CAPÍTULO V – ANÁLISE DAS HISTÓRIAS DE VIDA
5.6. O envelhecimento na aldeia – ontem e hoje
Envelhecer? Acho que já tô velha... Mas os netos não se importam mais com os velhos, eles falam pra gente ficar quieto, não cantar alto pra não incomodar. Ficam vendo TV e não querem ouvir minhas histórias... Fico cantando sozinha até tarde da noite e ninguém vem participar da dança. Às vezes, fico pensando, onde vai parar nossa cultura? (F-02)
Este depoimento, citado por uma índia idosa aos noventa e cinco anos de idade demonstra a importância do respeito e da valorização do idoso na aldeia. Evidencia, em uma só fala, mágoas, sentimentos de solidão e de abandono e, ainda o sentimento de tristeza do índio
idoso frente ao “descaso” por sua cultura. As colocações sobre a diminuição da valorização do idoso por semelhantes da própria aldeia representam a arrefecimento do contato, das conversas entre avós, pais e filhos, ou seja, a troca de experiências entre as gerações.
Lahud (2000, p. 22) coloca que “é difícil alguém se aperceber quando a velhice se instala em si mesmo”. Esta percepção, muitas vezes acontece somente ao olhar-se no espelho e ver as rugas ou ao andar e sentir dores nas pernas, ou ainda ao tentar realizar seus afazeres cotidianos e notar as dificuldades presentes.
Para um dos entrevistados, a percepção ocorreu durante a pesquisa. Nos diversos momentos em que tivemos contato, o mesmo sempre se dispôs a falar e contar sobre sua história de vida. No momento da entrevista gravada em áudio, o mesmo explanou:
Eu agora tô vendo que tô velho... Tenho dor nas pernas, tenho dificuldade de enxergar, de fazer as coisas que eu fazia antes. Achei que nunca ia ficar velho. É diferente do meu tio, ele sim é velho, nem anda mais. (pausa longa)... Tudo mudou, os velhos servem pra quê? (M-01)
Sentimentos semelhantes sobre o envelhecimento e o lugar do velho na sociedade atual também foram descritos por outros entrevistados, que seguem na seqüência.
Ficar velho é como ser esquecido. Não era assim quando eu era pequeno... Nós brincava e, quando o pai chamava todo mundo ia correndo. Nós ficava horas sentado na roda ouvindo as história dos mais velho. Eles contava tudo, falava das onça, das guerra, do povo que invadiu estas terra quando eles eram novo. Falava de ter filho, de cantar pra chover... A gente ficava um tempão tomando tereré e conversando, quase só ouvindo, eles é que falavam.
(M-02)
Ao lembrar-se das rodas de conversa ao lado dos índios mais velhos, o sentimento de perda da identidade indígena intensifica neste relato, quando coloca que a televisão tomou o
espaço da conversa, da roda de tereré 9, hábito perpetuado na famílias indígenas, mas já sem o mesmo significado vivaz de diálogo, de momento de união e de conversa.
Outros depoimentos relatam a importância do tereré na continuidade da cultura Guarani- Kaiwá.
Tomo ainda e gosto muito. Quando era criança, tomava o dia inteiro. A gente brincava e tomava na cumbuca, hoje é no copo. Eles faziam a bomba de tomar tereré e mate de taquarinha. A erva trazia do mato e secava no fogo da brasa. Hoje tá diferente, mas eu não fico sem o meu tereré. (F-01)
Eu saio de manhã de casa bem cedo, vou caminhar, depois eu volto. Às vezes é de tarde, às vezes só no fim do dia. Aí eu tomo o meu tereré... Esse eu não deixo. (F-02)
Tereré é muito bom. No verão a gente toma com limão, quando acha limão. Eu gosto. Minha mãe também tomava chimarrão, todo dia. O tereré só no dia quente... (M-02)
Ao comentar sobre a dificuldade em encontrar limão na aldeia, o índio idoso entrevistado explicitou a cultura Guarani-Kaiwá de viver das riquezas da terra, de colher, caçar, pescar e não plantar ou cultivar. Esta modificação necessária na cultura pelo fato de viver em espaço considerado pequeno para o aproveitamento, em longo prazo, das riquezas naturais, trouxe diversos percalços no cotidiano destes índios, o principal, sofrer os efeitos da desnutrição que atinge principalmente as crianças e os idosos.
