5. A INTERFERÊNCIA RELIGIOSA
5.1. A Religião
5.1.1. O Holofote do conflito
Para melhor compreender o conflito israelo-árabe será necessário analisar a conexão entre a religião e a política. Relação de grande interdependência e destrinça muito limitada. No séc. IV, o Imperador Constantino ao proclamar o cristianismo como religião oficial do Império Romano assinalava um importante momento da história, tornando-se o expoente máximo dessa aproximação. Atitude idêntica foi seguida, posteriormente, pela generalidade das culturas e das civilizações. Porventura só no séc. XVII, através da Revolução Francesa, se iniciou o processo de separação dos poderes, o laicismo352, donde alastrou para o resto da Europa. Contudo, a laicidade é combatida no mundo árabe. O Islão353 é de tal modo hostil à laicidade, e à democracia, que quando se
352
O Laicismo defende a exclusão da influência da religião no Estado, na cultura e na educação e tende a emancipar as instituições estatais de carácter religioso. O laicismo facilita a irreligiosidade e, mesmo, a anti-religiosidade, mas não é causa nem impede as religiões, os direitos de ensino e organização que confere às outras associações. O laicismo é, pois, a doutrina e a laicidade o modo de a levar à prática. Raquel Cordeiro, Geografia das religiões: confessionalismo e laicidade. Janus, 2007, Lisboa:
Universidade Autónoma de Lisboa, [Consultado em 02MAI09]. Disponível em:
http://www.janusonline.pt/2007/2007_4_1_2.html
353 Religião monoteísta que surgiu na Península Arábica no séc. VII, baseada nos ensinamentos religiosos
do profeta Maomé e numa escritura sagrada, o Alcorão. A religião é conhecida ainda por Islamismo. Deriva da palavra arábica 'Silm" / "Salam', cujo significado é paz. 'Salam' pode também significar "saudar um ao outro com paz".
verificam eleições, servem para repudiar a democracia e reclamar a Sharia354. A vitória recente do Hamas355, na Palestina, demonstra a animosidade da religião à laicidade do Estado. O Islão radical só aceita uma lei, a do Alcorão, e um método para a impor, a jihad356. Porém, e apesar do Islão significar paz, alguns grupos terroristas, segundo o Ocidente, cometem actos violentos e de terror invocando o nome de Alá ou da religião Islâmica. Ao tentar incutir a mensagem do Islão, a Jihad utiliza métodos que consistem no uso de violência, física ou psicológica, contra a ordem estabelecida através de um ataque, de modo que os estragos psicológicos ultrapassem largamente o círculo das vítimas para incluir o resto do território. Os atentados islamitas obedecem à “lógica” de rejeição radical, que inclui o suicídio dos próprios terroristas, o “martírio”, claramente manipulados por quem não recua perante a efabulação. A promessa de um lugar no Paraíso, onde será acolhido por “70 virgens”, parece ser tomada à letra pelos jovens suicidas357.
A corrente radical do Islamismo tem reivindicações muito peculiares: regresso a uma ordem social definida pela aplicação estrita da Sharia; interpretação literal do Alcorão e da Sharia tal como era concebida durante os 3 primeiros séculos depois da Hégire358, na Arábia da Idade Média até ao séc. X; matança de infiéis e traidores; pretensão em estender de maneira unilateral o conceito de Jihad à eventual reconquista e dominação de territórios não islâmicos; exclusão da mulher da vida pública e a sua mutilação genital sistemática (excisão); exaltação da figura do “mártir” numa
354
Nome que se dá ao código de leis do Islamismo, corpo de regras jurídicas tratando todos os problemas da vida em sociedade. Em várias sociedades islâmicas, as leis são religiosas e baseadas ou nas escrituras sagradas ou nas opiniões de líderes religiosos.
355
O Hamas, Movimento de Resistência Islâmica, é uma organização paramilitar e partido político sunita palestino. Criado em 1987 no começo da Primeira Intifada. Notório pelos seus ataques suicidas contra civis e forças armadas israelitas. A Carta Fundamental do Hamas exorta à reconquista do Estado de Israel e sua substituição pela República Islâmica Palestina na área que hoje é conhecida internacionalmente como Israel, Cisjordânia e Faixa de Gaza. O Hamas descreve o conflito com Israel como político e não religioso ou anti-semita. Entretanto, a carta fundamental, escritos e em muitas declarações públicas reflectem a influência de teorias conspiratórias anti-semitas.
