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2.2 O INTERNATO ESCOLAR COMO INSTITUIÇÃO TOTAL

2.2.4 O Internato Escolar como Objeto de Estudo

As instituições totais como objeto de estudo há muito despertam o interesse de pesquisadores, mas, como dantes citado, são pouco referidos na literatura, devido ao fato de não se abrirem para a pesquisa. No entanto, existem alguns registros de estudos realizados no sistema prisional, abrigos para menores e monastérios (COELHO, 1994; ESTRÁZULAS, 2007; FREITAS, 2003; GUIRADO, 1986; OLIVEIRA, 1996; SALLA, 2000), em hospitais psiquiátricos (FOUCAULT, 1987; GOFFMAN, 1973), em seminários (BENELLI, 2003c; SANTOS, 1999;) e em colégios internos (BRASIL, 1994; MORAIS et al., 2004).

Cabe relatar, aqui apenas os trabalhos desenvolvidos em colégios internos, por serem estes os que apresentam relação mais direta com o objeto de estudo.

O Relatório-síntese publicado em BRASIL (1994), com base em outros quatro Relatórios Parciais elaborados em Encontros Regionais das Escolas Agrotécnicas Federais, apresenta uma súmula do diagnóstico efetuado, juntamente com sugestões e recomendações para os Internatos. O relatório da região Nordeste destacou que o internato se reveste de duas características básicas importantes: em primeiro lugar, se insere no contexto da filosofia de ensino adotado pelas Escolas; em segundo, a produção resultante das atividades desenvolvidas pelos alunos passa a constituir uma parcela substancial de recursos para garantir a própria manutenção do regime de internato com suas características atuais.

Quanto à manutenção do regime de internato com suas características atuais, com base no relatório da região Norte/Centro-Oeste, foram feitas algumas restrições. Tendo em vista o elevado custo de manutenção, seria viável:

aumentar substancialmente o número de alunos semi-internos e externos [...] a maior integração das Escolas com as comunidades circunvizinhas [...] há unanimidade em que o regime de internato oportunize o atendimento aos jovens do meio rural, carentes e oriundos de municípios distantes, oferecendo-lhes melhores condições de aprendizagem e constituindo um suporte indispensável para seu aprimoramento profissional. (BRASIL, 1994, p.10 -11).

Aparecem, ainda, nos Relatórios Regionais, como preocupação generalizada, dois aspectos que merecem registro: em primeiro lugar, “transparece a importância dada

pelas Escolas ao fato de contarem com farto estoque de mão-de-obra para a complementação do número de seus servidores”, correndo-se o risco de ser distorcida a missão básica de ensino-aprendizagem inerente à Escola. Em segundo lugar, deveriam ser estabelecidos critérios claros que privilegiassem o atendimento “a jovens do meio rural, carentes e de municípios distantes, não se devendo, necessariamente, estender o regime de internato em caráter permanente a todos os alunos indiscriminadamente”. (BRASIL, 1994, p. 13).

Outro aspecto importante evidenciado no Relatório-síntese diz respeito a dificuldades

quanto ao desenvolvimento sócio-afetivo do aluno em regime de internato dentro das atuais condições de infra-estrutura verificadas nas Escolas Agrotécnicas. [...] a experiência tem mostrado que o fator superlotação (nos alojamentos do internato) propicia a indisciplina e a disseminação de doenças infecto-contagiosas causadas pelo uso coletivo e pela dificuldade de higienização das instalações [e reconhece] os efeitos negativos causados pela ausência da família. (BRASIL, 1994, p. 14).

O referido relatório salienta que a Escola Agrotécnica deveria caracterizar-se como uma escola de tempo integral para seus discentes o que, entretanto, não a obriga a fornecer alojamento e refeições para todos os seus alunos. Salienta, ainda, que o ideal seria que suas instalações fossem suficientes para abrigar alunos internos num total da ordem de 30% do alunado total. Desta forma, seriam também criadas condições para que os alojamentos coletivos, com todos os seus inconvenientes já apontados, dessem lugar a apartamentos destinados a abrigar entre 4 e 8 internos, com instalações tanto para habitação como para estudo.

Nesse sentido, Morais et al (2004) desenvolvem seu estudo em uma Escola Técnica Federal de Macaíba (RN), que apresenta, como particularidade, um sistema de internato destinado a estudantes de nível sócio-econômico médio e baixo que desejam cursar o Ensino Técnico em Agropecuária e o Ensino Médio. O referido estudo tem como objetivo investigar aspectos positivos e negativos da experiência de internato para o desenvolvimento dos alunos, bem como a influência da vivência coletiva sobre o desempenho escolar e a concepção deles sobre um internato ideal.

Os dados foram obtidos a partir da entrevista com cinco alunos residentes e de informações complementares, conseguidas por meio de atividades em momentos

diferenciados, ao longo de um ano de inserção das pesquisadoras no ambiente de pesquisa-inserção ecológica. Os resultados foram apresentados e discutidos a partir de três unidades temáticas principais que emergiram da análise de conteúdo: avaliação sobre como é viver no internato (aspectos positivos e negativos da experiência), percepção da vivência em ambiente coletivo sobre o desempenho escolar e concepção sobre um internato ideal.

ao mesmo tempo em que a possibilidade de conviver com amigos o maior período de tempo possível é visto pelos internos como um aspecto positivo, verifica-se que os aspectos negativos apontados estão estreitamente relacionados com as particularidades da convivência em grupo. (MORAIS et al. , 2004, p. 384).

Além da falta de ambiente próprio para estudo, a dificuldade em administrar o tempo e cumprir a elevada carga de tarefas foi citada como aspecto negativo.

