4. Implicações mais amplas da teoria da Utilidade Esperada (UE)
4.2 Sobre o desejo racional
A teoria da UE também toma uma posição sobre a estrutura do desejo racional. A este respeito, a teoria tem sido criticada em frentes opostas. Consideremos, primeiro, a crítica de que a teoria da UE é muito permissiva em relação ao que pode influenciar os desejos de um agente. Voltemonos, então, para a crítica oposta: que, quando se trata de desejo, a teoria da UE não é permissiva o suficiente.
A preocupação de que a teoria da UE seja muito permissiva em relação ao desejo está relacionada à preocupação de que a teoria seja não falseável. A preocupação é que preferências aparentemente irracionais, pelas luzes da teoria da UE, possam sempre ser interpretadas como racionais, sob uma descrição adequada das opções em estudo. Como discutido na Seção 1, acima, as preferências que parecem violar a Transitividade podem ser interpretadas como consistentes com este axioma, desde que as opções a serem comparadas variem em sua
descrição, dependendo, entre outras coisas, das outras opções em consideração.
Isso também vale para preferências que parecem violar a Separabilidade ou Independência (da contribuição de cada resultado para o valor global de uma opção), discutidas ainda na Seção 5.1 abaixo. Podese argumentar que esta é a maneira correta de descrever as preferências desses agentes. Afinal, um modelo adequado de preferência é supostamente aquele que captura, na descrição de últimos resultados e de opções, tudo o que importa para um agente. Nesse caso, no entanto, a teoria da UE é efetivamente vazia ou impotente como um padrão de racionalidade a que os agentes podem aspirar. Além disso, estende a noção de o que são propriedades genuínas de resultados que podem, razoavelmente, conferir valor ou ser desejáveis para um agente.
Há duas maneiras de reagir à ideia de que as preferências de um agente são necessariamente consistentes com a teoria da UE, com as implicações acima mencionadas para o que o agente pode desejar:
● Podese resistir à alegação, afirmando que há restrições adicionais no conteúdo das preferências de um agente.
Por um lado, pode haver restrições empíricas pelas quais o conteúdo das preferências é determinado por alguma ponderação entre adequação e simplicidade na representação da “rede” mais ampla de atitudes de preferência do agente. Por outro lado, pode haver restrições normativas com relação a quais tipos de resultados um agente pode razoavelmente discriminar.
Para uma discussão relevante, confira os trabalhos de Tversky (1975), Broome (1991a, 1993), Pettit (1993), Dreier (1996), Guala (2006) e Vredenburgh (2020).
● Podese, alternativamente, abraçar a reivindicação, interpretando a teoria da UE não como um padrão contra o qual um agente pode passar ou falhar, mas sim como um princípio organizador que permite a caracterização dos desejos de um agente, bem como suas crenças (vide GUALA, 2008).
De qualquer forma, podese argumentar ainda que a teoria da UE não vai longe o suficiente ao estruturar as atitudes de preferência de um agente de tal modo que possamos entender as razões dessas atitudes de preferência. Dietrich e List
(2013, 2016a) propuseram um quadro mais geral para preencher essa lacuna. Em seu quadro, as preferências que satisfazem algumas restrições mínimas são representáveis enquanto dependentes do pacote de propriedades em termos dos quais cada opção é percebida pelo agente em um determinado contexto. As propriedades podem, por sua vez, ser categorizadas como propriedades de opção (que são intrínsecas ao desfecho), propriedades relacionais (que dizem respeito ao desfecho em um contexto específico) ou propriedades de contexto (que dizem respeito ao contexto da própria escolha). Tal representação permite uma análise mais detalhada das razões das preferências de um agente e captura diferentes tipos de dependência de contexto nas escolhas de um agente. Além disso, ela permite restrições explícitas sobre o que conta como uma razão legítima de preferência, ou, em outras palavras, quais propriedades legitimamente apresentam em uma descrição do resultado; tais restrições podem ajudar a esclarecer os compromissos normativos da teoria da UE.
