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CAPÍTULO 4 TEXTO, CONTEXTO E HIPERTEXTO: CONSIDERAÇÕES

4.1 Sobre texto e contexto

Neste capítulo, assumimos o conceito de texto, sob a perspectiva da Linguística Textual, baseando-nos nos autores Beaugrande (1997) e Koch (2005; 2012). Nesta, por considerar que o texto é lugar de interação entre sujeitos sociais, os quais, dialogicamente, nele se constituem e são construídos; naquele autor, particularmente, por considerar o texto como um evento comunicativo em que convergem ações linguísticas, culturais, sociais e cognitivas. Em ambos, contudo, por enfatizarem que o sentido não está no texto, mas é construído a partir dele pelo leitor.

Pensando o texto em sua vertente sociocognitivo-interacional, Koch (2004) aponta que a atividade textual não se realiza apenas por meio dos elementos linguísticos que estão na superfície textual e pelo seu modo de organização, “mas leva em conta também o conhecimento de mundo do sujeito, suas práticas comunicativas, sua cultura, sua história, para construir os prováveis sentidos no evento comunicativo” (KOCH, 2005, p. 19).

A autora, fundamentada nos estudos de Heinemann & Viehweger (1991), enumera três tipos de conhecimento: linguístico, enciclopédico e interacional. O conhecimento linguístico abrange todo o conhecimento sobre a língua e as suas particularidades. Fundamentados nesse tipo de conhecimento, podemos compreender a organização linguística na superfície textual, o uso dos elementos coesivos e a seleção adequada ao tema ou aos modelos cognitivos ativados.

Já o conhecimento enciclopédico ou conhecimento de mundo é aquele que se encontra armazenado na memória de cada indivíduo, e pode ser adquirido tanto formal quanto informalmente. É com base nesse conhecimento que se torna possível o levantamento de hipóteses, que se criam expectativas sobre o léxico presente no texto, que se produzem as inferências capazes de preencher as lacunas encontradas na superfície textual.

O conhecimento interacional relaciona-se com a dimensão interpessoal da linguagem, ou seja, com a realização de certas ações por meio da linguagem. Esse conhecimento engloba: conhecimento ilocucional, que se refere aos meios diretos e indiretos utilizados para atingir um dado objetivo; o conhecimento comunicacional que está ligado ao anterior e relaciona-se com os meios adequados para atingir os objetivos desejados; o conhecimento metacomunicativo, que se refere aos meios empregados para prevenir e evitar distúrbios na comunicação; o conhecimento acerca de superestruturas ou modelos textuais globais, que permite aos usuários reconhecer um texto como pertencente a determinado gênero, adequado aos diversos eventos da vida social.

Isso significa que, para produzir sentido em um texto, precisamos mobilizar vários conhecimentos, reconhecendo os elementos linguísticos presentes na superfície textual e a sua forma de organização, simultaneamente, já que o sentido não está na materialidade em si, mas é construído na interação sujeitos-texto. Nessa perspectiva, todo texto possui certa incompletude, e esta será preenchida pelos leitores, os quais se tornarão coautores do texto.

Esses conhecimentos são partes constitutivas do contexto entendido como uma bagagem cognitiva de que nos valemos para entender ou produzir um texto. Koch (2005) assegura que, para que duas ou mais pessoas possam compreender-se mutuamente, é preciso que seus modelos de contextos sociocognitivos sejam, pelo menos, parcialmente semelhantes.

Numa interação, cada um já traz consigo sua bagagem cognitiva, ou seja, já é, por si mesma, um contexto. A cada momento da interação, esse contexto é alterado, ampliado, e os parceiros se veem obrigados a ajustar-se aos novos contextos que se vão originando sucessivamente (KOCH, 2005, p. 24).

Para Van Dijk (2012, p. 11): “os contextos não são um tipo de condição objetiva ou causa direta, mas antes construtos (inter) subjetivos concebidos passo a passo e atualizados na interação pelos participantes enquanto membros de grupos e comunidades”.

O autor define o contexto como interpretações subjetivas das situações comunicativas, como modelos de contextos, os quais controlam muitos aspectos da produção e compreensão de textos e falas. “Isso significa que os usuários da língua não estão apenas envolvidos em processar o discurso; ao mesmo tempo, eles também estão engajados em construir dinamicamente sua análise e interpretação subjetiva on-line” (VAN DIJK, 2012, p. 87).

Ainda para o autor,

esses modelos são modelos mentais dos usuários da língua e sua capacidade de serem significativos é definida relativamente aos modelos de falantes ou receptores. Aquilo que faz sentido para o falante, obviamente, pode não fazer sentido (ou pode não fazer sentido de todo) para o receptor: o falante e o receptor podem ter modelos que se superpõem, mas que são diferentes, ou seja, podem interpretar de maneiras diferentes o ‘mesmo’ discurso (VAN DIJK, 2012, p. 91).

Van Dijk (2012, p. 91) comenta, também, que, ao interagirmos, utilizamos os modelos mentais como

‘ponto de partida’ para a produção do discurso: se as pessoas representam as experiências e os eventos ou situações do dia a dia em modelos mentais subjetivos, esses modelos mentais formam ao mesmo tempo a base da construção das representações semânticas dos discursos sobre esses eventos (VAN DIJK, 2012, p. 91, grifo do autor).

O autor propõe mais um passo nessa linha de reflexão, mostrando que nossa vida diária, como uma sequência de experiências vividas, é uma complexa estrutura de modelos mentais, que podemos chamar simplesmente de modelos de experiência (ou modelos experienciais).

Essas considerações acerca do texto e do contexto aponta-nos que eles são interpretados, construídos estrategicamente e continuamente feitos relevantes por e para participantes.

Com base nisso, podemos dizer que as definições de texto e de contexto também são válidas para o hipertexto enquanto uma nova forma de escrita/leitura propiciadora da construção de textos, tantos quantas forem as pretensões de seus produtores.