2. OS COMPONENTES DO MOVIMENTO EMPREENDEDOR
2.1. O empreendedorismo e a pessoa do empreendedor
O termo empreendedor não é novo e tampouco há unanimidade sobre sua origem e significado. Hisrich e Peters (2004) afirmam que o termo tem recebido, ao longo do tempo, diferentes significados. Para eles, o termo que é de origem francesa (entrepreneur) significava, literalmente, aquele que está entre ou intermediário. O termo foi mudando de significado em diferentes épocas: inicialmente, era utilizado para se referir aos antigos comerciantes aventureiros que assinavam contratos de risco para vender mercadorias de pessoas de recursos e que estabeleceram as famosas rotas comerciais para o Extremo Oriente. Na Idade Média, o termo passou a ser utilizado para se referir aos indivíduos que se responsabilizavam pela administração de grandes projetos arquitetônicos como castelos, catedrais, abadias, fortificações e prédios públicos. A partir do século XVII, era a pessoa que assinava um contrato com um governo para desempenhar um serviço ou vender determinados produtos. Como o valor do contrato era fixo, os riscos eram por eles assumidos. A partir do século XVIII, o indivíduo que possuía capital foi diferenciado daquele que necessitava de capital para produzir um produto ou serviço. Os usuários de capital eram chamados de
empreendedores e os fornecedores de investidores de risco. A partir do século XX, a ideia do empreendedor ficou associada à de inovador.
Filion (1999a) apresenta outro histórico para o termo baseando-se na pesquisa realizada por Vérin (1982). Para esse autor, no século XII, o termo empreendedor era utilizado para definir aqueles que incentivavam brigas. No século XVII, era utilizado para descrever aquelas pessoas que assumiam a responsabilidade por uma ação militar. Já no século XVIII, era empreendedora a pessoa que criava e conduzia projetos ou empreendimentos. Nesse mesmo período, o termo passou a ser utilizado para definir aqueles indivíduos que assumiam risco para desempenhar alguma atividade quando identificavam uma oportunidade.
Além dos diferentes significados que o termo empreendedor tem evocado ao longo do tempo, alguma confusão conceitual surge por sua semelhança com o termo gerente, no que diz respeito à atividade desempenhada por ambos. Filion (2000) é um dos autores que procura demarcar uma linha divisória entre os dois conceitos. Para ele, enquanto os gerentes estariam mais voltados à busca da utilização eficiente dos recursos e à adaptação às mudanças, operando em uma estrutura de trabalho existente e focalizando os processos organizacionais, os empreendedores estariam concentrados no estabelecimento de uma visão e objetivos e com a definição dos recursos para realizá-los. Além disso, os empreendedores estariam mais voltados a iniciarem as mudanças e deveriam estabelecer por si mesmos sua estrutura de trabalho. O Quadro 1, a seguir, mostra a diferença de enfoque dada por esse autor:
Quadro 1: Diferenças nos sistemas de atividades de gerentes e empreendedores
GERENTES EMPREENDEDORES
Trabalham com a eficiência e o uso efetivo dos recursos para atingir metas e objetivos
Estabelecem uma visão e objetivos e identificam os recursos para torná-los realidade
A chave é adaptar-se às mudanças A chave é iniciar as mudanças
O padrão de trabalho implica análise racional O padrão de trabalho implica imaginação e criatividade
Operam dentro de uma estrutura de trabalho existente Definem tarefas e funções que criem uma estrutura de trabalho
Trabalho centrado em processos que levam em consideração o meio em que ele se desenvolve
Trabalho centrado na criação de processos resultantes de uma visão diferenciada do meio
Filion (1999a) utiliza o termo diferença, em lugar de confusão, para definir a grande quantidade de definições existentes para empreendedor. Para ele, isso se dá porque os pesquisadores tendem a perceber e definir o termo a partir de seu próprio campo de estudo. Os dois campos que concentram a maior parte das pesquisas sobre empreendedorismo são a economia e as ciências do comportamento.
