6. APRESENTAÇÃO E ANÁLISE DOS RESULTADOS
6.2. De estudantes a empresários: as experiências do vir a ser
6.2.1. Pontos de partida para a experiência de empreender
A literatura de empreendedorismo, principalmente aquela de cunho behaviorista, costuma buscar causas explicativas para o chamado comportamento empreendedor. Nessa pesquisa, não se adota o comportamento empreendedor como uma categoria, nem se busca possíveis causas para o impulso de empreender. O interesse é compreender como esse grupo de estudantes e recém-formados têm vivenciado esse fenômeno.
Partindo desse pressuposto, uma questão colocada para os entrevistados os estimulava a falar como sua experiência com o empreender havia começado. Suas trajetórias iniciais são tão distintas quanto ricas. Oferecem um material importante que, de certa forma, cumpre o importante papel de reduzir ao humano a figura mítica do empreendedor que costuma ser decantada na literatura de empreendedorismo.
Por exemplo, na literatura sobre o tema, a capacidade de enxergar oportunidades costuma ser apontada como uma das principais características dos empreendedores (FILION, 1999; MAN; LAU; SNAPE, 2008). Essa característica, adicionada a capacidade de assumir riscos, costuma ser mencionada como um traço que funciona como uma espécie de gatilho para as ações empreendedoras.
Porém, na experiência de muitos entrevistados, essa característica não foi relatada como o ponto de partida. Por exemplo, para os três sócios que estão desenvolvendo o projeto da empresa VS1, do setor de moda e designer, o ponto de partida foi a insatisfação compartilhada com o trabalho nas empresas por onde passaram. Os três começaram o curso de Desenho Industrial juntos e, na parte final do curso, começaram a frequentar salas diferentes por causa do interesse por diferentes áreas. Ocasionalmente, se encontravam na faculdade e, como fruto desses encontros, a ideia de empreenderem juntos surgiu.
Nessa época que a gente se separou, a gente começou todo mundo a trabalhar, caiu no mercado de trabalho e aí se juntava quando raramente se via na faculdade e quando se via o tema era trabalho e era só reclamação. Nossa, o que é aquilo? A gente via que os problemas eram iguais só que em diferentes áreas. [...] Então, a gente na época falou: a gente tem que montar alguma coisa nossa. Uma coisa, tipo assim, que eu quero fazer, do jeito que a gente acha certo, vamos a gente já tem, vamos pegando experiência de tudo que a gente ver tudo que tá de errado para tentar não fazer, sabe (E14)
Para eles, o ponto de partida foi mais a fuga de uma situação que os incomodava do que a visualização de uma oportunidade no mercado. A catarse, mais do que a excitação de identificar um campo inexplorado, foi o gatilho para esse grupo. A partir da insatisfação com a realidade vivida, um empreendimento próprio surge como uma possibilidade de se livrar dos problemas e obter realização profissional.
De maneira semelhante, outro entrevistado, responsável sozinho pelo projeto de criação da CC3, empresa de fabricação de tijolos ecológicos, coloca a insatisfação com seu trabalho na empresa em que trabalhou como fonte de sua vontade de empreender. Porém, a causa de seu descontentamento é outro. Em suas próprias palavras:
A ideia de sempre trabalhar em indústria sempre foi o meu ponto principal. Eu trabalhei em uma indústria, eu trabalhei por quase três anos e algumas coisas me fizeram pensar que ali não era o meu lugar. Principalmente isso. Eu estava buscando meu lugar dentro de uma área e fui promovido pra uma área que, talvez, rendesse mais dinheiro, mas não era aquilo que eu queria fazer. [...] E eu comecei estagiando lá na engenharia industrial, na área de engenharia. Eu fui efetivado. Só que eu fui convidado para fazer parte da área financeira. Então, eu fui efetivado como coordenador de projetos na área financeira, que é um braço da engenharia ligado às finanças. E não me adaptei, porque as ideias são outras, você, foge uma pouco dos seus conhecimentos da área da engenharia. Então, isso me forçou a buscar um pouco o empreendedorismo. (E7)
É possível perceber que seu impulso não decorre de alguma característica empreendedora ligada à sua personalidade. Tampouco de sua capacidade de identificar uma oportunidade a ser explorada no mercado. O que serve de gatilho ao seu desejo de tornar-se um empreendedor é o fato de ter sido transferido para uma área que se distanciava do seu desejo de trabalhar em indústria. Além de representar um distanciamento de seu foco, atuar em outra área significava imergir em uma realidade que o afastaria da profissão de sua escolha.
Em outros casos, o impulso de empreender decorre da compreensão de que a profissão escolhida os coloca diante de um paradoxo, quando exercida dentro dos limites de um cargo em organizações. Esse paradoxo pode ser visto na fala de um dos entrevistados, responsável
com outros dois, pelo projeto da CC1, empresa voltada para oferecer serviços de arquitetura para a classe C:
Porque a gente trabalha muito com criação, então dentro de um escritório, se você trabalha como um funcionário ficam muito limitadas as suas idéias, fica limitada a sua parte de criação. Agora, como arquiteto, por profissão, a gente sempre tem que criar, inventar, projetar. Tendo o escritório agora não existe limitação, a gente faz os nossos projetos, a gente debate as idéias e a gente executa essas idéias. Dentro de um escritório seria mais difícil dar essas idéias, seria mais limitado, as idéias sempre seriam do arquiteto responsável e a gente teria que trabalhar dentro delas. (E5)
Para esse entrevistado, a criação e geração de ideias são processos intimamente ligados à sua profissão. Ao trabalhar como funcionário em um escritório de arquitetura, percebeu que ficaria muito limitada sua participação nos processos criativos da empresa. Montar um escritório com seus parceiros seria uma maneira de viabilizar maior participação na criação. A possibilidade de poder debater, entre iguais, suas ideias e poder executá-las é algo que o impulsionou a empreender.
