CAPÍTULO 4 TEXTO, CONTEXTO E HIPERTEXTO: CONSIDERAÇÕES
4.4 Suportes e modos de leitura
4.4.5 Leitura hipertextual
4.4.5.1 Tipos de leitor
4.4.5.1.3 O leitor Imersivo, virtual
O leitor imersivo ou virtual surge da multiplicidade de imagens sígnicas e ambientes virtuais de comunicação imediata. Esse novo tipo de leitor nasce inserido dentro dos grandes centros urbanos, acostumados com a linguagem efêmera, é provido de uma sensibilidade perceptiva-cognitiva quase que instantânea.
De acordo com Santaella (2004), o receptor de uma hipermídia ou usuário coloca em ação mecanismos, ou melhor, habilidades de leitura muito distintas daquelas que são empregadas pelo leitor de um texto impresso como o livro. Por outro lado, são habilidades também distintas daquelas que são empregadas pelo receptor de imagens ou espectador de cinema, televisão.
Sendo assim, para a autora, a essa multiplicidade veio se somar o leitor das imagens evanescentes da computação gráfica e o leitor do texto escrito que saltou do papel para a superfície das telas eletrônicas.
Santaella (2004) considera que esse novo modo de ler possui certa familiaridade em relação aos modos de leitura de épocas passadas, uma vez que algumas características são preservadas, ela destaca que o leitor imersivo é capaz de ler, escutar e olhar tudo concomitantemente. Santaella (2004) descreve o leitor imersivo como um leitor em estado de prontidão
conectando-se entre nós e nexos, num roteiro multilinear, multissequencial e labiríntico que ele próprio ajudou a construir ao interagir com os nós entre palavras, imagens, documentação, músicas, vídeos etc .Trata-se, na verdade, de um leitor implodido cuja subjetividade se mescla na hipersubjetividade de infinitos textos num grande caleidoscópico tridimensional onde cada novo nó e nexo pode conter uma outra grande rede numa outra dimensão (SANTAELLA, 2004, p. 33).
Nesse ponto, delinear o perfil do leitor não é uma tarefa simples, porque, sendo o texto digital um texto de muitas possibilidades, cada leitor também tem uma forma de realizar a leitura. Assim, Santaella (2004) apresenta, por meio de pesquisa teórica e de campo, o comportamento de usuários da internet diante da tela, com objetivo maior de traçar o perfil cognitivo desse leitor; isto é, sua proposta é esboçar quais habilidades motoras, perceptivas e mentais são atribuídas ao leitor imersivo.
A partir dos dados obtidos na pesquisa, Santaella (2004) apresenta três categorias de usuários da rede: o novato, aquele que não possui conhecimento sobre o uso do funcionamento da rede; o leigo, que não é conhecedor exímio da tecnologia, mas já domina alguns trajetos e ferramentas; o experto, aquele que já está familiarizado com o computador e com a web, que navega com segurança.
Após ter formuladas as categorias e analisado as características cognitivas, Santaella (2004) propõe os seguintes perfis/estilos para o leitor imersivo, virtual: o errante, o detetive e o previdente. Ela delineia que, dependendo do tipo de navegador (ou leitor), errante, detetive ou previdente, utilizará mais ou menos as operações de abdução, indução ou dedução. Ou seja, em cada navegador uma das operações é mais recorrente, o que não quer dizer que não se utilizem de outras.
O leitor errante, para Santaella (2004), é usuário novato que vagueia como um flâneur, ou seja, é aquele que navega guiado pelas inferências abdutivas. Ele explora aleatoriamente as possibilidades proporcionadas pela web, vai aos poucos substituindo a perplexidade pelo entendimento, tendo insights, encontrando a solução para suas dificuldades de navegação pela súbita captação mental dos elementos.
A pesquisadora descreve que para esse tipo de leitor, o ciberespaço4 é como um
espaço de escolhas conduzidas pela lógica do plausível, de cujo jogo a desorientação semântica faz parte. Ela caracteriza, ainda, o leitor errante como aquele que vai clicando meio sem rumo em um campo de possibilidades abertas.
