A regulamentação do capítulo da Política Urbana da Constituição Federal só veio a acontecer em julho de 2001 com a promulgação da Lei nº 10.257 denomi- nada como Estatuto da Cidade, desde então esta lei foi objeto de uma série de inclu- sões e novas redações.
O Estatuto da Cidade estabeleceu no seu Capítulo III que a propriedade urbana cumpre a sua função social quando atender às exigências fundamentais de ordenação da cidade expressas no Plano Diretor. O Plano Diretor devia englobar o território do município como um todo, ou seja, abrangendo tanto a área urbana como a área rural. A elaboração, implementação e fiscalização do Plano Diretor devia ga- rantir a participação da população e de associações representativas de vários seg- mentos da sociedade (BRASIL, 2001).
45
O artigo 39 do Estatuto da Cidade estabeleceu que a Lei que instituísse o Plano Diretor devia ser revista pelo menos a cada dez anos. O processo de elabora- ção do Plano Diretor e a fiscalização de sua implantação devia compreender um pro- cesso participativo, que garantisse o desenvolvimento de audiências públicas e deba- tes, a publicidade e o acesso aos documentos e informações produzidas (BRASIL, 1988; BRASIL; 2001). Consolidava-se assim um novo modelo de Plano Diretor que devia necessariamente envolver a comunidade e as entidades locais no processo de elaboração dos Planos Diretores que passaram a ser nomeados como Planos Direto- res Participativos.
Já o Capítulo IV do Estatuto da Cidade, intitulado como: Da Gestão Demo- crática da Cidade, indicava a necessidade de as experiências participativas estende- rem-se para o posterior o processo de planejamento e gestão do território municipal (BRASIL, 2004).
O conteúdo mínimo do Plano Diretor previsto pelo Estatuto da Cidade foi divido em três itens, representados no Quadro 5.
Quadro 5 - Conteúdo Mínimo do Plano Diretor previsto no Estatuto da Cidade
Item Conteúdo
I Delimitação das áreas onde poderá ser aplicado o parcelamento, edificação ou utilização compulsória, consi-derando a existência de infraestrutura e de demanda para utilização.
II
Disposições requeridas pelos seguintes artigos:
art. 25: Delimitação de áreas em que incidirá o direito de preempção.
art. 28: Delimitação de áreas nas quais o direito de construir poderá ser exercido acima do coeficiente de apro- veitamento básico adotado, mediante contrapartida a ser prestada pelo beneficiário
art. 29: Delimitação de áreas nas quais poderá ser permitida a alteração de uso do solo, mediante a contrapar- tida a ser prestada pelo beneficiário
art. 32: Delimitação de área para aplicação de Operações Consorciadas
art. 35: Autorização para a transferência ou alienação do direito de construir, quando o imóvel for considerado necessário para fins de: implantação de equipamentos urbanos e comunitários; preservação para imóveis de interesse histórico, ambiental, paisagístico, social ou cultural e programas de regularização fundiária
III Sistema de Acompanhamento e Controle
Fonte: BRASIL, 2001.
Em setembro 2004 o Conselho das Cidades emitiu a sua Resolução n° 15 lançando a Campanha Nacional de Sensibilização e Mobilização visando a elaboração e implementação de Planos Diretores Participativos, objetivando a construção de ci- dades includentes, democráticas e sustentáveis. A referida campanha foi lançada de- vido à aproximação do final do prazo de cincos anos que os municípios tinham para elaborar seus Planos Diretores Participativos que terminava em 2006. A Resolução n°15 apontava ainda que os núcleos mobilizadores da campanha deviam além de
46
reunir representantes dos segmentos ligados ao Conselho das Cidades esforça-se para a integração de atores de outros canais institucionais tais como Ministério Pú- blico, Comitês de Bacias Hidrográficas, Agenda 21, associações de prefeitos e de ou- tros agentes públicos, membros de conselhos setoriais entre outros (BRASIL, 2004). O reconhecimento dos Comitês de Bacias Hidrográficas e das entidades ligadas a processos de elaboração da Agenda 21, como parceiros estratégicos para a participação dessa campanha, revela a percepção do Conselho das Cidades sobre a importância do envolvimento desses atores ligados a agendas relacionadas à gestão das águas e à sustentabilidade à proposta de elaboração dos Planos Diretores Muni- cipais Participativos.
