2. Motivar a Leitura
2.3 O professor como mediador da aprendizagem
As sociedades humanas têm um modo de funcionar complexo. Daí a sua permanente instabilidade. Daqui decorre que a escola e o ensino, reflexos da sociedade que os instituiu, sejam igualmente instáveis e mutáveis. O entendimento que as sociedades fazem do que é (deve ser) o ensino tem variado ao longo da história. Este entendimento tem diferido de sociedade para sociedade, resultado de influências externas e internas, de regimes políticos, opções ideológicas, avanços científicos e tecnológicos, ambiente cultural.
Para falar do ensino de hoje, é necessário considerar que a sua realidade difere consideravelmente, daquilo que ele já foi há algumas décadas atrás. O papel do professor alterou-se muito, sendo-lhe exigido muito mais do que acontecia em tempos ainda não muito recuados.
O ensino assume, uma preocupação primordial na sociedade, dado que a sala de aula é um contexto ideal para a organização do desenvolvimento das atitudes e comportamentos dos alunos. Como não acontecia, pelo menos consistentemente, em tempos passados, procura-se, agora, além da transmissão de conhecimentos e saberes, o desenvolvimento psicológico dos alunos, a sua formação e sucesso, ao longo das fases que atravessam, gerando-se grande sensibilidade para a importância da formação de professores.
A profissão de professor é, assim, cada vez mais, especializada. Compete aos educadores a análise e a sinalização de todo o tipo de situações e problemas que afectam os alunos, já que estes passam grande parte das suas vidas nas escolas e não têm a participação dos pais, como deveriam.
A formação de professores deve, pois, incidir sobre todos os níveis, de forma a capacitar os professores, para além das suas áreas específicas de ensino, para a aquisição de competências, como a relação interpessoal de ajuda, competências de avaliação, prevenção e resolução de problemas, deve preocupar-se com a inovação, com a mudança, com a planificação ajudando a “conseguir, com maior eficácia, os objectivos existentes e atingir novos objectivos” (Guilardi e Spallarossa 1883: 151).
Esta necessidade formativa do corpo docente deve ocorrer, não só em termos académicos, aquando da preparação para o início da vida profissional, mas também ao longo de toda a carreira, com vista à actualização constante e ao progressivo desenvolvimento de conhecimentos e competências.
Uma enorme percentagem do nosso tempo é destinada à comunicação com os outros. É comunicando que trocamos ideias e experiências, que transmitimos sentimentos e emoções, que ensinamos e aprendemos. A este respeito convém alertar para a importância das formas de comunicação humana. São uma vasta gama de comportamentos, muitas vezes descurados, que acompanham as expressões verbais e, através dos quais, as pessoas transmitem e recebem informação. São competências verbais e não-verbais, fundamentais na relação interpessoal, que transmitem significados extremamente profundos e verdadeiros. Por vezes, o essencial reside em saber escutar... o ouvir e o responder, o compreender e o agir são fundamentais na interacção entre professores e alunos.
Ensinar consiste, acima de tudo, no estabelecimento de um processo de relações interpessoais. Trata-se de um processo extremamente complexo em que os padrões de relação interpessoal, na sala de aula, entre professor/aluno e alunos/alunos, têm, para além da presença de implicações ao nível do clima de aprendizagem, implicações ao nível do desenvolvimento psicológico. É, assim, mais que evidente a necessidade e a importância da promoção da maturidade psicológica dos professores.
O aumento da eficácia, como facilitadores da aprendizagem, revelado pelos professores, vai inevitavelmente afectar positivamente o crescimento, a todos os níveis, dos alunos.
No passado, o papel do professor era muito claro: ele possuía a informação que transmitia ao aluno, através dos meios que tinha à sua disposição. Os alunos que conseguiam
reproduzir e repetir essa informação eram considerados bem sucedidos, os que não eram capazes disso eram tidos como falhados. Assim, se outrora o perfil de um bom professor se pautava por aspectos que, relativamente, podemos considerar objectivos “entregues às tarefas do ensino da leitura, escrita, aritmética e doutrina cristã, viram as suas funções alargadas” (Diniz 1994: 44), actualmente, com as preocupações que, entretanto, ganharam relevância, tal já não acontece, tornando a actividade profissional do professor muito mais complexa e globalizadora, tornando-se “agora, animadores culturais, alfabetizadores de cursos de adultos, agentes de desenvolvimento comunitário” (Idem, 44).
Ao professor, agente de ensino por excelência, personalidade activamente educativa, com a qual os alunos passam grande parte das suas vidas, requer-se, cada vez mais, competências, preparação, formação cuidadas a todos os níveis.
Ser professor não é tarefa fácil. Envolve aquisições interiores muito importantes, que são fruto do meio onde se nasceu, do meio onde se vive, da educação familiar que se recebeu, da experiência de vida que se tem, do gosto pela ciência, do prazer pelo ensino. A personalidade do docente é o somatório de tudo o que ele é, de tudo o que ele adquiriu, de tudo o que ele viveu. São capacidades e circunstâncias que estão muito para além da sua formação pedagógica e que determinam a atitude e o estilo de vida por que ele vai enveredar.
A docência, essa realidade única, que dá vida e dinâmica a uma sala de aula, mediante a personalidade irrepetível de cada um, manifesta-se como uma arte sem modelos preconcebidos, sem receitas, sem rigidez normativa e com muitos segredos.
Acreditamos que um professor, por mais que dê, aprende sempre em dobro. Nenhum outro profissional tem tanto, tão peculiar se dá e se recebe, se ama e se é amado, se vê por detrás de cada ideia, de cada sentimento, de cada projecto, um rosto humano. A aprendizagem é recíproca e diária.
Ora é este professor "ideal" que deve ser posto ao serviço da biblioteca escolar.
Todas estas características que assinalámos relativamente a ele são essenciais para que a dinamização da biblioteca escolar/centro de recursos se processe do melhor modo e toda a escola beneficie da sua existência.
Sem o contributo e a envolvência de professores competentes, bem formados, continuamente empenhados e actualizados, na biblioteca escolar/centro de recursos, ficará a escola sem uma valência essencial da sua existência e ficará a sala de aula sem um contributo essencial de recurso, apoio e valorização.
O professor deve ser também um contador de histórias, um narrador sensível, que estimule o sentido estético e crítico em cada ser humano que tem diante de si, pois as palavras têm a força que cada um lhes quer, e é fundamental, dar e dar voz a quem já não a tem.
Compete ao professores motivar, entusiasmar, demonstrar as virtudes, a força e a vitalidade do saber ler. Contudo, a escola exige esforços e estes transformam-se em prazer em espácio-temporais propícios à finalidade que nos propomos: Promover a Leitura.