CAPÍTULO 2: A GALÁXIA REPUBLICANA
2.6. O Partido Republicano Português
2.6.2. O programa do Partido Republicano Português
O programa do PRP, tal como aparece na sua forma “clássica”212, data de 1891, no
mesmo ano da revolta do Porto, e não teve alterações até à implantação da República. Repare-se que este documento surgiu 15 anos depois da fundação do partido. Este programa foi elaborado por Azevedo e Silva, Bernardino Pinheiro, Francisco Homem Cristo, Jacinto Nunes, Manuel de Arriaga e Teófilo Braga213. O restrito corpus doutrinal do PRP teve, no entanto, alguns acrescentos, ou seja, foram adicionados textos políticos, já no século XX, que não alteraram substancialmente o essencial das suas premissas. O programa é um texto sintético e tem essencialmente preocupações políticas, tratando da organização dos poderes do Estado e das garantias individuais (liberdades essenciais, políticas e civis)214. Na relação entre o Estado e o indivíduo, os signatários deste documento propuseram a Igualdade perante a lei, na formação da lei e na sua execução. De entre um conjunto de propostas vale a pena fazer referência à defesa da liberdade de consciência e igualdade civil e política para os cultos, do registo civil, do ensino obrigatório, da secularização de cemitérios, da educação das mulheres, do sufrágio universal, da autonomia municipal, da descentralização e administração civil das províncias ultramarinas, da liberdade de associação, reunião e representação, da liberdade do trabalho e da indústria e da abolição de monopólios. Os republicanos pretendiam ver extintos os poderes hereditários e os privilégios. Afigurava-se-lhes importante o fim das últimas formas senhoriais de propriedade, o arroteamento de incultos, a reforma do regime hipotecário, a revisão de pautas, a diminuição do imposto
212 Trindade Coelho (COELHO, Trindade, Manual Político do Cidadão Português, Lisboa, Parceria A. M. Pereira, 1906) faz referência ao primeiro programa do Partido Republicano Português, obra de Latino Coelho e Elias Garcia.
213 COELHO, Trindade, Manual Político do Cidadão Português, Lisboa, Parceria António Maria Pereira, 1906, pág. 639.
214 Programa do Partido Republicano, Lisboa, A Liberal – Oficina Tipográfica, 1908.
de consumo nos géneros de primeira necessidade e o resgate da dívida pública externa, bem como a regularização da interna.
A moção que foi votada pelo povo de Lisboa em comício de 10 de Dezembro de 1905215, ajuda-nos a perceber como foi feita a clarificação dos pontos programáticos, bem como a sua reactualização ao longo dos anos. A moção organizava-se em torno de três questões. Em primeiro lugar, era exigida a remodelação do sistema tributário, com a supressão dos impostos de consumo, real de água e todos os que agravassem o problema das subsistências. Dentro deste ponto os republicanos defendiam, ainda, a redução dos direitos de importação de géneros alimentares de primeira necessidade. Acrescentaram a esta reivindicação um tom antiplutocrático com a defesa de uma distribuição racional e uma arrecadação honesta. Em segundo lugar, defenderam a necessidade de uma reforma eleitoral, tendo por base o sufrágio universal e garantindo a autonomia política das cidades e a proporcionalidade de representação de todos os partidos e opiniões. Esta mesma ideia vai constar da petição apresentada em Janeiro de 1906 e para a qual os
republicanos organizaram uma campanha de assinaturas216. Em terceiro lugar, os
republicanos reivindicaram a revogação de todas as leis de excepção.
Em 1908, levantaram-se vozes que defendiam a revisão do programa do partido. Bernardino Machado considerou que, para além da questão política, se deveria pensar a económica e a religiosa. Na sua leitura, os republicanos eram anti-plutocratas, não fazendo, contudo, guerra ao capital, e anticlericais, sem fazerem guerra à Igreja Católica217. Bernardino defendia uma posição que se queria de convergência, agradando a vários sectores, o que configura uma tarefa quase impossível.
O congresso de Setúbal de Abril de 1909, pela voz de Teófilo Braga, discutiu a possibilidade de rectificação do programa partidário. Deveria passar a utilizar-se os textos de Afonso Costa e Bernardino Machado sobre o engrandecimento do poder real, pedra de toque da propaganda republicana contra a monarquia de Bragança. Por outro lado, Teófilo Braga defendia a necessidade de se incluir a questão das universidades populares e a educação, o registo civil e a municipalização dos serviços públicos.
