CAPÍTULO 3. OS ASSENTAMENTOS RURAIS E A SEGURANÇA ALIMENTAR: O CAMINHAR
3.4 O Caminhar do Assentamento Horto Vergel no decorrer dos seus 16 anos de luta
3.4.9 Políticas de Proteção Social e de Fortalecimento da Agricultura Família
3.4.9.3 O Programa Nacional de Alimentação Escolar PNAE
O Programa Nacional de Alimentação Escolar –PNAE, mais conhecido como Merenda Escolar é, segundo Belik et al., (2004), o mais antigo programa social do Governo Federal na área de educação e é o maior programa de alimentação em atividade no Brasil.
O Programa teve sua origem na década de 1940, quando o desparecido Instituto de Nutrição defendia a proposta do Governo Federal de oferecer alimentação escolar, mas por indisponibilidade de recursos financeiros não foi possível concretizá-la. Posteriormente, na década de 1950, elaborou-se um abrangente Plano Nacional de Alimentação e Nutrição,
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denominado “Conjuntura Alimentar e o Problema da Nutrição no Brasil”, no qual se estruturou, pela primeira vez, um programa de alimentação escolar em âmbito Nacional, sob responsabilidade pública. Do plano original apenas o Programa de Alimentação Escolar sobreviveu, contando com o financiamento do Fundo Internacional de Socorro à Infância (FISI), atualmente UNISEF, que permitiu a distribuição do excedente de leite em pó destinado, inicialmente, à campanha de nutrição materno-infantil.
Em 31 de março de 1955, foi assinado o Decreto n° 37.106 (BRASIL, 2013W), que instituiu a Campanha de Merenda Escolar - CME para todo o território brasileiro. Em 1956, e pelo Decreto n° 39.007, de 11 de abril de 1956 (BRASIL, 2013X) a CME passou a se denominar Campanha Nacional de Merenda Escolar – CNME. Em 1965, o nome da CNME foi alterado para Campanha Nacional de Alimentação Escolar (CNAE) pelo Decreto n° 56.886/65 (BRASIL, 2012x), com a qual se iniciou o programa de “almoço escolar”. Em 1979 a CNAE passou a se denominar Programa Nacional de Alimentação Escolar (PNAE), que se solidificou com a promulgação da Constituição Federal em 1988 (art. 208), a qual assegurou o direito à alimentação escolar a todos os alunos do ensino fundamental por meio de programa suplementar de alimentação escolar a ser oferecido pelos Governos Federal, Estaduais e Municipais.
O PNAE tem por objetivo contribuir para o crescimento e o desenvolvimento biopsicossocial, a aprendizagem, o rendimento escolar e a formação de práticas alimentares saudáveis dos alunos por meio de ações de educação alimentar e nutricional e da oferta de refeições, que cubram as suas necessidades nutricionais durante o período letivo. Este objetivo se insere dentro do espírito de uma política de Segurança Alimentar e Nutricional (FNDE 2013Y; BELIK et al.; 2004).
Com todos estes objetivos e por meio da transferência de recursos financeiros, pretende- se, como finalidade, garantir a alimentação escolar dos alunos de toda a educação básica (educação infantil, ensino fundamental, ensino médio e educação de jovens e adultos) matriculados em escolas públicas e filantrópicas, assim como, indígenas e quilombolas.
As diretrizes do Programa são: alimentação saudável e adequada; inclusão da educação alimentar e nutricional no processo de ensino e aprendizagem; universalidade do atendimento aos alunos matriculados na rede pública de educação básica; participação da comunidade no controle
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social; apoio ao desenvolvimento sustentável, através da compra de alimentos locais diversificados, preferentemente da agricultura familiar e produzidos pelos empreendedores familiares rurais; acesso igualitário ao direito à alimentação escolar, visando garantir a segurança alimentar e nutricional dos alunos (FNDE, 2013a).
Em 2009, a Lei nº 11.947 desse mesmo ano (BRASIL, 2013n), trouxe novos e importantes avanços para o PNAE. Estes avanços referem-se à extensão do Programa para toda a rede pública de educação básica e de jovens e adultos, e a garantia de que 30% dos repasses do Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação -FNDE sejam investidos na aquisição de produtos da agricultura familiar e do empreendedor familiar rural ou de suas organizações, priorizando os Assentamentos de reforma agrária, as comunidades tradicionais indígenas e comunidades quilombolas (FNDE 2013c).
Foi assim que esta Lei se converteu numa nova oportunidade para o desenvolvimento e engajamento social e econômico dos Assentamentos rurais; uma categoria social forjada na luta pela justiça e pelos direitos.
No Assentamento Horto Vergel, e segundo indicado pelas lideranças da APPR do Assentamento, o PNAE começou a ser operacionalizado em 2010 por meio da Associação de Pequenos Produtores Rurais 12 de Outubro – APPR, em virtude de um convênio assinado com a prefeitura de Itapira, a quem forneceram alimentos nos anos de 2010 e 2011. Segundo as lideranças da APPR, os associados “fornecedores” (22 titulares) recebiam em média, e por 10 meses de entrega de produtos, R$ 9.000,0064, ou seja, R$ 900,00 mensais65. Ressalta-se que os
fornecedores não souberam indicar o montante de renda que recebiam, isto possivelmente por receio de oferecer a informação ou porque de fato não conhecem a renda obtida.
