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2. Um Contexto, Um Enigma, e uma Resposta

2.3. A Resposta

2.3.5. O TNR como Comunidade Virtual de Aprendizagem

A próxima característica do TNR a ser analisada é a de organizar-se como comunidade virtual de aprendizagem - CVA. Para tanto, proponho uma análise em partes: primeiramente discutindo o conceito de comunidade; a seguir, analisando o TNR enquanto comunidade de aprendizagem; observando o que caracteriza uma comunidade virtual; e, finalmente, aglutinando os conceitos para chegar à comunidade virtual de aprendizagem.

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Comecemos, então, com o conceito de comunidade. Em uma análise quase que genealógica, Meira et al. nos lembram de que tal termo

se baseia nas vilas existentes na Idade Média, onde as pessoas se organizavam em grupos para habitarem uma área com fronteiras bem definidas. As vilas daquela época eram comumente muradas, autossuficientes economicamente, o conceito de moralidade era compartilhado entre todos, e todos os moradores da vila (insiders) podiam ser facilmente diferenciados dos estrangeiros (outsiders), pois todos se conheciam pelo nome, rosto, e status [...] Toda comunidade é formada por um grupo de pessoas, porém a recíproca não é verdadeira, nem todo grupo se caracteriza numa comunidade. (2011)

Trazendo a discussão para uma análise mais contemporânea, Barab, Kling e Gray (2004), veem

uma comunidade virtual como uma rede persistente e [sócio tecnicamente] sustentada de indivíduos que compartilham e desenvolvem uma mesma base de saberes, crenças, valores, história e experiências, focados em uma prática comum e/ou em uma mesma empreitada.21 (BARAB; KLING; GRAY, 2004. Tradução minha).

Temos, portanto, que uma comunidade é o que encontramos quando temos um ou mais grupos de pessoas - como os membros do TNR - interagindo em torno de um objetivo comum - como a troca de saberes e práticas sobre educação especial na perspectiva inclusiva - enquanto uma prática sustentada – como dito há pouco, de 9 de Março de 2012 à 15 de Maio de 2017, o TNR registrou 29.651 visitas. Sobre Comunidade de Aprendizagem, temos que para Cuthbert, Clarck e Linn (2003) segundo Coll, Bustos e Engel (2010) pode-se defini-las afirmando que “busca propiciar que os membros da comunidade compartilhem suas ideias, construam ideias sobre as opiniões dos outros e melhorem sua própria compreensão.” Souza-Silva e Schommer (2008), utilizando o termo “comunidades de prática”, também parecem tratar do mesmo objeto em análise aqui, já que as descrevem como “um grupo de pessoas que se aglutinam entre si para se

21 N.a.: Original, em Inglês: “we view an online community as ‘a persistent, sustained [socio-technical] network of individuals who share and develop an overlapping knowledge base, set of beliefs, values, history and experiences focused on a common practice and/or mutual enterprise”.

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desenvolverem em um domínio do conhecimento, vinculado a uma prática específica.” (SOUZA-SILVA; SCHOMMER, 2008). Tais grupos, para as autoras, assim como acontece no TNR, só podem ser denominadas como “comunidades de práticas se o engajamento dos seus membros for espontâneo e se existir mútua partilha de conhecimentos vinculados a uma prática determinada” (ibidem). Já Vivacqua e Garcia (2011), também parecendo discutir o mesmo conceito das comunidades de aprendizagem, descrevem as comunidades de prática como aqueles

Grupos de pessoas com interesses compartilhados, que se unem para trocar informação e experiências. [...] A Participação nestas comunidades é fluída, os indivíduos se envolvem de acordo com os seus interesses e tempo disponível. Geralmente estes grupos não têm uma tarefa a realizar, mas compartilham o objetivo de discutir aspectos do seu trabalho ou área de interesse, e constituem recurso valioso para o aprendizado dos participantes. (VIVACQUA; GARCIA, 2011)

Esta definição traz uma questão interessante para a análise aqui proposta: o aprendizado dos participantes. Fica evidente que o TNR parte do entendimento de que a aprendizagem não ocorre apenas na relação professor- aluno. Na verdade, ao remover completamente a figura do professor, o TNR concorda com Gallo quando diz que

A formação do aluno jamais acontecerá pela assimilação de discursos, mas sim por um processo microssocial em que ele é levado a assumir posturas de liberdade, respeito, responsabilidade, ao mesmo tempo em que percebe essas mesmas práticas nos demais membros que participam deste microcosmo com que se relaciona no cotidiano. (GALLO, 2000)

É possível estabelecer clara relação entre esta afirmação e o exposto por Coll, Bustos e Engel:

[...] defende-se que, embora quem aprenda seja a pessoa individualmente considerada, a aprendizagem sempre é feita com os outros e graças aos outros. O construtivismo de orientação sociocultural, ou socioconstrutivismo (Coll, 2001), é o nicho teórico em que aparecem e estão agrupados um bom número desses enfoques, como, por exemplo, a aprendizagem situada, a aprendizagem distribuída, a aprendizagem colaborativa [...]. (2010)

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Com isso, vamos vendo que o TNR, sem professor/mediador, configura- se como uma Comunidade de Aprendizagem no qual todo o processo de crescimento pessoal dá-se em proporção direta ao desenvolvimento e amadurecimento da rede social como um todo.

