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DA PSICANÁLISE À NEUROPSICANÁLISE DO INCONSCIENTE À CONSCIÊNCIA

2. Desenvolvimentos do inconsciente

2.1. O mundo interior

É com Klein (1935/1992) que o conceito de identificação ganha novos desenvolvimentos e adquire um novo dinamismo, o que se deve à ampliação e à sofisticação dos mecanismos de projeção e de introjeção, cuja interação, desde o início da vida, contribui para a formação da personalidade.

Subjacentes aos mecanismos de introjeção e de projeção estão as fantasias. Fantasias que, para Klein (1935/1992, 1940/1992, 1952/1987, 1955/1987), operam desde o início da vida (tal como os instintos) e que são a expressão psíquica dos instintos (de vida e de morte) - se bem que sejam, primariamente, fantasias que se relacionam com as sensações físicas experimentadas pelo bebé -, fantasias que, aqui, deixam de ser consideradas como uma resposta de substituição ou como uma compensação das deficiências de gratificação pulsional, estando subjacentes a todo o fenómeno psíquico e sendo a base de todos os processos de pensamento consciente e inconsciente. Na sua substância, as fantasias são constituídas por desejos, temores, sentimentos, isto é, por afetos, muito mais do que por imagens (Imbasciati, 1998/2003) e, neste sentido, os conteúdos primários de todos os processos psíquicos são fantasias inconscientes. Como salienta Pick (1994), não há impulso pulsional que não seja vivenciado sob a forma de uma fantasia inconsciente.

A conceptualização de que, desde os primeiros momentos de vida, existe vida de fantasia - e não apenas quando o bebé ou a criança tenham desenvolvido a capacidade de pensamento lógico -, pressupõe a existência de um ego mais organizado desde o nascimento, um ego capaz de experimentar e começar a lidar com a ansiedade do nascimento e, porque é impulsionado pelos instintos, um ego igualmente capaz de usar mecanismos de defesa e de formar relações de objeto na fantasia e na realidade. Com efeito, segundo Klein (1940/1992), o nascimento desencadeia no bebé uma enorme ansiedade, provocada pela separação da mãe e pela entrada em contacto com a realidade, ansiedade que é sentida e vivida pelo ego (imaturo) como um terror de morte ou de aniquilamento; para lhe fazer frente, vai, então, projetar estes sentimentos - vivenciados como algo mau -, no único objeto que conhece, o seio, que passa a ser sentido, agora, como “mau seio”. Mas, quando o bebé está a mamar, o seio é sentido como fonte de nutrição, de proteção e de segurança, na medida em que lhe permite reexperienciar a fantasia inconsciente de unidade com a mãe, passando a ser sentido, então, como “bom seio”.

É este complexo intercâmbio entre as fantasias de bom seio e de mau seio que conduz ao processo decisivo e marcante, do ponto de vista do desenvolvimento, que é a internalização de objetos, inicialmente objetos parciais, cujo protótipo é o seio - decorrente de uma boa relação com a mãe (uma relação de proximidade afetiva), internaliza-se o bom seio ou o objeto amado - e, posteriormente, objetos totais, como a mãe, o pai e o casal parental. Neste processo de internalização, o ego vai desenvolver-se, na medida em que os aspetos da realidade introjetados provocam uma remodelação das fantasias originais, levando, consequentemente, a uma modificação da perceção da realidade, isto é, o ego altera-se e altera a perceção da realidade que, por sua vez, altera o ego. Abre-se, assim, para Klein (1940/1992), um ciclo de desenvolvimento que propicia uma enorme variedade de possibilidades:

O bebé, tendo incorporado os pais, sente como se eles fossem pessoas vivas dentro do seu corpo, da mesma maneira concreta que profundas fantasias inconscientes são vividas - na sua mente, eles são “objetos internos”, como passei a chamá-los. Assim se constrói um mundo interior na mente inconsciente da criança, mundo que corresponde às suas experiências reais e às impressões que recebe das pessoas e do mundo externo, que, no entanto, são alteradas pelas suas próprias fantasias e impulsos. (p. 345, grifo do autor)