356 Conceito essencial da religião islâmica. Pode ser entendida como uma luta, mediante vontade pessoal,
de se procurar e conquistar a fé perfeita. Ao contrário do que muitos pensam, jihad não significa "Guerra
Santa", nome dado pelos Europeus às lutas religiosas na Idade Média (por exemplo: Cruzadas). Aquele
que segue a Jihad é conhecido como Mujahidine. A explicação quanto às duas formas de Jihad não está presente no Alcorão, mas sim nos ditos do Profeta Maomé: Uma, a "Jihad Maior", é descrita como uma luta do indivíduo consigo mesmo, pelo domínio da alma, incitando esforços para se tornar melhor muçulmano; e a outra: a "Jihad Menor", é descrita como um esforço que os muçulmanos fazem para levar a mensagem do Islão, estender o império ou defendê-lo se for ameaçado.
357 Adelino Torres, Terrorismo: O apocalipse da razão? In Terrorismo, Almedina, Coimbra, 2004, pag
50.
358 “Expatriação” de Maomé da Meca para Medina. A data da Hégire, fixada pelo primeiro califa
(representa o Profeta no Islão) Abou Bakr para o dia 16 de Julho de 622, marcou o início da era muçulmana e do seu calendário.
interpretação claramente enviesada de um único versículo do Alcorão sobre o tema; aplicação de castigos corporais previstos na Sharia: corte da mão dos ladrões, chicoteamento de faltosos que desrespeitaram os bons costumes359; reivindicação do recurso sistemático ao apedrejamento até à morte dos adúlteros e sobretudo das adúlteras.360
Israel, por sua vez, apesar das relações entre Estado e religião serem semelhantes aos países vizinhos muçulmanos, é, contudo, um Estado mais democrático do que qualquer um deles, pese embora, a própria declaração de independência conter numerosas referências religiosas e estabelecer Israel como um “Estado judeu”. Uma grande percentagem da população judaica continua a encarar Israel como um Estado criado por razões religiosas e para finalidades religiosas, mesmo apesar da grande diversidade religiosa de Israel361 e da secularização dos descendentes de judeus, dos quais metade serão não religiosos362.
O exercício da liberdade de consciência básica, que consiste no poder em renunciar à religião e conduzir a sua vida ignorando as actividades inerentes da mesma é dificultado ao povo israelita. As antigas leis religiosas, para cada uma das três comunidades363, são aplicadas por tribunais próprios para questões familiares (como o casamento, o divórcio e questões fúnebres) o que as tornam demasiado complexas. Existem escolas diferentes para cada comunidade religiosa, cada uma com a sua religião obrigatória, ajudando a manter a segregação social. O próprio Ministério do Interior detém um registo de “nacionalidade” de cada cidadão, o que na verdade se constitui num indicador da comunidade religiosa a que se pertence, onde os direitos civis são distintos conforme se seja, ou não, considerado judeu pelo rabinato ortodoxo. Assiste-se nitidamente a uma discriminação negativa das outras confissões religiosas, onde o governo discrimina os cidadãos muçulmanos ou cristãos no emprego, na educação e no alojamento. A comunidade judaica ortodoxa é actualmente a mais beneficiada, tendo mesmo o poder de decisão sobre que imigrantes podem ou não tornar-se cidadãos israelitas. Verifica-se nitidamente que o domínio público neste Estado continua profundamente clericalizado. Não admira, portanto, que a tensão entre clericais e laicos
359 Que podem ser, para as mulheres, a não utilização do véu em público ou o uso de perfume. 360 Adelino Torres, ibidem, pag 23.
361 Pelo menos um em cada cinco israelitas é muçulmano ou cristão.
362 Diário Ateísta, Israel não é um Estado laico, [Consultado em 02MAI09]. Disponível em:
http://www.ateismo.net/2006/07/26/israel-nao-e-um-estado-laico/, 2006.
no Estado de Israel seja tão elevada, onde 80% da população tema que decline para a violência364.
O conflito inicial entre árabes e judeus no Médio Oriente foi marcado por justificações políticas, sociais, económicas e principalmente psicológicas. Mais tarde, a partir da década de 1970, a dimensão religiosa ganhou predominância. A chegada do partido Likud365 ao poder e a coligação do mesmo com forças ideológicas neo- ortodoxas e, opondo-se a eles, a ascendência radical da revolução islâmica no Irão, em 1979, e os grupos terroristas que nela se inspiraram, são acontecimentos que radicalizaram as posições. Apesar da influência e da intensidade dos radicalismos religiosos, em ambas as partes, apesar de díspares, o certo é que quando princípios religiosos radicalizados guiam a agenda regional, o conflito atinge proporções onde o único objectivo é a vitória, não existindo a possibilidade de meios termos... “ou se vence
ou se perde”366. Ao longo dos anos o conflito no Médio Oriente foi mudando de denominação. Inicialmente, tratava-se de um confronto entre os judeus, que regressavam a Israel, e os palestinianos. O conflito explicava-se por contestações de posse e usufruto de riquezas não muitos abundantes, vinganças tribais, disputas territoriais e nacionais. As declarações de radicalismo baseadas em influências religiosas eram presenciadas por figuras da liderança árabe-palestiana, tais como o Mufti367 de Jerusalém, Mohammad Amin al-Husayni, que fundia na sua retórica argumentos fortemente nacionalistas ornamentados com motivos religiosos368.
