2 O FUNCIONAMENTO DO DISCURSO RELIGIOSO E O TRABALHO
2.3 O Sujeito Dizimista
Figura 1 - “As portas do céu estão abertas para o dizimista fiel...”
Fonte: http://www.jornalrecomeco.blogspot.com
As campanhas para estimular a manutenção e o fortalecimento do pagamento mensal de dez por cento dos rendimentos do fiel, ou seja, para torná-lo “dizimista fiel” polarizam as motivações em dois eixos principais que incidem sobre o dizimista. Um que constrói a imagem do doador atribuindo-lhe qualidades consideradas positivas, tais como alegria, abundância, benção divina e outro que impõe restrições ao não pagante, como, por exemplos, receio de ser “amaldiçoado”, de parecer “avarento”. Dessa forma, o texto do cartaz acima impõe ao fiel a obrigação de pagamento do dízimo devido ao receio de perder/não ir para o céu que lhe atravessa a identidade.
A seguir, no quadro 1- Campanha do Dízimo, denominada de “Sou dizimista porque...”estão dez motivos para ser dizimista, retirados de um rol de mais de vinte e cinco motivos, segundo campanha sobre o dízimo. Na primeira coluna está o motivo que, de acordo com a campanha, o fiel tem para ser dizimista. Na segunda, a referência bíblica, ou seja, que, de acordo com o sujeito enunciador serve de referência para o motivo e na terceira coluna, está a citação bíblica retirada do Velho e do Novo Testamentos. Portanto, na tabela abaixo, cada um dos dez enunciados da primeira coluna é parte de um texto sobre os muitos motivos que um fiel tem para ser dizimista que funcionam como um discurso cujo sujeito enunciador o profere para outro fiel. Nestes enunciados, mais uma vez, os sentidos construídos são endereçados ao sujeito identificado com a formação discursiva religiosa.
Quadro 1 – Campanha do Dízimo
“Sou dizimista porque...”
Motivo Referência Citação bíblica
O dízimo é santo Lv 27.32 No tocante a todas as dízimas do gado e do rebanho, tudo o que passar debaixo da vara, o dízimo será santo ao SENHOR. Eu quero benção sem
medida
Ml 3.10 Trazei todos os dízimos à casa do tesouro, para que haja mantimento na minha casa, e depois fazei prova de mim nisto, diz o SENHOR dos Exércitos, se eu não vos abrir as janelas do céu, e não derramar sobre vós uma bênção tal até que não haja lugar suficiente para a recolherdes.
Não quero ser amaldiçoado Ml 3.9 Com maldição sois amaldiçoados, porque a mim me roubais, sim, toda esta nação.
Deus é dono de Tudo Sl 24.1 DO SENHOR é a terra e a sua plenitude, o mundo e aqueles que nele habitam.
Deus ama ao que dá com alegria
2 Co 9.7 Cada um contribua segundo propôs no seu coração; não com tristeza, ou por necessidade; porque Deus ama ao que dá com alegria.
Tudo vem das mãos de Deus
1 Cr 29.14 Porque quem sou eu, e quem é o meu povo, para que pudéssemos oferecer voluntariamente coisas semelhantes? Porque tudo vem de ti, e do que é teu to damos.
Não sou avarento 1Tm 6.18 Que façam bem, enriqueçam em boas obras, repartam de boa mente, e sejam comunicáveis.
Meu rico tesouro está nos céus
Mt 6.19-21 Não ajunteis tesouros na terra, onde a traça e a ferrugem tudo consomem, e onde os ladrões minam e roubam (19);
Mas ajuntai tesouros no céu, onde nem a traça nem a ferrugem consomem, e onde os ladrões não minam nem roubam (20). Porque onde estiver o vosso tesouro, aí estará também o vosso coração (21).
Tudo peço recebo Mt 7.7-9 Pedi, e dar-se-vos-á; buscai, e encontrareis; batei, e abrir-se- vos-á (7);
Porque, aquele que pede, recebe; e, o que busca, encontra; e, ao que bate, abrir-se-lhe-á (8);
E qual de entre vós é o homem que, pedindo-lhe pão o seu filho, lhe dará uma pedra? (9)
Obedeço a Deus At 5.29 Porém, respondendo Pedro e os apóstolos, disseram: Mais importa obedecer a Deus do que aos homens.
Fonte: Autora, 2010.
A campanha não se propõe a colocar em discussão a validade do dízimo; sua intenção é tornar o fiel um dizimista e/ou manter como dizimista aquele que o é. Para isso usa como principal recurso a relação entre o dinheiro – a contribuição - e a vida espiritual, afirmando-a como sendo pertencente a Deus, o qual abrirá as portas do céu para aquele que for um fiel quanto ao pagamento do dízimo que será recompensado com o ‘bem’. O discurso do dízimo é intermediado pela palavra divina, dizendo-o tão sagrado como o louvor a Deus, como o afirmam dois motivos dados acima para ser dizimista: “Deus ama ao que dá com alegria”, “tudo vem das mãos de Deus”.
