5. PROCEDIMENTOS METODOLÓGICOS
5.2. Objeto de estudo, sujeitos e design da pesquisa
De acordo com Bowden (2005), o objeto de estudo da fenomenografia é a relação entre os sujeitos e o fenômeno. Entende-se que, em grupo de pessoas que vivenciam um determinado fenômeno, é possível encontrar um número limitado de formas qualitativamente diferentes de experienciá-lo. Essas formas costumam ser chamadas de concepções. Os estudos de Sandberg (2000) mostraram que diferentes concepções de trabalho dão forma aos diferentes atributos (conhecimentos, habilidades e outras qualidades), moldando a competência que as pessoas mobilizam em suas atividades laborais.
Nessa pesquisa, o objeto de estudo é o conjunto de concepções de empreender que os participantes do programa de pré-incubação de negócios da universidade possuem. Esse programa é ligado ao NIT – Núcleo de inovação e Tecnologia – da universidade e tem como
objetivo principal fomentar o empreendedorismo e a inovação tecnológica na instituição. Atualmente, esse programa abriga nove projetos em fase de incubação. O período de pré-incubação dura um ano e, após essa etapa, aqueles projetos que mostrarem viabilidade de se transformarem em empresas, poderão abrigar-se na incubadora por mais dois anos, tornando-se residentes. Durante estornando-se período, os jovens empreendedores responsáveis pelos projetos recebem diversas formas de apoio e orientação, tais como: consultoria especializada em gestão; cursos, palestras, fóruns e workshops sobre tecnologia e gestão; acesso aos recursos da Universidade, como biblioteca, softwares e bases de dados; uso compartilhado de recursos de informática, telecomunicações, internet e de infra-estrutura compartilhada (recepção, secretaria e sala de reuniões); módulo de trabalho de até 18 m².
Os sujeitos de pesquisa foram os indivíduos que tiveram seus projetos de empresa selecionados para a pré-incubação no concurso de plano de negócios conduzido pelo Núcleo. A opção pelos pré-incubados deveu-se à característica dos estudos fenomenográficos, que é estudar concepções de um grupo de indivíduos que vivencie o mesmo fenômeno. Por esse motivo, não foram incluídos no estudo aqueles indivíduos que tinham empresas já incubadas no núcleo, por estarem vivenciando o fenômeno empreender em um estágio diferente.
No planejamento da pesquisa, estava prevista a participação dos dezesseis selecionados. O primeiro contato com o grupo foi feito na primeira reunião que os selecionados tiveram com os responsáveis pelo programa de pré-incubação. Nessa reunião, foi apresentada a pesquisa, em linhas gerais, e ficou acordado contato posterior para o agendamento das entrevistas. O objetivo inicial da participação de todos foi frustrado. Em uma equipe formada por três sócios, apenas um demonstrou o interesse de participar. Em outra equipe, também composta de três sócios, a participação de um deles ficou prejudicada pela sua mudança para o interior de São Paulo. Finalmente, uma das pré-incubadas, responsável sozinha por um dos projetos, desistiu do programa. Isso fez com que o grupo de participantes se restringisse a doze indivíduos. Além deles, foram incluídos dois incubados que participaram das entrevistas-piloto, dada a riqueza e utilidade dos dados que apareceram em suas entrevistas. Os sujeitos de pesquisa são apresentados no Quadro 6, a seguir:
Quadro 6: Sujeitos de pesquisa
Sujeito Idade Gênero Formação/Status Setor da Empresa Total de sócios
E1 27 F Publicidade (concluído) Cultura 2
E2 27 M Administração (concluído) Mídia Digital 3
E3 24 M Engenharia Civil (a concluir) Construção Civil 2
E4 22 M Arquitetura (concluído) Construção Civil 3
E5 24 M Arquitetura (concluído) Construção Civil 3
E6 25 M Engenharia Civil (concluído) Construção Civil 2
E7 29 M Engenharia de Produção (concluído) Industrial 2
E8 23 M Desenho Industrial (concluído) Moda e Design 3
E9 23 M Nutrição (a concluir) Serviços de Saúde 1
E10 22 F Publicidade (a concluir) Comunicação 1
E11 21 F Nutrição (a concluir) Serviços de Saúde 1
E12 29 M Arquitetura (concluído) Construção Civil 3
E13 24 M Desenho Industrial (concluído) Comunicação 1
E14 22 M Desenho Industrial (concluído) Moda e Design 3
Fonte: Elaborado pelo autor
A escolha desses sujeitos é consistente com os estudos fenomenográficos, porque a fenomenografia é um tipo de pesquisa cujo interesse é mapear as concepções de um grupo de pessoas que experienciam determinado fenômeno. Isso ocorre porque o foco do estudo é identificar a variação em que um fenômeno é percebido (BOWDEN, 2000). Ao fazê-lo, abre-se espaço para uma compreensão mais ampla do fenômeno e para o deabre-senvolvimento de novas concepções e, portanto, para o desenvolvimento da competência (SANDBERG; DALL’ALBA, 2006).