Os países que rodeavam Israel sofreram processos idênticos. O conflito israelo- árabe passou, lentamente, a incluir-se num perfil árabe israelo-palestiniano. No conflito pode-se observar o desenvolvimento de dois processos opostos. Por um lado, a internacionalização do conflito a partir do momento que os valores religiosos ganham prioridade no mundo muçulmano e, por outro, uma normalização do conflito. Ou seja
364 Diário Ateísta, ibidem.
365 Partido político de Israel, criado em 1973, que congrega a direita liberal, sionista, nacionalista e
conservadora. O seu significado, em hebraico, é união. Foi, como uma coligação liderada pelo partido Herut, de Menachem Begin. Entre os primeiro-ministros do Likud destaca-se Ariel Sharon, que em 2005 o abandonou para fundar o Kadima.
366 Carlos Cymerman, Dimensões religiosas do conflito israelo-árabe, In Revista Janus, 2007.
367 Académico islâmico a quem é reconhecida a capacidade de interpretar a lei islâmica (Sharia), e a
capacidade de emitir fataawa (pronunciamento legal no Islão emitido por um especialista em lei religiosa, sobre um assunto específico).
passou-se da inspiração pan-arabistas369 e da escola nasserista370 para uma óptica pan- islâmica371 da escola dos aiatolas372, 373.
Nesta região do Globo, as ameaças à identidade colectiva constituem uma dificuldade ao processo de paz, visto que a presença de uma elevada comunidade árabe dentro do Estado de Israel, é entendida como uma ameaça à própria sociedade israelita, interessando referir que essa sociedade foi construída na base de um fundamento de identidade étnica e até de certo ponto religiosa. Neste contexto o direito de retorno dos refugiados palestinianos, que se encontram disseminados pelos países vizinhos, alguns há mais de 60 anos, será entendido como uma diluição da identidade colectiva agravada pelo aumento da natalidade dos palestinianos, o que por si só faz com que os israelitas tenham grandes preocupações nesse sentido.
Devido à guerra de 1967, cresceu uma nova corrente de nacionalismo étnico, que preconizava o retorno a uma identidade bíblica, aglutinando uma noção de Estado moderno com uma ideia de terra de Israel. Apresenta-se como exemplo o crescimento exagerado de colonatos em Gaza e na Cisjordânia, facto que cria uma situação política insustentável e reforça uma cidadania de excluídos.
As religiões assinalam o espaço pelos lugares de evocação. Os lugares santos são por isso de uma grande importância: os lugares de culto reúnem periodicamente os fiéis, e as cidades santas são depositárias de uma relíquia e detém um valor histórico particular. A Palestina e Jerusalém são disso exemplo, disputadas em parte por motivos religiosos. Para as três comunidades religiosas, Jerusalém representa-se como uma cidade santa374. Para os cristãos a igreja do Santo Sepulcro, o lugar do túmulo de Cristo, para os judeus o Muro das Lamentações, resto do Templo de David375, e para os muçulmanos a apoteose do profeta Maomé a partir da localização da actual Cúpula da Rocha. As religiões desempenham, portanto, um papel político tanto ao nível do Estado como dos seus cidadãos, sendo então a religião uma ideologia de grupo ou de Estado. Não é só a mensagem espiritual, mas também um programa político. Não se assistiu ao
369 Movimento político para unificação entre as populações e nações árabes do Médio Oriente. Possui
estreita vinculação com o nacionalismo árabe. Baseado em preceitos nacionalistas, seculares e estetizantes.
370
Ideologia política nacionalista árabe baseada nos pensamentos do antigo presidente egípcio Gamal Abdel Nasser.
371 Movimento político que evoca a unidade dos Estados islâmicos.
372 Considerado sob as leis do Islão xiita o mais alto dignitário na hierarquia religiosa. 373 Carlos Cymerman, ibidem.
374 Conforme referido pelo entrevistado nº7, em 24 de Junho de 2010. 375 Primeiro Rei de Israel.
processo de secularização376, mas sim do integrismo, constituindo-se uma aspiração à unidade da fé e dos ritos antigos, denunciando os desvios permissivos de uma sociedade aferida por um passado ambicionado.
Em suma o problema fundamental abrange duas sociedades que desde há muito vivem em confronto: uma, a israelita, submersa numa grave desconfiança devido às ameaças fundamentalistas e outra, a palestiniana, que apesar de ter iniciado a integração de instituições nacionais, mantêm um braço armado extremamente activo, que não esconde o seu objectivo de destruir a outra parte. Daí que a influência da religião no referido confronto põe fortemente em causa as possibilidades de um diálogo sério, possibilitando o caminho de um acordo de paz estável e permanente.