CAPÍTULO II Separação de resíduos e reciclagem – da Escola à Sociedade
2.2. Educação Ambiental na escola
2.2.4. O papel do professor como educador ambiental
Já percebemos que a escola é um agente fundamental no desenvolvimento, educação e sensibilização da criança, representando um lugar privilegiado para a abordagem da Educação Ambiental (Britto, 2000). Também compreendemos a importância do desenvolvimento de parcerias entre a escola e entidades públicas ou privadas externas ao meio escolar, para promover e consolidar conhecimentos e práticas. Fazemos agora referência a um dos mais importantes pilares na estrutura da formação ambiental nas escolas, o professor. O facto de existirem entidades que promovam programas de EA, não significa que sejam aproveitadas por todos os centros escolares. A decisão de usufruir ou não dos supracitados projectos e programas de foro ambiental, quando disponibilizados por entidades públicas ou privadas, é da total responsabilidade da escola, ou seja, dos professores e direcção que gerem as parcerias que querem desenvolver, mediante os seus interesses. Pressupõe-se, assim, que é importante que haja um esforço colectivo e comum entre professores e alunos, não se abordando apenas a EA numa perspectiva de apenas mais um conceito, mas de algo vivo e dinâmico, em que todos devem colaborar activamente.
É também crucial que os professores desenvolvam formação específica e contínua neste campo, para poderem ensinar, com segurança e conhecimento, conteúdos actualizados (Atreya, Gill, Jangira & Guru, 1995). Depois, o professor deve investir na utilização de meios e recursos diversificados e adequados ao ensino de cada conteúdo, devendo transmitir conhecimentos de ecologia para ajudar a prever e a resolver possíveis problemas ambientais (Ministerio de Educación y Cultura, 1998). É
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fundamental que o docente diversifique os seus critérios metodológicos na abordagem da EA no 1º ciclo de ensino, podendo partir dos conhecimentos prévios, relacionar temas com problemas existentes no seu meio envolvente, articular os conteúdos de EA com os das demais áreas curriculares, incentivar a participação, a reflexão, a colaboração, a assunção de responsabilidades e novas atitudes, a correcção de comportamentos, os trabalhos práticos e de campo, motivando os alunos para as novas aprendizagens e ajudando-os a elaborar conclusões, comunicá-las e propor soluções para os problemas encontrados (Sosa et al., 1998). Para tal, o professor deve escolher cuidadosamente os materiais e recursos a utilizar, os locais de estudo e reflectir também ele acerca da melhor forma de fazer concretizar nos alunos os objectivos não somente escolares mas também da própria Educação Ambiental.
Desta forma, o professor entende-se como aquele que assume um papel decisivo e crucial na orientação dos educandos rumo a uma EA sustentável, uma vez que ele é o formador, o animador, o guia, o explicador, o educador e, acima de tudo, deve ser um exemplo para os seus alunos. Tendo em consideração que nestas idades e etapas escolares o professor é o verdadeiro modelo de correcção e o ideal a imitar, se este não demonstrar praticar e acreditar tudo aquilo que ensina e promove, os seus ensinamentos não surtirão o mesmo efeito. Assim, é indispensável que o professor seja também uma pessoa extremamente motivada e interessada por este tema, já que “todo o habitante deste planeta devia perguntar-se de forma natural o que deve fazer e porquê.” (Tudge in Simms & Smith, 2009, p. 137). Por outro lado, é certo que o professor vai estar sempre dependente dos programas e projectos da escola onde está inserido. Mas que modelo de escola poderá oferecer ao professor instrumentos que lhe permitam trabalhar todas as componentes, proporcionando aos alunos igualdade de oportunidades e expectativas? (Marques, 2001). Segundo o autor, só uma escola multidimensional pode aspirar estar ao serviço de um projecto que se preocupa em promover o crescimento integral do indivíduo, em todas as suas vertentes. Assim, Marques (2001) defende que a escola terá que estar voltada para o futuro, trabalhando não somente os programas definidos da componente lectiva mas associando-os também a uma componente extra-lectiva, de dimensão ecológica, para que a escola seja encarada como um espaço ou instrumento utilizados para proporcionar uma educação ambiental, onde o professor desempenha o papel de agente cultural e de exemplo. Assim sendo, como refere Fernandes (1983), a EA não será uma tarefa a realizar com muita facilidade, requerendo, pois, muita imaginação, poder de adaptação e de convicção e uma luta constante para fazer integrar
45 na escola a qualidade do ambiente que se deseja, com o apoio total dos alunos que a frequentam.
