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O que são preferências sobre prospectos?

No documento Filosofia da Economia (páginas 120-124)

Os dois conceitos centrais na teoria da decisão são preferências e prospectos  (ou o equivalente, opções). Grosso modo, dizemos (neste verbete) que um agente 

"prefere" a "opção" A em relação à B no caso de, para o agente em questão, A ser  mais desejável ou digna de escolha do que B. Esta definição aproximada deixa 

N.T.: Ou seja, preferir estritamente A a B implica preferir fracamente A a B, mas não o  inverso; e indiferença entre A e B implica preferir fracamente A a B, e, também, o inverso.

claro que a preferência é uma atitude comparativa, a saber, a atitude de comparar  opções  em  termos  de  quão  desejáveis  elas  são. Além  disso,  há  espaço  para  discussão sobre o que são as preferências em relação às opções, ou em outras  palavras, o que nos interessa quando falamos das preferências de um agente (ou  de nós mesmos) em relação às suas opções. Esta seção considera algumas questões  elementares de interpretação que preparam o terreno para a introdução (na próxima  seção) das tabelas de decisão e da regra de utilidade esperada que, para muitos,  é o tópico familiar da teoria da decisão. Outras questões interpretativas relativas a  preferências e prospectos serão abordadas posteriormente, à medida que surgirem.

Procedamos, no entanto, primeiro introduzindo candidatas a propriedades  básicas da preferência (racional) sobre as opções, para só então voltar às questões  de interpretação. Como já mencionado, a preferência diz respeito à comparação  entre opções; ela é uma relação entre opções. Para um domínio de opções, falamos  de ordenação de preferências de um agente, sendo ela a ordem das alternativas  que é gerada pela preferência do agente entre quaisquer duas opções naquele domínio.

No que se segue, ⪯ representa uma relação de preferência fraca, ou seja,  a relação "... não é preferida a ...". Logo, A ≼ B significa que o agente em que  estamos interessados considera a opção B ao menos tão preferível quanto a A. A  partir da preferência fraca se pode definir a preferência estrita, ≺, como segue: A 

≺ B ⇔ A ≼ B & ¬ (B ⪯ A) – onde “¬X” significa “não é o caso que X”. Já a relação  de indiferença ∼ é definida como: A ∼ B ⇔ A ⪯ B & B ⪯ A. Isto significa que o  agente que nos interessa está igualmente interessado em A e B.

Dizemos que ⪯ ordena fracamente um conjunto S de opções quando quer  que satisfaça os seguintes axiomas:

Axioma 1 (Completude)

Para qualquer A, B ∈ S: ou A ⪯ B, ou B ⪯ A.

Axioma 2 (Transitividade)

Para qualquer A, B, C ∈ S: se A ⪯ B e B ⪯ C, então  A ⪯ C

O  exposto  pode  ser  tomado  como  uma  caracterização  preliminar  da  preferência  racional  sobre  as  opções.  No  entanto,  mesmo  esta  caracterização  limitada é controversa, e aponta para interpretações divergentes de "preferências  sobre prospectos/opções".

Comecemos com o axioma Completude, que diz que um agente pode  comparar, em termos da relação de preferência fraca, todos os pares de opções  em S. Se a Completude é ou não uma restrição plausível de racionalidade depende  tanto do tipo de opções que estão sendo consideradas, quanto de como interpretamos  as preferências sobre essas opções. Se o conjunto de opções inclui todos os tipos  de estados de coisas, então a Completude não é imediatamente convincente. Por  exemplo, é questionável se um agente deve ser capaz de comparar a opção pela  qual duas pessoas adicionais no mundo são alfabetizadas com a opção pela qual  duas pessoas adicionais atingem a idade de sessenta anos. Se, por outro lado,  todas as opções do conjunto são bastante semelhantes entre si, digamos, todas  as opções são carteiras de investimento, então a completude é mais convincente. 

Mas mesmo se nós não restringirmos os tipos de opções em consideração, a questão  de saber se a Completude deve ou não ser satisfeita depende do significado de  preferência. Por exemplo, se as preferências representam apenas comportamento  de escolha ou disposições de escolha, como fazem em concordância com a "teoria  da preferência revelada" popular entre os economistas (vide SEN, 1973), então a  completude é automaticamente satisfeita, assumindo que uma escolha deve ser  inevitavelmente feita. Em contraste, se as preferências são entendidas mais como  atitudes mentais, ou seja, elas são tipicamente consideradas juízos sobre se uma  opção é melhor ou mais desejável do que outra, então as dúvidas sobre a Completude  aludidas acima são pertinentes. Para uma discussão mais aprofundada, consulte  Mandler (2001).

A  maioria  dos  filósofos  e  teóricos  da  decisão  subscrevem  esta  última  interpretação de preferência como uma espécie de julgamento que explica, em vez  de ser idêntica a algo, as disposições de escolha e o comportamento de escolha  resultante (vide HAUSMAN 2011a, 2011b; DIETRICH; LIST, 2016a, 2016b; BRADLEY,  2017. Consulte Thoma (2020b) e Vredenburgh (2020) para defesas recentes da  teoria da preferência revelada, pelo menos no contexto da economia empírica. 