Errante, portanto, é o leitor que vai praticando a leitura diante do hipertexto propiciado pela web por tentativa e erro. Dessa forma, vai adivinhando o que deve se fazer. As adivinhações desse leitor, quando bem sucedidas, vão alimentando a sua confiança diante da web, propiciando o encorajamento para processos subsequentes, promovendo, assim, o início da construção de um novo perfil, que é o detetive.
O leitor detetive corresponde ao usuário leigo, aquele que tem o raciocínio indutivo; ou seja, parte de dados particulares para elaborar princípios gerais ou inferir uma conclusão.
No caso do navegador detetive, Santaella (2004, p. 112) ressalta que “a disciplina é a principal arma do seu método. Isso não significa, entretanto, que esse internauta esteja imune à dispersão”. Para ela, esse leitor disciplinado mantém a objetividade em suas escolhas, aprende com a experiência e transforma todo o seu aprendizado em adaptação, mesmo diante das situações que o levam a dispersar. Isso é visto pela pesquisadora como normal, pois em qualquer nível de leitura, seja no texto
4 O ciberespaço é concebido por Santaella (2004) como um mundo virtual global, onde o usuário tem
acesso a todo e qualquer espaço informacional multidimensional que permite a manipulação e a troca de informações por meio de uma conexão.
impresso seja na web, a dispersão é possível, tendo em vista a multipluralidade de possibilidades.
Assim, Santaella (2004) comenta que, se o leitor mantiver sua disciplina, aprendendo com as experiências bem sucedidas, convertendo em regras para serem aplicadas quando surgirem situações similares, o seu método detetivesco desenvolverá gradativamente habilidades de um leitor previdente.
O leitor previdente corresponde ao usuário experto; nas palavras de Santaella (2004), é aquele que tem o raciocínio dedutivo, ou seja, que já possui o conhecimento e as estratégias para uma boa navegação, que antecipa as consequências de cada um de seus procedimentos porque já internalizou as regras do jogo.
Esse leitor, geralmente, segue um percurso de leitura rotineiro, automático e, por isso, executa procedimentos apropriados. Em outras palavras, parece que já decifrou os segredos dos programas e consegue antecipar as consequências de suas escolhas, por isso usa estratégias para não fugir de seu objetivo.
Contudo, é importante destacar que, assim como já dissemos em relação ao leitor detetive, o previdente também pode ser tomado pelo papel de flâneur diante de uma informação inesperada, embora, por sua experiência e internalização de esquemas, seu processo de errância e de busca não ganha papel de destaque.
Em suma, Santaella (2004) apresenta que o leitor imersivo possui características próprias, pois, no ciberespaço, não há mais tempo apenas para contemplação ou para a simples movimentação. A pesquisadora defende que o perfil ideal do leitor imersivo é aquele que mistura os três estilos de leitura imersiva: o errante, o detetive e o previdente. Santaella (2004, p. 180) destaca ser ideal que o leitor “não se entregue às rotinas sem imaginação do previdente, mas se abra para surpresas, se entregue às errâncias para poder voltar a vestir a roupagem do detetive, farejando pistas.”
Sendo assim, a nosso ver, o papel do leitor do hipertexto vai além da atualização do que virtualmente existe. Ao leitor, caberá, principalmente, determinar um objetivo para a sua imersão nesse universo, buscar ferramentas próprias para atingir seu objetivo por meio da pesquisa e da leitura, selecionar informações que vão ao encontro do pretendido, associando e relacionando o seu conhecimento prévio com os conhecimentos obtidos, enfim, construir um texto próprio.
Diante desse cenário, é mister considerarmos na elaboração de uma proposta para o ensino de leitura de hipertextos, as características do leitor imersivo, definidas por Santaella, como, também, características específicas do hipertexto, que propiciam a constituição do leitor em escritor. Para tanto, esse leitor tem como grande desafio construir um texto coerente, um texto compreendido para além de um apanhado de informações, em um certo contexto, com um certo objetivo.