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o golpe AbortAdo

No documento Pau de arara (páginas 40-44)

NOTAS

6. o golpe AbortAdo

longa carreira de golpista. em 1952, foi chefe de polícia do Rio de janeiro, ten-do criaten-do o “esquadrão da Morte”, e, em 1964, ajuten-dou a derrubar o governo de Goulart.

A violência militar não estava dirigida apenas contra os nacionalistas das Forças Armadas; o terror foi usado também contra os civis que se opu-nham à participação das tropas brasileiras, ao lado dos norte-americanos, na guerra contra a Coreia do Norte.

dr. Vulpiano Cavalcanti, médico-cirurgião-ginecologista, 42 anos, casado, pre-sidente do Movimento Norte-Rio-Grandense dos Partidários da Paz [...] Na mesma hora e na presença do cel. Koeller, comandante da Base [Aérea de Na-tal], foram-lhe brutalmente rasgadas as vestes, e, depois de despido, espancado a socos, pontapés e cassetetes de borracha pelos majores Roberto hipólito da Costa e Nelson dias de Sousa Mendes, tenente Carlos Alberto Bravo da Câma-ra, tenente Correia Pinto e sargento Manoel Antônio Gomes Correia [...] Nessa cela, permaneceu 135 dias, sendo retirado constantemente para interrogatórios e torturas [...] Com cassetete espancaram-lhe os órgãos genitais e procuraram introduzi-lo na região anal. Nessa noite, desmaiou várias vezes. Numa des-sas ocasiões, foi despertado com um clister de pimenta. [...] Com um pequeno cassetete de borracha, de aproximadamente dez centímetros, espancaram-lhe os dedos das mãos, separadamente, até não poderem ser articulados, visando inutilizá-lo como cirurgião, conforme, sadicamente, diziam os torturadores22. dr. luís Inácio Maranhão Filho, 32 anos, solteiro, advogado, jornalista, membro da Associação Norte-Rio-Grandense de Imprensa e de seu conselho delibera-tivo, professor do Colégio estadual do Rio Grande do Norte [...] No mesmo dia, foi levado à presença do coronel Koeller, comandante da base, que ordenara a sua prisão. exigia o coronel Koeller “explicações” sobre várias reportagens publicadas na Folha do Povo do recife [Pernambuco] sobre torturas a presos políticos em Parnamirim. No dia seguinte foi levado, à meia-noite, para o que chamavam uma “sessão espírita”, sendo então espancado e torturado por oito oficiais e um sargento. [...] Por ordem do major hipólito foi metido em camisa de força e amarrado. depois de assim imobilizado, teve o saco escrotal amarrado a um cordão que era puxado pelo tenente Câmara e ao qual o mesmo oficial pendurou um peso de madeira23.

pretexto. em junho daquele ano, um Conselho especial de justiça absolveria 30 militares da Aeronáutica, acusados anteriormente de “atividades subver-sivas”. No entanto, o resultado almejado pelos golpistas havia sido alcançado com ou sem absolvições: destruir as bases de sustentação militar de Vargas, cuja situação política se debilitava rapidamente.

estou sendo sabotado por interesses de empresas privadas que já ganhavam muito no Brasil, que tem em cruzeiros duzentas vezes o capital que empregam em dólares e continuam transformando os nossos cruzeiros em dólares para emigrá-los para o estrangeiro, a título de dividendos24.

um mês depois, a temperatura política era insuportável. Sentindo a pressão que incidia sobre ele (até o Partido Comunista, cometendo um dos seus inumeráveis erros, o acusava nessa época de “representante do imperialismo”), Vargas recorre à inexorável linguagem dos dados para fazer uma acusação. uma acusação de roubo, puro e simples:

[…] mandei cotejar as declarações feitas pelos exportadores ao departamento do Comércio dos estados unidos, com as declarações feitas aos nossos consu-lados. Num quadro de balanço de dezoito meses consecutivos foi registrado um aumento de valores, nas faturas, de 150 milhões de dólares. Se conside-rarmos que o sistema era generalizado, nos é fácil concluir que, representando o nosso comércio com os estados unidos 55% do total, tivemos um mínimo de desvios cambiais de 250 milhões de dólares em 18 meses. [...] Reduzido assim o valor da moeda, apresentava-se como reflexo natural a elevação de preços [o custo de vida estava subindo a níveis insuportáveis naquela época], conse-quência e não causa de um fenômeno que escapava ao nosso controle. [...] Se fornecer, através do câmbio, os dólares para a compra das instalações, onde está o capital estrangeiro?25

o capital estrangeiro e seus sócios dentro do país compreenderam a intenção de Vargas e se prepararam para derrubá-lo novamente, como já o haviam feito em 1945. em fevereiro de 1954, os jornais publicaram um “Ma-nifesto dos Coronéis”, assinado por 80 oficiais que contavam com a vênia dos generais da camarilha militar que articulara o golpe de 1945 (Góis Monteiro, dutra, Cordeiro de Farias, eduardo Gomes).

o primeiro a assinar foi o mesmíssimo coronel, Amaury Kruel, que in-vestigara os sargentos nacionalistas. em 1964, durante o golpe contra joão Goulart, Amaury Kruel, como comandante do II exército, em São Paulo, desempenhou papel decisivo ao marchar contra as forças leais ao presidente.

outro nome entre os 80 foi Syseno Sarmento, um dos que conspiraram para o golpe de estado de 1945, na escola Superior de Guerra.

o “Manifesto” continha dois pontos de importância: o veto ao aumento do salário mínimo dos trabalhadores, que Vargas pensava dar frente à alta do custo de vida; e a exigência de destituição do ministro do Trabalho, joão Goulart, que apoiava o aumento.

No “Clube da lanterna”, outro foco de agitação fascista, ala direita dos conservadores da união democrática Nacional, o jornalista Carlos lacerda – futuro governador da Guanabara26, famoso por sua política de eliminação de mendigos, afogando-os no Rio da Guarda, em 1962 – pregava abertamente a necessidade de implantar a ditadura: “Se a udN não pode tomar o poder pelos votos, que o faça pelas armas”. No “Clube da lanterna” se reuniam mi-litares como Syseno Sarmento, homens de negócios, aventureiros e “senhoras da sociedade”. Numa noite de agosto de 1954, um grupo pertencente à guarda de proteção pessoal de Vargas feriu Carlos lacerda e matou um oficial da Aeronáutica, seu guarda-costas. este viria a ser o pretexto que os golpistas estavam buscando.

oficiais da Aeronáutica, que há muito vinham conspirando, praticamente tomaram posse da Base Aérea do Galeão – situada na Ilha do Governador – proclamando ali a chamada “República do Galeão”, transformada no centro da conspiração. os militares, depois de instalar esse segundo poder, cometeram uma série de violências invadindo, inclusive, o Palácio do Governo, no Rio de janeiro, “buscando o assassino do major que acompanhava lacerda”.

Ao amanhecer do dia 21 de agosto de 1954, a Marinha, o exército e a Aeronáutica estavam em estado de alerta. Ao governo só restava agora apelar à mobilização popular. Mas Vargas tinha medo. ele lutava contra o capital estrangeiro, fazia uma série de concessões progressistas, mas não a ponto de confiar no povo. Vargas era o representante de um setor da burguesia nacional que se opunha à colonização do país. Nada mais além disso.

No dia 22 desse mesmo mês, 32 generais exigiram, mediante um docu-mento, a renúncia de Getúlio Vargas, imediata e definitiva.

[...] os abaixo-assinados, oficiais-generais do exército, conscientes de seus deveres e responsabilidades perante a Nação, [...] declaram julgar, em cons-ciência, como melhor caminho para tranquilizar o povo e manter unidas as Forças Armadas, a renúncia do atual presidente da República, processando--se sua substituição de acordo com os preceitos constitucionais. Rio, 22 de agosto de 1954.

A união democrática Nacional, do sinistro Carlos lacerda e do

bri-Finalmente ia tomar o poder que lhe fora impossível alcançar por meio de eleições, as quais sempre perdeu.

Na madrugada do dia 24 de agosto, o governo reuniu sua equipe ministe-rial em busca de alguma saída. Mas Vargas já tinha encontrado a sua: às 8 horas da manhã, retira-se a seu quarto e suicida-se disparando um tiro no coração.