Além disso, muitos sustentam que a completude não é racionalmente exigida, tendo  em vista que a racionalidade exige apenas os julgamentos que um agente realmente  realiza, mas nada diz sobre se um julgamento deve ser realizado em primeiro lugar. 

No entanto, seguindo Richard Jeffrey (1983), a maioria dos teóricos das decisões 

sugere  que  a  racionalidade  exige  que  as  preferências  sejam coerentemente extensíveis. Isso significa que, mesmo que suas preferências não sejam completas,  deve ser possível completá­las sem violar nenhuma das condições racionalmente  exigidas, em particular, a Transitividade.

Isto nos leva ao axioma da Transitividade, que diz que se uma opção B é  fracamente preferível a A, e C é fracamente preferível a B, então C é fracamente  preferível a A. Um desafio recente à Transitividade gira em torno de conjuntos  heterogêneos de opções, conforme a discussão da Completude acima. Mas aqui  se faz uma interpretação diferente de preferência na comparação de opções. A ideia  é que as preferências, ou julgamentos de desejabilidade, podem ser sensíveis a  uma condição de saliência. Por exemplo, suponha que a característica mais saliente  ao comparar os carros A e B seja o quão rápido eles podem ser dirigidos, e B não  é pior do que A neste aspecto; ainda assim, a característica mais saliente ao comparar  carros B e C é o quão seguros eles são, e C não é pior do que B neste aspecto. 

Além disso, quando se comparam A e C, a característica mais marcante é quão  belos eles são. Neste caso, alguns argumentam (TEMKIN, 2012) que não há razão  para que a Transitividade deva ser satisfeita com respeito às preferências relativas  a A, B e C. Outros (BROOME, 1991a) argumentam que a Transitividade é parte do  próprio significado da relação “melhor que” (ou desejabilidade comparativa objetiva); 

se a preferência racional é um julgamento de melhoria ou desejabilidade, então a  Transitividade  não  é  negociável.  Com  relação  ao  exemplo  do  carro,  Broome  argumentaria que a desejabilidade de uma opção totalmente especificada não deve  variar, simplesmente em virtude das outras opções com as quais ela é comparada. 

Isso quer dizer que ou o contexto de escolha afeta como o agente percebe a opção  em questão, caso em que a descrição da opção deve refletir isso, ou então o contexto  de escolha não afeta a opção. De qualquer forma, a Transitividade deve ser satisfeita.

Há uma defesa mais direta da Transitividade de preferências; uma defesa  que depende das perdas certas que podem ocorrer a qualquer um que viole o  axioma. Este é o chamado argumento da bomba de dinheiro (money pump) –  confira Davidson et. al. (1955) para um argumento inicial deste tipo; mas, para  discussão e revisão recentes deste argumento, consulte Gustafsson (2010; 2013). 

Ele se baseia na suposição de que se você acha X pelo menos tão desejável quanto  Y, então você deve ficar feliz em trocar o último pelo primeiro. Suponha que você  viole a Transitividade, ou seja, por você, pois, para você: A⪯B, B⪯C, mas C≺A.

Além disso, suponha que você tenha atualmente a opção A. Então você deve estar  disposto a trocar A por B. O mesmo vale para B e C: você deve estar disposto a 

trocar B por C. Você prefere estritamente A a C, então você deve estar disposto a  trocar C, mais alguma coisa (p. ex., alguma, quantia de dinheiro), por A. Mas agora  você está na mesma situação em que você começou, a saber, tendo A, e não tendo  B nem C – exceto pelo fato de que você ficou mais pobre! Assim, em poucos passos,  cada um deles coerente com suas preferências, você se encontra em uma situação  claramente pior, a parti de seu próprio ponto de vista, do que a situação original. O  quadro se torna mais dramático se imaginarmos que o processo poderia ser repetido,  transformando você em uma "bomba de dinheiro". Portanto, o argumento segue,  há algo (instrumentalmente) irracional em suas preferências intransitivas. Se suas  preferências fossem transitivas, então você não estaria vulnerável a escolher uma  opção dominada e a servir como uma bomba de dinheiro. Portanto, suas preferências  devem ser transitivas.

Embora as controvérsias acima mencionadas não tenham sido resolvidas,  as  seguintes  hipóteses  serão  feitas  no  restante  deste  artigo:  i)  os  objetos  de  preferência podem ser prospectos heterogêneos, incorporando um domínio rico e  variado  de  propriedades,  ii)  a  preferência  entre  opções  é  um  julgamento  de  conveniência  comparativa  ou  de  capacidade  de  escolha,  e  iii)  as  preferências  satisfazem tanto a Completude quanto a Transitividade (embora esta última condição  seja revisitada na Seção 5). A questão que agora se coloca é se existem outras  restrições gerais à preferência racional sobre as opções.

No documento Filosofia da Economia (páginas 120-124)