É frequente a atribuição da utilização inicial do termo empreendedor aos economistas Richard Cantillon e Jean-Baptist Say. O primeiro, um banqueiro de origem irlandesa radicado na França, demonstrava grande preocupação com questões relacionadas à racionalização que afligiam os homens de negócios de seu tempo. Em sua concepção, o empreendedor era aquele que adquiria matéria-prima por certo preço para, em seguida, processá-la e revendê-la por preço não definido previamente. Era aquele que aproveitava uma oportunidade com a expectativa de obter lucro, assumindo os riscos inerentes à atividade empregada. O segundo, um economista francês, acreditava que o crescimento econômico era resultado da criação de novos empreendimentos. Ele procurou diferenciar o empreendedor do capitalista, associando sua figura às inovações, tendo sido o primeiro a definir as fronteiras da concepção mais moderna do termo (FILION, 1999a).
Os economistas estavam interessados na compreensão do papel do empreendedor no desenvolvimento do sistema econômico. Desse ponto de vista, os empreendedores eram vistos como detectores de oportunidades de negócio, criadores de empreendimentos e aqueles dispostos a correr riscos. Contudo, os economistas interessados no estudo dos empreendedores acabam ficando à margem nesse campo de estudo. Isso ocorre porque, entre os economistas, há grande resistência em aceitar modelos não quantificáveis. Como é muito difícil estabelecer modelos racionais para o complexo comportamento dos empreendedores, há uma grande limitação dessa ciência para estudar o fenômeno de maneira mais ampla. Essas limitações abriram espaço para outras disciplinas explorarem outras dimensões do fenômeno. Essa lacuna acabou sendo preenchida pelos comportamentalistas (FILION, 1999a).
Filion (1999a) considera que o autor que deu início à contribuição dos comportamentalistas para os estudos de empreendedorismo foi o psicólogo americano David McClelland. Primeiro, ao lançar seu livro “The Achieving Society”, em 1961, em um contexto de grande preocupação com a ascensão da União Soviética, se lançou em um estudo da história procurando identificar fatores que explicassem a existência das grandes civilizações. Entre os fatores identificados, estava a presença de heróis, ou modelos, na
história dessas civilizações. As narrativas das grandes realizações desses heróis ao superar obstáculos acabavam influenciando as gerações seguintes que teriam um modelo no qual se basear. Contudo, sua definição de empreendedor era mais próxima dos gerentes de grandes organizações do que de indivíduos que iniciavam um empreendimento.
No campo do empreendedorismo, há a tentativa de associar os estudos de motivação realizados por esse psicólogo com as características dos empreendedores, embora ele próprio nunca tenha feito essa associação. Para ele, nas sociedades desenvolvidas, as pessoas são motivadas para a realização de três necessidades: realização, associação e poder. A necessidade de realização costuma ser citada como variável explicativa do comportamento empreendedor. A realização era definida como um desejo de alcançar algo difícil como uma forma de obter sucesso e reconhecimento. Porém, a necessidade de realização como variável explicativa passou a ser questionada porque pode ser expressa de diferentes maneiras dependendo da sociedade em que o empreendedor viva. O que é realização em um contexto social, histórico, político e cultural pode não ser em outro (FILION, 1999a).
Segundo Filion (1999a), depois do trabalho de David McClelland, os comportamentalistas dominaram o campo de estudos sobre empreendedorismo até o início dos anos 1980. O objetivo dos pesquisadores passou a ser definir o que era o empreendedor e quais as suas características. Diversos pesquisadores buscaram definir o perfil psicológico do empreendedor. Como resultado, listas longas contendo as características desse perfil surgiram. Um resumo dessas características são apresentadas no Quadro 2, a seguir.
