2 DEFINIÇÃO E VISÃO HISTÓRICA DA DEFICIÊNCIA
2.1 O QUE É DEFICIÊNCIA?
2.1.3 O Modelo Social e o Conceito de Estigma de Erving Goffman
Paul Hunt, um sociólogo inglês e também paraplégico, foi um dos precursores do Modelo Social da Deficiência. Tentando compreender a deficiência como fenômeno sociológico, partiu do conceito de estigma desenvolvido por Erving Goffman, sociólogo canadense radicado nos Estados Unidos.
De acordo com Goffman (1988) o conceito de estigma tem sua origem na Grécia Antiga. Os gregos criaram esse termo para se referir aos sinais corporais que indicavam que havia algo de extraordinário ou mau sobre o status social de determinada pessoa. Os sinais, feitos à faca ou fogo, advertiam, por exemplo, que aquela pessoa era um escravo ou um criminoso e que por esse motivo, devia ser evitado. Na Era Cristã, foram acrescentados os sinais corporais de graça divina e os sinais de distúrbio físico. Na atualidade, o termo é utilizado com uma conotação semelhante ao sentido original, contudo, é mais aplicado em relação à desgraça pessoal do que às evidências corporais. Goffman explica ainda que houve mudanças nos tipos de desgraças que evidenciam o estigma. Para o autor, a sociedade categoriza as pessoas, estabelecendo os atributos comuns e naturais
para os membros de cada categoria. “Os ambientes sociais estabelecem as categorias de pessoas que têm probabilidade de serem neles encontradas.” (GOFFMAN, 1988, p. 5). Dessa forma, quando a sociedade percebe algo estranho e verifica que alguém tem algum atributo que o torna diferente ao comum e preestabelecido, essa pessoa pode ser diminuída ou desacreditada, passando a não ser considerada como uma criatura comum, caracterizando, portanto, sua condição de estigmatizada. Para Goffman a característica percebida constitui mesmo um estigma,
[...] quando o seu efeito de descrédito é muito grande – algumas vezes ele também é considerado um defeito, uma fraqueza, uma desvantagem – e constitui uma discrepância específica entre a identidade social virtual e a identidade social real. (GOFFMAN, 1988, p.6).
Goffman menciona três tipos de estigma:
Em primeiro lugar, há as abominações do corpo – as várias deformidades físicas. Em segundo, as culpas de caráter individual, percebidas como vontade fraca, paixões tirânicas ou não naturais, crenças falsas e rígidas, desonestidade, sendo essas inferidas a partir de relatos conhecidos de, por exemplo, distúrbio mental, prisão, vício, alcoolismo, homossexualismo, desemprego, tentativas de suicídio e comportamento político radical. Finalmente, há os estigmas tribais de raça, nação e religião, que podem ser transmitidos através de linhagem e contaminar por igual todos os membros de uma família. (GOFFMAN, 1988, p. 7).
Segundo o autor, esses tipos de estigma estão carregados das mesmas características sociológicas. O indivíduo que poderia ter sido aceito não o é porque possui um traço que pode afastar a atenção dos outros atributos que ele tem. Ou seja, aquele traço não identificado com o que foi categorizado pela sociedade se constitui em estigma – uma marca, uma característica diferente. Goffman afirma:
Por definição, é claro, acreditamos que alguém com um estigma não seja completamente humano. Com base nisso, fazemos vários tipos de discriminações, através das quais efetivamente, e muitas vezes sem pensar, reduzimos suas chances de vida: Construímos uma teoria do estigma; uma ideologia para explicar a sua inferioridade e dar conta do perigo que ela representa, racionalizando algumas vezes uma animosidade baseada em outras diferenças, tais como as de classe social. Utilizamos termos específicos de estigma como aleijado, bastardo, retardado, em nosso discurso diário como fonte de metáfora e representação, de maneira característica, sem pensar no seu significado original. (GOFFMAN, 1988, p. 8).
Assim, o indivíduo que apresenta algum tipo de deficiência ou incapacidade é percebido pela sociedade a partir dessa característica, que não leva em conta seus
outros atributos. O estigma que lhe é imputado serve de justificativa para explicar a discriminação que lhe será imposta pela sociedade. O pensamento de Goffman aponta também para uma tendência muito comum socialmente, qual seja, a de atribuir características sobrenaturais ou espirituais às pessoas com deficiência como forma de amenizar a atitude excludente da sociedade.
Tendemos a inferir uma série de imperfeições a partir da imperfeição original e, ao mesmo tempo, a imputar ao interessado alguns atributos desejáveis, mas não desejados, freqüentemente de aspecto sobrenatural, tais como "sexto sentido" ou "percepção" [...] (GOFFMAN, 1988, p. 8).
Pessoas com deficiência não são “pessoas iluminadas” ou “espiritualmente evoluídas” pelo simples fato de possuírem um defeito. Não são por isso mais inteligentes nem mais honestas também. Pessoas com deficiência são pessoas comuns como tantas outras, cujos corpos funcionam de forma distinta em decorrência de alguma lesão congênita ou adquirida no decorrer da vida. A deficiência não confere nenhum atributo extra ao indivíduo, embora saibamos que a falta de um sentido ou de uma habilidade possa ajudar a desenvolver outras habilidades compensatórias. Essa tendência está de fato tão arraigada que até as próprias pessoas com deficiência acabam acreditando que possuem atributos sobrenaturais que as diferenciam das outras pessoas ditas “normais”.
Foi com a ajuda desses estudos de Goffman sobre estigma que o Modelo Social da Deficiência se delineou. Ele se colocou em oposição à tendência estigmatizadora da sociedade, procurando de certa forma desmistificar a imagem das pessoas com deficiência, mostrando que elas não passam de pessoas comuns, com direito à vida independente e para tanto, necessitam que as barreiras que impedem esse exercício legítimo sejam derrubadas no seio da sociedade.
2.1.4 Os Movimentos pelos Direitos das Pessoas com Deficiência – DIG, UPIAS