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O paraíso iurdiano e o regate da palavra criadora da divindade

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3. O CONSUMO DO SAGRADO E O SAGRADO PARA CONSUMO: UMA

3.3 O sagrado para consumo

3.3.2 O paraíso iurdiano e o regate da palavra criadora da divindade

A teologia iurdiana apresenta propostas simples para solucionar problemas teológicos que envolvem a igreja protestante há séculos, como a questão da bondade divina e o sofrimento humano.

Um dos grandes problemas teológicos do discurso protestante histórico era aliar a soberania de Deus à sua bondade diante do sofrimento humano. Na melhor das hipóteses, em sua onisciência Deus sabe o que causará o sofrimento humano, em sua soberania poderia evitá-lo protegendo o fiel, no entanto, se não o faz, como poderia ser bondoso?

A Igreja Universal encontra uma solução bastante simples para esse problema. Na teologia da IURD, o mal, de qualquer espécie, é atribuído ao diabo e seus demônios, enquanto o bem e qualquer coisa que dê prazer ao fiel (isso inclui o poder de consumo, é claro), é obra exclusiva de Deus reservada a seus filhos. Nessa lógica, o mal é sinônimo da ausência de prazer e felicidade pessoal. O discurso teológico protestante, que procura prover consolo aos que sofrem sob o argumento de que todas as coisas contribuem para o bem dos que amam a

Deus (Romanos 8.28), é colocado à margem na teologia iurdiana:

Na vida cotidiana, qualquer pai jamais terá prazer ou se conformará em ver seu filho doente, infeliz ou necessitando de alguma coisa [...].

Uma pessoa que se encontra tomada por doenças, jamais poderá ser feliz [...]. A tradição religiosa ensina que devemos pedir todas as coisas ‘se for da vontade de Deus’. Consequentemente, poucas pessoas têm experimentado milagres de cura. [...] muitos cristãos, e até pastores, ensinam que ‘talvez não seja da vontade de Deus curar’. Isso é diabólico, falso, abominável [...]. Para se ter uma vida plena e abundante, livres das enfermidades, é preciso que o cristão tenha consciência que o tempo dos milagres não passou. Sempre será da vontade de Deus curar, como parte da vida abundante prometida por Jesus.

Creia nisso! Acredite na Palavra de Deus e confesse também sua vitória sobre as doenças. Elas não são de Deus, não vêm dEle, nem tampouco são

usadas por Ele para ser glorificado![...].

Deus, nosso pai, é glorificado na nossa vitória [...]. Um pai que se glorifica no sofrimento do filho, jamais poderá ser um pai amoroso (MACEDO, 2013 – Grifo nosso)14.

Na teologia Iurdiana qualquer adversidade que coloque em risco a usufruição do paraíso terrestre é de origem diabólica e qualquer situação que contribua para o bem-estar pessoal do fiel é de origem divina. Ao fiel é dado um lugar de autoridade que lhe atribui a competência de dar ordens tanto aos espíritos demoníacos repreendendo qualquer tipo de

14 MACEDO, Edir. Vida abundante. Disponível em: <http://www.universal.org/noticias/2013/04/22/vida-abundante-

sofrimento, quanto à própria divindade exigindo sua ação e intervenção. Nesse ponto ocorre um fenômeno bastante instigante para ser observado pelas lentes da Análise do Discurso.

Segundo Freston (1993, p.105), a mola propulsora da Teologia da Prosperidade é a Confissão Positiva, um sistema de crença no qual a afirmação convicta do que se deseja é uma forma de antecipação do estado desejado. A isso a IURD denomina fé racional ou consciente, pois o fiel não é um pedinte, mas, sim, alguém investido de direitos dos quais reivindica posse. Nessa perspectiva, confessar a posse das bênçãos “requer do cristão crer e declarar verbalmente que elas lhe foram concedidas por Deus e orar em agradecimento pela sua fruição como se já as tivesse efetivamente recebido a despeito de sua inexistência concreta, de sua realidade” (MARIANO, 2003, p.243).

As palavras de R. R. Soares (1997, p.46,65,75), também adepto dessa doutrina, definem resumidamente toda a essência da Confissão Positiva: “é a sua palavra que lhe trará a bênção [...]. Não é o Senhor que vai Se dirigir ao seu problema e exigir que ele saia de você. É você quem tem que fazer isto. [...]. Você é o juiz. É você quem decide o que terá ou não” (Grifos do autor). Nesse sistema de crença o ato declaratório do fiel é uma condição para criar o mundo que ele deseja.

Vamos recuperar o conceito de Atos de Fala desenvolvido por Austin e Searle para entendermos como esse sistema de crença opera no plano discursivo.

3.3.2.1 A teoria dos atos de fala

Com sua origem epistêmica na filosofia da linguagem, a teoria dos atos de fala foi desenvolvida primeiramente por Austin (1990) e aperfeiçoada posteriormente por Searle nos livros Speech Acts (1969) e Expression and meaning (1979). A premissa básica que norteou o trabalho desses pesquisadores foi a concepção da linguagem como forma de ação – todo dizer

é um fazer.

