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Sobre o desejo racional

No documento Filosofia da Economia (páginas 155-160)

4. Implicações mais amplas da teoria da Utilidade Esperada (UE)

4.2 Sobre o desejo racional

A teoria da UE também toma uma posição sobre a estrutura do desejo  racional. A este respeito, a teoria tem sido criticada em frentes opostas. Consideremos,  primeiro, a crítica de que a teoria da UE é muito permissiva em relação ao que pode  influenciar os desejos de um agente. Voltemo­nos, então, para a crítica oposta: que,  quando se trata de desejo, a teoria da UE não é permissiva o suficiente.

A preocupação de que a teoria da UE seja muito permissiva em relação  ao desejo está relacionada à preocupação de que a teoria seja não falseável. A  preocupação é que preferências aparentemente irracionais, pelas luzes da teoria  da  UE,  possam  sempre  ser  interpretadas  como  racionais,  sob  uma  descrição  adequada das opções em estudo. Como discutido na Seção 1, acima, as preferências  que parecem violar a Transitividade podem ser interpretadas como consistentes  com  este  axioma,  desde  que  as  opções  a  serem  comparadas  variem  em  sua 

descrição, dependendo, entre outras coisas, das outras opções em consideração. 

Isso  também  vale  para  preferências  que  parecem  violar  a  Separabilidade  ou  Independência (da contribuição de cada resultado para o valor global de uma opção),  discutidas ainda na Seção 5.1 abaixo. Pode­se argumentar que esta é a maneira  correta de descrever as preferências desses agentes. Afinal, um modelo adequado  de preferência é supostamente aquele que captura, na descrição de últimos resultados  e de opções, tudo o que importa para um agente. Nesse caso, no entanto, a teoria  da UE é efetivamente vazia ou impotente como um padrão de racionalidade a que  os agentes podem aspirar. Além disso, estende a noção de o que são propriedades  genuínas de resultados que podem, razoavelmente, conferir valor ou ser desejáveis  para um agente.

Há duas maneiras de reagir à ideia de que as preferências de um agente  são necessariamente consistentes com a teoria da UE, com as implicações acima  mencionadas para o que o agente pode desejar:

● Pode­se resistir à alegação, afirmando que há restrições  adicionais no conteúdo das preferências de um agente. 

Por um lado, pode haver restrições empíricas pelas  quais o conteúdo das preferências é determinado por  alguma ponderação entre adequação e simplicidade  na representação da “rede” mais ampla de atitudes de  preferência  do  agente.  Por  outro  lado,  pode  haver  restrições normativas com relação a quais tipos de  resultados um agente pode razoavelmente discriminar. 

Para uma discussão relevante, confira os trabalhos  de Tversky (1975), Broome (1991a, 1993), Pettit (1993),  Dreier (1996), Guala (2006) e Vredenburgh (2020).

● Pode­se, alternativamente, abraçar a reivindicação,  interpretando a teoria da UE não como um padrão  contra o qual um agente pode passar ou falhar, mas  sim como um princípio organizador que permite a  caracterização dos desejos de um agente, bem como  suas crenças (vide GUALA, 2008).

De qualquer forma, pode­se argumentar ainda que a teoria da UE não vai  longe o suficiente ao estruturar as atitudes de preferência de um agente de tal modo  que possamos entender as razões dessas atitudes de preferência. Dietrich e List 

(2013, 2016a) propuseram um quadro mais geral para preencher essa lacuna. Em  seu  quadro,  as  preferências  que  satisfazem  algumas  restrições  mínimas  são  representáveis enquanto dependentes do pacote de propriedades em termos dos  quais  cada  opção  é  percebida  pelo  agente  em  um  determinado  contexto. As  propriedades podem, por sua vez, ser categorizadas como propriedades de opção  (que são intrínsecas ao desfecho), propriedades relacionais (que dizem respeito  ao desfecho em um contexto específico) ou propriedades de contexto (que dizem  respeito ao contexto da própria escolha). Tal representação permite uma análise  mais detalhada das razões das preferências de um agente e captura diferentes  tipos de dependência de contexto nas escolhas de um agente. Além disso, ela  permite  restrições  explícitas  sobre  o  que  conta  como  uma  razão  legítima  de  preferência, ou, em outras palavras, quais propriedades legitimamente apresentam  em  uma  descrição  do  resultado;  tais  restrições  podem  ajudar  a  esclarecer  os  compromissos normativos da teoria da UE.