Esse paradoxo ligado à profissão e experienciado pelo entrevistado traz à tona um debate iniciado por Zarifian (2003), no campo da competência, e pouco considerado na literatura sobre o tema. Para esse autor, a emergência da lógica da competência nos debates acadêmicos e profissionais pode ser mais bem compreendida quando se toma o contexto histórico das profissões.
Para Zarifian (2003), as profundas mudanças organizacionais nas duas últimas décadas do século passado levaram à necessidade de uma força de trabalho capaz de tomar iniciativa e de assumir responsabilidade diante dos eventos enfrentados no cotidiano do trabalho. Isso estaria fazendo surgir um novo modelo de trabalho – o “modelo da competência”. Esse modelo seria uma forma de retorno do trabalho ao trabalhador. Essa ideia de retorno é uma alusão ao que ocorreu com o advento da industrialização, quando o “modelo do posto de trabalho” substituiu o “modelo da profissão”, que era representado pela figura do artesão. Uma das consequências dessa substituição foi a perda do conhecimento e controle sobre todo o processo de trabalho por parte dos trabalhadores das indústrias. Ocupar um posto de trabalho significava também realizar um trabalho fragmentado.
Porém, segundo Zarifian (2003), algumas profissões conseguiram resistir a esse movimento de substituição do modelo da profissão pelo do posto de trabalho, que se tornou hegemônico tanto na indústria quanto no setor de serviços. À margem da emergência dos
postos de trabalho, muitas profissões continuaram a oferecer a possibilidade de serem exercidas de maneira autônoma.
De certa forma, a experiência desse entrevistado pode ser interpretada sob essa lente. Consciente de que a criação e sua realização são partes integrantes de sua profissão, ele mostra o desejo de empreender como um movimento de resistência ao posto de trabalho. O que o move na direção do empreendedorismo é a vontade de ver suas ideias se materializarem no projeto. Participar apenas de uma parte do processo o faz sentir-se limitado.
As palavras de um dos entrevistados (E12), também formado em Arquitetura, ajudam a realçar esse ponto. Ele afirma que “quando você vê o resultado do projeto, diz essa obra é minha, foram minhas decisões, eu não ajudei”. Nesse ponto da entrevista, ele estava dizendo do prazer que sente ao concluir um trabalho para entregar ao cliente. Suas palavras expressam orgulho por fazer um trabalho por inteiro e por poder expressar seu potencial criativo. Não poder sentir isso em seu trabalho ocupando cargos dentro de empresas o impulsionou a empreender.
Em alguns casos, o ponto de partida para empreender ocorreu de forma tão natural que o próprio entrevistado achou difícil descrever como ocorreu. Ao ser perguntado se possuía alguma referência, alguém em quem se espelhar para buscar empreender, um dos entrevistados afirmou que não tinha. Afirmou, ainda, que o processo foi tão fluido que chega a assustá-lo quando pensa a respeito.
Eu e meu sócio já temos uma amizade antes desse lance todo do processo seletivo da incubadora. A gente não tinha nem ideia disso daqui. Então, nós já tínhamos uma certa relação e um dizia pro outro: e aí, o que será que a gente vai fazer de pois que se formar? E eu sempre falei pra ele: assim que eu me formar não vou querer ficar na Capital, não quero ficar, quero ir para o interior, eu adoro interior, não me vejo aqui, isso é super estressante. Ele falou: pô, eu também. Só que antes de eu comentar isso com ele, teve esse lance do vestibular para Ouro Preto. Então, eu já fiquei com aquela ideia de república e tal. Em seguida, ele começou a namorar e disse: Arthur, o que você acha da gente fazer uma construtora? Eu falei: ah bacana, mas vai ser em relação a que? Ele falou: ah, o que você acha da gente atingir o público universitário? Aí já me veio a ideia de Ouro Preto, eu comecei a juntar algumas informações com ele, algumas ideias com ele e surgiu assim. Foi meio um relance assim, foi engraçado. [...] Olha, eu não tive isso. As coisas aconteceram naturalmente por conta desse andamento, da minha amizade com o meu sócio. Eu não tive alguém em quem me espelhar, do tipo, pô eu queira ser que nem ele, ter as ideias que nem ele. Aconteceu naturalmente. Quando você menos se dá conta já está terminando uma etapa. Daí você fala: caramba, eu fiz isso?! Eu pensei isso?! Nossa, por que eu fiz isso e pensei isso? As coisas foram acontecendo. (E6)
No caso desse entrevistado, vários fatores cooperaram para que ele se envolvesse com o processo de empreender. Mas o que ele destacou como principal foi a amizade com seu
sócio. Em muitas conversas, os dois perceberam muitas coisas em comum e, entre elas, o desejo de morar no interior e fugir do estresse de morar na Capital. Mas como viabilizar esse projeto? Juntaram suas experiências e resolveram criar uma construtora focada no público universitário. Quando viram o concurso de plano de negócios, decidiram inscrever seu projeto. No caso deles, o gatilho para empreender nasceu do compartilhamento do mesmo desejo e de ideias de como realizá-lo.