Quadro 2: Características atribuídas aos empreendedores pelos comportamentalistas
Características dos Empreendedores
Inovação Otimismo Tolerância à incerteza
Liderança Orientação para resultados Iniciativa
Riscos moderados Flexibilidade Capacidade de aprendizagem
Independência Habilidade para conduzir situações Habilidade na utilização de recursos
Criatividade Necessidade de realização Sensibilidade a outros
Energia Autoconsciência Agressividade
Tenacidade Autoconfiança Tendência a confiar nas pessoas
Originalidade Envolvimento a longo prazo Dinheiro como medida de desempenho
Fonte: Filion (1999a, p. 9)
Em muitos casos, os comportamentalistas não apenas procuram descrever as características (perfil) dos empreendedores, mas tentam relacionar essas características com desempenho dos negócios. Por exemplo, Schmidt e Bohnenberger (2009), após revisão da literatura, estabeleceram as seguintes características para compor o perfil de empreendedores:
1) Auto-eficaz: estimativa cognitiva que uma pessoa tem de suas capacidades de mobilizar motivação, recursos cognitivos e cursos de ação necessários para exercitar controle sobre eventos na sua vida;
2) Assume riscos calculados: pessoa que, diante de um projeto pessoal, relaciona e analisa as variáveis que podem influenciar o seu resultado, decidindo, a partir disso, a continuidade do projeto;
3) Planejador: pessoa que se prepara para o futuro;
4) Detecta oportunidades: habilidade de capturar, reconhecer e fazer uso efetivo de informações abstratas, implícitas e em constante mudança;
5) Persistente: capacidade de trabalhar de forma intensiva, sujeitando-se até mesmo a privações sociais, em projetos de retorno incerto;
6) Sociável: grau de utilização da rede social para suporte à atividade profissional; 7) Inovador: pessoa que relaciona ideias, fatos, necessidades e demandas de mercado
8) Líder: pessoa que, a partir de um objetivo próprio, influencia outras pessoas a adotarem voluntariamente esse objetivo.
Filion (1999a) chama atenção para o fato de que, embora as metodologias para descrever essas características sejam muito bem delineadas, até agora não se conseguiu chegar a um perfil científico do empreendedor. Segundo ele, isso se dá porque há grande variedade na amostra utilizada. São pesquisados empreendedores de diferentes setores da economia, em diferentes fases dos negócios e com formação e experiências familiares e profissionais anteriores distintas. Além disso, as definições de empreendedor utilizadas nos estudos também variam muito. Para esse autor, não é possível avaliar uma pessoa e definir se ela terá ou não sucesso em um empreendimento. O máximo que se pode fazer é dizer que ela possui determinadas características que são comumente encontradas em empreendedores.
Segundo Filion (1999a), a partir da década de 1980, o interesse pelo empreendedorismo surgiu em diversas outras áreas das ciências humanas e sociais. Esse fato foi marcado pela publicação da primeira enciclopédia sobre o assunto (KENT; SEXTON; VESPER, 1982) e pela primeira grande conferência anual realizada na Babson College. Novos temas começaram a surgir a partir da contribuição de pesquisadores de diversas áreas. Os temas que passaram a dominar esse campo são: características comportamentais dos empreendedores; características econômicas e demográficas de pequenos negócios; empreendedorismo e pequenos negócios em países em desenvolvimento; características gerenciais dos empreendedores; o processo empreendedor; oportunidades de negócio; desenvolvimento de negócios; capital de risco e financiamentos de pequenos negócios; gerenciamento de pequenos negócios, recuperação e aquisição; firmas de alta tecnologia; estratégia e crescimento da empresa empreendedora; alianças estratégicas; empreendedorismo em organizações ou intraempreendedorismo; empresas familiares; auto-emprego; incubadoras e sistema de apoio ao empreendedorismo; sistema de redes; fatores influenciando a criação e desenvolvimento de novos empreendimentos; políticas governamentais e criação de novos empreendimentos; mulheres, minorias, grupos étnicos e empreendedorismo; educação empreendedora; pesquisa empreendedora; estudos culturais comparativos; empreendedorismo e sociedade; franquias.
A despeito das diferentes abordagens ao empreendedorismo, há um consenso entre os autores de que esse tema emergiu com maior vigor nas esferas acadêmicas e sociais a partir das duas últimas décadas do século passado, principalmente na década de 1990. Sobre as
causas da emergência do fenômeno também não há consenso. Alguns autores a relacionam ao fato de que o grande interesse pelo empreendedorismo surgiu porque por este ser considerado uma resposta viável à necessidade de fomentar esforços que culminem no desenvolvimento econômico de regiões e países. Isso ocorreria como decorrência da capacidade que os pequenos empreendimentos têm para criarem empregos e aliviarem a pobreza (NDABENI, 2008).
