C APÍTULO T RÊS
3.2 O estágio supervisionado
O currículo do curso de Letras, ao qual as professoras estavam vinculadas, em 2007, era estruturado em oito períodos de 300 (trezentas) horas cada, totalizando 2400 (duas mil e quatrocentas) horas. Nesse currículo, o curso oferecia:
1) Licenciatura Plena em Letras, habilitação em Português e em Francês e respectivas literaturas; 2) Licenciatura Plena em Letras, habilitação em Português e em Inglês e respectivas literaturas; 3) Licenciatura Plena em Letras habilitação em Português e respectivas literaturas. Conforme tabela demonstrativa abaixo:
Para atender às diversas atividades curriculares, esse curso ainda disponibilizava laboratórios pedagógicos de línguas; de prática de ensino; laboratório multimídia de projetos e de informática. Oferecia, ainda, diversos espaços destinados ao desenvolvimento de pesquisas e acolher grupos de estudo e pesquisa. Era organizado em três Núcleos: I. Núcleo de
Formação Específica (Disciplinas obrigatórias e optativas); II. Núcleo de Formação Pedagógica (Disciplinas Pedagógicas obrigatórias, Práticas Específicas e Estágio Supervisionado); III. Núcleo de Formação Acadêmico-Científico-Cultural (Atividades Acadêmicas Complementares).
O Núcleo de Formação Pedagógica, locus do estágio supervisionado, era constituído das seguintes disciplinas pedagógicas obrigatórias: Didática Geral, Política e Gestão Educacional, Psicologia da Educação, perfazendo um total de 180 horas, além de três disciplinas específicas para cada uma das áreas do curso de Letras. No caso da licenciatura em inglês e literaturas de língua inglesa, essas disciplinas eram: Metodologia do Ensino de Português como Língua Estrangeira, Metodologia de Ensino de Língua Estrangeira e Metodologia de Ensino de Inglês para Fins Específicos, todas de 60 horas, no total de 180 horas. Compunham esse Núcleo, ainda, os Projetos Integrados de Práticas Educativas de natureza interdisciplinar, que abarcavam atividades práticas que preparavam os alunos para os estágios supervisionados. Esses projetos visavam ao ―desenvolvimento de ações didático- pedagógicas nos diversos âmbitos de atuação profissional, bem como a reflexão sobre os processos de ensino e aprendizagem na área de atuação específica do professor‖14
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De acordo com as diretrizes do MEC, Parecer CNE/CP no 5/2006, para as licenciaturas, o curso de Letras deve atender, no mínimo, a 300 horas de estágio supervisionado, das 2400 horas que o curso deve totalizar. A proposta de estágio da Instituição à qual as professoras participantes estavam vinculadas é constituída de diversificadas atividades15, às quais os graduandos tiveram que atender durante a formação acadêmica. Em 2007, ano em que as professoras realizaram seus estágios, o total de horas previstas para essa etapa era de 405 horas e essa Instituição16 define o estágio supervisionado como sendo
mais um espaço de aproximação e integração do aluno com a realidade educacional, com o objeto de conhecimento e o campo de trabalho. (...) Ao mesmo tempo, constituir-se-á num momento privilegiado de iniciação profissional.
Como foi possível verificar, com a diversidade de atividades e projetos aos quais os professores em formação se vinculavam, existia uma proposta de preparação teórico- metodológica que antecedia ao estágio propriamente dito, o que, a nosso ver, parece ser uma
14 Essas informações foram obtidas a partir do Projeto Político Pedagógico do Curso de Letras da instituição à qual as professoras participantes desta pesquisa estavam vinculadas.
15 Para um detalhamento maior, sugerimos a leitura do Projeto Político Pedagógico do curso em questão. 16 Texto obtido a partir do Projeto Político Pedagógico, acima referido.
forma de o professor ganhar certa maturidade acadêmica e teórica para o desenvolvimento da docência. Afinal, o estágio constituiu-se em ―uma primeira aproximação com a profissão‖ para alguns, e, portanto, ―marcada por momentos de inseguranças e incertezas, mas também de descobertas e vivências‖ (MARTINS, 2010, p. 16).
