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“A atividade profissional não é só um modo de ganhar a vida - é também uma forma de inserção social onde os aspectos psíquicos e físicos estão fortemente implicados. O trabalho pode ser um fator de deterioração, de envelhecimento e de doenças graves, mas pode, também, constituir- se em um fator de equilíbrio e de desenvolvimento. A possibilidade da segunda hipótese está vinculada a um trabalho

que permita a cada indivíduo aliar as necessidades físicas, o desejo de executar a tarefa.” (Dejours, Dessors & Desriaux, 1993)

Este Capítulo de abertura da tese tem por objetivo apresentar as transformações ocorridas no mundo do trabalho, sobretudo nas últimas quatro décadas. Há um destaque para a precarização e exclusão social, que se ampliaram em decorrência destas transformações e culminaram num desemprego em massa.

Populações pobres, marginalizadas, com histórico de dificuldades para sobreviver psíquica, social e economicamente, encontram alternativas para trabalharem e terem algum tipo de renda, para não agonizarem à deriva neste sistema em que estamos inseridos.

Movimentos como o cooperativismo e a economia solidária se apresentam como alternativas para estes trabalhadores. Assim, no bojo deste Capítulo serão apresentados os conceitos, contradições e desafios destes movimentos, mas, sobretudo, as formas concretas em que a inclusão social tem sido vivenciada pelo trabalho associado neste Brasil a fora.

Parte-se do entendimento que o trabalho é uma experiência social, um ato concreto, seja individual ou coletivo. Diz-se isso porque a ambivalência da opressão com a emancipação, do sofrimento com o prazer, da alienação com a inteligência prática, repercute na vida em sociedade (Cattani, 2000).

A categoria trabalho é central neste estudo, seja pelo trabalho dos catadores ou pelo trabalho de Clínica da pesquisadora, ambos objeto de análise nesta tese. Parte-se do pressuposto que o trabalho é central na vida dos sujeitos, pois, além de propiciar sua subsistência no sistema capitalista, é também constituinte da sua identidade e do seu reconhecimento e inclusão social.

Muitas transformações ocorreram e ainda ocorrem no mundo do trabalho; porém, a mais brutal delas, segundo Antunes (2000a), é o desemprego estrutural, que atinge o mundo em escala global. Observa-se na história recente um caminho tortuoso: a redução nos postos de trabalho formais, com vínculos empregatícios estáveis e direitos adquiridos de um lado e uma grande parcela da população sobrevivendo à custa de trabalho precário, parcial,

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temporário, subcontratado e terceirizado de outro.

Nesta história recente, pode-se apontar a década de 80 como um marco para as transformações no mundo do trabalho. Como sinaliza Antunes (2000a), houve um salto tecnológico, com mesclas de fordismo, toyotismo e especialização flexível, mas que também imprimiu mudanças na subjetividade dos trabalhadores, afetando a forma de ser da classe-

que-vive-do-trabalho. Este termo foi criado por Antunes (2000b) para englobar toda a gama

de trabalhadores que vivem da venda da sua força de trabalho, independente dos vínculos empregatícios. Para ele, há um aumento considerável de trabalhadores precarizados na sociedade, assalariados ou não, porém, discriminados e com perdas significativas ao longo dos anos.

Outro elemento é o aumento da participação feminina no mundo do trabalho. Este fato tem influenciado a precarização do emprego, acarretando menos estabilidade e mais trabalhos temporários e parciais. E isso não é algo próprio a uma categoria profissional específica. Tal situação evidencia a realidade de diversos segmentos e tem aumentado o universo dos precarizados, dos desregulamentados, dos part-time1 (Antunes, 2000b).

Abre-se um parêntese para destacar que, em meados do século XIX, Marx (1998) já fazia uma análise sobre a apropriação que o capital fazia sobre as forças de trabalho suplementares, no caso, o trabalho das mulheres e das crianças. Aumentava, assim, o número de trabalhadores sob o domínio do capital, que, por sua vez, invadia a vida privada e mudava os costumes dos trabalhadores – não havia mais tempo livre para folguedos infantis ou para tarefas domésticas.

Voltando à década de 80, o processo de reestruturação produtiva se expandiu no Brasil. Ampliou-se a informatização e iniciaram-se o sistema just-in-time, os programas de qualidade total e os métodos participativos de gestão, envolvendo os trabalhadores nos planos das organizações (Antunes, 2010; Antunes, 2012).