Sob outro ângulo, Wang, Wong e Lu (2002), afirmam que desde os anos 1990, o crescimento da economia baseada no conhecimento trouxe mudanças significativas para as atividades empreendedoras em todo o mundo. Para esses autores, o grande sucesso do Vale do Silício encorajou muitos países a enfatizar a promoção dos empreendimentos baseados em alta tecnologia. Isso levou ao fomento de novos negócios por profissionais altamente qualificados em vez da formação de pequenos negócios em geral. Assim, estabelece-se uma associação muito clara entre empreendedorismo e inovação.
Alguns autores levam ao último grau a questão da relação entre o empreendedorismo e a inovação baseada no conhecimento. Para Mourdoukoutas e Papadimitriou (2002), o empreendedorismo se tornou a palavra da moda da economia global baseada no conhecimento, porque é o único recurso econômico que não pode ser transferido facilmente entre as fronteiras corporativas e, por isso, constitui a fonte definitiva de vantagem competitiva na indústria global, onde a imitação, a saturação de mercado e as diminuições de barreiras de entrada eliminam rapidamente as rendas de mercado. O empreendedorismo, segundo esses autores, deveria ser nutrido pelas instituições e por políticas públicas de forma a liberar indivíduos e grupos a transformarem suas ideias em produtos, processos ou formas de organização.
Sob esse ponto de vista, questões como ciência, tecnologia e inovação passam a ser de interesse do Estado. Essa ênfase parece também orientar as ações do governo brasileiro que, com o objetivo de consolidar um Sistema Nacional de Ciência, Tecnologia e Inovação, promoveu em Setembro de 2001, uma conferência nacional que culminou com o lançamento de um livro no sentido de orientar e integrar esforços das instituições públicas e privadas envolvidas com o fomento da inovação de base tecnológica (MCT, 2002).
De outro ponto de vista, há autores que afirmam o termo empreendedorismo ganhou popularidade no Brasil durante a década de 1990 devido à preocupação com a redução das
altas taxas de mortalidade das micro e pequenas empresas. Isso se deu em um contexto em que a procura de alternativas das grandes empresas para se tornarem mais competitivas redundou em ações drásticas de redução de custos. Essas ações ocasionaram altos índices de desemprego, principalmente nas grandes cidades, que levaram os ex-funcionários dessas empresas a criarem novos negócios, contudo, sem experiência na área (DORNELAS, 2001).
Nessa mesma direção, Barros e Pereira (2008), ao investigarem os efeitos da atividade empreendedora no crescimento econômico e na taxa de desemprego em 853 municípios de Minas Gerais, perceberam forte associação entre o empreendedorismo e desemprego – quanto maior a atividade empreendedora do município, menor a taxa de desemprego. Contudo, notaram uma influência negativa do empreendedorismo no crescimento econômico – onde havia maior atividade empreendedora no ano de 2000, o crescimento do PIB – Produto Interno Bruto – nos três anos seguintes foi menor. Os autores utilizam esses resultados para sugerir que é o empreendedorismo por necessidade que caracteriza boa parte da atividade empreendedora no Brasil.
Outra coisa precisa ser dita sobre o tema além de ressaltar as diferentes abordagens. Filion (1999a) afirma que o campo de estudos sobre empreendedorismo ainda é dominado por positivistas e funcionalistas, sendo necessárias novas abordagens para uma maior compreensão do fenômeno. O domínio funcionalista na área pode ser notado também no Brasil. Nassif et al. (2009), ao revisar 290 artigos sobre o tema publicados nos anais do EnANPAD (Encontro da Associação Nacional de Pós-Graduação e Pesquisa em Administração) e EGEPE (Encontro de Estudos sobre Empreendedorismo e Gestão de Pequenas Empresas), no período de 2001 a 2008, chegaram à conclusão semelhante: os artigos de cunho funcionalista representam mais de 70% das publicações.
Para Filion e Laferté (2003), embora o tema empreendedorismo atraia pesquisadores de diversas áreas, está longe de se constituir uma disciplina ou mesmo uma teoria. Esse autor classifica o empreendedorismo como um campo de estudo. Nesse campo, o empreendedorismo costuma ser identificado como um fenômeno individual, tendo como centro a figura do empreendedor. Porém, esses autores afirmam que esse é um fenômeno social, porque surge como uma categoria legitimada socialmente e também depende da ação de diversos atores políticos.