Os Comitês de Bacia Hidrográfica criados desde a década de 80 tinham acumulado até então uma experiência de gestão participativa e de diagnóstico do ter- ritório da bacia hidrográfica que envolveu os municípios, nos quais deviam ser elabo- rados os Planos Diretores, podendo assim estabelecer uma importante contribuição para a elaboração dos mesmos.
Da mesma forma os atores envolvidos em processos de elaboração das Agendas 21 Locais podiam estabelecer uma contribuição semelhante no debate sobre a sustentabilidade ambiental.
Em maio de 2005, o Ministério das Cidades em conjunto com o Conselho das Cidades lançou a Campanha Nacional: Plano Diretor Participativo: Cidade de To- dos com o objetivo de apoiar a elaboração de Planos Diretores pelos municípios.
Em junho de 2005 o Conselho das Cidades lançou a sua Resolução n° 34 estabelecendo o conteúdo mínimo que deveria ser tratado pelos Planos Diretores, o qual é apresentado no Quadro 6.
Nas definições das funções sociais da cidade e da propriedade urbana, constantes no Art. 2° da Resolução 34 do Ministério das Cidades, as áreas de prote- ção, preservação e recuperação do meio ambiente natural e construído eram consi- deradas como espaços coletivos de suporte à vida na cidade. Nesse contexto, as po- líticas ambientais de recursos hídricos e de saúde deviam objetivar de forma integrada a universalização do acesso à água potável, aos serviços de esgotamento sanitário, a coleta e disposição de resíduos sólidos e ao manejo sustentável das águas pluviais. No Art. 5°, com a instituição das Zonas Especiais, considerando o interesse local, deviam ser demarcadas as áreas sujeitas a inundações e deslizamentos, bem como as áreas que apresentassem risco à vida e à saúde.
47
Quadro 6 - Conteúdo Mínimo do Plano Diretor previsto conforme a Resolução nº 34 do Conselho das Cidades de 14/07/2005
Art. 1º Conteúdo Mínimo do Plano Diretor
I As ações e medidas para assegurar o cumprimento das funções sociais da cidade, considerando o território rural e urbano;
II As ações e medidas para assegurar o cumprimento da função social da propriedade urbana, tanto privada como pública;
III Os objetivos, temas prioritários e estratégias para o desenvolvimento da cidade e para a reorganização territo- rial do município, considerando sua adequação aos espaços territoriais adjacentes;
IV Os instrumentos da política urbana previstos pelo art. 42 do Estatuto da Cidade que já tratava do Conteúdo Mínimo do Plano Diretor, vinculando-os aos objetivos e estratégias estabelecidos no Plano Diretor;
Art. 2º
Definição das funções sociais da cidade e da propriedade urbana e sua destinação em cada porção do territó- rio do município; identificação dos imóveis não edificados, subutilizados e não utilizados de forma a garantir: espaços coletivos de suporte a vida nas cidades; acessibilidade e mobilidade sustentável; universalização de acesso a água potável e ao saneamento ambiental; à terra urbanizada a todos os segmentos sociais; áreas para todas as atividades econômicas incluindo pequenos empreendimentos comerciais, industriais, de servi- ços e agricultura familiar.
Art. 3º
Definição de critérios para: caracterização de imóveis não edificados, subtilizados e não utilizados; para aplica- ção do Estudo de Impacto de Vizinhança; delimitação de áreas urbanas nas quais poderão ser aplicados o parcelamento, a edificação ou a utilização compulsória. Definição de prazo para notificação do proprietário; Art. 4º Delimitação de área para aplicação dos instrumentos: direito de preempção, outorga onerosa do direito de
construir e de alteração de uso, operações urbanas e transferência do direito de construir; Art. 5º Instituição das Zonas Especiais, considerando o interesse local
Art. 6º Definição do Sistema de Acompanhamento e Controle
Art. 7º Definição dos Instrumentos de Gestão Democrática do Sistema de Acompanhamento e Controle Social Art. 8º Plano Diretor de Transporte e da Mobilidade para as cidades com mais de 500.000 habitantes Art. 9º Considerações dos temas da Mobilidade Urbana no processo de elaboração do Plano Diretor
Art. 10º Além do conteúdo mínimo exigido, o Plano Diretor poderá inserir outros temas relevantes, considerando a es- pecificidade de cada município.
Fonte: BRASIL, 2005.
Nas Zonas Especiais deviam ainda ser demarcadas as áreas de proteção, preservação e recuperação do meio ambiente natural e construído, do patrimônio cul- tural, histórico, artístico, paisagístico e arqueológico (BRASIL, 2005).