Vale ressaltar que até o final da década de 80 o desemprego era relativamente baixo no Brasil; foi nos anos 90 que a quantidade de pessoas sem emprego ganhou destaque, atingindo números nunca alcançados. Para exemplificar, em 1986, o Brasil ocupava o 13º lugar no ranking mundial do desemprego ao passo que em 1994 já ocupava o bloco dos quatro países com índices de desemprego mais altos no mundo (Cattani, 2000; Pochmann, 2006).

1 Part-time é uma expressão inglesa utilizada por Antunes para denominar os trabalhadores que exercem atividades em

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O trabalho parcial, terceirizado, e precário que foi ganhando espaço ao longo dos anos nada mais é do que o reflexo do próprio processo de produção capitalista. Coube aos trabalhadores se adequarem a esta nova realidade em busca da sobrevivência, apesar da heterogeneidade, fragmentação e complexidade da própria classe trabalhadora.

Entende-se que a precarização do trabalho na contemporaneidade é uma clara referência à diversidade de situações laborais atípicas, que, no Brasil, ficou mais expressiva na década de 90 com a reestruturação produtiva em tempos de neoliberalismo. A precarização caracteriza-se pelo fato de não existirem direitos e garantias do trabalho (ou quando existentes serem mínimas) e nem qualidade na execução da atividade (Galeazzi, 2006).

Ainda nesta década, a crise do emprego se intensifica. Pochmann (2006) faz a seguinte comparação: entre as décadas de 40 e 70, de cada dez postos de trabalho criados oito eram assalariados, sendo sete destes com carteira assinada. Porém, nos anos 90, o desassalariamento surge causando grande impacto – somente quatro de cada dez empregos criados foram assalariados.

A reestruturação produtiva, caracterizada pela inovação tecnológica e organizacional, ganhou força no Brasil na década de 80. As receitas do modelo japonês (kanban, Just-in-time, produção voltada para a demanda do consumidor) se ampliam, aliadas às subcontratações e terceirizações da força de trabalho, além da descentralização produtiva. Esta se constitui pela mudança geográfica de grandes indústrias que partem em busca de contratações de trabalhadores que se submetam a remunerações menores, fortalecendo a superexploração do trabalho. Pode-se chamar de tendência do mercado de trabalho, que reduz o número de trabalhadores centrais e emprega cada vez mais pessoas que entram facilmente e são demitidas sem custos, a mercê da vontade dos contratantes. Verifica-se um momento histórico de contradições nesta mesma década. Há continuidade e descontinuidade no processo de reestruturação produtiva do capital no Brasil comparado às décadas anteriores. Misturam-se elementos do fordismo com acumulação flexível e influxos do toyotismo (Harvey, 2000; Antunes, 2010; Antunes, 2012).

Ao ocupar esta dimensão central na sociedade contemporânea, o trabalho acaba por seguir uma lógica perversa, não considerando a história dos trabalhadores. O sistema diz que inclui, mas exclui; vive-se, assim, uma realidade paradoxal. Há exigências de estabilidade, implicação do trabalhador por meio de autonomia, iniciativa, responsabilidade e comunicação. Mas, verifica-se, em escala global, instabilização, precarização dos laços empregatícios e ampliação dos índices de desemprego (Antunes & Silva, 2010).

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efeitos desta sobre o mundo do trabalho. O primeiro refere-se à intensificação do trabalho e ao aumento do sofrimento subjetivo; o segundo é a neutralização da mobilização coletiva contra o sofrimento, a dominação e a alienação; o terceiro é a estratégia defensiva do silêncio, cegueira e surdez, ou seja, trabalhadores agem negando o sofrimento alheio e calando o seu; e o quarto é o individualismo – o cada um por si (Dejours, 2000).

Estes elementos favorecem a exclusão social. E, aqui, partilha-se do conceito de Antunes e Silva (2010), que caracterizam como excluídos aquela parcela da população que não é excluída por ter baixos rendimentos, vivendo abaixo da linha de pobreza, mas por ser composta por pessoas vedadas de oportunidades. Impõe-se, assim, a miséria do mundo, desgarrados, vivem à margem da sociedade. Estes novos pobres, como dizem os autores, são pais de família, minorias étnicas, jovens, mulheres e idosos em atividades precárias e desprovidos de seguridade social.

Salienta-se que os temas exclusão e precarização no mundo do trabalho estão intimamente atrelados e são frutos do funcionamento do sistema econômico, onde muitos trabalhadores acabam tornando-se desempregados de modo duradouro, sendo obrigados a viverem num contexto miserável, ausente de políticas públicas de educação, cultura, saúde e formação profissional (Carreteiro & Barros, 2011).