Cabe destacar que estas famílias fornecedoras do PNAE também forneciam produtos para o PAA e, da mesma forma que com este Programa, destaca-se que nem sempre houve regularidade e constância na participação das 22 famílias fornecedoras no decorrer do tempo, pois houve momentos de quedas da produção, assim como, da confiança e entusiasmo em seguir no grupo, apesar disto, a organização soube contornar as dificuldades e seguir em frente.
64 Houve discrepâncias nos depoimentos referidos a esta montante. 65 Idem ao anterior.
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Como todos os fornecedores do PNAE (22) eram também fornecedores do PAA, evidenciou-se que estes tinham um conhecimento claro do que era cada Programa e sua participação dentro de cada um deles. Isto ficou evidente na coleta de dados de campo e posterior cruzamento de informação, quando diante da pergunta: “O Sr(a) sabe o que é o Programa Nacional de Alimentação Escolar?”, as respostas foram as seguintes (Tabela 44):
TABELA 44: N° de Famílias assentadas que declararam saber o que é o PNAE
Resposta Sim Não NS/NR Total
N° de Famílias 23 67 0 90
% 25,56 74,44 0,00 100
Fonte: Elaboração própria com dados de campo 2013.
Como se pode observar, foram 23 as famílias titulares do Assentamento que conheciam o PNAE. Após cruzamento de informação, pode-se evidenciar que dentro deste grupo (23 famílias) estavam incluídas todas as famílias fornecedoras do PNAE. Isto reafirmava o fato de as 22 famílias participantes, tanto do PAA como do PNAE estarem cientes do significado dos programas e sua posição dentro deles. Observou-se também que 74% das famílias assentadas não conhecem o Programa; fato que pode estar contribuindo para a menor participação no mesmo, o que também foi observado por Silva et al.; (2013).
No que diz respeito à participação no PNAE, através da APPR, as famílias do Assentamento quando perguntadas se participavam ou não do Programa, indicaram o seguinte (Tabela 45):
TABELA 45: N° de Famílias titulares assentadas que declararam participar do PNAE através da APPR “12 de Outubro”
Resposta Sim Não NS/NR Total
N° de Famílias 28 61 1 90
% 31,11 67,78 1,11 100,00
Fonte: Elaboração própria com dados de campo 2013.
Novamente, dentre as famílias que responderam participar do PNAE, evidenciou-se que do total delas, 22 realmente participavam do Programa através da APPR e a diferença (6 famílias)
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não souberam explicar se realmente participavam do Programa através de outros canais que não a APPR ou que realmente forneciam ao PAA e fizeram confusão a respeito.
No aspecto da Assistência Técnica para a produção, no contexto do PNAE, verificou-se que do total das 22 famílias participantes do PNAE, 7 delas declararam receber assistência técnica para a produção agrícola, mas existe dentre elas confusão a respeito de quais as instituições que lhes oferece a assistência. Dentre as mencionadas estão o ITESP, a EMBRAPA e a CATI.
Atualmente (agosto de 2013), segundo a liderança da APPR, a Associação não está fornecendo produtos para o PNAE. Isto, em parte, deve-se ao fato da maioria das famílias fornecedoras não quererem continuar participando do Programa. Segundo elas, devido ao tipo, volume, períodos de aquisição dos alimentos, e pelos atrasos no pagamento. Isto pode ser entendido melhor pela fala do assentado “Q”: (...) participei agora parei, pois a merenda66 leva hoje 3 quilos de banana, as vezes pedem 15 bananas, outras vezes pedem 2 cachos, a gente não sabe, houve tempos que se plantou e eles só compraram uma mixaria e o produto se perdeu.
Para tratar de entender o que estava realmente acontecendo com a participação das famílias no PNAE, nos comunicamos por reiteradas vezes com a CONAB, mas, infelizmente, a resposta que recebemos foi que o excesso de trabalho que tinham naquele momento lhes impedia de fornecer qualquer tipo de informação. Salientamos que em posteriores pesquisas sejam aprofundadas as verdadeiras causas que estão desanimando a participação dos fornecedores no Programa.
Enfim, o PNAE constitui-se, no Assentamento Vergel, como uma oportunidade a mais para o engajamento econômico e social das famílias, apesar disto, se faz necessário pesquisar com maior profundidade o porquê das famílias não desejarem continuar participando do Programa e qual a diferença destas famílias fornecedoras de dois programas, das outras famílias restantes. Será que estas 22 famílias têm maior capital produtivo? Será que são possuidoras de mais bens de produção? Será que têm maiores capacidades e habilidades, ou será que suas visões lhes impulsionam com maior força?
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O PNAE, da mesma forma que o PAA, enquadrado no Assentamento como uma política para a segurança alimentar e nutricional, exige, para um melhor desempenho, a articulação dos diferentes programas e setores em prol de um melhor resultado e resolução das dificuldades encontradas. A Assistência Técnica e Extensão Rural é chave no caminhar dos assentados no processo de inserção nos Programas.
Com tudo isto e concordando com Aroucha (2012), pode-se afirmar que os Governos ao criarem Programas e Projetos, não viabilizam, ao mesmo tempo e nas condições apropriadas, as oportunidades creditícias de fomento, as facilidades estruturantes e de ATER – apropriada e gratuita – para que os atores destes segmentos sociais, os assentamento, possam empenhar todo o seu potencial, experiências e compromissos para que sejam alcançados todos os resultados necessários, pois de outro modo, os mesmos demorarão em ser alcançados; situação desfavorável que iria reduzir a eficiência, a eficácia e a efetividade, que como decorrência indesejável, diminuiria a possibilidade de continuidade, condição indispensável para que se tenham políticas públicas verdadeiramente sustentáveis.