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CAPÍTULO II A Escola Básica do 1 º Ciclo 42 

2.  A Escola Básica do 1.º Ciclo 46 

2.1 A sedimentação histórica da Escola Básica do 1.º Ciclo em Portugal 46 

2.1.2 O terceiro quartel do século XVIII 1750 a 1782 50 

No início da segunda metade do século XVIII, D. José recebe em mãos a regência de uma nação onde inegáveis fundações no domínio da cultura artística apresentavam-se conjuntamente com uma situação financeira precária, para a qual contribuíra a existência luxuosa dos reinados anteriores. Ribeiro e Cidade (2004) salientam a estagnação do comércio e da agricultura, os desperdícios da fazenda régia, a insurgência silenciosa do descontentamento popular e a presença de meandros de intriga entre corporações religiosas como as características do Portugal de então.

Na égide de um país governado através de três secretarias de Estado: a dos Negócios do Reino, a da Guerra e Negócios Estrangeiros, e a da Marinha e Ultramar, D. José I enfrentaria, desde a sua tomada de posse, dificuldades políticas acentuadas.

O plano de reorganização económica e o consequente favorecimento das trocas comerciais entre os colonos da América do Sul, trouxe consigo o desagrado e protesto da Companhia de Jesus que viu limitada a sua acção missionária. A Companhia passaria a constituir um adversário, político e social de renome.

A 1 de Novembro de 1755 acontece o terramoto em Lisboa.

Todo o processo de reconstrução da capital do país cimenta “a aliança do rei com o seu primeiro-ministro”, Sebastião de Carvalho e Melo. Os interesses feridos pelas políticas por si adoptadas, pelo anseio na reaquisição de antigas influências, manifestam-se secretamente. A atmosfera política adensa-se espantosamente a partir de 1757, tendo culminado no atentado régio de 3 de Setembro de 1758. Desse incidente surtiu a condenação à morte de elementos da nobreza implicados, bem como o sequestro de todos os bens da comunidade jesuíta. Em Agosto de 1759 verifica-se a ruptura de relações com o Vaticano. A 3 de Setembro desse ano, no primeiro aniversário da tentativa de regicídio, é publicada a lei de expulsão da Companhia de Jesus do país.

A expulsão do ensino jesuítico não significou, todavia, “grande prejuízo para o primeiro grau de ensino”, considerando a existência de uma considerável rede de escolas concelhias e a presença de aulas de mestres particulares, embora tivesse havido “localidades que, a partir daí ficassem sem aula” (Adão, 1997, pp.33-34).

“O período que medeia entre 1759 e 1777 é rico em reformas de administração, como em medidas de fomento. Da interdição aos jesuítas do uso da cátedra, data a vasta e notável reforma do ensino” (Ribeiro e Cidade, 2004, p.62).

Embora não tendo constituído o ponto de partida das escolas públicas de ler e escrever, a reforma dos Estudos Menores, publicada pela Carta de Lei de 6 de Novembro de 1772, no seguimento da lei de 28 de Junho de 1759 (que impunha pela primeira vez uma centralização régia directiva do ensino, com a criação do cargo de Director Geral dos Estudos, a quem todos os professores se subordinariam e a quem competia averiguar o progresso dos estudos, bem como apresentar um relatório anual acerca da situação concreta do ensino, apresentando o que entendesse de conveniente para a sua melhoria e evolução), assumiu a criação de um sistema público estatal de instrução elementar. Como refere Nóvoa (2005, p. 23), “surge, assim, o Estado educador”.

O diploma veio regular a criação de um sistema nacional de instrução pública ao nível do ensino elementar (propondo a criação de uma rede de escolas públicas que abrangessem todo o território nacional), expressando igualmente os princípios da gratuitidade do ensino, custeado pelo Erário Público; indicando a conversão dos mestres em funcionários do Estado, retribuídos pela função pública que desempenham, nomeados e dirigidos pelo poder central; e assumindo, com clareza, a administração estatizada das estruturas escolares. Essa “estatização do ensino vem (…) desapossar os municípios de uma função exercida desde o século XV” (Fernandes, 1998, p.29).

Como consequência da aplicação do “Plano e Cálculo Geral” a todas as comarcas do país, pela análise do respectivo número de habitantes que regularmente possuíssem condições de beneficiar das escolas elementares, criaram-se novos lugares de mestre para todo o reino. Por esta altura,

“encontrámos mestres que tinham entre 20 a 30 alunos, enquanto outros chegavam ao número excessivo de uma centena. O desdobramento de uma aula teve lugar em poucas ocasiões, ainda que esta situação estivesse prevista oficialmente, quando os alunos excedessem os 60, “porque se não houvesse mais que sessenta, basta um [mestre] ” (Adão, 1997, p.335).