Nesta citação, fica claro o inter-relacionamento entre a fantasia inconsciente e a realidade externa, bem como a importância da projeção e da introjeção enquanto mecanismos que regulam a interação do indivíduo com a realidade externa, estando, portanto, aqueles entre os primeiros processos psíquicos que operam desde o início da vida e que levam à formação do mundo interno. Com efeito, o que se internaliza é função de uma interação entre as qualidades reais do objeto e as qualidades a ele atribuídas. Se o mundo interno se origina, assim, parcialmente, a partir da projeção da criança sobre o mundo externo, a natureza e a qualidade deste desempenham um papel importante na configuração daquele. Então, se no mundo externo o objeto privilegiado é a mãe, este não o é enquanto objeto real, materializado na realidade exterior, mas sim como uma elaboração fantasmática da criança, isto é, está estritamente ligado ao conceito de fantasia, sendo, portanto, independente das pessoas reais. Estas elaborações fantasmáticas são, na opinião de Grotstein (1981/1985) ao referir-se aos objetos internos e externos, como “fantasmas autoconstruídos” e, como afirma Ledoux (1984), “em M. Klein, tem-se vontade de dizer que é a realidade pulsional que nos faz . . . há

uma espécie de desvalorização do papel do objeto, da história e uma valorização dos fantasmas arcaicos do recém-nascido” (pp. 229-230). O que é determinante é, então, a realidade pulsional e a fantasia inconsciente, é o intrassubjetivo, isto é, a realidade é vista como o resultado da interação entre aspetos internos e externos, que atuam simultaneamente no psiquismo, determinando a organização que cada um faz de si próprio e da realidade. São os mecanismos projetivos e introjetivos os instrumentos para a construção e organização de si próprio, na medida em que as complexas interações e inter-relações com o mundo dos objetos estabelecem um padrão específico a partir do qual ele se modela de forma particular - construção da singularidade -, porque determinado pela qualidade da relação com os objetos. Modela porque a identificação é a consequência psicológica da introjeção, como Freud (1921/1996, 1933/1996) já referira; modela, porque, ao haver projeção, há necessariamente, identificação.

Foram a compreensão e o alcance dos mecanismos de projeção e de introjeção que conduziram à conceptualização, por Klein (1952/1987), do conceito de “identificação projetiva”, conceito que estabelece a ponte entre a projeção enquanto mecanismo psíquico e a identificação enquanto relação objetal primitiva:

Nessas várias fantasias, o ego toma posse, pela projeção, de um objeto externo - antes de mais nada, a mãe - e transforma-o numa extensão do Eu. O objeto, em certa medida, transforma-se num representante do ego, e esse processo de transformação, em minha opinião, é a base da identificação por projeção ou identificação projetiva. A identificação por introjeção e a identificação por projeção parecem ser processos complementares. Parece que os processos subjacentes à identificação projetiva já estão em ação na relação mais primitiva com o seio. (pp. 68-69, grifo do autor)

A identificação projetiva deriva, assim, da relação objetal primitiva com a mãe (o seio e, depois, o corpo da mãe) e, neste sentido, o conceito de identificação projetiva invalida, desde logo, a conceção de narcisismo primário de Freud (1914b/1996), já que, desde o início da vida, há uma relação de objeto, através da identificação projetiva, uma relação com o objeto para o qual o bebé vai dirigir a sua líbido, a sua agressividade e, ainda, a pulsão epistemofílica, isto é, o bebé vai pôr, dentro do objeto, partes de si próprio para o poder controlar, conhecer e modificar. A identificação projetiva, ao basear-se na fantasia inconsciente de que uma parte da pessoa invadiu o objeto - na sua forma mais primitiva há a

reunião entre as partes boas ou más do sujeito com o objeto bom ou mau -, produz um estado psíquico que conduz a uma total confusão entre o sujeito e o objeto, fazendo com que a pessoa sinta que é o objeto.

Tal como a identificação projetiva, também a clivagem é um mecanismo essencial para o crescimento e para o desenvolvimento psíquico - a identificação projetiva age como um anexo da clivagem -, ajudando a separar e a manter separadas as duas classes de objetos internos, bom e mau, permitindo ao ego ordenar as suas experiências (as experiências do bom e do mau), “o que também significa que a segurança do ego é aumentada” (Klein, 1957/1987, p. 191).

Assim, de um ponto de vista ontogenético, a identificação projetiva e a clivagem são consideradas os mecanismos essenciais nos primeiros tempos de vida, tempos que fazem parte da “posição esquizoparanoide” - as “posições” do desenvolvimento expressam uma particular configuração psíquica, caracterizada por um determinado modo de relação objetal, podendo uma posição ser dominante, ainda que de maneira não exclusiva, num dado momento do desenvolvimento - e, porque estes mecanismos protegem o ego de ansiedades muito intensas, tornam-se fundamentais para a entrada na próxima etapa de desenvolvimento, a “posição depressiva”. A pré-condição necessária para a passagem da posição esquizoparanoide à depressiva - ou melhor, para o predomínio da posição depressiva - é a predominância das experiências boas sobre as más, as quais se, por um lado, conduzem a uma diminuição da clivagem, por outro, levam à intensificação de um outro tipo de identificação, a “identificação introjetiva”. Esta identificação, ao estimular a projeção de sentimentos bons no exterior, e num movimento de re-introjeção, reforça o sentimento de possuir um bom objeto interno: “O objeto bom internalizado é, assim, uma das pré-condições para um ego integrado e estável e para boas relações de objeto” (Klein, 1955/1987, p. 144).