Essa pesquisa foi realizada em três etapas: (1) Entrevistas-piloto; (2) Mapeamento inicial das concepções de empreender; (3) Monitoramento das concepções de empreender.
O objetivo das entrevistas-piloto, ou primeira etapa, é considerado fundamental nos estudos fenomenográficos, pois atende a dois fatores fundamentais para o sucesso de um estudo fenomenográfico: (i) Aprimorar a técnica do entrevistador nessa modalidade de entrevista; (ii) Avaliar o quanto o roteiro proposto permite explorar, efetivamente, a experiência dos entrevistados no fenômeno estudado (ÅKERLIND, 2005).
O objetivo da segunda etapa, o mapeamento inicial, é o que caracteriza a maioria dos estudos fenomenográficos: identificar as maneiras qualitativamente diferentes que as pessoas experienciam um determinado fenômeno e estabelecer uma lógica entre essas concepções (MARTON, 1981, 1986, 1994, 2000; BOWDEN, 2005). Isso é possível porque, ao mapear as
diferentes concepções de um fenômeno, um estudo fenomenográfico tem também o objetivo de descrever cuidadosamente essas concepções (categorias de descrição) e ordená-las hierarquicamente definindo, assim, o espaço de resultados do fenômeno. As diferentes formas de vivenciar um determinado fenômeno, caracterizado por categorias de descrição correspondentes, representam, assim, capacidades diferentes para lidar (ou entender) com esse fenômeno. Como algumas formas de vivenciar um fenômeno são mais eficientes do que outras em relação a algum critério dado, pode-se estabelecer uma hierarquia das categorias de descrição (MARTON, 1994).
Essa hierarquização das diferentes concepções dentro do espaço de resultados é central para esse estudo, porque a aprendizagem e desenvolvimento são vistas pelos fenomenógrafos como uma mudança na capacidade do indivíduo experienciar um fenômeno no mundo ao seu redor. Significa ter a capacidade de discernir aspectos do fenômeno antes despercebidos (MARTON, 1999).
Nessa pesquisa, além do objetivo qualitativo de identificar as diferentes concepções para o fenômeno empreender existentes entre os participantes do programa de pré-incubação, destinou-se também a quantificar o número de pessoas dentro de cada concepção. Se o desenvolvimento da competência, sob o ponto de vista fenomenográfico, se dá a partir da mudança da concepção, essa quantificação é fundamental. Além disso, essa quantificação era necessária para atingir um dos propósitos centrais desse trabalho, que foi analisar se indivíduos com concepções mais profundas de empreender foram mais competentes para desenvolver seus negócios do que aqueles com concepções mais superficiais, conforme estabeleceu Sandberg (2000). Esse autor mostrou que as concepções de trabalho dos trabalhadores é que estabelecem quais atributos da competência são desenvolvidos e que significados esses mesmos atributos assumem na realização do trabalho.
Isso significa que se tomou como ponto de partida para a compreensão das competências utilizadas e desenvolvidas pelos novos empreendedores suas concepções de empreender, tendo em vista que elas formam, desenvolvem e organizam os atributos em estruturas específicas de competência.
A terceira etapa, ou monitoramento das concepções, foi realizada tanto durante, quanto no final do processo de pré-incubação. Essa etapa foi fundamental para analisar como cada concepção influenciou a ação dos participantes na condução dos primeiros passos de
seus negócios, isto é, que tipo de competência foi posta em jogo para atingir esse objetivo. Além disso, se buscou identificar se durante o processo houve mudanças nas concepções dos participantes e a influência dessas mudanças no desenvolvimento da competência para empreender. Foram utilizadas duas formas de monitoramento:
(1) Análise dos prontuários dos encontros de orientação dos jovens empreendedores com a equipe da incubadora e com os consultores da Empresa Junior da universidade. Esses encontros ocorreram sistematicamente e foram provocados pelos orientadores para monitorar os passos realizados pelos pré-incubados e as dificuldades por eles encontradas. A análise desses prontuários mostrava-se uma fonte privilegiada para identificar as manifestações das concepções de empreender, bem como os atributos de competência em situação real que os empreendedores perceberiam como importantes para o desempenho de sua atividade. Embora esse material tenha se mostrado limitado para esses objetivos, como será mostrado adiante na análise dos resultados, cumpriu um propósito importante nessa pesquisa.
(2) Realização de outra rodada de entrevistas fenomenográficas no final do processo de pré-incubação. Ao contrário das primeiras entrevistas, que foram individuais, essas foram realizadas tanto individualmente, quanto em grupo. Aqueles que estavam empreendendo sozinhos foram entrevistados individualmente. Os demais foram entrevistados junto com seus sócios. Essa forma de entrevistar mostrou-se rica para o entrevistador e para os entrevistados.