A designação das escolas elementares enquanto “escolas de ler, escrever e contar” (empregue oficialmente pela primeira vez no diploma de 4 de Junho de 1771) identificava os conteúdos principais da leccionação, “aos quais havia ainda a acrescentar o ensino tradicional da Doutrina Cristã e as Regras de Civilidade” (idem, p.50). A manutenção da Doutrina Cristã nos conteúdos de ensino revelava a lucidez com que o aparelho governamental observava a influência do catolicismo nas massas populares.

De modo geral, a reforma pombalina do ensino, particularmente do grau elementar, não pretendeu a laicização do ensino. Na verdade, os seus objectivos relativamente à Igreja apenas focalizaram a perda por parte desta da “capacidade de administrar o sistema escolar” até então vigente (idem, p.65), ficando “a Igreja desapossada da tradicional prerrogativa de inspecção e direcção do ensino” (Fernandes, 1998, p.28).

“As reformas pombalinas foram, acima e antes de tudo, uma substituição do controlo da Igreja pela tutela do Estado” (Teodoro, 2001, p.107), verificando-se que o fenómeno de “estatização não é sinónimo de laicização” (Fernandes, 1998, p.28).

Aliás, como refere Barroso (1995a, p.8) “a emergência do processo de escolarização (…) faz-se na continuidade de um processo evolutivo anterior. […] O Estado não inventou a escola. O Estado serve-se das estruturas (…) criadas pelas igrejas (…) reorientando os seus fins e alargando o seu âmbito de acção”.

A perda da influência da Igreja na direcção dos destinos do ensino, não excluiu, contudo, a presença de escolas públicas (sem o estatuto de escola régia) ministradas por algumas ordens religiosas (Adão, 1997). Nas palavras de Fernandes (1998, p.28) “nem o currículo foi expurgado de matérias de religião, nem o clero foi arredado [em absoluto] da profissão docente”.

Todo o movimento reformista da era pombalina subjaz, assim, ao princípio de controlo do ensino por parte do Estado. Uma centralização dos conteúdos do saber, dos processos de recrutamento, dos meios financeiros e dos mecanismos de Administração. “Toda a administração e direcção dos Estudos Menores destes Reinos e seus domínios” são entregues à Direcção Geral dos Estudos e à Real Mesa Censória (que, tal como o Director-Geral dos Estudos, encontrava-se dependente do Ministério do Reino), “atribuindo-lhe igualmente a inspecção de toda a legislação publicada e a publicar” (idem, p.55).

A Carta de Lei de 6 de Maio de 1772 ao mesmo tempo que abria o caminho para o “processo histórico de expansão de uma sociedade de base escolar” (Nóvoa, 2005, p.23), paradoxalmente imporia “os limites de escolarização. […] O sistema escolar não seria acessível em plano de igualdade a todos os sectores sociais” ficando “excluídos todos aqueles que trabalhavam na agricultura e nas artes fabris (…) – sob a alegação de não carecerem das Primeiras Letras, bastando-lhes as “instruções dos párocos”, isto é, o ensino oral do catecismo” (Fernandes, 1998, p.30). Lança-se as bases da escolarização pública, mas lança-se igualmente “as bases de uma escola excludente” (ibidem).

A 24 de Fevereiro de 1777, D. José I falecia. D. Maria I assume a regência do país. De acordo com Ribeiro e Cidade (2004, p.77) o “traço mais vincado da sua fisionomia psíquica era a extrema devoção às práticas religiosas”. Assistir-se- á, assim progressivamente ao reemergir do domínio da nobreza palaciana amparada pela recuperação da influência eclesiástica, ambos traduzindo-se em claro despeito pela acção governativa anterior.

Em 1782, a rainha aceita o pedido de destituição proposto por Sebastião Carvalho e Melo, Marquês de Pombal.

Relativamente ao ensino elementar, Nóvoa (1987, p.180) salienta que “a política educativa desenvolvida pelo reinado de D. Maria I (…) não traz nada de novo, nem de muito interessante (…) esta política inscreve-se mais numa linha de continuidade que numa estratégia de ruptura”, embora se lhe deva a instituição dos primeiros estabelecimentos de ensino gratuitos para o género feminino.