3. Outras estratégias e instrumentos para manutenção dos espaços de poder
3.7. O uso de mandatos para conquistar outros espaços de poder
Um fato também observado ao compararmos os períodos analisados é a diferença de origem e subsistência das oligarquias da Primeira Republica em relação aos grupos político- familiares da atual fase da República, após a redemocratização. No primeiro caso, época do surgimento efetivo das oligarquias familiares, é que elas foram oriundas e mantiveram características intrinsecamente ligadas às atividades econômicas. Antes de serem políticos e depois de deixarem os cargos, os oligarcas eram proprietários de terras, bens e/ou meios de produção como lavouras de açúcar, salinas, plantios de algodão e indústria têxtil.
No caso das atuais, os grupos político-familiares Alves e Maia são políticos profissionais, que cresceram e se sustentam, como boa parte das suas famílias, com a estrutura estatal, por meio de cargos, indicações, nomeações e empresas familiares ou de agregados que prestam serviços vinculados ao orçamento público. Há, ainda, situações em que se “conquistam” concessões públicas como veículos de rádio e televisão ou mesmo para fornecimento exclusivo, por exemplo, de querosene de aviação (QAV) para todos os aviões que abastecem no RN, este último, sendo o caso da família Maia. Tal comportamento se enquadra, na Ciência Política, nos conceitos de patrimonialismo e nepotismo.
Sobre essa questão, lembra-nos Max Weber, na obra Ciência e política: duas vocações, que existem os políticos que vivem “da” política e os que vivem “para” a política. Ou seja, a política pode ser um objetivo de vida ou pode ser uma forma de trabalho ou "ganha-pão", sendo
que essas modalidades não são exclusivas. As duas podem estar presentes em um mesmo político:
Quem vive “para” a política a transforma, no sentido profundo do termo, em “fim de sua vida”, seja porque encontra forma de gozo na simples posse do poder, seja porque o exercício dessa atividade lhe permite achar equilíbrio interno e exprimir valor pessoal, colocando-se a serviço de uma 'causa' que dá significação à sua vida. Nesse sentido profundo, todo homem sério, que vive para uma causa, vive também dela. Nossa distinção assenta-se, portanto, num aspecto extremamente importante da condição do homem político, ou seja, o aspecto econômico. Daquele que vê na política uma permanente fonte de rendas, diremos que “vive da política” e diremos, no caso contrário que “vive para a política”. (WEBER, 2011, p. 78).
Um dos aspectos observados em relação à perpetuação de grupos políticos no poder é que não estão em jogo nas disputas eleitorais apenas os cargos que determinados grupos exercem, mas, sobretudo, os orçamentos que eles controlam diretamente e os cargos que nomeiam nas instituições em que exercem o poder e nas outras onde influenciam diretamente na nomeação: nas instâncias federais e estaduais do judiciário, executivo, legislativo e órgãos de controle, ao que Weber chamaria de integrantes de uma burocracia estatal, em que seriam encontrados políticos profissionais que viveriam da política.
A “independência” econômica deve ser considerada, pois se pode inferir que somente pessoas que possuam alguma fonte de renda ou que não necessitem de salário para viver poderiam viver para a política. Naturalmente, do contrário, para que pessoas desprovidas de renda possam dedicar-se à política, é necessário que elas recebam uma remuneração. Assim, o político profissional passa a ser um funcionário remunerado e a política passa a ser algo semelhante a uma empresa, em que há dois tipos de funcionários: os funcionários políticos e os de carreira (burocracia estatal). Ambos se distinguem do chefe político, porque exercem a política não como vocação, mas como função administrativa, adotando uma postura apartidária. Já o chefe político atua apaixonadamente, devendo lutar por uma causa.
Como exemplo, observemos o Quadro 11, que criamos com base na composição do Tribunal de Contas do Estado do Rio Grande do Norte, vigente em 2018. Em sintonia com o que ilustramos, pudemos identificar que, em 16 de março de 2016, o Bom Dia Brasil/Rede Globo veiculou matéria com conteúdo semelhante, sendo também repercutida pelos portais locais.24
Quadro 11. Distribuição dos cargos e rede de influência
CONSELHEIRO CARGO INDICAÇÃO/ORÍGEM/PROXIMIDADE
Antônio Gilberto de Oliveira Jales
Presidente Ex-secretário da ex-governadora Rosalba Ciarlini Rosado
Tarcísio Costa
Vice- presidente
Irmão do deputado estadual Vivaldo Costa, efetivado à época governador do RN, por renúncia de José Agripino Maia, que concorrera ao Senado. Também irmão de “Bibi
Costa”, ex-prefeito de Caicó/RN e ex-deputado estadual. Carlos Thompson
Costa Fernandes
Corregedor Ministério Público
Paulo Roberto Chaves Alves
Dir. Escola da Contas
Irmão do senador Garibaldi Alves Filho (foi seu chefe da Casa Civil quando esse era governador do RN) e pai do
vereador de Natal Felipe Alves
Maria Adélia de Arruda Sales Sousa
Pres. 1ª Câmara
Origem da Auditoria de Contas do TCE; foi esposa de um deputado estadual falecido, efetivada como conselheira na
gestão da ex-governadora Wilma de Faria Francisco Potiguar
Cavalcante Jr
Pres. 2ª Câmara
Pmdbista histórico, ex-deputado estadual; irmão de Alexandre Cavalcante, também ex-deputado estadual
Renato Costa Dias
Ouvidor Irmão de Álvaro Dias, ex-deputado federal e estadual (e ex-presidente da Assembleia Legislativa), efetivado prefeito de Natal em abril de 2018, com a renúncia de
Carlos Eduardo Alves
Fonte: Elaborado pelo autor, com base em dados da mídia local do RN (2018).
As matérias foram baseadas em um trabalho desenvolvido pela Transparência Brasil sobre os Tribunais de Contas dos estados. O Rio Grande do Norte ocupou o topo da lista, segundo o estudo, contabilizando seis, dos sete conselheiros com relações de parentesco com políticos25.
Disponível em: <http://agorarn.com.br/politica/seis-dos-sete-conselheiros-do-tce-do-rn-sao-parentes-de- politicos/>