Há, também, modelos menos gerais que oferecem exemplos para entender  as razões subjacentes às preferências. Por exemplo, a estrutura (framework) de  decisão de múltiplos critérios (vide KEENEY; RAIFFA, 1993) considera a ordenação  geral de preferências de um agente sobre opções como um agregado do conjunto  de  ordenações  de  preferências  a  qual  correspondente  a  todas  as  dimensões  pertinentes de valor. Sob certas suposições, a ordenação geral ou agregada de  preferências é compatível com a teoria da UE. Pode­se procurar entender o papel  do tempo, ou a posição temporal dos bens, sobre as preferências. Para isso, os  resultados são descritos em termos de feixes (bundles) de bens temporalmente  indexados, ou fluxos de consumo. Para um modelo inicial deste tipo, confira Ramsey  (1928); um tratamento posterior mais influente é o de Koopmans (1960). Pode haver  uma estrutura sistemática para as preferências de um agente em relação a esses  fluxos de consumo, além da estrutura imposta pelos axiomas de preferência da UE. 

Por exemplo, os autores supracitados consideraram e caracterizaram preferências  que exibem descontos temporais exponenciais.

Vamos agora ao tipo de crítica oposta: que as restrições limitadas que a  teoria  da  UE  impõe  à  preferência  e  ao  desejo  racionais  são,  por  outro  lado,  excessivamente restritivas. Aqui, o foco será a compatibilidade da teoria da UE com  posições éticas proeminentes em relação à escolha dos atos, bem como posições  metaéticas quanto à natureza do valor e à sua relação com a crença.

Pode­se muito bem perguntar se a teoria da UE, e na verdade a teoria da  decisão em geral, é neutra no que diz respeito à ética normativa, ou se é compatível 

apenas com o consequencialismo ético, dado que a classificação de um ato é  totalmente determinada pela utilidade de seus possíveis resultados. Tal modelo  parece estar em desacordo com teorias éticas não consequencialistas, para as  quais a escolha de atos supostamente depende de outras coisas além do valor  moral de suas consequências. O modelo não parece capaz de acomodar noções  deontológicas básicas como a relatividade de agentes, proibições absolutas, ou  atos permissíveis, mas sub­ótimos.

Uma resposta inicial, no entanto, é que não se deve extrapolar demais a  partir dos conceitos formais da teoria da decisão. A medida de utilidade sobre atos  e resultados é simplesmente uma maneira conveniente de representar uma ordenação,  e deixa muito espaço para diferentes maneiras de identificar e avaliar resultados. 

Assim como a função de utilidade de um agente não precisa ser insensível às  considerações  éticas  em  geral  (um  equívoco  comum  devido  à  prevalência  de  preferências egoístas em modelos econômicos; consulte o trabalho de Sen, de  1977), ela também precisa ser insensível a considerações éticas especificamente  deontológicas ou não consequencialistas. Tudo depende de como os atos e seus  resultados são distinguidos e avaliados. Para começar, o caráter de um ato pode  ser uma propriedade de todos os seus resultados possíveis. Além disso, pode ser  relevante se um evento ocorre, ou se é perpetrado especificamente pelo agente  tomador de decisão ou outra pessoa. O fato de um ato envolver mentira, digamos,  pode ser referenciado em todos os resultados possíveis do ato e, além disso, essa  mentira por parte do agente de decisão pode ser distinguida da mentira de outros. 

Em geral, os atos e seus resultados podem ser distinguidos de acordo com o que  quer que seja moral, seja isso uma propriedade relacional complexa associada a  como e quando o ato é escolhido, por quem e/ou de que forma algum estado de  coisas resulta do ato. Para discussões iniciais sobre como uma ampla gama de  propriedades éticas pode ser acomodada na descrição de atos e resultados, consulte,  por exemplo, Sen (1982), Vallentyne (1988), Broome (1991b) e Dreier (1993). Desde  então, essa ideia tem sido adotada por outros associados ao chamado programa  de “consequencialização”, incluindo Louise (2004) e Portmore (2007). A ideia é que  o conselho normativo de teorias éticas supostamente não consequencialistas pode  ser representado em termos de uma classificação de atos/resultados correspondentes  a alguma função de valor, como ocorre com teorias éticas consequencialistas (ver  também Colyvan et al. 2010).