Desta forma, colocando ao serviço dos alunos os materiais e recursos necessários para o desenvolvimento de experiências e competências de resolução de problemas, o professor conduz os alunos à aprendizagem de novos conhecimentos e sensibiliza-os para a adopção de novos valores e atitudes (Marques, 1998).
Assim sendo, cabe ao professor, como organizador do ambiente, dinamizador do espaço e dos conteúdos, proporcionar a autonomia aos alunos, aproveitando os espaços de trabalho como estruturas de oportunidades de aprendizagem e aquisição de novas aptidões (Zabalza, 1992). Também, como indivíduo formado e esclarecido, o professor tem a obrigação de promover nos seus alunos uma mudança sustentável e efectiva, instigando-os a uma participação activa e protectora do ambiente não só no meio escolar mas também no seu seio familiar e social, influenciando igualmente todas as pessoas com quem estabelece as mais diversas relações (Uzzel et al., 1998). Hoje, mais do que ensinar, o professor como agente cultural que é, tem a função de educar, formar e incutir valores, transformando crianças em cidadãos, pois, segundo Marques (2001), “uma verdadeira educação em valores tem de possuir um enquadramento antropológico e filosófico sólido e seguro, deve ser abrangente, ou seja, não incluir só o domínio cognitivo, mas também os domínios afectivo e volitivo” (p. 138).
É, então, preciso abordar temáticas variadas em que cada aluno possa rever-se nas suas experiências e sentir-se parte mais integrante destes novos comportamentos, criando cada vez mais interesse pela mudança das suas práticas e da dos que convivem consigo. Assim, a EA deve ser incorporada desde o ensino mais básico e nas idades mais tenras, trabalhando-se por intermédio de projectos na sala de aula e na escola, difundindo os conhecimentos e práticas por toda a comunidade escolar, de forma a criar uma rede de sensibilização que se vá multiplicando por meios sociais, familiares e culturais diferentes. Desta forma, a escola representa uma ferramenta ao serviço da Educação Ambiental, na medida em que é um lugar por excelência de ensino, de transmissão de conhecimentos e de valores, podendo alterar e incutir novos comportamentos ambientais nos educandos, a favor de um ambiente mais propício e saudável, como já referimos. “A escola não é um simples «reflexo» da sociedade; é um espaço institucional com o seu enquadramento legislativo e normativo, cujos resultados são activamente mediatizados pelas práticas e pelas relações que nela se vivem.” (Benavente; Carvalho; Galvão; Leão; Tavares e César, 1993).
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É fundamental que haja uma articulação entre os interesses nacionais, as ambições educativas/curriculares, a participação das famílias, da comunidade educativa e das entidades locais e a escola, os alunos e as motivações dos professores. Como Espanha se dedica às causas ambientais, as integra no processo e currículo educativos e se preocupa em formar cidadãos responsáveis e defensores do ambiente comum, compete ao professor investir na sua formação contínua sobre esta problemática, sobre as metodologias e práticas de ensino usadas na abordagem da Educação Ambiental, para concorrer para a preparação e formação de cidadãos conscientes dos problemas e empenhados na sua resolução. Para além disto, a EA pode ainda ser trabalhada transversalmente, abordando-se em várias disciplinas do currículo formal, mas o mais importante é estimular os alunos à participação, promovendo, desta forma, ainda que indirectamente, o fomento da propagação das mensagens ambientais correctas no seu seio familiar e social.
Ainda, se pretendemos alcançar um desenvolvimento sustentável que invista na cooperação entre instituições educativas e a comunidade em geral, temos de nos rejeitar a ideia de que só os peritos e especialistas ambientais é que são os únicos solucionadores dos problemas ecológicos da nossa sociedade (Uzzel et al., 1998). Significa isto que cabe também à escola, como entidade social, a abordagem dos temas ambientais e a promoção de novos valores e atitudes. Para além disto, é igualmente importante que o trabalho promovido pelas escolas seja acompanhado pela sociedade em geral, pois se houver alguma insuficiência num sector, será compensada pelo sucesso do outro, não se delegando esta responsabilidade educativa apenas nos peritos ambientais.