6. Decisões sequenciais
6.1 Ulisses era racional?
Um problema de decisão sequencial bem conhecido é o que Ulisses enfrenta em sua jornada de volta à Ítaca no antigo épico de Homero. Ulisses deve fazer uma escolha sobre a maneira como navegará por uma ilha habitada por Sereias cantoras. Ele pode escolher navegar sem restrições ou amarrado ao mastro.
No primeiro caso, Ulisses mais tarde terá a escolha, ao ouvir as Sereias, de continuar navegando de volta para Ítaca ou de permanecer na ilha por tempo indeterminado.
No último caso, ele não estará livre para fazer outras escolhas e o navio navegará para Ítaca passando pelas Sereias cantoras. O último resultado depende da sequência de escolhas que Ulisses faz. O problema de decisão de Ulisses é representado em forma de árvore (ou forma extensa) na Figura 1 (onde as duas caixas representam pontos de escolha para Ulisses).
Figura 1. Problema de decisão de Ulisses
Somos informados de que, antes de embarcar, Ulisses preferia ouvir as Sereias livremente e então voltar para casa, em Ítaca. O problema é que Ulisses prediz que o seu eu do futuro não obedecerá a isto: se ele navegar livremente, será depois seduzido pelas Sereias e, em vez de continuar rumo à sua casa em Ítaca, permanecerá na ilha indefinidamente. Portanto, Ulisses raciocina que seria melhor ser amarrado ao mastro, porque é melhor a vergonha e o desconforto de ser amarrado ao mastro do que permanecer na ilha das Sereias para sempre.
É difícil negar que Ulisses fez uma escolha sábia ao ser amarrado ao mastro. Entretanto, alguns sustentam, que Ulisses não é um agente exemplar, já que o seu eu do presente deve jogar contra o seu eu do futuro, que será involuntariamente seduzido pelas Sereias. Embora Ulysses seja racional no nó da primeira escolha pelos padrões de decisão estáticos, podemos considerálo irracional em geral pelos padrões de decisão sequenciais, entendidos em termos do valor relativo das sequências de escolhas. A sequência de escolhas que Ulisses inevitavelmente busca é, afinal, subótima. Teria sido melhor se ele pudesse navegar desamarrado e continuar para casa em Ítaca. Essa sequência poderia ter sido alcançada se Ulisses fosse continuamente racional durante todo o tempo; digamos, se em todos os momentos ele agisse como um maximizador da UE e mudasse suas crenças e desejos apenas de acordo com as normas Bayesianas (variantes da condicionalização padrão). Nessa leitura, os modelos de decisão sequencial introduzem considerações de “racionalidadeaolongodotempo”.
Embora a “racionalidadeaolongodotempo” possa ter importância na avaliação das preferências e das normas sobre como um agente altera essas preferências (podese ler a discussão na Seção 6.2 abaixo desta forma), permanece a importante questão de como um agente deve agir à luz de suas preferências em qualquer momento. Para tanto, o modelo de decisão sequencial pode ser visto com sucesso como uma ferramenta para ajudar a determinar a escolha racional em um determinado momento, assim como no modelo de decisão estático. A árvore de decisão sequencial é efetivamente uma forma de visualizar a série temporal de escolhas e eventos de aprendizagem que um agente acredita que enfrentará no futuro, dependendo de em qual parte da árvore de decisão encontrarseá. A questão
chave, então, é: como um agente deve escolher entre suas opções iniciais à luz de sua árvore de decisão projetada? Esta questão gerou uma quantidade surpreendente de controvérsia. Três abordagens principais para lidar com árvores de decisão sequenciais têm aparecido na literatura. São elas a abordagem ingênua ou míope, a abordagem sofisticada e a abordagem resoluta. Elas serão discutidas separadamente; será sugerido que as disputas podem não ser substanciais, mas antes indicam diferenças sutis na interpretação dos modelos de decisão sequenciais.