Observamos que, na estrutura curricular desse curso de Letras, em especial, o desenvolvimento do estágio só aconteceu nos dois últimos períodos. Possivelmente, porque essa maneira de organizar o currículo visava a atender aos propósitos17 pedagógicos específicos, dentre eles, ―a transposição didática dos conhecimentos aprendidos durante o curso e que serão objeto de sua intervenção no contexto escolar, considerando-se sua relevância e inserção nas diferentes etapas da Educação Básica‖ (grifo nosso).
O termo ―transposição‖ parece deixar flagrar o modo como é esperado que os professores pré-serviço desenvolvam seus estágios supervisionados, qual seja, ―aplicar‖ na sala de aula o que a teoria vem a dizer, por um movimento automático, digamos assim. Ou seja, o professor já tem os conhecimentos e na prática ele irá usá-los, ele irá ―transpô-los‖.
Pudemos observar, ainda, que o PPP do curso aqui em questão apresentava uma proposta de qualificação bastante abrangente e diversificada para seus alunos. Entretanto, da perspectiva teórica que adotamos para esta pesquisa, é possível considerar que não há garantia de que o programa de curso tenha sido ―acolhido‖ pelos diversos alunos, da maneira como foi pensada ou idealizada pelos o/Outros da formação acadêmica (a instituição representada por seus participantes – professores e gestores). Não é possível que sejam previstos os efeitos que tal proposta pode produzir em cada um dos alunos. O que podemos afirmar é que há algo que é da ordem da instituição, mas que há algo que é da ordem do aluno. Isto é, cada aluno irá tomar para si aspectos da proposta pedagógica do curso com os quais ele tenha se identificado (ou essa identificação poderá nem ocorrer).
Portanto, entendemos que o estágio supervisionado pode ser pensado como sendo um momento em que algum tipo de conflito poderá ser vivenciado pelo professor pré-serviço, e
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De acordo com o Projeto Político Pedagógico do curso de Letras em questão (p. 76), o Núcleo de Formação Pedagógica visa: 1) A integração entre os conhecimentos específicos da área das ciências da linguagem e das línguas estrangeiras e os conhecimentos sobre educação, ensino e aprendizagem; 2) A transposição didática dos conhecimentos aprendidos durante o curso e que serão objeto de sua intervenção no contexto escolar, considerando-se sua relevância e inserção nas diferentes etapas da Educação Básica; 3) A reflexão sobre condicionantes sociais, históricos e pedagógicos que caracterizam os processos de ensinar e aprender nas áreas das ciências da linguagem e das línguas estrangeiras, e das literaturas de língua portuguesa e de línguas estrangeiras; 4) A motivação para o desenvolvimento de pesquisas sobre os processos de ensino e aprendizagem dos conteúdos de Língua Portuguesa e Linguística, das Literaturas da Língua Portuguesa, dos Estudos Clássicos e das Línguas e Literaturas Estrangeiras – Francês e Inglês na Educação Básica.
que esse conflito seria constitutivo do processo da formação docente. Essa questão não nos pareceu ter sido abordada durante as aulas de PE, justamente porque essas professoras vivenciaram alguns impasses em suas práticas, com seus alunos, que lhes pareceram acentuadamente desestabilizadores, como veremos nas análises.
Nosso próximo passo foi buscar as referências que compuseram o programa da disciplina PE. Ao fazê-lo, observamos a prevalência de autores18 e estudos em LA compondo o aporte teórico do programa dessa disciplina. Nesse sentido, consideramos relevante conhecermos algumas bases em que esse campo tem se apoiado, para construir o conhecimento sobre seu objeto de trabalho. Vejamos, então, como essa construção tem se dado na formação de professores de línguas.