1 INTRODUÇÃO
1.3 O trabalho docente posto em xeque
Por influência das características da modernidade líquida, o conhecimento se torna utilitário, passageiro e descartável. Para Bauman (2010, p. 42), “[...] a ideia de que a educação pode consistir em um „produto‟ feito para ser apropriado e conservado é desconcertante, e sem dúvida não depõe a favor da educação institucionalizada”. Na contemporaneidade, tudo é passageiro, inclusive a educação.
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CONHECIMENTO OPERATIVO – Termo utilizado por Bauman (2010), que indica que na modernidade líquida há o culto a “educação permanente”, cuja mina de ouro é a personalidade do sujeito, a qual quando bem orientada pode acessar campos inexplorados (N.A.).
Esse confronto de ideias tende a gerar conflito e esvaziamento de sentido na carreira docente para os jovens no momento decisório pela profissão.
Outro desafio que aponta para uma crise da docência está relacionado à seguinte ideia:
Em todas as épocas, o conhecimento foi avaliado com base em sua capacidade de representar fielmente o mundo. Mas como fazer quando o mundo muda de uma forma que desafia constantemente a verdade do saber existente, pegando de surpresa até os „mais bem informados?‟ (BAUMAN, 2010, p. 43).
As mudanças no mundo, ocorrendo tão rapidamente, dificultam e fragilizam a ação educativa, causando insegurança para aquele que ensina e também para aquele que aprende. Tal conflito também acaba por influenciar as decisões do jovem para a não escolha pela profissão docente, a considerar os conteúdos como objetos fugidios que se dissolvem rapidamente. O mundo é volátil, porque a modernidade é líquida. Isso também resume a ideia do autor quando considera a educação nesse contexto.
Em nosso mundo volátil, de mudanças instantâneas e erráticas, os hábitos consolidados, os esquemas cognitivos sólidos e as preferências por valores estáveis – objetivos últimos da educação ortodoxa – transformam-se em desvantagens. Pelo menos, este é o papel que lhes oferece o mercado do conhecimento, que (como qualquer mercado em relação a qualquer mercadoria) odeia a fidelidade, os laços indestrutíveis e os compromissos em longo prazo, considerados obstáculos que atravancam o caminho e precisam ser removidos (BAUMAN, 2010, p. 47).
Essas perspectivas de volatilidade do conhecimento e sua inclusão como mercadoria, em confronto com as experiências mais clássicas de educação, se agravam também quando nos deparamos com as relações desses objetos frente à nova organização do trabalho posta pelo capitalismo global11.
Nesse contexto, outro elemento deflagrador da crise das licenciaturas está relacionado à nova morfologia social do trabalho na qual, conforme Alves (2013, p. 95-96), surge um “novo metabolismo social em que se transfigura a troca metabólica entre o homem e outros homens (relações sociais de trabalho e sociabilidade) e entre o homem e ele mesmo (autoestima e autorreferência pessoal)”. Essa nova morfologia gerada pelo capitalismo global, ainda segundo o autor, impacta a conformação do sujeito trabalhador com a perda do coletivo de trabalho por meio da
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Segundo Alves (2013, p. 115), “Capitalismo global, a nova etapa histórica de desenvolvimento do modo de produção capitalista, com sua dinâmica de acumulação flexível e regime de acumulação predominantemente financeirizado, constituiu-se nos últimos trinta anos (1980-2010)”.
“[...] captura da subjetividade do homem que trabalha e a redução do trabalho vivo12
à força de trabalho como mercadoria”. Essa talvez seja a gênese da crise da profissão docente.
A base teórica aqui apresentada dialoga com um esboço das discussões que a Fundação Carlos Chagas tem realizado sobre as políticas de formação docente no Brasil, bem como dos estudos realizados pelo Ministério da Educação e Cultura (MEC) por meio do Conselho Nacional de Educação (CNE) e da Câmara de Educação Básica (CEB). A partir de um diálogo com diferentes autores, criam-se possibilidades e caminhos de resistência, especificamente, frente à crise da profissão docente e das licenciaturas.
Gatti, Barreto e André (2011) contribuem para o debate sobre as políticas docentes, discutindo ações para a valorização do professor e visando à melhoria na qualidade da educação básica brasileira. As autoras apresentam a pesquisa desenvolvida sobre as políticas educacionais e as problemáticas relacionadas à formação e ao trabalho docente no contexto contemporâneo, cuja abordagem sociológica nos ajuda a pensar sobre a atuação docente no dinamismo da sociedade.
Souza (2013, p. 219; p. 226) é outra importante referência para as reflexões deste estudo. A autora analisa a precarização do trabalho docente com ênfase na sociologia do trabalho e tendo como foco o docente do setor público no Estado de São Paulo, que desenvolve suas atividades mediadas por políticas públicas que adotam o trabalho incerto, eventual ou intermitente como fonte de diminuição de custos. Ao abordar a precarização como um processo institucionalizado, em que “situações de emprego consideradas atípicas passam a ser típicas”, a socióloga contribui com a ideia de que “as medidas presentes nas políticas públicas envolvendo o trabalho docente devem ser consideradas como contra reformistas, pois apesar de serem chamadas de reformas, vão no sentido contrário de melhorar as condições de trabalho dos professores”.
De forma complementar, Sennett (2004, p. 27) colabora com uma interessante análise sociológica das transformações do mundo do trabalho, indicando que o capitalismo afeta diretamente o caráter pessoal dos sujeitos, uma vez que, diante das mudanças no mundo do trabalho, o autor indaga: “Como se
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Segundo Alves (2013, p. 106), “O trabalho vivo [...] é produto do processo civilizatório do trabalho como atividade vital [...]. Essa dimensão humano-genérica da individualidade pessoal é principium
podem buscar objetivos de longo prazo numa sociedade de curto prazo? Como se podem manter relações duráveis?”. A flexibilidade do tempo e do caráter marcada pelo desapego, pela vida projetada em curto prazo, leva também a um processo de degradação dos trabalhadores, porque a nova ordem centra-se na capacidade imediata e não considera a experiência como sentido e direito das pessoas, daí a preferência de muitas empresas pela juventude e sua capacidade de adaptação rápida às novas circunstâncias. Tais reflexões também fundamentam a perspectiva desta pesquisa.
Ainda como fundamentação teórica, apresentamos os estudos de Alves (2013, p. 183), que discute a ideia de trabalho ideológico como atividade concreta e sua distinção com o trabalho produtivo. Para o autor, “O trabalho ideológico13
implica ação do homem sobre outros homens, caracterizando hoje o traço essencial e momento predominante de uma série de trabalhos humanos e ocupações profissionais que constituem o mundo do trabalho”, dentre eles, o trabalho do professor.