Para os alunos entrevistados, um internato ideal deveria possuir um menor número de alojados por quarto e um melhor relacionamento entre os internos, relacionamento este que, segundo eles, deveria ter por base o respeito mútuo e a solidariedade.

As autoras, com base no dizer dos entrevistados, colocam como medidas cabíveis para minimizar as dificuldades:

a) a existência de um acompanhamento sistemático e mais próximo, por parte da equipe de inspetores e supervisores;

b) a melhoria da infra-estrutura do internato (menor número de alojados por quarto, existência de banheiros integrados aos quartos e local adequado ao estudo);

c) a realização de um trabalho de grupo que possibilitasse a reflexão permanente dos internos acerca de aspectos como comunicação, liderança, conflitos e cooperação, que fazem parte da vida em ambiente coletivo.

Salientam, ainda, as autoras a necessidade de

repensar os currículos de cada curso proporcionando maior integração dos conteúdos, bem como da criação de um espaço de discussão conjunta entre equipe dirigente e alunos acerca da rotina da escola. (MORAIS et al, 2004, p. 386).

Com o objetivo de traçar a história da aplicação do Sistema Salesiano de Educação em três internatos de São Paulo, Santos (1999) examina a situação histórica precedente dos internatos na sociedade brasileira e na literatura nacional. Bem como estuda o comportamento do modelo italiano transplantado para o Brasil. O estudo não discutiu o sistema educativo, mas historiou a aplicação de alguns instrumentos mais significativos: a estrutura administrativa e regulamentar, as práticas religiosas e associativas, recreativas, desportivas e, também, militares e culturais (música, teatro, cinema e atividades literárias) e, finalmente, práticas disciplinares e avaliativas.

O autor, ao finalizar o trabalho, a partir de uma avaliação feita pelos ex-alunos internos sobre alguns aspectos do Sistema Salesiano de educação, constata que o referido sistema adaptou-se às condições sócio-culturais-religiosas brasileiras, apesar da contínua tensão em relação à aplicação de alguns instrumentos (saídas, férias, missa diária, reclusão quase absoluta dos alunos e algumas medidas disciplinares). No entanto, em momento algum, o autor conseguiu detectar contestação formal aos ideais propostos pelo modelo. Apesar de, na prática, o sistema ter sofrido baixas, devido ao fato de diversos agentes não terem conseguido eliminar os castigos físicos (proibidos em seu projeto), isso não afetou o trabalho educacional, vista a significativa demanda (internatos numerosos) e a resposta dos antigos alunos internos que o adotaram até em sua vida real, colocando seus filhos em internatos salesianos.

Encontra-se, ainda, registro de estudos realizados a partir de clássicos da literatura como, por exemplo, Benelli (2002, 2003a, 2003b) e Pereira (2002):

Benelli (2002) utilizando-se das análises de Goffman sobre as instituições totais para a leitura de “O Jovem Törless”, de Robert Musil, procura desvelar o modo de funcionamento dessas instituições. Conclui que existe mais do que uma simples analogia no paralelo estabelecido entre os fins educativos do internato escolar e os objetivos terapêutico-correcionais do hospital psiquiátrico e da prisão.

O romance “O Ateneu” de Raul de Pompéia é tomado como campo de pesquisa por Benelli (2003a, 2003b) que também o analisa a partir da teoria de Goffman sobre instituições totais. Nesse estudo, o autor tem como objetivo detectar os efeitos da

institucionalização na produção da subjetividade num estabelecimento escolar totalitário. Adverte que os problemas sociais e os efeitos na subjetividade produzidos pelas instituições totais somente podem ser compreendidos por meio do estudo das relações de poder subjacentes a esses estabelecimentos. Apresenta como conclusão que o lapso de tempo no qual o indivíduo vive como interno pode deixar marcas profundas na sua subjetividade e se configura como um tema de estudo apropriado em si mesmo.

Pereira (2002) com o objetivo de analisar a dinâmica do funcionamento do Internato abordada pelo texto literário, utilizou-se do estudo comparado entre as obras: “Doindinho”, do brasileiro José Lins do Rego, e de “Os Rios Profundos” do peruano José Maria Arguedas. Tanto em uma obra como em outra, além do olhar infantil do personagem-menino que permeia a visão do adulto, a distância existente entre o momento dos acontecimentos lembrados e o momento da narração permite ao narrador, em primeira pessoa, analisar criticamente tudo que relata. A substituição do ambiente familiar e da vida em liberdade pelo universo fechado e estranho do internato constitui um episódio traumatizante para o adolescente.

O cotidiano no internato frustra as expectativas tanto do personagem brasileiro quanto do peruano os quais, com o passar do tempo, têm cada vez mais aversão àquela realidade escolar. É a incapacidade de adaptação ao mundo do internato, como um microcosmo da sociedade, juntamente com a experiência de vida e toda aprendizagem obtida no colégio, que vai possibilitar aos personagens encontrarem, cada um a seu modo, uma saída diferente do caminho que os adultos já lhes haviam predestinado.

Esses relatos de trabalhos, que têm no internato escolar o seu objeto de estudo, trazem questões relevantes como a real necessidade do funcionamento do internato nos moldes atuais e a utilização da teoria de Goffman sobre as instituições totais para desvelar o modo de funcionamento desses estabelecimentos. Questionamentos que vêm contribuir para um melhor delineamento do campo de análise – o Colégio Agrícola de Frederico Westphalen como uma instituição total de ensino, onde se pretende analisar a evasão-permanência, a partir das diversas relações institucionais.