhe dão todas as garantias, inclusive o anonimato.
5. Aprenda a observar e guardar de memória alguns detalhes marcantes das pessoas, viaturas, objetos nas ruas, nos bares, cinemas, [...] nas lojas [...] edifícios comerciais e residenciais [...]
6. Não receba estranhos na sua casa – mesmo que sejam da polícia – sem antes pedir-lhes a identidade e observá-los até guardar de memória alguns detalhes [...]
7. Nunca pare seu carro solicitado por estranhos nem lhes dê carona [...]
8. há muitas linhas telefônicas cruzadas. Sempre que encontrar uma delas, mantenha-se na escuta e avise logo à polícia ou o quartel mais próximo [...]. As autoridades lhe dão todas as garantias, inclusive o anonimato.
9. Quando um novo morador se mudar para o seu edifício ou o seu quarteirão, avise logo à polícia ou ao quartel mais próximo [...] As autoridades lhe dão to-das as garantias, inclusive o anonimato.
10. Nossa desunião será a maior força do nosso inimigo [...]61
A nota sobre os “dez mandamentos” foi publicada no Jornal do Brasil, do Rio, em 24 de março de 1970.
No entanto, a delação foi a mais ineficaz de todas as armas emprega-das para combater as organizações populares e os militantes clandestinos62. enquanto isso, praticamente todo potencial das Forças Armadas foi gradual-mente concentrado nas tarefas de repressão. Na Academia Militar das Agu-lhas Negras, já havia sido criado, em 1964, um curso de “guerra revolucio-nária” e, em 1966, instituiu-se um departamento de instrução especializada em operações antiguerrilheiras. Na região amazônica foi criado um centro de instruções de guerra na selva, a partir de 1966. A repressão se estendeu, além disso, a todos os níveis da tropa: cada regimento (três mil homens) e cada batalhão (400 a 900 soldados) passaram a ter, desde finais de 1968, uma unidade repressiva. As companhias, de 150 a 200 soldados, passaram a ter um pelotão de repressão composto de 18 a 25 homens.
A linha adotada era definida pelo general Meira Mattos em uma frase divulgada em setembro de 1969: “dar segurança ao país, custe o que custar”.
o corpo de fuzileiros navais, tropas de choque, foi aumentado de 8 a 15 mil homens. A Marinha passou de 29 a 51 navios de guerra. A Força Aérea, de 600 aviões de combate, em 1966, está passando a mil, especialmente aparatos de apoio tático na luta antiguerrilheira63.
Na administração pública, principalmente quando se trata de determi-nar a execução da política interna, o Conselho de Segurança Nacional é um deus Todo-Poderoso. Por um lado, Costa e Silva tenta reabrir o Congresso e encarrega a redação de uma nova Constituição a seu vice-presidente, Pedro Aleixo, com a ajuda de um grupo de juristas neofascistas. Por outro lado, o general jayme Portella, secretário-geral do Conselho de Segurança Nacional, é a grande figura do gabinete.
Quando já havia fixado as datas para a revogação do Ato Institucional nº 5 e a reabertura do Congresso, sistematizando as medidas repressivas dentro do
âmbito da nova Constituição, Costa e Silva sofre, repentinamente, em 29 de agos-to de 1969, uma complicação neurológica que o deixa hemiplégico. Portella assu-me o comando e liquida por sua conta – e mais tarde com a aprovação dos gene-rais – a possibilidade de que o vice-presidente Pedro Aleixo, um civil, tome posse.
o antigo secretário de imprensa da Presidência, Carlos Chagas, conta em seu diário:
Isolado em seu gabinete durante quase toda a manhã, o general jaime Portela demora-se em sucessivos telefonemas. [...] Às primeiras horas da noite cada mi-nistro militar já havia colocado seus principais auxiliares a par da situação. Pou-co depois, no palácio da laguna, Pou-começaria a reunião secreta do alto Pou-comando das Forças Armadas, órgão constitucional desde 1967, e integrado pelos três mi-nistros militares, os três chefes do estado Maior de cada ministério militar e o chefe do estado Maior das Forças Armadas. [...] Não demorou muito a conclu-são: nos setores militares em geral seria muito difícil que se deixasse a posse do vice-presidente […] Passou-se à mecânica. os três ministros militares estavam de acordo e, em pouco tempo, cristalizava-se a fórmula: os titulares do exército, Marinha e Aeronáutica deveriam responder pelo presidente Costa e Silva. [...]64.
o general jayme Portella cuida dos aspectos legais do novo golpe pro-curando Carlos Medeiros, um jurista já experiente em Atos Institucionais:
– é o ministro Carlos Medeiros?
– é.
– Aqui fala o General Portela. Preciso vê-lo a respeito de um assunto do presi-dente. o senhor poderá me receber às 9 horas? é urgente.
– Pois não. espero-o daqui uma hora65.