Os índios lembraram em conversas informais que aconteceram no período de observação, que colhiam o necessário para a sobrevivência, não havia, portanto, sobras de alimentos, pois apenas era colhido e preparado o que seria utilizado.
As rodas do tereré, atuais, embora ocorram com menor freqüência, representam ainda, o momento cultural importante na convivência diária entre família, vizinhos e amigos, onde os idosos podem divulgar suas histórias.
Ser velho é como não servir mais pra nada, nem pra conselho os mais novos não procuram. Agora eu gosto de contar minhas histórias por aí. Quando vem turista na aldeia, o capitão chama a gente pra ir na casa dele e contar as histórias pro povo de fora. Vem muita gente que só fala na língua do inglês e aí tem outro que repete pra eles o que nós falamos. A gente canta, faz roda e conversa. (F-01)
Estes momentos são aproveitados por alguns idosos como oportunidades para divulgar sua cultura e de ter alguém como ouvinte interessado nestes relatos. Por este motivo, não houve nenhuma recusa em participar da pesquisa por parte dos índios idosos Kaiwá da aldeia. Todos fizeram questão de participar depois de ouvirem as explicações da pesquisadora sobre a importância em participar e divulgar suas histórias de vida.
Falar do envelhecimento ocorreu de forma espontânea durante as entrevistas, pois em cada uma das fases de sua vida, ao lembrar-se de quando era criança, de quando se casou, da chegada dos filhos e de alguns acontecimentos especiais, a constatação sobre o estar envelhecendo sempre foi ativa.
Envelhecer parece perder um pouco da minha vida cada dia. Não consigo mais cozinhar direito, às vezes esqueço das coisas que tô fazendo ou do que quero falar e fico triste, Os mais novos não tem paciência de ouvir e depois falar, eles logo brigam com a gente. (F-02)
“Tempo, memória, espaço e história caminham juntos”. Esta afirmação de Delgado (2006, p. 34) explica a importância dos relatos colhidos com os idosos no tocante ao envelhecimento. A miscelânea entre o individual e o coletivo e a troca de valores e a busca pelo
reconhecimento social, intrínseco em cada depoimento, trouxe dados interessantes para a discussão sobre esta temática.
No tocante a valorização do idoso como um ser constituído de valores, saberes e de poder, a própria percepção dos idosos representa a imagem construída socialmente sobre o velho no Brasil.
Quem faz comida é a Zenaide. Eu não consigo mais fazer. As crianças fazem favor a mim. Leva mandioca e feijão pro fogo para cozinhar. Eu não presto mais. Pra mim andar longe, não consigo mais... (F-01)
A valorização do idoso na sociedade em que ele está inserido reflete o perfil da mesma e o seu conceito de velhice, pois, conforme Beauvoir (1970, p. 15): “A velhice tem uma dimensão existencial: modifica a relação do indivíduo com o tempo e, portanto, sua relação com o mundo e com sua própria história... O homem não vive nunca em estado natural; na sua velhice, como em qualquer idade, seu estatuto lhe é imposto pela sociedade à qual pertence”.
A interação entre as gerações é importante para a troca de experiências e de conhecimento, principalmente nos relatos dos mais velhos, da cultura e a forma de preservação da mesma. O envelhecimento, mediado pelo tempo, é representado pelos valores de cada sociedade e de suas culturas.
Eu hoje tô velho. Acho que os mais novos tinham que ouvir o que a gente tem pra dizer. Mas eles acham que já sabem tudo (...) Uns nem querem mais ser índios. Eles falam que tem que ser igual ao branco (...) Eu estudei, fiz curso, dei aula no Mobral, mas eu ainda sou índio e fiz isso pra dizer pro índio que a gente tem que ser índio, nós não somos branco. (M-01)
O depoimento deste entrevistado reflete o conceito de caráter individual descrito por Hillman (2001, p.35) “O que parece ser verdadeiro durante todo o tempo e até o fim é um
duradouro componente psicológico que marca cada pessoa como diferente de todas as outras: o seu caráter individual. Aquele você que é sempre o mesmo”.