A primeira proposta classificatória de Austin (1990) dividia os enunciados em duas grandes categorias: os constativos e os performativos. Os constativos descrevem um estado das coisas e, portanto, podem ser verificados, como por exemplo: o livro está sobre a mesa. Já os performativos são enunciados que quando proferidos realizam uma ação e mudam o estado das coisas como, por exemplo, na afirmação de um sacerdote: eu te batizo; ou na declaração de um juiz: eu te declaro culpado.

A força performativa de um enunciado depende de dois fatores: que as circunstâncias sejam adequadas e/ou o enunciador tenha a competência e a autoridade necessária, caso

contrário ele se torna nulo. Por exemplo, se um faxineiro entrar na câmara dos deputados e dizer “eu declaro aberta essa sessão”, esse enunciado será nulo. Por outro lado, se o presidente da câmara fizer a mesma declaração, sozinho, na sala de sua residência o enunciado também será nulo porque as circunstâncias não são adequadas à enunciação (SILVA, 2005).

Mais tarde, Austin percebeu que mesmo nos enunciados constativos era possível verificar uma natureza performativa, já que no momento da enunciação também realizavam uma ação. Sendo assim, compreendendo que todos os enunciados são performativos, Austin propôs outra classificação para os enunciados subdividindo-os em três atos de fala: locucionário, ilocucionário e perlocucionário. Nesse caso, vale lembrar que todo ato de fala é ao mesmo tempo locucionário, ilocucionário e perlocucionário, pois, “sempre que se interage através da língua, profere-se um enunciado linguístico dotado de certa força que irá produzir no interlocutor determinado(s) efeito(s), ainda que não aqueles que o locutor tinha em mira” (KOCH, 1995, p.20)15.

Partindo dessas constatações, Searle (1969; 1979) propôs cinco grandes categorias de atos de linguagem: 1) os representativos – que mostram a crença do locutor quanto a verdade de uma proposição (afirmar, dizer, etc); 2) os diretivos – tentam levar o alocutário a fazer algo (ordenar, mandar, etc); 3) os comissivos – comprometem o locutor com uma ação futura: prometer, garantir); 4) os expressivos – expressam sentimentos (desculpar, agradecer...); 5) os declarativos (produzem uma situação externa nova (batizar, demitir, condenar).

Para uma melhor compreensão e aplicação da natureza performativa da linguagem basta olhar para a narrativa bíblica da criação do mundo:

No Gênesis, vê-se que a linguagem é um atributo da divindade, pois o criador dela se vale quando realiza sua obra. Deus cria o mundo falando [...]. A passagem do caos à ordem (=cosmo) faz-se por meio de um ato de linguagem. É esta que dá sentido ao mundo. O poder criador da divindade é exercido pela linguagem, que tem, no mito, um poder ilocucional, já que nela e por ela se ordena o mundo: Deus disse: ‘Faça-se a luz’. E a luz foi feita. ([Gênesis]1.3) [...]. Ao mesmo tempo que faz as coisas, Deus denomina-as. No universo mítico, dar nome é criar. Até o quinto dia, o senhor vai criando linguisticamente o mundo. A expulsão do paraíso foi a colocação do homem na História. No âmbito da linguagem, o que pertence à ordem da História é o discurso. Colocar o homem na História é enunciá-lo (SILVA, 2005).

15 Vale lembrar que nenhum desses autores (Austin, Searle ou Koch) são estudiosos da Análise do Discurso. No

entanto, apesar de seus estudos se concentrarem mais no nível da frase ou da linguística textual, seus pressupostos trazem contribuições para estudarmos o discurso.

No caso da doutrina Iurdiana, o fiel é colocado na história como protagonista. A ele é atribuída à competência criadora da palavra na reconstrução de seu próprio paraíso idílico. Se Deus fez o Éden pelo poder criador de sua linguagem, o fiel da Universal pode recriá-lo também por meio da linguagem. Se algo nesse paraíso terreno ameaça a ordem e estabelece o caos, o retorno ao cosmos se dá por essa palavra criadora.

O ato de declarar cura, vitória sobre um conflito (seja de natureza relacional ou individual), prosperidade, ou libertação de vícios, realiza um intrigante processo performativo no próprio fiel. Ele transforma-se numa espécie de enunciador/enunciatário. Quer ordene a uma enfermidade para deixar o seu corpo, ou exija que Deus lhe faça próspero, o fiel está ao mesmo tempo nomeando seu sofrimento e o classificando. Realiza-se desse modo os atos locucionário e ilocucionário.

No entanto, a natureza perlocucionária do ato de fala do fiel só tem validade prática porque seus efeitos se voltam para ele mesmo, já que o enunciatário ao qual se destina (o demônio, a enfermidade, Deus) ganha existência para ele também pelo poder nomeador de seu ato de fala. O efeito perlocucionário do ato de fala do fiel que determina à sua enfermidade que saia de seu corpo produz nele próprio efeitos como otimismo, segurança, esperança e confiança. A fé Iurdiana se alimenta desse constante movimento de declarar e ao mesmo tempo ser afetado pela própria declaração. É uma fé que se alimenta do ouvir a si próprio e crer na própria autoridade perlocucionária.

Esse breve esboço do cerne da teologia iurdiana será útil para compreendermos como ocorre o processo de transformação do sagrado em um produto/serviço para consumo. Esse é o foco investigativo do nosso próximo tópico.

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