Antes das 11 horas da manhã, o “Ato” estava redigido e foi transmitido em cadeia para todo o país pela Agência Nacional, nessa mesma tarde:
[...] como imperativo da Segurança Nacional, cabe aos ministros da Marinha de Guerra, do exército e da Aeronáutica assumir as funções do presidente, enquanto dure o impedimento do chefe da Nação [...] Pode o país confiar no patriotismo de seus chefes, que, nesta hora, como sempre, saberão honrar o legado histórico.
o golpe estava consumado. A junta Militar se instalou rapidamente no comando, enquanto, nos quartéis, acendia-se a luta interna pelo poder, já fra-cionado desde a promulgação do Ato Institucional nº 5. A ditadura não admite
um chefe com três cabeças. Somente um desequilíbrio circunstancial havia imposto essa situação. Ainda no mesmo domingo em que se redigia o novo Ato, os militares tiveram com o vice-presidente, Pedro Aleixo, um diálogo muito instrutivo:
Todos nós o conhecemos, dr. Pedro Aleixo, como um homem de brio, infle-xível em seus princípios e determinações. Temos a certeza de que, assumindo o Governo, o senhor cumpriria à risca e imediatamente o compromisso do presidente Costa e Silva (e seu, também), abrindo o Congresso e promulgan-do a nova Constituição. Acontecesse que o presidente dispunha de condições para tomar essas medidas, mesmo contando com forte oposição de certos se-tores militares, que nós lhe transmitimos. Mas o senhor não, dr. Pedro. Não haveria clima, e o País entraria em caos. […] Além do mais, dr. Pedro, o senhor foi contra o Ato 566.
Aconteceu, então, o imprevisível, o que os militares da junta jamais ha-viam imaginado: na tarde de quinta-feira, 4 de setembro de 1969, um coman-do conjunto da Ação libertacoman-dora Nacional e coman-do movimento MR-8 sequestra, no Rio de janeiro, o embaixador norte-americano Burke elbrick. Como resga-te, exigem a divulgação de um manifesto à Nação em todos os jornais, sua lei-tura pelas principais emissoras de rádio e televisão e a liberação de 15 presos políticos. A junta Militar está atônita. o embaixador é um personagem muito importante. Na Vila Militar, o general dutra de Castilho agitava seus oficiais em uma tentativa de impedir que a junta negociasse. No dia seguinte, em um avião especial, chegam ao Rio agentes do FBI, enquanto 4.200 policiais são lançados à maior caçada humana de que se tem notícia na história do Rio.
Porém, na mesma noite, o manifesto é lido em rádio e televisão. eis o anúncio de que a junta Militar cedeu.
Na tarde de sábado, um avião militar “hércules” conduzia, para o Mé-xico, os 15 presos políticos, em uma longa viagem de 25 horas, com os pés e mãos amarrados, como último suplício. entre os libertados estão: Gregório Bezerra; Vladimir Palmeira – o dirigente da Manifestação dos Cem Mil; josé Ibrahim – presidente do Sindicato dos Metalúrgicos de osasco, preso e tortu-rado em São Paulo; além de vários membros importantes de diversos grupos revolucionários de ação armada e alguns estudantes67.
A partir do momento em que o embaixador norte-americano foi liber-tado, um plano de repressão intensivo foi desencadeado. Nos primeiros dias, cerca de 1.800 pessoas foram presas (quase todas no Rio de janeiro), sendo libertadas posteriormente. o Alto Comando das Forças Armadas, reunido no Rio, decide que os militares devem coordenar diretamente o plano nacional
de repressão. Na terça-feira (os 15 presos embarcaram para o México na tarde de domingo e, em seguida, o embaixador foi libertado), o ministro da justiça prepara uma nova lei para os novos tempos, em seu gabinete no sexto andar do Ministério:
era possível ouvir-se a voz do ministro comandando, quase aos gritos, um traba-lho que sua secretária executava na máquina de escrever. Seguiu-se um silêncio [...] cinco minutos depois, ele estaria despachando novamente com seus mem-bros da junta Governativa. Surgia o Ato Institucional nº 14, estendendo a apli-cação das penas de morte e de prisão perpétua – antes cabíveis só na hipótese de guerra externa – aos casos de guerra psicológica adversa e de guerra revolu-cionária ou subversiva, espécies de um gênero maior, a guerra interna”68. o Ato foi publicado em 9 de setembro, no dia seguinte ao outro Ato que desterrava, do território nacional, os 15 presos libertados. No entanto, os dois atos apresentavam a data do dia 5: recém-nascidos e já tinham efeito retroativo.
Nos quartéis-generais dos quatro corpos do exército, os generais exa-minavam com atenção as novas instruções do Alto Comando das Forças Ar-madas. encaminhava-se para a solução final – ou quase final – baseada nas experiências do 12º Regimento de Infantaria de Belo horizonte, do quartel--general de São Paulo. Pelo menos, já era um começo...