Mais tarde com o considerável aumento dos desastres naturais no território nacional, principalmente o ocorrido em janeiro de 2011 na região serrana do Rio de Janeiro, influenciaram a promulgação da Lei nº 12.608 de 10 de abril de 2012 que instituiu a Política Nacional de Proteção e Defesa Civil (PNPDEC), o Sistema Nacional de Proteção e Defesa Civil (SINPDEC), o Conselho Nacional de Proteção e Defesa Civil (CONPDEC) e a criação de sistema de informações e monitoramento de desas- tres. Além disso, a Lei 12.608/2012 alterou cinco leis, entre as quais, o Estatuto da Cidade (BRASIL, 2012).
A Política Nacional de Proteção e Defesa Civil exigiu que os municípios brasileiros relacionados no Cadastro Nacional de Municípios suscetíveis à ocorrência de deslizamentos de grande impacto, inundações bruscas ou processos geológicos ou hidrológicos correlatos incluíssem outros temas nos seus respectivos Planos Dire- tores. O Quadro 7 apresenta o conteúdo adicional dos Planos Diretores requerido pela PNPDEC.
48
Quadro 7 - Conteúdo adicional do Plano Diretor requerido pela PNPDEC
Item Conteúdo
I Parâmetros de parcelamento, uso e ocupação do solo que promovam a diversidade de usos e a contribuir para a geração de emprego e renda;
II Mapeamento das áreas suscetíveis à ocorrência de deslizamentos de grande impacto, inundações bruscas ou processos geológicos ou hidrológicos correlatos;
III Planejamento de ações de intervenção preventiva e realocação de população de áreas de risco de desastre; IV Medidas de drenagem urbana necessárias à prevenção e à mitigação de impactos de desastres;
V
Diretrizes para a regularização fundiária de assentamentos urbanos irregulares e previsão de áreas para habi- tação de interesse social por meio da demarcação de zonas especiais de interesse social onde o uso habitaci- onal for permitido
VI
Identificação e diretrizes para a preservação e ocupação das áreas verdes municipais, quando for o caso, com vistas à redução da impermeabilização das cidades
Identificação e mapeamento de áreas de risco levando em conta as cartas geotécnicas
O Conteúdo do Plano Diretor deverá ser compatível com as disposições previstas nos Planos de Recursos Hídricos formulados pela Lei n° 9.433 de 08 de janeiro de 1997
Os Municípios adequarão o Plano Diretor às disposições por ocasião de sua revisão, observados os prazos legais
Os municípios que não tenham Plano Diretor aprovado terão prazo de cinco anos para o seu encaminhamento e aprovação pela Câmara Municipal.
Fonte: BRASIL, 2012.
A exigência de que o conteúdo do Plano Diretor fosse compatível com as disposições previstas nos Planos de Recursos Hídricos, bem como as medidas para a drenagem urbana e as diretrizes para a preservação e ocupação de áreas verdes municipais, evidenciam ações de planejamento e gestão que podiam ser observados por todos os Planos Diretores municipais e não somente para aqueles incluídos em cadastros específicos.
Nesse sentido, o desenvolvimento de procedimentos metodológicos que apoiem a integração das diretrizes do PDRH FURNAS com os Planos Diretores dos municípios da UPGRH GD3 FURNAS pode consolidar-se como uma contribuição es- tratégicas para a efetivação da compatibilização destes referidos planos prevista na Lei nº 12.608/2012.
Entretanto para se compreender o território da UPGRH GD3 FURNAS torna-se necessário um resgate do contexto da implantação da Usina e do Lago de Furnas que consolidou essa mesma região.
49
5 A Usina e o Lago de Furnas
Os rios de Minas Gerais foram objeto das primeiras experiências de implan- tação de usinas hidrelétricas no país, ou seja, a usina de Ribeirão do Inferno em Dia- mantina em 1883 e a usina de Marmelos-Zero em Juiz de Fora em Juiz de Fora em 1889. Marmelos-Zero foi a primeira hidrelétrica da América Latina a fornecer energia para serviços de iluminação pública e particular. Entretanto, apesar desse pioneirismo, o estado de Minas Gerais nas primeiras décadas do século XX, carecia de um efetivo sistema de produção e fornecimento de energia elétrica capaz de viabilizar o seu de- senvolvimento socioeconômico. Em 1920, Minas Gerais apesar de ser o estado bra- sileiro com o maior número de usinas hidrelétricas, possuía apenas 42 mil kW de po- tência instalada, ficando atrás do Rio de Janeiro com 61 mil kW e São Paulo com 155 mil kW (CEMIG, 2006).