Pochmann (2006) chama a atenção para a crise do emprego, fruto desta desestruturação do mundo do trabalho, apontada nos parágrafos anteriores. Para o autor, há desemprego em massa atingindo todos os segmentos sociais, há regressão de postos de trabalho formais e também destruição de postos de trabalho de melhor qualidade em favor de novos empregos sem a mesma contrapartida.

Para este autor, não há mais estratos sociais imunes ao desemprego no Brasil, o fenômeno é complexo e heterogêneo, atinge jovens, mulheres, negros e pessoas sem qualificação, mas também, pessoas com alta escolarização e profissionais experientes de diferentes níveis hierárquicos.

Como afirmou Cattani (2000), há uma nova pobreza que vive à deriva. São trabalhadores que, sem emprego, ou em ocupações de relações trabalhistas frágeis, não têm direção nem controle sobre as próprias ações. Assim, muitos podem se afogar, mas a grande maioria vai para a margem. Este autor classifica três tipos de deriva: a econômica, a social e a moral.

A deriva econômica se caracteriza pela dificuldade que o jovem tem para conseguir um primeiro emprego ou a perda dos vínculos empregatícios para um trabalhador experiente. Situações humilhantes e desestabilizadoras que colocam o sujeito à mercê de qualquer

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ocupação, gerando angústias e incertezas. Não conseguindo esta sobrevivência, vendem os bens pessoais, como um gesto concreto e confirmatório da degradação humana (Cattani, 2000).

A deriva social é marcada pela imobilidade de um cotidiano sem trabalho. Para o autor, quanto mais tempo livre o trabalhador desempregado tem, menos ele faz e mais as relações sociais são restringidas. Há mais instabilidade na vida conjugal a partir da precariedade dos vínculos profissionais, tal como Magnus e Merlo (2012) perceberam. Na condição de desempregado, fechado em si mesmo, o trabalhador vive muito próximo da extrema exclusão e da marginalidade (Cattani, 2000).

Por fim, a deriva moral é menos visível, mas percebida pela fragilização psicológica associada aos laços sociais. Muitas vezes, o desempregado considera-se responsável por seu insucesso, por sua condição, interiorizando sua própria fragilidade. Com isso, o trabalhador em situação de desemprego pode apagar os registros de valores éticos, das práticas engajadas e da dignidade vividos anteriormente (Cattani, 2000).

É nesta deriva civilizacional, segundo Alves (2011), composta pela crise da vida pessoal (do homem com seu espaço de vida), crise de sociabilidade (dilaceramento dos laços sociais) e crise de autorreferência pessoal (corrosão da autoestima), que a barbárie se instaura. É uma nova morfologia social do trabalho que nasce desta vivência no capitalismo global, implicando, consequentemente, a dessubjetivação de classe, a captura da subjetividade do trabalhador e a redução do trabalho vivo à força de trabalho como mercadoria (Alves, 2011).

Parece que neste cenário sombrio e assustador não resta mais nada a se fazer a não ser o conformismo e a culpa pela situação vivida. Mas, ressalta-se que, apesar de uma vida de exclusão e marginalidade, é possível se falar em resistência como modo de libertação dos trabalhadores amarrados à dominação. Para tal, é essencial o foco estar na solidariedade e cooperação para que as regras de trabalho e convivência sejam construídas coletivamente nos espaços de trabalho. Assim, resistência implica oposição e ação, mais do que apenas reação (M. C. Ferreira, Araujo, Mendes, & Almeida, 2011).

Neste panorama de degradação social, com desemprego crescente, relações de trabalho desregulamentadas, ampliação da flexibilização dos regimes de trabalho e da fragmentação da classe-que-vive-do-trabalho, como aponta Antunes (2012), surgem valentes trabalhadores que ousam arriscar a própria sorte em busca de sobrevivência via coletivos de trabalho, seja em associações ou cooperativas, em forma de produção associada. Uma tentativa de, mesmo estando à margem, como disse Cattani (2000), conseguirem ir além da

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sobrevivência.

Um trabalho autônomo, independente, sem remuneração fixa na maioria das vezes já foi sinalizado por Pochmann (2006) como sendo a maior forma de abertura de “vagas” no mercado de trabalho atual. Nesta erosão do trabalho contratado, as cooperativas nasceram como instrumento da luta operária contra o esfacelamento dos empregos, embora, nos dias atuais, existam falsas cooperativas que aumentam mais ainda a exploração da força de trabalho e a escassez dos direitos do trabalhador (Antunes, 2012).

