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Ulisses era racional?

No documento Filosofia da Economia (páginas 170-174)

6. Decisões sequenciais

6.1 Ulisses era racional?

Um  problema  de  decisão  sequencial  bem  conhecido  é  o  que  Ulisses  enfrenta em sua jornada de volta à Ítaca no antigo épico de Homero. Ulisses deve  fazer  uma  escolha  sobre  a  maneira  como  navegará  por  uma  ilha  habitada  por  Sereias cantoras. Ele pode escolher navegar sem restrições ou amarrado ao mastro. 

No primeiro caso, Ulisses mais tarde terá a escolha, ao ouvir as Sereias, de continuar  navegando de volta para Ítaca ou de permanecer na ilha por tempo indeterminado. 

No último caso, ele não estará livre para fazer outras escolhas e o navio navegará  para Ítaca passando pelas Sereias cantoras. O último resultado depende da sequência  de escolhas que Ulisses faz. O problema de decisão de Ulisses é representado em  forma de árvore (ou forma extensa) na Figura 1 (onde as duas caixas representam  pontos de escolha para Ulisses).

     

Figura 1. Problema de decisão de Ulisses

Somos informados de que, antes de embarcar, Ulisses preferia ouvir as  Sereias livremente e então voltar para casa, em Ítaca. O problema é que Ulisses  prediz que o seu eu do futuro não obedecerá a isto: se ele navegar livremente,  será depois seduzido pelas Sereias e, em vez de continuar rumo à sua casa em  Ítaca, permanecerá na ilha indefinidamente. Portanto, Ulisses raciocina que seria  melhor ser amarrado ao mastro, porque é melhor a vergonha e o desconforto de  ser amarrado ao mastro do que permanecer na ilha das Sereias para sempre.

É difícil negar que Ulisses fez uma escolha sábia ao ser amarrado ao  mastro. Entretanto, alguns sustentam, que Ulisses não é um agente exemplar, já  que o seu eu do presente deve jogar contra o seu eu do futuro, que será involuntariamente  seduzido pelas Sereias. Embora Ulysses seja racional no nó da primeira escolha  pelos padrões de decisão estáticos, podemos considerá­lo irracional em geral pelos  padrões  de decisão  sequenciais,  entendidos  em  termos  do  valor  relativo  das  sequências  de  escolhas. A sequência  de  escolhas  que  Ulisses  inevitavelmente  busca é, afinal, sub­ótima. Teria sido melhor se ele pudesse navegar desamarrado  e continuar para casa em Ítaca. Essa sequência poderia ter sido alcançada se  Ulisses fosse continuamente racional durante todo o tempo; digamos, se em todos  os momentos ele agisse como um maximizador da UE e mudasse suas crenças e  desejos apenas de acordo com as normas Bayesianas (variantes da condicionalização  padrão). Nessa leitura, os modelos de decisão sequencial introduzem considerações  de “racionalidade­ao­longo­do­tempo”.

Embora  a  “racionalidade­ao­longo­do­tempo”  possa  ter  importância  na  avaliação  das  preferências  e  das  normas sobre  como um  agente  altera  essas  preferências (pode­se ler a discussão na Seção 6.2 abaixo desta forma), permanece  a importante questão de como um agente deve agir à luz de suas preferências em  qualquer momento. Para tanto, o modelo de decisão sequencial pode ser visto  com sucesso como uma ferramenta para ajudar a determinar a escolha racional  em um determinado momento, assim como no modelo de decisão estático. A árvore  de decisão sequencial é efetivamente uma forma de visualizar a série temporal de  escolhas e eventos de aprendizagem que um agente acredita que enfrentará no  futuro, dependendo de em qual parte da árvore de decisão encontrar­se­á. A questão­

chave, então, é: como um agente deve escolher entre suas opções iniciais à luz de  sua árvore de decisão projetada? Esta questão gerou uma quantidade surpreendente  de  controvérsia. Três  abordagens  principais  para  lidar  com  árvores  de  decisão  sequenciais têm aparecido na literatura. São elas a abordagem ingênua ou míope,  a  abordagem sofisticada  e  a  abordagem  resoluta.  Elas  serão  discutidas  separadamente; será sugerido que as disputas podem não ser substanciais, mas  antes indicam diferenças sutis na interpretação dos modelos de decisão sequenciais.