A Assembleia Republicana de 30 de Janeiro de 1910, que contou com os mais importantes dirigentes e políticos republicanos, teve como programa de trabalhos a definição da táctica política, num ambiente em que se alardeava – um pouco demais,
215 A Lucta, n.º 193, 14 de Julho de 1906. 216 A Lucta, n.º 3, 3 de Janeiro de 1906. 217 O Mundo, n.º 2677, 21 de Abril de 1908.
percebendo-se que era um problema – a ausência de dissensões internas218. Esta ordem de trabalhos, por muito importante que fosse, mascarava a discussão acerca da revolução que se iria ou não pôr em marcha. De qualquer das maneiras, nesta análise da situação política a assembleia apresentou as suas críticas ao regime monárquico e elencou sistematicamente um conjunto de questões que queria ver resolvidas e de prioridades políticas. Era o programa de acção do PRP. A ideia central da argumentação é-nos familiar: existe um conflito entre a nação e o regime, estando a monarquia em luta contra o povo. A legislação reaccionária e o engrandecimento do poder real configuram uma ditadura que se iniciou em 1890. Dez eram as questões que tinham de ter urgente resolução. Era necessário fazer a reforma eleitoral e revogar as leis de excepção. A questão constitucional, que se prendia com as liberdades e garantias, era prioritária para o Directório, bem como a reorganização administrativa. A luta anticlerical, marca genética do republicanismo, era uma das preocupações. A seguir, apresentava-se a questão dos impostos, sendo criticado o excessivo peso das subsistências, a questão financeira, com o incontornável equilíbrio orçamental e a crítica ao exagero da dívida pública, a questão económica, associada à defesa do trabalho nacional e, para finalizar, a reorganização do ensino e a defesa nacional, sendo necessário um plano que articulasse Portugal e colónias. Para o Directório, o país assistia à depauperação das suas maiores energias, sendo necessário fazer um inquérito às suas forças industriais e agrícolas que servisse de base a uma política económica. Desta discussão não esteve ausente o tema do sindicalismo, sendo que os republicanos defendiam que os obstáculos ao mesmo deviam desaparecer. Estes políticos pronunciaram-se igualmente sobre a legislação operária, considerada como não obedecendo à ideia de interesse da classe trabalhadora.
Concomitantemente à questão do programa partidário, surgiu a questão do programa de governo. Eram dois conceitos diferentes, mas que foram usados simultaneamente na discussão política coeva.
Os monárquicos acusavam os republicanos de não terem um programa de governo, ou seja, de serem apenas uma voz crítica sem capacidade para actuar e governar. A voz do deputado Estêvão de Vasconcelos resumiu este problema:
218 Para a descrição desta assembleia segui a descrição no jornal O Mundo, n.º 3323, 31 de Janeiro de 1910.
“O meu partido, que de tudo tem sido acusado pelos monárquicos, até das coisas mais absurdas e inverosímeis, também o tem sido de não possuir, segundo dizem, um programa de governo e de não ter ainda manifestado ideias definidas e soluções concretas acerca dos assuntos que mais preocupam e interessam o país. Sr. Presidente: Esta acusação é capciosa, é desleal, é falsíssima!
O partido republicano tem um programa que foi elaborado pelo seu Directório de 1891, ao qual pertencia a poderosa mentalidade de Teófilo Braga (Apoiados), e esse programa é uma exposição concisa, é uma súmula perfeita de exposições, princípios e doutrinas, devidamente concretizadas e detalhadas, que se amoldam às condições do nosso país.”219
Para além de analisarmos a organização do PRP é importante percebermos como é que os republicanos falavam do partido, de modo a surpreendermos, por um lado a sua forma de o olhar e, por outro, o que queriam que esta organização fosse.
João Chagas, em 1908, escreveu que o PRP tinha um estado-maior de filósofos, pensadores, parlamentares, jornalistas e polemistas e um exército, com a sua organização e disciplina220. Utilizando uma metáfora militar, João Chagas, imaginava
um PRP com intelectuais e com as massas, numa estrutura que se cria disciplinada e pronta para o combate.