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1.2 DELIMITAÇÃO POSITIVA DO PRECEDENTE

1.2.2 O rol do artigo 927 do Código de Processo Civil

A redação do artigo 927 do CPC53 indica em seu caput o dever de juízes e Tribunais de “observar”: a) decisões do Supremo Tribunal Federal nos processos de controle concentrado de constitucionalidade; b) enunciados de súmula vinculante; c) acórdãos em julgamento de demandas repetitivas e assunção de competência; d) enunciados das súmulas do Supremo Tribunal Federal em matéria constitucional e do Superior Tribunal de Justiça em matéria infraconstitucional; e, e) a orientação do plenário ou órgão especial aos quais estiverem vinculados.

A proposição legislativa entabula muito da chamada “doutrina brasileira do precedente”, pois se mostra mais comprometida com a resolução das demandas massificadas (e todas as ocorrências de gestão de processos derivadas destes conflitos) do que com a racionalidade (e coercibilidade argumentativa) dos provimentos jurisdicionais dos Tribunais54. Em leitura aparente, a pretensão legiferante é formalizar um sistema de decisões e instrumentos judiciais

53 Art. 927. Os juízes e os tribunais observarão:

I - as decisões do Supremo Tribunal Federal em controle concentrado de constitucionalidade; II - os enunciados de súmula vinculante;

III - os acórdãos em incidente de assunção de competência ou de resolução de demandas repetitivas e em julgamento de recursos extraordinário e especial repetitivos;

IV - os enunciados das súmulas do Supremo Tribunal Federal em matéria constitucional e do Superior Tribunal de Justiça em matéria infraconstitucional;

V - a orientação do plenário ou do órgão especial aos quais estiverem vinculados.

§ 1º Os juízes e os tribunais observarão o disposto no art. 10 e no art. 489, § 1, quando decidirem com fundamento neste artigo.

§ 2º A alteração de tese jurídica adotada em enunciado de súmula ou em julgamento de casos repetitivos poderá ser precedida de audiências públicas e da participação de pessoas, órgãos ou entidades que possam contribuir para a rediscussão da tese.

§ 3º Na hipótese de alteração de jurisprudência dominante do Supremo Tribunal Federal e dos tribunais superiores ou daquela oriunda de julgamento de casos repetitivos, pode haver modulação dos efeitos da alteração no interesse social e no da segurança jurídica.

§ 4º A modificação de enunciado de súmula, de jurisprudência pacificada ou de tese adotada em julgamento de casos repetitivos observará a necessidade de fundamentação adequada e específica, considerando os princípios da segurança jurídica, da proteção da confiança e da isonomia.

§ 5º Os tribunais darão publicidade a seus precedentes, organizando-os por questão jurídica decidida e divulgando-os, preferencialmente, na rede mundial de computadores.

cujos resultados são dotados de força coercitiva por circunstâncias formais estabelecidas pelo direito positivo55.

De maneira abstrata – em significação prima facie –, por conta do enunciado do artigo 927 do CPC, diversas decisões judiciais já surgem ostentando o caráter vinculante, independentemente de critérios de racionalidade, integridade ou coerência nela contidos56. É preciso entender, neste excerto do trabalho, três questões: a) quais os deveres decorrentes de “observar” estes enunciados judiciais; b) se apenas as decisões elencadas neste rol podem vincular; e, c) se alguma decisão proferida neste rito ficará alijada da eficácia/capacidade vinculante.

Há uma percepção de que o magistrado deve decidir a demanda com liberdade; Teresa Wambier ressalta que esta liberdade não é conferida individualmente a cada juiz, porém outorgada – pelo sistema jurídico – ao Judiciário, mediante a dotação de capacidade de interpretar os enunciados normativos e fazê-los incidir nos casos que são levados à sua análise57. E é partindo desse pressuposto que o termo legislado “observar” deve ser entendido. Conquanto o Judiciário seja detentor de independência para resolver as lides, não pode o juiz singular descurar das decisões emanadas por aqueles órgãos judicantes aos quais se encontra vinculado: permitir que o magistrado simplesmente releve58 uma decisão do Supremo Tribunal Federal equivale a retirar do plano judicial qualquer método de coerência.

Observar deve ser compreendido como o dever de considerar (efetivamente levar em conta) a enunciação sistêmica realizada por algum dos instrumentos arrolados no artigo 927 do CPC. Percebido que aquelas manifestações foram promovidas mediante uso da capacidade interpretativa – e, assim, (re)construtiva – da jurisdição, os juízes e Tribunais devem

entendê-55 Eduardo Cambi e Renê Hellman apontam a capacidade dos precedentes de – ao mesmo tempo que buscam conferir maior racionalidade na prestação judicial – serem instrumentos hábeis à promoção de efetividade e celeridade no julgamento dos processos, uma vez que um sistema estruturado de vinculação aos precedentes tem aptidão de evitar/minorar o fenômeno da jurisprudência lotérica (que impõe à parte vencida o ônus de procurar, mediante recurso, a conformação da decisão no sentido da uniformidade dos provimentos jurisdicionais), que – ao cabo – resulta na postergação indevida do julgamento/resolução da causa. Não obstante, os autores indicam cautela no uso dos institutos processuais correlatos, para que se evitem confusões e, no mesmo diapasão, impeça-se que estas ferramentas (por conta da falta de compreensão) atrapalhem no curso e gestão dos processos. Para aprofundamento na temática confira: CAMBI, Eduardo; HELLMAN, Renê Francisco. Precedentes e dever de motivação das decisões judiciais no Novo Código de Processo Civil. Revista de Processo. São Paulo, v. 231, p. 413-438, mar. 2015, p. 414-415.