Tendo esclarecido que o TNR é, enfim, uma Comunidade de Aprendizagem, retomo que se trata de um espaço virtual. Portanto, pode-se dizer que é uma Comunidade Virtual. Este ponto merece destaque porque, como apontam Coll, Bustos e Engel:

as CV não têm uma localização temporal nem espacial e, neste sentido, geralmente são mais intencionais e simbólicas do que as comunidades físicas. A participação não está associada a espaços reais compartilhados, mas ao interesse ou necessidade de

participação de seus membros. As fronteiras espaciais e temporais

são completamente simbólicas [...]. Em segundo lugar, a relação nas CV não se define somente pela proximidade, mas também pelos interesses compartilhados [...]. Em terceiro lugar, o tempo de interação pode ser expandido ou comprimido em comparação com outros tipos de interações; a comunicação via correio eletrônico, por exemplo, pode ser mais rápida do que aquela feita por via postal, porém, é mais lenta do que a comunicação face a face. Em quarto lugar, o espaço que uma CV oferece permite ampliar o tipo, a forma e o volume dos recursos para interagir, incorporando desde ferramentas para a comunicação – fóruns, chats, mensagens instantâneas, videoconferências, etc. – até o uso de imagens para se apresentar e autorrepresentar no grupo (fotografias, uso de avatares). Em quinto lugar, uma CV abre novas possibilidades de interação, da relação com os conteúdos até a relação com os outros indivíduos, passando pelas formas de organizar a distribuição de recursos, auxílios, tarefas e responsabilidades. E, em sexto e último lugar, as ideias apresentadas e compartilhadas pelos participantes podem ser acumuladas, [...] de modo que possam ser armazenadas, adquirindo assim uma “permanência” e um nível de reciprocidade que não ocorre em outros tipos de interação. (2010. Grifo meu.) O TNR, enquanto ambiente virtual programado para comunicação assíncrona e troca de materiais de interesse, incorpora totalmente estas seis características descritas pelos autores. Howard Rheingold (2000), mais sucintamente, esclarece que

Comunidades virtuais são agregados sociais que emergem da internet quando um número suficiente de pessoas se engajam em discussões públicas por tempo suficiente, com certo sentimento

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humano, para estabelecerem redes de relacionamentos pessoais no ciberespaço22. (RHEINGOLD, 2000)

Ora, o que já foi dito até aqui acerca do TNR demonstra tratar-se de um espaço para “discussões públicas” (ibidem). De fato, as produções mediatizadas pelo TNR são totalmente abertas para que todos os membros da rede as vejam.

Convido o leitor a observar, na análise dos dados produzidos pelos membros da rede que apresento nos próximos capítulos, que tal debate público – porém restrito ao membros do TNR - leva, afinal, ao estabelecimento de relacionamentos pessoais no ciberespaço. Por sinal, discutindo o desenvolvimento prático das Comunidades Virtuais, Henrique Antoun apresenta uma linha argumentativa bastante coerente com que venho tentando expor, quando diz que:

Fundadas na lógica de que o participante agrega a informação ou conhecimento que possui para o debate, tendo como contrapartida todas as informações e conhecimentos dos demais membros, as comunidades virtuais produziram inumeráveis serviços de comunicação nos quais o conhecimento que se faz através das demandas e das ofertas dos usuários se traduz em valores e confiança. (ANTOUN, 2004)

Isto dito, fica evidenciado que o TNR pode, afinal, ser descrito como uma Comunidade Virtual - CV. Aglutinando os últimos conceitos apresentados - de comunidades, de CAs e de CVs - chegamos aos fatores que permitem definir Comunidades Virtuais de Aprendizagem - CVA:

são três: a escolha da aprendizagem como objetivo explícito da comunidade; o uso que elas promovem das ferramentas tecnológicas, tanto para trocar informação e comunicar-se quanto para promover a aprendizagem; e o uso das potencialidades dos recursos tecnológicos para o exercício da ação educacional intencional. (COLL; BUSTOS; ENGEL 2010)

Cabe ressaltar, porém que o TNR não é exatamente “reformista”, diferente do apontado também por Coll, Bustos e Engel (2010) comentando as CVAs. A proposta apresentada parece mais uma nova perspectiva em educação

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N.a.: Original, em inglês: Virtual communities are social aggregations that emerge from the Net when enough people carry on those public discussions long enough, with sufficient human feeling, to form webs of personal relationships in cyberspace.

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continuada a distância do que uma reforma de estruturas já dadas. Ora, uma proposta sem professores/intermediadores, sem currículo, sem avaliações, sem diploma, e sem fiscalização, em nada remonta às antigas estruturas dadas. Trata-se de uma nova forma de entender todo o processo. Retomando Papert e Caperton, pode-se afirmar que o TNR propõe uma “escola” - ou uma forma de educação - que “revoluciona o ato de aprender para o próximo século, não uma que recondiciona tal ato como o conhecemos no passado23” (1999). Trazer uma nova proposta, não uma reforma, não descaracteriza o TNR enquanto CVA, já que Coll, Bustos e Engel assinalam que

CA e CVA são termos polissêmicos. Na verdade, são conceitos que, apesar de compartilharem um núcleo básico de significados, também se prestam para diferentes interpretações que vão muito além de um simples viés. Em sentido estrito, seria mais adequado falar de um movimento, de uma tendência, que de um corpus teórico coerente e articulado ou de um conjunto de práticas bem-definidas e delimitadas. (2010)