Um ponto crítico para reconciliar a teoria da decisão com todas as formas  de não consequencialismo é a dificuldade em acomodar proibições absolutas ou 

condições restritivas (side­constraints), confira Oddie e Milne (1999), Jackson e  Smith (2006). Por exemplo, suponha que haja uma proibição moral de matar uma  pessoa inocente, não importa o que esteja em jogo. Talvez tal restrição seja melhor  modelada em termos de uma classificação lexical e da função de valor correspondente,  na qual o status de “matar inocentes” de um ato ou resultado acaba tendo prioridade  na determinação de sua classificação ou valor relativo. Mas isso tem implicações  contraintuitivas em face do risco, uma vez que muitos atos terão alguma chance,  embora pequena, de matar um inocente. A lição aqui pode ser simplesmente que  as teorias em questão requerem desenvolvimento; qualquer teoria ética madura  nos deve uma explicação de como agir sob risco ou incerteza. O que é indiscutivelmente  um  desafio  mais  convincente  para  reconciliar  a  teoria  da  decisão  com  o  não  consequencialismo  é  a  acomodação  de  “opções  centradas  no  agente”  e  a 

“supererrogação” associada. Portmore (2007) e Lazar (2017) oferecem propostas  nesse sentido, as quais apelam (de maneiras diferentes) para a classificação moral  de atos/resultados como distintos dos custos pessoais para o agente de perseguir  esses atos/resultados.

Na medida em que a teoria da decisão pode ser reconciliada com toda a  gama de teorias éticas, deveríamos dizer que não há distinções significativas entre  essas teorias? Brown (2011) e Dietrich e List (2017) demonstram que, de fato, a  representação teórica da escolha de teorias éticas facilita melhor as distinções entre  elas; termos como “(não) consequencialismo” podem ser definidos com precisão,  embora de maneiras discutíveis. De forma mais geral, podemos catalogar teorias  em  termos  dos  tipos  de  propriedades  (sejam  intrínsecas  ou  em  algum  sentido  relacionais) que distinguem atos/resultados e, também, em termos da natureza da  classificação  de  atos/resultados  que  eles  produzem  (seja  transitiva,  completa,  contínua e assim por diante). Isso também serve para revelar desvios da teoria da UE.

Na verdade, alguns dos contraexemplos mais convincentes aos axiomas  de preferência da UE baseiam­se em considerações éticas. Lembre­se de nossa  discussão anterior sobre os axiomas básicos de ordenação na Seção 1. O axioma  da transitividade foi desafiado pelo apelo a exemplos eticamente motivados de  ciclos de preferência (vide TEMKIN, 2012). A noção de uma ordenação lexical não  contínua  foi  mencionada  acima  em  relação  às  condições  restritivas  éticas.  A  dispensabilidade do axioma da Completude também é frequentemente motivada  pelo apelo a exemplos envolvendo valores éticos concorrentes entre os quais é  difícil ponderar, como bem­estar médio versus total. Outros exemplos sugestivos  contra a Completude envolvem noções concorrentes de bem­estar pessoal (vide 

LEVI, 1986; CHANG, 2002). Um agente racional deve ter uma preferência definida  entre, digamos, duas opções de carreira que pesam em direções diferentes no que  diz respeito às oportunidades de autoexpressão criativas versus serviço comunitário  (talvez uma carreira na dança versus uma carreira praticando medicina em regiões  remotas)? Observe que alguns desses desafios à teoria da UE são discutidos com  mais profundidade na Seção 5 abaixo.

Finalmente, voltamo­nos para os potenciais compromissos meta­éticos da  teoria da UE. David Lewis (1988, 1996) empregou a teoria da UE para argumentar  contra o anti­Humeanismo, a posição de que às vezes somos movidos inteiramente  por nossas crenças sobre o que seria bom, ao invés de sermos por nossos desejos,  como afirmam os Humeanos. Ele formulou a teoria anti­Humeana como postulando  uma conexão necessária entre, por um lado, o desejo de um agente em relação  qualquer proposição A, e, por outro lado, sua crença em uma proposição sobre o  quanto A é bom; e alegou provar que quando tal conexão é formulada em termos  da  teoria  da  UE,  o  agente  em  questão  será  dinamicamente  incoerente.  Várias  pessoas criticaram o argumento de Lewis. Por exemplo, Broome (1991c), Byrne e  Hájek (1997) e Hájek e Pettit (2004) sugerem formulações do anti­Humeanismo  que são imunes às críticas de Lewis, enquanto Stefánsson (2014) e Bradley e  Stefánsson (2016) argumentam que a demonstração de Lewis se baseia em uma  suposição falsa. Não obstante, o argumento de Lewis sem dúvida provocou um  debate interessante sobre os tipos de conexões entre crença e desejo que a teoria  da UE permite. Além disso, existem outras questões de relevância metaética que  se pode investigar a respeito do papel e da estrutura do desejo na teoria da UE. 

Por exemplo, Jeffrey (1974) e Sen (1977) oferecem algumas investigações preliminares  sobre se a teoria pode acomodar desejos/preferências de ordem superior e, em  caso afirmativo, como eles se relacionam com os desejos/preferências de primeira ordem.

No documento Filosofia da Economia (páginas 155-160)