Foi a partir destas transformações no mundo do trabalho que ocorreu um aumento significativo das cooperativas de trabalho (organizações que prestam serviço a terceiros) e de produção (organizações que produzem um determinado bem). Esta foi a resposta da população à crise do emprego vivida na época, sobretudo com os impactos da reestruturação produtiva (Schmidt, 2006).

Neste cenário, discute-se, agora, esta forma de resistência, de inclusão social via trabalho associado. Porém, não é papel deste Capítulo nem da própria tese fazer alguma defesa ideológica ou crítica do capital. É pressuposto deste estudo que o trabalho integra as pessoas e constrói identidades. Os trabalhadores aqui são vistos como sujeitos que podem, devem e, de fato, ocupam o lugar de protagonistas nas suas histórias, agindo coletivamente na organização do trabalho com o propósito de transformá-la (M. C. Ferreira et al., 2011).

Para tal, apresentam-se dois movimentos de trabalho associado que convivem no mundo, mas que pouco têm conversado entre si: o cooperativismo e a economia solidária.

A semente do cooperativismo nasceu no século XIX quando os trabalhadores, insatisfeitos com o modelo contraditório de capital e trabalho no qual viviam, propuseram uma alternativa para estas relações. Foram criados, assim, os princípios de Rochdale, em 1895, no Congresso da Aliança Cooperativa Internacional (ACI), em Manchester, Inglaterra. Os sete princípios espalhados pelo mundo todo, hoje adotados em alguns empreendimentos de base associada, são: aberta adesão dos sócios (livre e voluntária); gestão e controle democrático dos sócios; participação econômica dos sócios na criação e controle do capital; autonomia e independência da organização; educação, treinamento e informação para os sócios; intercooperação entre as cooperativas; e, por fim, a preocupação com a comunidade – assim o trabalho das cooperativas deve ser voltado para os interesses do local onde está inserida (Schmidt & Perius, 2003; Cançado & Gontijo, 2004; Shmidt, 2006).

A Aliança Cooperativa Internacional é uma instituição independente e não governamental composta por trabalhadores de cooperativas atuantes em diversificados setores da economia. Sua sede atual é em Genebra, Suíça. No Brasil, a entidade que

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representa o setor oficialmente, a Organização das Cooperativas Brasileiras (OCB), foi criada em 1969. A regulamentação do segmento aconteceu em 1971, com a Lei 5.764 (Brasil, 1971), que especifica as regras para a criação de cooperativas (OCB, 2013).

O cooperativismo diferencia trabalho e emprego. Garante aos cooperados trabalho e renda digna para aqueles marginalizados (ou que vivem à deriva, como já dito anteriormente) pela sociedade cada vez mais individualista, competitiva e movida pelo consumo desenfreado, onde tudo é descartável (Schmidt e Perius, 2003).

Porém, esta realidade não é observada em muitas formas de organização associada. No Brasil, convivem o cooperativismo tradicional, que é este reconhecido pela legislação vigente, e o cooperativismo popular, oriundo das práticas sociais e sem legalização alguma. O primeiro segue os princípios da ACI, e abarca grandes organizações, que empregam

literalmente: muitas cooperativas registram funcionários para lhe prestarem serviços,

chegando a casos absurdos em que os cooperados nem sequer sabem o que acontece na cooperativa da qual são sócios. Já o cooperativismo popular surgiu como parte de outro movimento, chamado economia solidária, que será explicitado a seguir.

O cooperativismo popular – que existe de fato, mas não de direito – e a própria economia solidária baseiam-se em valores semelhantes: ajuda mútua, solidariedade, democracia, participação e autonomia. No entanto, possuem conceitos frágeis. As cooperativas populares, na maioria das vezes, atuam na informalidade e não fazem parte do sistema de representação do cooperativismo no País. A economia solidária, por sua vez, é um movimento que se coloca contra o capitalismo, mas dentro da sua estrutura. Alguns grupos populares organizados tentam se colocar de forma a negar o sistema vigente e encontram muitos desafios (Cançado, 2005; Furtado, 2011).

Uma definição para o termo cooperativas populares foi apresentada por Cançado (2005), que verificou diferenças entre as práticas realizadas com pequenos grupos organizados associativamente e a própria lei do cooperativismo. Para o autor, cooperativas populares são “organizações autogestionárias de grupos populares, onde a propriedade dos meios de produção é coletiva, integrando três dimensões: econômica, social e política” (Cançado, 2005, p.13).