56 ABBOUD, op. cit., p. 405.

57 WAMBIER, Teresa Arruda Alvim. A vinculatividade dos precedentes e o ativismo judicial – paradoxo apenas aparente. In: DIDER JR., Fredie et al. (coord.). Precedentes. 2. ed. Salvador: Juspodivm, 2016, p. 264-265.

58 O termo “relevar” indica a desconsideração da decisão; ou seja, que ela não foi seguida e o magistrado tampouco realizou o distinguishing (sempre legítimo no curso de uma demanda processual) – significa que o agente comunicante rejeitou a inserção do enunciado judicial no ordenamento jurídico, desrespeitando os deveres de integridade e coerência. Por mais uma vez ressalta-se: não é lícito que o juiz decida ignorar o precedente formado pelo devido processo legal.

las como estruturas dotadas da codificação de lícitas59 e usá-las na resolução das demandas, sempre que o comando for compatível com a situação apresentada.

Não há uma proibição de se interpretar o enunciado inserido por um daqueles métodos (não haveria sequer como [re]construir a norma e aplicá-la na solução de demanda se houvesse essa vedação), o que fica claro é a “obrigatoriedade de os juízes e tribunais utilizarem os provimentos vinculantes na motivação de suas decisões para assegurar não apenas a estabilidade, mas a integridade e a coerência da jurisprudência”60.

Os deveres de “observar” podem ser assim sumarizados: a) se a situação enfrentada pelo magistrado se amoldar ao suporte fático da norma surgida do precedente, haverá necessária vinculação e submissão; b) contudo, se não existir essa correspondência, o juiz possui a obrigação de explicitar as diferenças e motivar a não aplicação da norma vinculante; e, c) veda-se que haja a simples desconsideração dos enunciados vinculantes (até mesmo no caso de

overruling haverá o reconhecimento do precedente inicial).

No que concerne à segunda questão analisada neste tópico, parte-se de uma ótica textual: não há na redação positivada qualquer enunciação direta que vede a observância (com os deveres acima indicados) de outras decisões judiciais. O que a interpretação do texto do artigo 927 aduz é que aquele rol deve ser compreendido como vinculante. Isto não quer dizer, contudo, que somente aquele elenco será dotado desta pujança; a percepção que deve surgir é que o texto serve de veículo a uma proposição permissiva, que confere a outras decisões esse mesmo potencial vinculante.

No subitem anterior foram delineados os deveres de integridade e coerência; estas obrigações não se dirigem apenas às decisões indicadas no art. 927, porém a todo o plexo de provimentos judiciais. Neste diapasão, qualquer decisão judicial tem a capacidade de tornar-se um precedente e vincular – ou gerar “dever de observância” – atos judiciais. A principal diferença reside no fato de que as decisões não constantes daquele rol podem tornar-se vinculantes, enquanto as daquele elenco – ao menos numa perspectiva inicial – surgem com esta força de vinculação. Umas nascem para vincular; as outras, contingencialmente, adquirem a qualidade de vinculantes (quando reconhecidas como efetivos precedentes – independentemente do rito adotado para a sua prolação).

59 Não obstante, em casos como o overruling, pode haver uma mudança dessa codificação em certas estruturas semânticas, transformando aquele elemento do sistema em ilícito (v.g. vedar-se a aplicação do precedente após a superação deste, a contar da publicação do acórdão atual – a proposição outrora firmada como lícita deixa de sê-la e recebe nova codificação, com modusê-lação temporal).

Resta tratar sobre a possibilidade de uma decisão, mesmo que pertencente àquele conjunto/rol enunciado, seja prolatada sem a capacidade de vincular. Isto é, se todas os instrumentos ali presentes serão vinculantes sempre ou se existe exceções àquela estipulação legislativa.

Para se abordar este assunto é mister tecer comentários acerca da eficácia. Entende-se por eficácia a “capacidade do fato de produzir relações jurídicas, do que pode ser dividida em: eficácia jurídica, técnica (sintática: positiva ou negativa; e semântica) e social”61. Um mesmo fato pode dar azo a diversas relações/normas jurídicas; ater-se-á àquelas ligadas à capacidade de se vincular provimentos judiciais futuros, ou seja, com a pretensão prospectiva das decisões judiciais. Verificar-se-á a eficácia técnica (viabilidade de produção de normas jurídicas advindas da ocorrência de um evento62) destas manifestações judiciais e a (im)possibilidade existir situações de ineficácia: ocasiões em que, malgrado o fato (enunciação de um dos instrumentos enumerados no art. 927 do CPC) tenha ocorrido, não restará inserida no sistema a possibilidade de (re)construção normativa a partir daquela decisão judicial.