As campanhas para motivar o fiel a tornar-se e, depois, a continuar sendo um dizimista atingem valores socioafetivos fundamentais para os religiosos, tais como a família; valores que também são utilizadas como elementos de sensibilização para a máxima ser/sou dizimista.
O discurso que estende para a família as consequências pelo não-pagamento do dízimo, formulado no cartaz abaixo como “quando não se é fiel, toda a família sente as consequências...” suspende o enunciado que, conforme Orlandi (2005, p. 121) a ajuda das reticências significam “signos de silêncio, presença de uma ausência anunciada”, deixando a critério do fiel a formulação dos sentidos sobre quais serão as consequências.
Assim, como uma ausência-presença se pode construir um enunciado correlato sobre o dízimo: ‘quando não se realiza o pagamento do dízimo, toda a família sente o desagrado de Deus’ cujo significado é similar a uma ameaça a que não apenas o ‘infiel’ (não-pagante) está propenso a sofrer, mas toda a sua família. Isto confere ao não pagamento do dízimo um sentimento de pecado que deve ser punido e que redunda no desejo de ‘redenção’ por parte do fiel, praticando o que com Bourdieu (2005, p. 33) se pode chamar de “a transfiguração das relações sociais em relações sobrenaturais”.
Figura 2 - Dízimo
Fonte: http://www.dumbofm.com.br
Em livro36 confessional que se propõe a responder às dúvidas do fiel sobre a prática do dízimo, o autor conclui – e a tal conclusão também deve chegar o fiel – que “a contribuição cristã tem que ser voluntária, metódica e proporcional aos seus rendimentos”, alertando que “se o cristão resolver contribuir com mais, está correto, mas se resolver contribuir com menos está errado, pois a Bíblia estipula o mínimo de dez por cento.” (LIMA, 1998, p. 92). Portanto ser dizimista de forma voluntária, metódica e proporcional aos rendimentos é um privilégio,
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podendo vir a ser uma fonte de bençãos e vitórias pessoais, caso ele o faça com o rigor necessário. O léxico privilégio, que é utilizado pelo autor, alude a três privilégios, quais sejam: o privilégio de imitar a Deus, o privilégio de imitar a Jesus e o privilégio de cooperar com a igreja que são exclusividade do dizimista fiel e dos quais o não-dizimista ficará privado, segundo Lima (1998).
Assim, para fazer funcionar os sentidos, o sujeito do discurso religioso que aciona o discurso sobre o pagamento do dízimo evoca a onipotência divina, deixando ao fiel comum a responsabilidade pelas consequências sobre a “injustiça” e “trapaça” (LIMA, 1998, p. 96) cometidas pelo não-pagamento do dízimo. Nessa compreensão, o temor pelas restrições designadas pelo homem e atribuídas a Deus – medo de ser amaldiçoado, de parecer avarento, por exemplos - impostas ao não-pagante serve como forte e definitivo recurso para a manutenção da contribuição mensal do dízimo.
Esse discurso é reforçado por outro que determina a finalidade da utilização das contribuições, cujo resultado é remetido para as organizações que são filiadas às igrejas e são utilizadas “em prol da manutenção da obra [de Deus]” (LIMA, 1998, p. 95), que deve ser repassada sob a forma de auxílio/sustento para o missionário, por exemplo, dentre outros destinos, pois “o cristão deve fazer a sua parte entregando o dízimo a quem de direito e o ministro, por seu turno, obriga-se a dar o melhor destino ao que chega às suas mãos, ou seja, cada um deve se limitar à área de sua competência” (LIMA, 1998, p. 94).
Além disso, de acordo com o enunciado do cartaz, ser dizimista significa a construção do sentido da fidelidade a Deus, resultado do agradecimento e retribuição do fiel que se orgulha do privilégio em realizar a doação mensalmente, como indica alguns dos muitos motivos acima, (“sou dizimista porque...”, recortados de uma das campanhas) que têm um fiel para ser dizimista. O sentido atribuído a ‘ser dizimista’ alimenta a crença de que o crente não terá direito ao paraíso nem à proteção divina, caso não haja a submissão ao amor e às leis de Deus, que o condicionam ao cumprimento da contribuição, segundo o discurso que é proferido, em nome de Deus.
Em última instância, segundo sugere o discurso do dízimo, ser dizimista, realizar o pagamento de 10% (dez por cento) dos seus rendimentos, significa, para o fiel comum, esperança do reconhecimento de Deus. Mas, para o sujeito que o profere, o discurso de contribuição do dízimo funciona como um passaporte para que ele possa lidar com a “gestão
dos bens de salvação” (BOURDIEU, 2005), isto é, para que ele possa gerir o dízimo, ou seja, suas formas de arrecadação, controle e distribuição.