A chamada abordagem ingênua para tratar de decisões sequenciais serve  como um contraste útil com as outras duas abordagens. O agente ingênuo assume  que qualquer caminho através da árvore de decisão é possível, e então parte de  qualquer caminho que seja considerado ótimo, dadas suas atitudes presentes. Por  exemplo, um Ulisses ingênuo simplesmente presumiria que ele tem três estratégias  gerais para escolher: ou ordenar à tripulação que o amarre ao mastro, ou não emitir  tal ordem e depois permanecer na ilha das Sereias, ou não emitir tal ordem e, mais  tarde, retomar seu curso. Ulisses prefere o resultado associado à última combinação  e, portanto, inicia essa estratégia ao não ordenar que a tripulação o contenha. A  Tabela 5 apresenta a contrapartida estática do problema de decisão do ingênuo  Ulisses. Com efeito, esse modelo de decisão não leva em consideração o conhecimento  atual de Ulisses de suas preferências futuras e, portanto, o aconselha a buscar uma  opção que se prevê ser impossível.

Tabela 5. Problema de decisão “ingênuo” de Ulysses

Não há necessidade de insistir no fato de que a abordagem ingênua da  escolha sequencial é apropriadamente nomeada. A marca registrada da abordagem  sofisticada,  em  contraste,  é  sua  ênfase  no  planejamento  retroativo:  o  agente  sofisticado não assume que todos os caminhos através da árvore de decisão (ou,  em outras palavras, todas as combinações possíveis de escolhas nos vários nós  de escolha) serão possíveis. O agente considera, ao contrário, o que estará inclinado  a escolher em nós de escolha posteriores quando chegar à posição temporal em  questão.  O  sofisticado  Ulisses  perceberia  que,  se  chegar  à  ilha  das  Sereias  desamarrado, vai querer parar ali indefinidamente, devido ao efeito transformador  do canto das Sereias sobre suas preferências. Isso é então refletido na representação  estática do problema de decisão, conforme a Tabela 6. Os estados aqui dizem  respeito às preferências futuras de Ulisses, uma vez que ele chegue à ilha. Como  o segundo estado tem (por suposição) probabilidade zero, os atos são decididos  com base no primeiro estado, então Ulisses sabiamente escolhe ser amarrado ao mastro.

Tabela 6. Problema de decisão “sofisticado” de Ulisses

A escolha resoluta diverge da escolha sofisticada apenas sob certas condições  que não são cumpridas por Ulisses, dada sua inexplicável mudança de atitudes. Os  defensores  da  escolha  resoluta  normalmente  defendem  as  teorias  de  decisão  e  preferências associadas que violam o axioma da Independência/Princípio da Coisa  Segura (MCCLENNEN, 1990; MACHINA, 1989). Confira, também, para uma discussão,  Rabinowicz (1995) e Buchak (2013). Eles apelam à escolha resoluta para tornar essas  preferências mais palatáveis no contexto de decisão sequencial (a ser discutido mais 

22 N.T.: Dutch Book é uma aposta em que está garantido ao agente uma perda certa em  razão da inconsistência de suas crenças ou preferências; v. a menção ao argumento da 

“bomba de dinheiro” na Seção 1.

detalhadamente na Seção 6.2 abaixo). De acordo com a escolha resoluta, em contextos  apropriados, o agente deve em todos os pontos de escolha se ater à estratégia que  foi inicialmente considerada melhor. A questão é se esse conselho faz sentido, dada  a interpretação padrão de um modelo de decisão sequencial. O que significaria para  um agente escolher contra suas preferências para cumprir um plano previamente  selecionado? Isso parece desafiar a própria noção de preferência. Obviamente, um  agente pode dar grande importância ao cumprimento de compromissos anteriores. 

Quaisquer  preocupações  com  a  integridade,  entretanto,  devem  ser  refletidas  na  especificação dos resultados e, portanto, nas preferências do agente no momento  em questão. Isso é muito diferente de escolher em descompasso com suas preferências  mais gerais, levando em consideração as situações relevantes em determinado momento.

Os defensores da escolha resoluta podem ter em mente uma interpretação  diferente dos modelos de decisão sequencial, em que os “pontos de escolha” futuros  não são realmente pontos nos quais um agente é livre para escolher de acordo com  suas preferências no momento. Nesse caso, isso equivaleria a uma mudança sutil na  questão ou problema de interesse. A seguir, a interpretação padrão dos modelos de  decisão  sequencial  será  assumida  e,  consequentemente,  será  assumido  que  os  agentes  racionais  perseguem  a  abordagem  sofisticada  da  escolha  (LEVI,  1991; 

MAHER, 1992; SEIDENFELD, 1994).

No documento Filosofia da Economia (páginas 170-174)