No início da década de 30 o reconhecimento do atraso do desenvolvimento econômico de Minas Gerais em relação aos centros mais industrializados do país transferiu o debate da produção, distribuição e consumo de energia elétrica do estado para a esfera política.
A deficiência no fornecimento de energia elétrica dificultava o desenvolvi- mento industrial de Minas Gerais, o Estado não investia na produção de energia elé- trica por que não existiam indústrias que garantiriam o consumo, da mesma forma as indústrias não se instalavam pela falta da mesma energia elétrica (LOPES, 1995).
Na gestão de Benedito Valadares Ribeiro, no Governo de Minas Gerais, no período de 1933 a 1945, foi proposta a criação da Cidade Industrial de Contagem e a Usina Hidrelétrica de Gafanhoto no Rio Pará, numa região próxima aos municípios e Carmo do Cajurú e Divinópolis. A Usina de Gafanhoto foi construída com a finalidade de fornecer energia elétrica à Cidade Industrial de Contagem (CEMIG, 2006).
Em 1943 o engenheiro Lucas Lopes assumiu a Secretaria Agricultura, Indús- tria, Comércio e Trabalho do governo de Minas Gerais quando passou a coordenar as obras da construção da Cidade Industrial de Contagem, da usina hidrelétrica de Gafa- nhoto e das termas de Araxá (DINIZ, 2008).
Mais tarde na gestão do governador Milton Campos (1947-1951), Lucas Lopes coordenou o chamado Plano de Eletrificação de Minas Gerais. O referido plano identificava o sistema de distribuição de energia elétrica de Minas Gerais como primi- tivo e atrasado. Apontava para existência no Estado de um conjunto de usinas
50
hidrelétricas isoladas, que na maioria das vezes atendiam apenas uma localidade. Salientavam que a tendência mundial era a implantação grandes sistemas interligados de produção, transmissão e distribuição de energia elétrica capazes de atender as crescentes demandas das metrópoles industriais. Em 1941 existiam 424 usinas em Minas Gerais com uma potência instalada de 142.000 kW, enquanto que no Rio de Janeiro existiam 113 usinas com 259.021kW e em São Paulo existiam 195 usinas com 575.978 kW. A reduzida produção de energia elétrica de Minas Gerais era justificada pelos obsoletos equipamentos das antigas usinas mineiras, bem como pela limitação das vazões nas estiagens dos rios que eram aproveitados sem os devidos cuidados técnicos (LOPES, 1995).
Nas eleições estaduais de 1950, Juscelino Kubitschek (JK) foi escolhido como candidato do Partido Social Democrata (PSD) para o governo de Minas Gerais.
Considerando as dificuldades logísticas de transporte e o isolamento dos municípios mineiros foi estabelecido um roteiro de campanha que possibilitasse visitar as principais cidades de Minas Gerais num período de aproximadamente dois meses. A primeira visitada foi em Diamantina, cidade natal do candidato, lá JK apresentou em seu discurso os temas chaves de sua campanha: Energia e Transporte. A equipe da campanha contava com a participação do engenheiro Lucas Lopes, que entendia que Minas Gerais, apesar da sua grande extensão territorial, estava isolada das demais regiões do país. O precário sistema de circulação e transporte foi considerado pela equipe como um entrave ao desenvolvimento de Minas Gerais. No período da cam- panha, 93% da energia consumida em Minas Gerais provinha da lenha e do carvão vegetal, fato que levava a um processo progressivo de destruição das florestas minei- ras. Apesar do atraso na produção, fornecimento e distribuição de energia elétrica Minas Gerais era identificado como o Estado detentor de 30% do potencial hidrelétrico do país.
Nesse contexto, o binômio: Energia e Transporte era apresentado como uma alternativa para o desenvolvimento econômico de Minas Gerais. O lema da cam- panha foi então transformado nas seguintes metas: implantar 3.000 km de estradas de rodagem e construir rapidamente novas usinas com o objetivo de triplicar, num período de cinco anos, o potencial hidrelétrico do Estado (OLIVEIRA, 1976).
Em sua campanha Juscelino divulgou seus projetos de implantação de usi- nas hidrelétricas, fábricas, escolas e rodovias no estado de Minas Gerais (BOJUNGA, 2001).