Vargas havia preparado uma surpresa para os generais e banqueiros da udN:

A campanha subterrânea dos grupos internacionais aliou-se à dos grupos nacionais revoltados contra o regime de garantia do trabalho. [...] Se as aves de rapina querem o sangue de alguém, querem continuar sugando o povo brasi-leiro, eu ofereço em holocausto a minha vida. [...] lutei contra a espoliação do Brasil. lutei contra a espoliação do povo. [Fragmento da Carta-Testamento de Vargas, 24 de agosto de 1954].

Aparentemente, Vargas descobriu muito tarde o verdadeiro caráter das forças que fizeram dele seu instrumento desde 1930. de qualquer maneira, o povo, mesmo antes de conhecer a última mensagem de Vargas, saiu às ruas tentando apedrejar o Ministério da Aeronáutica e as tropas que já ocupavam pontos estratégicos no Rio de janeiro.

A indústria e o comércio fecharam suas portas. jornais antivarguistas foram atacados. Carlos lacerda desapareceu misteriosamente da cidade. o que parecia uma vitória da união democrática Nacional paulatinamente se transformava em séria derrota. No entanto, indiretamente, a udN subiria ao poder através do vice-presidente Café Filho. e o faria curvada pelo peso de um cadáver e silenciada pela carta-testamento de Vargas27.

em outubro do ano seguinte, 1955, a união democrática Nacional foi derrotada pela terceira vez em eleições presidenciais, que, dessa vez, deram a vitória a juscelino Kubitschek contra o candidato do esquema entreguista, general juarez Távora. A posse do candidato vencedor foi fixada para janeiro do ano seguinte. A udN, precariamente no governo, tenta impedir dali que juscelino assuma o poder.

lacerda e o “Clube da lanterna” apregoavam seu inconformismo com a ascensão de Kubitscheck. um coronel, Bizarria Mamede, aproveitou a ocasião de um enterro para proclamar abertamente, em um discurso, que não seriam respeitados os resultados das eleições. No dia 8 de novembro de 1955, Café Filho – o vice-presidente que sucedeu Vargas no governo – foi hospitalizado depois de um ataque cardíaco. Carlos luz – de filiação lacer-dista –, presidente da Câmara de deputados, assumiu a Presidência nesse mesmo dia.

Carlos luz rejeita o pedido do general Teixeira lott, então ministro da Guerra, no sentido de punir Bizarria Mamede por seu discurso. o golpe ca-minha... em 11 de novembro, o general lott ocupa a cidade do Rio de janeiro.

No entanto, suas tropas saem à rua para manter a vontade popular e não, como nos golpes clássicos, para derrubá-la28.

enquanto isso, Carlos luz e os militares golpistas da época da morte de Vargas (que agora conspiram contra juscelino) embarcam a bordo do cruzador

“Tamandaré”, sob o comando do almirante Sílvio heck, e, organizados pratica-mente como junta Militar, planejam zarpar até o porto de Santos, em São Paulo, para ali estabelecer outro governo. o comandante da esquadra naval é um fa-nático anticomunista, o almirante Pena Botto (“o mundo livre não sabe ainda que por trás dos escuros muros do Kremlin se oculta uma verdadeira quadrilha de assassinos”, dizia ele). os outros passageiros do “Tamandaré” são muitos dos futuros participantes do golpe de estado de 1964: o coronel Bizarria Mamede, o coronel Canavarro Pereira (que concretizou, em 1969, como general, o cen-tro de torturas da “operação Bandeirantes”, em São Paulo), o coronel Syseno Sarmento, conspirador na escola Superior de Guerra (em 1968 comandava as tropas no Rio e foi um dos que mais pressionou para fechar o Congresso e esta-belecer as novas medidas ditatoriais daquela época) e vários outros.

A tentativa é ridícula e fracassa. os golpistas refluem. juscelino Kubitschek toma posse em janeiro de 1956. durante seu período de governo, os altos mi-litares estarão relativamente calmos. Trata-se, no entanto, de um entreato, um simples interregno. exatamente sete anos depois do suicídio de Vargas e de sua carta-testamento, outra carta de renúncia voluntária seria o sinal do golpe.

No documento Pau de arara (páginas 40-44)