Há, também, modelos menos gerais que oferecem exemplos para entender as razões subjacentes às preferências. Por exemplo, a estrutura (framework) de decisão de múltiplos critérios (vide KEENEY; RAIFFA, 1993) considera a ordenação geral de preferências de um agente sobre opções como um agregado do conjunto de ordenações de preferências a qual correspondente a todas as dimensões pertinentes de valor. Sob certas suposições, a ordenação geral ou agregada de preferências é compatível com a teoria da UE. Podese procurar entender o papel do tempo, ou a posição temporal dos bens, sobre as preferências. Para isso, os resultados são descritos em termos de feixes (bundles) de bens temporalmente indexados, ou fluxos de consumo. Para um modelo inicial deste tipo, confira Ramsey (1928); um tratamento posterior mais influente é o de Koopmans (1960). Pode haver uma estrutura sistemática para as preferências de um agente em relação a esses fluxos de consumo, além da estrutura imposta pelos axiomas de preferência da UE.
Por exemplo, os autores supracitados consideraram e caracterizaram preferências que exibem descontos temporais exponenciais.
Vamos agora ao tipo de crítica oposta: que as restrições limitadas que a teoria da UE impõe à preferência e ao desejo racionais são, por outro lado, excessivamente restritivas. Aqui, o foco será a compatibilidade da teoria da UE com posições éticas proeminentes em relação à escolha dos atos, bem como posições metaéticas quanto à natureza do valor e à sua relação com a crença.
Podese muito bem perguntar se a teoria da UE, e na verdade a teoria da decisão em geral, é neutra no que diz respeito à ética normativa, ou se é compatível
apenas com o consequencialismo ético, dado que a classificação de um ato é totalmente determinada pela utilidade de seus possíveis resultados. Tal modelo parece estar em desacordo com teorias éticas não consequencialistas, para as quais a escolha de atos supostamente depende de outras coisas além do valor moral de suas consequências. O modelo não parece capaz de acomodar noções deontológicas básicas como a relatividade de agentes, proibições absolutas, ou atos permissíveis, mas subótimos.
Uma resposta inicial, no entanto, é que não se deve extrapolar demais a partir dos conceitos formais da teoria da decisão. A medida de utilidade sobre atos e resultados é simplesmente uma maneira conveniente de representar uma ordenação, e deixa muito espaço para diferentes maneiras de identificar e avaliar resultados.
Assim como a função de utilidade de um agente não precisa ser insensível às considerações éticas em geral (um equívoco comum devido à prevalência de preferências egoístas em modelos econômicos; consulte o trabalho de Sen, de 1977), ela também precisa ser insensível a considerações éticas especificamente deontológicas ou não consequencialistas. Tudo depende de como os atos e seus resultados são distinguidos e avaliados. Para começar, o caráter de um ato pode ser uma propriedade de todos os seus resultados possíveis. Além disso, pode ser relevante se um evento ocorre, ou se é perpetrado especificamente pelo agente tomador de decisão ou outra pessoa. O fato de um ato envolver mentira, digamos, pode ser referenciado em todos os resultados possíveis do ato e, além disso, essa mentira por parte do agente de decisão pode ser distinguida da mentira de outros.
Em geral, os atos e seus resultados podem ser distinguidos de acordo com o que quer que seja moral, seja isso uma propriedade relacional complexa associada a como e quando o ato é escolhido, por quem e/ou de que forma algum estado de coisas resulta do ato. Para discussões iniciais sobre como uma ampla gama de propriedades éticas pode ser acomodada na descrição de atos e resultados, consulte, por exemplo, Sen (1982), Vallentyne (1988), Broome (1991b) e Dreier (1993). Desde então, essa ideia tem sido adotada por outros associados ao chamado programa de “consequencialização”, incluindo Louise (2004) e Portmore (2007). A ideia é que o conselho normativo de teorias éticas supostamente não consequencialistas pode ser representado em termos de uma classificação de atos/resultados correspondentes a alguma função de valor, como ocorre com teorias éticas consequencialistas (ver também Colyvan et al. 2010).