A chamada abordagem ingênua para tratar de decisões sequenciais serve como um contraste útil com as outras duas abordagens. O agente ingênuo assume que qualquer caminho através da árvore de decisão é possível, e então parte de qualquer caminho que seja considerado ótimo, dadas suas atitudes presentes. Por exemplo, um Ulisses ingênuo simplesmente presumiria que ele tem três estratégias gerais para escolher: ou ordenar à tripulação que o amarre ao mastro, ou não emitir tal ordem e depois permanecer na ilha das Sereias, ou não emitir tal ordem e, mais tarde, retomar seu curso. Ulisses prefere o resultado associado à última combinação e, portanto, inicia essa estratégia ao não ordenar que a tripulação o contenha. A Tabela 5 apresenta a contrapartida estática do problema de decisão do ingênuo Ulisses. Com efeito, esse modelo de decisão não leva em consideração o conhecimento atual de Ulisses de suas preferências futuras e, portanto, o aconselha a buscar uma opção que se prevê ser impossível.
Tabela 5. Problema de decisão “ingênuo” de Ulysses
Não há necessidade de insistir no fato de que a abordagem ingênua da escolha sequencial é apropriadamente nomeada. A marca registrada da abordagem sofisticada, em contraste, é sua ênfase no planejamento retroativo: o agente sofisticado não assume que todos os caminhos através da árvore de decisão (ou, em outras palavras, todas as combinações possíveis de escolhas nos vários nós de escolha) serão possíveis. O agente considera, ao contrário, o que estará inclinado a escolher em nós de escolha posteriores quando chegar à posição temporal em questão. O sofisticado Ulisses perceberia que, se chegar à ilha das Sereias desamarrado, vai querer parar ali indefinidamente, devido ao efeito transformador do canto das Sereias sobre suas preferências. Isso é então refletido na representação estática do problema de decisão, conforme a Tabela 6. Os estados aqui dizem respeito às preferências futuras de Ulisses, uma vez que ele chegue à ilha. Como o segundo estado tem (por suposição) probabilidade zero, os atos são decididos com base no primeiro estado, então Ulisses sabiamente escolhe ser amarrado ao mastro.
Tabela 6. Problema de decisão “sofisticado” de Ulisses
A escolha resoluta diverge da escolha sofisticada apenas sob certas condições que não são cumpridas por Ulisses, dada sua inexplicável mudança de atitudes. Os defensores da escolha resoluta normalmente defendem as teorias de decisão e preferências associadas que violam o axioma da Independência/Princípio da Coisa Segura (MCCLENNEN, 1990; MACHINA, 1989). Confira, também, para uma discussão, Rabinowicz (1995) e Buchak (2013). Eles apelam à escolha resoluta para tornar essas preferências mais palatáveis no contexto de decisão sequencial (a ser discutido mais
22 N.T.: Dutch Book é uma aposta em que está garantido ao agente uma perda certa em razão da inconsistência de suas crenças ou preferências; v. a menção ao argumento da
“bomba de dinheiro” na Seção 1.
detalhadamente na Seção 6.2 abaixo). De acordo com a escolha resoluta, em contextos apropriados, o agente deve em todos os pontos de escolha se ater à estratégia que foi inicialmente considerada melhor. A questão é se esse conselho faz sentido, dada a interpretação padrão de um modelo de decisão sequencial. O que significaria para um agente escolher contra suas preferências para cumprir um plano previamente selecionado? Isso parece desafiar a própria noção de preferência. Obviamente, um agente pode dar grande importância ao cumprimento de compromissos anteriores.
Quaisquer preocupações com a integridade, entretanto, devem ser refletidas na especificação dos resultados e, portanto, nas preferências do agente no momento em questão. Isso é muito diferente de escolher em descompasso com suas preferências mais gerais, levando em consideração as situações relevantes em determinado momento.
Os defensores da escolha resoluta podem ter em mente uma interpretação diferente dos modelos de decisão sequencial, em que os “pontos de escolha” futuros não são realmente pontos nos quais um agente é livre para escolher de acordo com suas preferências no momento. Nesse caso, isso equivaleria a uma mudança sutil na questão ou problema de interesse. A seguir, a interpretação padrão dos modelos de decisão sequencial será assumida e, consequentemente, será assumido que os agentes racionais perseguem a abordagem sofisticada da escolha (LEVI, 1991;
MAHER, 1992; SEIDENFELD, 1994).