Matos (1979a/2002, 1979b/2002) chama à introjeção do bom objeto interno total - objeto total pós-ambivalente, o objeto predominantemente bom - “introjeção positiva”, porque construtiva, e acentua que, com a sucessão temporal de introjeções positivas - dominância das introjeções positivas sobre as introjeções negativas (introjeção do mau objeto) - se vai construindo a imagem de si próprio, a identidade. A construção do bom objeto interno total revela-se, assim, como um processo crucial da evolução psicológica e, neste processo de construção, Matos (1979a/2002) refere, por um lado, a importância do investimento materno (a coerência e a qualidade deste investimento) e, por outro, a quantidade de projeção agressiva

que a criança faz na mãe, projeção que, por seu turno, depende de frustrações anteriores (precoces). A consequência de todo este processo é, então, uma integração cada vez maior do ego e do objeto - a integração de ambos ocorre simultaneamente, porque sujeito e objeto estão num movimento dialético -, o que leva ao desenvolvimento de uma vida psíquica ligada e integrada, ao desenvolvimento de uma vida psíquica consistente e coesa.

É na dificuldade ou mesmo na impossibilidade de introjetar o objeto total na posição depressiva, é na dificuldade ou na impossibilidade de poder manter a identificação com objetos de amor (reais ou interiorizados) que estão, para Klein (1946/1987), a fixação e/ou a regressão psicótica. Esta dificuldade ou impossibilidade decorre, fundamentalmente, de uma grande intensidade das angústias persecutórias que, em conjunto com processos de clivagem muito intensos, perturba a interação construtiva feita de movimentos de projeção/introjeção, conduzindo a um mundo povoado de objetos persecutórios (destrutivos e destruidores), pelo que é necessário defender-se - aumenta a intensidade das defesas características da posição esquizoparanoide -, o que não permite a suficiente elaboração da posição depressiva e conduz a uma mutilação grave do ego, que não se integra e não reconhece as diferenças entre sujeito e objeto, entre real e imaginário, ego que, por isso, não cresce, não se desenvolve. Com efeito, são precisamente o acesso e a estabilização da posição depressiva que conduzem a uma mudança de todo o “clima do pensamento” (Bégoin & Bégoin-Guignard, 1985/1999), levando à formação do símbolo, o que é permitido pelo estabelecimento da diferenciação entre a realidade interior e a realidade exterior. É um processo que deriva da descoberta da sua própria realidade psíquica e da sua dependência em relação aos objetos, da diminuição de projeções e da sua omnipotência, da predominância gradual de mecanismos de defesa mais evoluídos, como o recalcamento, em detrimento da clivagem.

Segal (1957/1991, 1993, 1997) vai desenvolver e ampliar este processo de formação dos símbolos, referindo que a simbolização é uma relação entre três termos: ego, símbolo e coisa simbolizada. Estabelece, ainda, com base nesta relação, uma distinção entre a formação dos símbolos na posição esquizoparanoide, a que chamou “equação simbólica” - onde o símbolo é usado para negar a ausência do objeto, é confundido com o objeto a ponto de ser o objeto - e a formação de símbolos na posição depressiva, a que chamou “símbolos propriamente ditos” - onde o símbolo é sentido como representando o objeto.

Os símbolos (símbolos propriamente ditos), ao serem usados para superar a perda do objeto (representam o objeto ausente), levam a que o sentimento de separação entre sujeito e

objeto fique mais firme, mais consistente, conduzindo, assim, a uma maior consciência da própria realidade psíquica e da diferença entre interno e externo. E, porque o processo de formação dos símbolos é um processo contínuo de união, de ligação e de integração do sujeito com o objeto (das experiências vividas e sentidas com os objetos), as dificuldades na relação do ego com os objetos refletem-se nas perturbações da formação dos símbolos. Estas perturbações revelam-se na impossibilidade de diferenciação entre símbolo e objeto simbolizado e, portanto, conduzem ao pensamento concreto, ao pensamento “a-simbólico” (Rezende, 1994). Para além da relação estreita entre símbolo e posição depressiva, Rezende (1993) inclui, neste processo de formação de símbolos, a posição esquizoparanoide, num primeiro momento - “o momento em que o objeto primitivamente uno era partido” (p. 68) - e, num segundo momento, a posição depressiva.