Um ponto crítico para reconciliar a teoria da decisão com todas as formas de não consequencialismo é a dificuldade em acomodar proibições absolutas ou
condições restritivas (sideconstraints), confira Oddie e Milne (1999), Jackson e Smith (2006). Por exemplo, suponha que haja uma proibição moral de matar uma pessoa inocente, não importa o que esteja em jogo. Talvez tal restrição seja melhor modelada em termos de uma classificação lexical e da função de valor correspondente, na qual o status de “matar inocentes” de um ato ou resultado acaba tendo prioridade na determinação de sua classificação ou valor relativo. Mas isso tem implicações contraintuitivas em face do risco, uma vez que muitos atos terão alguma chance, embora pequena, de matar um inocente. A lição aqui pode ser simplesmente que as teorias em questão requerem desenvolvimento; qualquer teoria ética madura nos deve uma explicação de como agir sob risco ou incerteza. O que é indiscutivelmente um desafio mais convincente para reconciliar a teoria da decisão com o não consequencialismo é a acomodação de “opções centradas no agente” e a
“supererrogação” associada. Portmore (2007) e Lazar (2017) oferecem propostas nesse sentido, as quais apelam (de maneiras diferentes) para a classificação moral de atos/resultados como distintos dos custos pessoais para o agente de perseguir esses atos/resultados.
Na medida em que a teoria da decisão pode ser reconciliada com toda a gama de teorias éticas, deveríamos dizer que não há distinções significativas entre essas teorias? Brown (2011) e Dietrich e List (2017) demonstram que, de fato, a representação teórica da escolha de teorias éticas facilita melhor as distinções entre elas; termos como “(não) consequencialismo” podem ser definidos com precisão, embora de maneiras discutíveis. De forma mais geral, podemos catalogar teorias em termos dos tipos de propriedades (sejam intrínsecas ou em algum sentido relacionais) que distinguem atos/resultados e, também, em termos da natureza da classificação de atos/resultados que eles produzem (seja transitiva, completa, contínua e assim por diante). Isso também serve para revelar desvios da teoria da UE.
Na verdade, alguns dos contraexemplos mais convincentes aos axiomas de preferência da UE baseiamse em considerações éticas. Lembrese de nossa discussão anterior sobre os axiomas básicos de ordenação na Seção 1. O axioma da transitividade foi desafiado pelo apelo a exemplos eticamente motivados de ciclos de preferência (vide TEMKIN, 2012). A noção de uma ordenação lexical não contínua foi mencionada acima em relação às condições restritivas éticas. A dispensabilidade do axioma da Completude também é frequentemente motivada pelo apelo a exemplos envolvendo valores éticos concorrentes entre os quais é difícil ponderar, como bemestar médio versus total. Outros exemplos sugestivos contra a Completude envolvem noções concorrentes de bemestar pessoal (vide
LEVI, 1986; CHANG, 2002). Um agente racional deve ter uma preferência definida entre, digamos, duas opções de carreira que pesam em direções diferentes no que diz respeito às oportunidades de autoexpressão criativas versus serviço comunitário (talvez uma carreira na dança versus uma carreira praticando medicina em regiões remotas)? Observe que alguns desses desafios à teoria da UE são discutidos com mais profundidade na Seção 5 abaixo.
Finalmente, voltamonos para os potenciais compromissos metaéticos da teoria da UE. David Lewis (1988, 1996) empregou a teoria da UE para argumentar contra o antiHumeanismo, a posição de que às vezes somos movidos inteiramente por nossas crenças sobre o que seria bom, ao invés de sermos por nossos desejos, como afirmam os Humeanos. Ele formulou a teoria antiHumeana como postulando uma conexão necessária entre, por um lado, o desejo de um agente em relação qualquer proposição A, e, por outro lado, sua crença em uma proposição sobre o quanto A é bom; e alegou provar que quando tal conexão é formulada em termos da teoria da UE, o agente em questão será dinamicamente incoerente. Várias pessoas criticaram o argumento de Lewis. Por exemplo, Broome (1991c), Byrne e Hájek (1997) e Hájek e Pettit (2004) sugerem formulações do antiHumeanismo que são imunes às críticas de Lewis, enquanto Stefánsson (2014) e Bradley e Stefánsson (2016) argumentam que a demonstração de Lewis se baseia em uma suposição falsa. Não obstante, o argumento de Lewis sem dúvida provocou um debate interessante sobre os tipos de conexões entre crença e desejo que a teoria da UE permite. Além disso, existem outras questões de relevância metaética que se pode investigar a respeito do papel e da estrutura do desejo na teoria da UE.
Por exemplo, Jeffrey (1974) e Sen (1977) oferecem algumas investigações preliminares sobre se a teoria pode acomodar desejos/preferências de ordem superior e, em caso afirmativo, como eles se relacionam com os desejos/preferências de primeira ordem.