51
A Figura 1 apresenta um material gráfico da campanha de JK para o go- verno de Minas Gerais em 1950 enfatizando o binômio: Energia e Transporte.
Figura 1 - Material gráfico da campanha de JK ao Governo de Minas Gerais em 1950
Fonte: Projeto Memória, 2015.
Depois da vitória, na primeira mensagem à Assembleia Legislativa, o Go- vernador Juscelino Kubitschek apresentou a proposta de elevar a mais que o dobro a produção de energia elétrica em Minas Gerais (CEMIG, 2006).
Em 1952 foi criada a Centrais Elétricas de Minas Gerais (CEMIG), com o objetivo de construir e explorar sistemas de produção, transmissão e distribuição de energia elétrica, bem como controlar as companhias de eletricidade do governo. A primeira diretoria da CEMIG foi composta pelos engenheiros: Lucas Lopes (Presi- dente), Pedro Laborne Tavares (Vice-Presidente), John Reginald Cotrim, Mario Penna Bhering e Mauro Thibau. A primeira obra da CEMIG foi a Hidrelétrica de Cajurú em Divinópolis no rio Pará, em 1954, cuja produção contribuiu com o atendimento das demandas da Cidade Industrial de Contagem. Em 1955 foram inauguradas as usinas de Itutinga, no curso do Rio Grande no município de Itutinga; Tronqueiras, no Rio Tronqueiras, no município de Coraci e a usina de Piau no município de Piau. Em 1956 entrou em operação a usina de Salto Grande, nos rios Santo Antônio e Guanhães, no município de Braúnas (CEMIG, 2006).
Entretanto, nenhum dos projetos dessas citadas usinas foram resultado de estudos desenvolvidos pelo corpo técnico da CEMIG, ao contrário, foram herdados de
52
planos anteriores de outros órgãos estaduais que foram incorporados à CEMIG. Com o objetivo de evitar os problemas técnicos enfrentados nas referidas obras, a equipe técnica da CEMIG decidiu desenvolver estudos sobre o aproveitamento dos principais rios mineiros com o objetivo de avaliar o potencial energético dos mesmos. John Con- trim, diretor técnico da CEMIG coordenou então o primeiro desses estudos, ou seja, o Plano para Aproveitamento do Potencial Hidrelétrico do Rio Grande. A escolha justifi- cava-se pela relevância do Rio Grande, por ser um rio de grande porte, no qual em suas cabeceiras já haviam sido construídas as usinas de Itutinga e Camargos e por atravessar uma importante região econômica do estado (CONTRIM, 1994).
Os levantamentos foram realizados desde as nascentes do Rio Grande até o remanso no reservatório de Peixotos no município de Ibraci (CEMIG, 2006).
Nos levantamentos, sobre o potencial hídrico do Rio Grande, a equipe iden- tificou uma considerável diferença de nível existente entre as usinas de Ituginga e Camargos situadas na cota 900 e a cota 665 do reservatório de Peixotos. Os 235 metros de desnível do Rio Grande passaram então a indicar um considerável potencial hídrico a ser explorado. A equipe passou então a pesquisar possíveis saltos e corre- deiras, que pudessem ser aproveitados para a construção de usinas.
Foi então identificado na região de Passos, na margem do Rio Grande, as chamadas Corredeiras de Furnas, nome dado em função das cavernas existentes, escavadas pela água nos paredões dos desfiladeiros existentes naquela região. O sítio foi então identificado como um local apropriado para a construção de uma barra- gem, uma vez que existia ali um longo desfiladeiro ladeado por paredões de pedra de mais de 100 metros de altura que o Rio Grande atravessava depois da confluência com o Rio Sapucaí (CONTRIM, 1994).
A descoberta daquele sítio hidrelétrico foi divulgada gradativamente em pa- lestras direcionadas aos profissionais da área, ou seja, para a Sociedade Mineira de Engenheiros em 1954 e posteriormente para o Instituto de Engenharia de São Paulo no mesmo ano.
Na palestra realizada por John Contrim, no Instituto de Engenharia de São Paulo, ainda em 1954, com os levantamentos mais adiantados, foi possível apresentar a estimativa de 7.500 MW para o potencial hidrelétrico do Rio Grande, mais que o dobro da potência instalada no Brasil, que na época era de 3.000 MW. No Plano para Aproveitamento do Potencial Hidrelétrico do Rio Grande foram apresentados
53
possíveis aproveitamentos em cascata desde a cota 900 nas nascentes do Rio Grande até a cota 250 no encontro com o Rio Paranaíba.