Desta forma, as principais diferenças entre cooperativas tradicionais e cooperativas populares seriam a concepção de autogestão e a dimensão política. A autogestão é entendida, neste contexto, como igualdade de direitos e protagonismo emancipatório dos grupos populares constituídos por trabalhadores que vivem à deriva, à margem da sociedade e excluídos socialmente. Os próprios trabalhadores, ao vivenciarem a autogestão, teriam o

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domínio sobre os meios de produção reconhecendo-se como construtores da sua história, e, assim, poderiam mudar o curso das suas vidas (Cançado, 2005; Singer, 2003).

Ressalta-se que a autogestão é um dos princípios da economia solidária, mas, como afirma Albuquerque (2003), este é tema controverso, de conceito ambíguo. Faria (2012), por sua vez, afirma que a autogestão não tem como existir no sistema capitalista, somente em outro modo de produção. No entanto, sugere que no sistema atual há como as organizações coletivistas de produção associada, com características autogestionárias, se apresentarem como formas de resistência ao sistema vigente – no que autor denomina movimento de autogestão social.

Há um caráter multidimensional no conceito de autogestão, segundo Albuquerque (2003). Há que se considerar as seguintes dimensões: social (produz ações e resultados aceitáveis para todos os trabalhadores do grupo associativo); econômica (as práticas privilegiam o fator trabalho em detrimento do capital); política (a forma de representação do grupo cria condições para que as decisões sejam tomadas no coletivo, com poder compartilhado, garantindo equilíbrio de forças); e técnica (outra forma de organização e divisão do trabalho); assim, afirma o autor, é importante pensar a autogestão como mais do que uma simples modalidade de gestão (Albuquerque, 2003).

A economia solidária, por sua vez, vem se apresentando, nos últimos anos, como uma alternativa de geração de trabalho/renda. É uma resposta ao estrangulamento financeiro que tem provocado toda a situação de desemprego no mundo, sendo uma forma de inclusão social via trabalho associado (Singer, 2003). Isso é possível quando há ajuda mútua entre pessoas desprovidas de capital que se unem em prol da produção de bens, prestação de serviços, finanças solidárias, trocas, comércio justo ou consumo solidário. No Brasil, a Secretaria Nacional de Economia Solidária (SENAES), vinculada ao Ministério do Trabalho e Emprego (MTE), vem fomentando políticas públicas voltadas para a área desde 2003 (MTE, 2012).

A Economia Solidária, segundo a SENAES (MTE, 2012), possui quatro princípios, quais sejam: 1.Cooperação: Existência de interesses e objetivos comuns, a união dos esforços e capacidades, a propriedade coletiva de bens, a partilha dos resultados e a responsabilidade solidária. 2.Autogestão: Os participantes das organizações exercitam as práticas participativas de autogestão dos processos de trabalho, das definições estratégicas e cotidianas dos empreendimentos, da direção e coordenação das ações nos seus diversos graus e interesses.

3.Dimensão econômica: É uma das bases de motivação da agregação de esforços e recursos

pessoais e de outras organizações para produção, beneficiamento, crédito, comercialização e consumo. Envolve o conjunto de elementos de viabilidade econômica, permeados por

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critérios de eficácia e efetividade, ao lado dos aspectos culturais, ambientais e sociais; e

4.Solidariedade: Expressa na justa distribuição dos resultados alcançados; nas oportunidades

que levam ao desenvolvimento de capacidades e da melhoria das condições de vida dos participantes; no compromisso com um meio ambiente saudável; nas relações que se estabelecem com a comunidade local; na participação ativa nos processos de desenvolvimento sustentável de base territorial, regional e nacional; nas relações com os outros movimentos sociais e populares de caráter emancipatório; na preocupação com o bem estar dos trabalhadores e consumidores; e no respeito aos direitos dos trabalhadores e trabalhadoras.

Diante dos princípios descritos acima e os da Aliança Cooperativa Internacional, Silva, Cançado e Ghizoni (2012) buscaram entender os dois movimentos, economia solidária e cooperativismo, a partir de suas possíveis semelhanças e diferenças no Brasil. Os autores observaram forte semelhança entre o cooperativismo e a economia solidária, pois nos dois movimentos há ênfase nos aspectos sociais, econômicos e políticos, por meio dos objetivos comuns e da valorização dos trabalhadores. Identificaram, também, uma grande proximidade, sobretudo no

princípio cooperativista da Intercooperação, que obteve uma completa aproximação