Ordinariamente, as enunciações aduzidas no art. 927 do CPC são tecnicamente eficazes, possibilitando-se que a pretensão de prospectividade delas sirva à (re)construção de normas jurídicas aplicáveis a casos posteriores. Entretanto, ocorrem situações de ineficácia técnico-sintática positiva: evento em que “há uma norma que impede que haja a produção normativa, apesar de não invalidar a regra”63. Vislumbra-se esta possibilidade, por exemplo, na ocasião em que um determinado Tribunal profere acórdão acerca de um incidente de resolução de demandas repetitivas (IRDR) e, tempo depois, o Supremo Tribunal Federal, no julgamento de um recurso extraordinário repetitivo, adota posição contrastante com a do órgão local.

Nesta situação, o Tribunal local não descumpriu comando emanado do STF quando proferiu seu julgamento (sequer havia decisão anterior); assim, a manifestação do Tribunal é entendida como legítima e em conformidade com a ordem jurídica. A Corte Suprema, a seu turno, pode considerar o acórdão do Tribunal local quando do julgamento do recurso extraordinário64, entretanto, por uma questão de hierarquia organizacional, não estará vinculado à proposição normativa oriunda do IRDR. A manifestação do Supremo será, então, um novo evento, que será percebido pelo ordenamento jurídico como uma causa de ineficácia

técnico-61 VITA, op. cit., p. 126.

62 Ibid., p. 126.

63 Ibid., p. 126.

64 Questão que pode ser entendida como concretização dos deveres de observância de integridade e coerência, ainda que a decisão paradigma tenha fonte em Corte hierarquicamente inferior na estrutura judiciária.

sintática positiva que obstará a (re)construção normativa outrora fundamentada na proposição surgida do IRDR.

É necessário notar que a manifestação do Tribunal não se torna nula; a modificação ocorre no plano da eficácia, e não da validade. Ressalta-se: a validade está presente quando a norma se conforma formal e substancialmente às demais estruturas do sistema jurídico – numa relação de imunização com o conjunto que lhe cerca65.

A proposição emanada, quando da prolação pelo Tribunal, estava em consonância com as estruturas formais (o órgão é autoridade legítima para decidir o incidente de resolução de demandas repetitivas) e substanciais (a legitimidade estendia-se à possibilidade daquela manifestação, posto não haver norma em sentido contrário) do sistema, assim, a validade permanece hígida. A despeito de válida, a proposição decorrente do julgamento do incidente de resolução de demandas repetitivas deixa de ser vinculante, pois tem sua eficácia obstada. A manifestação posterior do Supremo Tribunal Federal torna-se causa geradora de ineficácia técnico-sintática positiva à concretização normativa inicial pretendida pela decisão do Tribunal local. Esse referido fenômeno é corolário da função normativa de bloqueio de proposições jurídicas: “normas visam impedir ou cercear a ocorrência de comportamentos contrários a seu preceito”66.

A decisão posterior torna-se um obstáculo à concretização das aspirações da decisão primária. Como a proposição originária permanece válida, caso esta segunda seja nulificada, extingue-se o objeto que lhe impedia a (re)construção normativa; neste cenário, a primeira proposição jurídica – advinda do IRDR – teria a si novamente outorgada a aptidão técnica de servir de enunciado vinculante às manifestações jurisdicionais.

Diante deste exemplo nota-se o seguinte: a) as enunciações enumeradas no art. 927 do CPC gozam de presunção relativa (um dever prima facie) de eficácia vinculante; b) em situações pontuais, estes eventos podem ter afetada a sua eficácia técnica, obstando que deles resultem (re)construções normativas vinculantes; c) as situações de ineficácia técnica não atingem a validade da proposição jurídica que deixou de ser vinculante.

A situação de possível ineficácia e, assim, ausência de força vinculante do precedente ou enunciação, demonstra mais uma vez a importância de o magistrado agir com fundamento nos deveres de integridade e coerência. Agir deste modo pode, inclusive, apontar pela não aplicação de um destes precedentes vinculantes – quando restar justificado que a sua eficácia se encontra obstada.

65 FERRAZ JR., Tercio Sampaio. Introdução ao estudo do direito. 10. ed. São Paulo: Atlas, 2018, p. 206-208.

Assentadas as premissas sobre a percepção do rol legislativo do artigo 927 do Código de Processo Civil, o próximo tópico do trabalho se destina ao exame do que efetivamente (se) vincula das manifestações judiciais: qual(is) ponto(s) daqueles – por vezes, bastante extensos – provimentos judiciais conformarão as atividades futuras dos demais membros do Judiciário; parte-se à pesquisa da ratio decidendi.